Durante os anos 1970 e 1980, raríssimos defensores no planeta impunham tanto respeito quanto Marius Trésor. O francês foi ídolo em todos os clubes que defendeu e também protagonizou a seleção francesa em duas Copas do Mundo. Ainda assim, mais imponente que seu currículo era a mera presença dentro de campo. Muito atlético, era daqueles jogadores que sempre atuavam de cabeça erguida. A posição na zaga não limitava Trésor a apresentar seu talento. Marcador leal e excelente no combate, também se mandava ao ataque e até marcava os seus gols. Tinha tanta habilidade que começou a carreira com centroavante, antes de terminá-la como líbero. E, por mais que não tenha conquistado títulos com os Bleus, figura em qualquer lista de melhores da história da França. Um gigante que chega aos 70 anos.

A qualidade técnica, unida ao vigor físico, era a grande virtude de Trésor. Usava para controlar os atacantes e também para impor seu jogo, do campo de defesa ao de ataque. Jogava com altivez e segurança, tornando-se um exemplo. “Eu entrava em todas as divididas, mas fazia isso apenas para recuperar a bola, não para machucar o adversário. O atletismo me deu capacidade para ser rápido o suficiente, me ajudou muito. Eu sempre pensei no futebol como um jogo. Se você não está se divertindo, se está insatisfeito em campo, então não vale a pena escolher esse esporte. Mesmo em tempos ruins, eu me divertia, porque o futebol me permitia descarregar as energias”, relembraria, à SoFoot. Seu prazer se converteu em sucesso inegável ao longo dos 16 anos de carreira profissional.

Trésor nasceu em Sainte-Anne, um dos principais destinos turísticos de Guadalupe, ilha de possessão francesa no meio do Caribe. A vida insular, porém, não duraria por tanto tempo. O garoto batia sua bola nas praias e também praticava atletismo. Não demorou a surgir com a camisa da Juventus de Sainte-Anne e chamar atenção dos clubes da metrópole. Trésor ficou apenas uma temporada e meia no time principal da Juve – tempo suficiente para ganhar o título da liga local. Em 1968, o então centroavante foi descoberto pelo Ajaccio e recebeu o convite para se mudar à Córsega.

O Ajaccio se tornou um dos primeiros clubes a explorar os territórios ultramarinos franceses em busca de talentos ao elenco. Trésor foi uma aposta certeira a partir de 1969, sem problemas para se adaptar à nova ilha. O antilhano ainda iniciaria sua trajetória no time como atacante, mas o técnico argentino Alberto Muro o convenceu a migrar para a zaga e transformou sua história, antes mesmo que estreasse pela equipe principal. A escolha seria decisiva para a ascensão do novato, em um time que transitava na rabeira da tabela.

A afirmação de Trésor aconteceu ao mesmo tempo em que o Ajaccio ascendia no Campeonato Francês. O defensor se transformou em um dos esteios da equipe, que terminou a competição na sexta colocação em 1970/71. Dominique Baratelli, Claude Le Roy e François M’Pelé estavam entre os nomes mais importantes do plantel no momento. E o maior reconhecimento à excelência de Trésor aconteceu em dezembro de 1971. Às vésperas de completar 22 anos de idade, o jovem disputou seu primeiro jogo pela seleção francesa, em derrota para a Bulgária.

O ápice de Trésor com a camisa do Ajaccio aconteceu em 1971/72. O clube não manteve o ritmo e fez uma campanha morna, ao terminar no 13° lugar do Francês. Em compensação, o moral do defensor era tamanho que ele receberia o prêmio de melhor jogador em atividade no futebol francês em 1972, eleito pela France Football. Seus dias na Córsega estavam contados, aliás. Com o início de campanha ruim do Ajaccio na Division 1 1972/73, o jovem faria as malas ainda no primeiro turno. Rumou ao Olympique de Marseille, campeão francês na temporada anterior.

O Olympique não conquistou o bicampeonato em 1972/73, encerrando a campanha na terceira colocação. Em compensação, Trésor se juntava a um timaço. As grandes estrelas estavam no ataque, com destaque a Josip Skoblar e Salif Keïta. De início, o novato começou jogando pelo lado direito da defesa, por conta da presença de Bernard Bosquier, zagueiro da seleção. Logo o veterano seria deslocado para o meio-campo e Trésor poderia reinar no centro da linha de zaga. Os marselheses cairiam de rendimento e ocupariam um modesto 12° lugar em 1973/74. Nada que abalasse a influência do antilhano.

Demorou um pouco para que Trésor fosse reconhecido internacionalmente com a seleção francesa. Os Bleus atravessaram uma sequência de eliminações nas grandes competições. O país foi superado por Hungria e Bélgica nos qualificatórios à Euro 1972 e à Euro 1976. Já nas Eliminatórias da Copa de 1974, a União Soviética se tornou a carrasca. Seu consolo aconteceu na Taça Independência de 1972, torneio realizado no Brasil para celebrar os 150 anos do grito de Dom Pedro I às margens do Ipiranga. Ao lado do senegalês Jean-Pierre Adams, o antilhano formou uma dupla de zaga célebre, chamada de ‘Guarda Negra’. A equipe francesa foi bem e venceu três de seus quatro jogos, mas acabou eliminada na fase de grupos pela Argentina, apenas nos critérios de desempate. O zagueiro esteve entre os destaques da seleção, o que também influenciou o prêmio entregue pela France Football naquele ano.

E, dentro do Vélodrome, Trésor desfrutava de grande idolatria. Ganhou a braçadeira de capitão a partir de 1974/75, com a saída de Bosquier. Reforçado por Paulo César Caju e Jairzinho, o Olympique terminou com o vice-campeonato naquele Francesão. O zagueiro ergueu sua primeira (e única) taça com a camisa marselhesa em 1976. Os brasileiros não estavam mais no elenco, com o ataque reforçado pelo argentino Héctor Yazalde e pelo senegalês Boubacar Sarr. Seriam eles os responsáveis pelos gols na decisão da Copa da França, em que os provençais venceram o Lyon por 2 a 0. Já no Campeonato Francês, os celestes emendaram algumas campanhas medianas, sem passar da quarta colocação até 1977/78.

A seleção francesa, em compensação, se fortalecia. Ausentes nas Copas de 1970 e 1974, os Bleus voltaram a conquistar a classificação rumo ao Mundial de 1978. A rejuvenescida equipe superou Bulgária e Irlanda em seu grupo nas Eliminatórias. Trésor começou a usar a braçadeira de capitão naquela época e até se tornou o herói de um empate por 2 a 2 contra o Brasil durante a preparação. Em junho de 1977, ele anotou o gol derradeiro aos 40 do segundo tempo, frustrando os brasileiros dentro do Maracanã. Saltou mais que Luis Pereira, antes de cabecear a bola na gaveta de Emerson Leão.

Já na Copa do Mundo, os Bleus não resistiram ao “grupo da morte”. Derrotados por Itália e Argentina nos dois primeiros compromissos, não avançaram à fase seguinte, apesar da vitória por 3 a 1 sobre a Hungria no compromisso final. Capitão, o zagueiro participou das três partidas, sempre como titular. Só a Eurocopa que insistia em se distanciar da França. No qualificatório rumo à edição de 1980, os franceses ficaram a um ponto da classificação, superados pela Tchecoslováquia na chave. Vale lembrar que, na época, apenas oito time disputavam o torneio.

A passagem de Trésor pelo Olympique de Marseille se aproximava do fim. O defensor atuou por mais duas temporadas no Vélodrome, completando oito anos de clube. Despediu-se de maneira melancólica em 1979/80, quando os celestes tiveram um desempenho horrível no Campeonato Francês e terminaram rebaixados. Nem mesmo a companhia de jogadores como Didier Six e Jean Fernández evitou o desastre dos provençais. No meio daquela temporada, Trésor ainda tinha rompido com a diretoria. Já jogando como líbero, não mais como stopper, o francês recebeu uma proposta do Bayern de Munique. Era visto como substituto de Franz Beckenbauer. Ele até chegou a ser aprovado nos exames médicos, mas os celestes impediram sua saída pedindo uma quantia astronômica aos bávaros. No fim das contas, após o descenso, o veterano virou as costas a Marselha e se mudou ao Bordeaux. Voltaria a sonhar com o título.

Contratado por um milhão de francos, Trésor se juntava a um projeto ambicioso do Bordeaux, que se tornava a base da seleção francesa. Ao lado de Bernard Lacombe e Alain Giresse, o líbero terminaria o Campeonato Francês 1980/81 na terceira colocação. Depois, Jean Tigana se somou aos outros craques e os girondinos acabaram na quarta posição. Todos impulsionavam os Bleus, que sobreviveram a um grupo duríssimo com Holanda, Bélgica, Irlanda e Chipre para se classificar à Copa de 1982. Neste momento, Michel Platini já atingira o auge de sua forma.

A França alcançou a Copa do Mundo de 1982 como um time a se prestar atenção, mas ainda abaixo do radar. Vestindo a camisa 8, Trésor ia ao seu segundo Mundial. E a campanha dos Bleus seria marcante. Apesar da derrota para a Inglaterra na estreia, o time se classificou à segunda fase. Depois, superou Áustria e Irlanda do Norte no triangular que garantiu uma vaga na semifinal. Então, ocorreria o histórico confronto com a Alemanha Ocidental.

Trésor seria um dos personagens centrais em um dos melhores jogos da história dos Mundiais. Ao lado de Gerard Janvion (outro caribenho, vindo da Martinica), o líbero conteve as investidas do ataque comandado por Klaus Fischer. Já na prorrogação, ele deixou os franceses em vantagem com um sem-pulo maravilhoso, que pregou o goleiro Harald Schumacher no chão. Contudo, a Mannschaft reagiu e, após arrancar o empate por 3 a 3, conquistou a classificação nos pênaltis. A França encerraria o torneio em quarto, derrotada pela Polônia na decisão do terceiro lugar. O defensor constaria na equipe ideal do Mundial escolhida pela Folha de S. Paulo.

Trésor seguiu frequentando as convocações feitas por Michel Hidalgo aos Bleus – até porque ele se destacava no miolo de zaga do Bordeaux. Os girondinos ficaram no quase mais uma vez em 1982/83, vice-campeões, com dez pontos a menos que o Nantes. E quando a desejada conquista finalmente aconteceu, ela também serviria como ponto final à carreira do líbero. Naquele momento, Trésor sofria com problemas nas costas. O francês precisou passar por duas cirurgias e, no fim, a contusão abreviou sua carreira.

Trésor pendurou as chuteiras aos 34 anos. Em 1983/84, ele disputou apenas 12 partidas na Division 1. Ao menos, o defensor pôde constar no elenco campeão francês. Dirigido por Aimé Jacquet, o Bordeaux encerrou um jejum de 34 anos sem o título nacional. O plantel seguia com Tigana, Giresse e Lacombe, além de ter adicionado Patrick Battiston e Dieter Müller. Embora tenham fechado a campanha com os mesmos 54 pontos que o Monaco, os girondinos levaram a taça graças à vantagem no saldo de gols. Uma pena que as costas tenham impedido Trésor de figurar no grande feito de sua geração com os Bleus, a conquista da Euro 1984. Se constasse no esquadrão estrelado por Platini, possivelmente o reconhecimento à carreira do francês seria maior. Depois, ele realizaria uma partida de despedida na seleção em 1985.

Trésor se aposentou com 440 jogos pelo Campeonato Francês. Também disputou 65 partidas pela seleção francesa, tornando-se recordista em aparições em 1983, marca que manteve por sete anos. Foi capitão dos Bleus em 23 oportunidades, e o primeiro antilhano a portar a braçadeira do país. Ao se despedir dos gramados, o ex-zagueiro até tentou trabalhar com comércio, mas logo percebeu que o futebol era seu lugar. Retornou ao Bordeaux para treinar as categorias de base e ajudou a revelar talentos aos girondinos. Já o maior prêmio aconteceu em 2004, quando foi incluído na lista de 125 melhores jogadores dos 100 anos da Fifa. Muitos questionaram a relação elaborada por Pelé. Mas, conhecendo a história de Trésor, foi uma merecida consideração ao seu enorme talento.