Autoconfiança é um predicado importantíssimo dentro do campo de futebol. Em excesso, vira soberba. Mas, na medida certa, permite ao jogador crescer nos momentos decisivos. Qualidade que ajudou a fazer a carreira de Marinho Peres. O zagueiro tinha diversas virtudes: forte, inteligente, eficaz no jogo aéreo. E autoconfiante o suficiente para triunfar em grandes clubes. Foi ídolo na Portuguesa, no Santos e no Internacional. Viveu bons momentos também no Barcelona e no Palmeiras. Vestiu a braçadeira da seleção brasileira em parte da Copa do Mundo de 1974. Um dos defensores mais respeitados do futebol nacional durante a década de 1970, que completou 70 anos neste domingo.

Filho de imigrantes espanhóis que desembarcaram no Brasil logo após da Segunda Guerra Mundial, Marinho Peres tinha boas condições de vida. Seu pai era um referendado clínico geral em Sorocaba e queria que o herdeiro seguisse seus passos na profissão. O garoto, no entanto, sempre se interessou mais pela bola do que pelo estetoscópio. Não houve o que mudasse de ideia. E, ainda que nem sempre tivesse o caminho fácil, ascendeu no final da adolescência com a camisa do São Bento. Por lá, chegou a formar uma dupla de zaga que, poucos imaginariam, se repetiria na Seleção: era companheiro de Luis Pereira nos primórdios.

Em 1967, o jovem seguiu à Portuguesa. Logo o time da capital percebeu o talento que tinha em mãos. Marinho Peres passou cinco anos defendendo a Lusa, mantido como uma das referências da equipe. Em 1968, teve a primeira oportunidade de defender a seleção brasileira, em amistoso sob as ordens Aimoré Moreira. Depois, em 1972, a honra de ter sido o autor do primeiro gol do clube na história do Canindé, em vitória do Benfica por 3 a 1 na inauguração do estádio. Todavia, sairia queimado de lá nas semanas seguintes, após uma sequência de resultados ruins, afastado pelo próprio presidente. Azar do elenco, que perdeu um zagueiraço.

O Santos aproveitou a ocasião para investir alto e contratar Marinho Peres. Em momento de renovação do elenco, o zagueiro ajudaria a recolocar o Peixe no topo do Campeonato Paulista, com o polêmico título de 1973, dividido justamente com a Portuguesa após a lambança de Armando Marques na contagem dos pênaltis. Porém, o sucesso na Vila Belmiro valeu ainda mais ao defensor. A partir de maio de 1974, já na reta final da preparação à Copa do Mundo, ele conquistou espaço no time de Zagallo. Reencontrou-se com Luis Pereira e firmou-se, com Piazza deslocado de volta para a cabeça de área. Com esta formação, o Brasil iniciou sua campanha no Mundial.

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O Brasil ficou devendo na Copa de 1974, mas ao menos Marinho Peres fez o seu nome. A defesa passou os quatro primeiros jogos sem sofrer gols. Na segunda fase, o camisa 3 ainda ganhou a braçadeira de capitão, depois que Piazza deixou o 11 inicial. Liderou a campanha encerrada com a quarta colocação, mas pouco pôde fazer no baile da Holanda em Dortmund, quando a vitória por 2 a 0 acabou ficando até em conta para os brasileiros. Ali, no Westfalenstadion, aproveitaria para conhecer dois nomes importantes para a sua carreira: Johan Cruyff e Rinus Michels, seus companheiros em Barcelona.

O Mundial da Alemanha Ocidental serviu para deixar Marinho Peres em evidência. E a sua ascendência espanhola era um facilitador. Tanto Real Madrid quanto Barcelona se interessaram pelo defensor, diante de sua dupla nacionalidade. Em tempos nos quais apenas dois estrangeiros poderiam ocupar um mesmo elenco em La Liga, o brasileiro estava livre dessa barreira. No fim das contas, os blaugranas ganharam a queda de braço. Comandado por Michels e dividindo o campo com Cruyff (de quem virou amigo), o camisa 3 se juntou ao Camp Nou em novembro. Conquistou a titularidade, embora a temporada não tenha sido tão feliz: o Barça terminou em terceiro no Espanhol, enquanto foi eliminado nas semifinais da Copa dos Campeões, para o Leeds United. O sorocabano disputou 25 partidas e marcou quatro gols, peça importante na engrenagem do time, de futebol moderno.

O problema é que a vida de Marinho Peres na Catalunha esteve longe de ser tranquila. Na segunda temporada, perdeu espaço com o técnico alemão Hennes Weisweiler. Além disso, sofria com sua documentação. Por causa da nacionalidade espanhola recém-ratificada, o defensor teria que servir a Marinha em três anos de serviços militares compulsórios. O Barcelona tentou mexer seus pauzinhos nos bastidores, mas não teve jeito. Diante da ameaça, o brasileiro foi obrigado a deixar a Espanha. Os blaugranas negociaram sua transferência ao Internacional. Enquanto isso, até a saída do país teve complicações: sob o risco de ser detido pelas autoridades como desertor, o jogador teve que fugir de carro através dos Pirineus.

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De volta ao Brasil no início de 1976, Marinho Peres viveria outro grande momento no Beira-Rio. Reforçava um Inter já brilhante, campeão brasileiro no ano anterior e repleto de craques. O zagueiro seria mais um deles, compondo dupla mítica com Elias Figueroa. Inclusive, teve importância na revolução tática empreendida por Rubens Minelli. A partir daquela temporada, o treinador passou a aplicar um estilo de jogo mais solto aos colorados, inspirado pelo próprio futebol total. A experiência com Michels e Cruyff valeria para Marinho ajudar a coordenar a movimentação da defesa, sobretudo a linha de impedimento. E o esquadrão conseguiu ser ainda melhor, com um futebol mais vistoso, que se converteu em mais uma taça do Gauchão e no bicampeonato brasileiro.

Só que o fardo ficou pesado demais em 1977. Figueroa voltou ao Chile e Marinho Peres assumiu não apenas o protagonismo na defesa, mas também a braçadeira de capitão. A perda do Campeonato Gaúcho para o Grêmio minou o seu caminho. Foi negociado com o Palmeiras, ao lado de Vacaria. Teve bons momentos com a camisa alviverde e chegou a reivindicar mesmo uma nova chance na Seleção. Desde que retornou do Barcelona, todavia, só foi chamado mais uma vez pela equipe nacional, entrando em campo em um amistoso contra o Flamengo, em homenagem à morte do rubro-negro Geraldo, em 1976. Encerrou sua passagem pela Canarinho com 15 partidas, seis delas em plena Copa do Mundo.

No Palmeiras, Marinho Peres fez parte de anos de seca, vice-campeão brasileiro em 1978 e presente também na Copa Libertadores de 1979. Mas logo perderia espaço, entrando no ocaso da carreira. Passou ainda pelo Galícia e pelo America do Rio, onde iniciou a carreira como técnico, antes mesmo de pendurar as chuteiras. Ganhou rodagem como assistente de Telê Santana, até decolar em Portugal. Marcou seu nome no Vitória de Guimarães, conquistou a Taça de Portugal com o Belenenses (encerrando o jejum do clube de 29 anos sem títulos no primeiro nível), ajudou a revelar Luis Figo no Sporting. Depois, rodou mais um bocado, sobretudo à frente de equipes portuguesas e brasileiras. Em 2011, teve o seu último trabalho. Trajetória de respeito, especialmente por tudo aquilo que conseguiu como zagueiro.