A história gloriosa da seleção búlgara, geralmente, é contada a partir de 1993. A classificação heroica diante da França em pleno Parc des Princes e a campanha até as semifinais no Mundial dos Estados Unidos. Depois, participações menos brilhantes, mas presentes na Euro de 1996 e na Copa de 1998. Tempos de grandes jogadores e de saudosismo em torno de Stoichkov, Balakov, Lechkov, Kostadinov, Trifon Ivanov, entre outros. No entanto, em meio à exaltação à “geração de ouro”, outro grande momento dos búlgaros acaba esquecido. Outros jogadores igualmente históricos, mesmo que seus nomes não estejam frescos na memória.

Entre 1962 e 1974, a Bulgária se classificou a quatro Copas do Mundo seguidas. Nunca passou da fase de grupos, é verdade. Mas a mera presença entre as 16 melhores seleções do mundo era bastante representativa, ainda mais superando adversários do porte de Holanda, Polônia, Portugal e Irlanda do Norte nas Eliminatórias. Georgi Asparuhov, talento precoce falecido em um acidente automobilístico aos 28 anos, costuma ser o nome mais comentado destes tempos. Disputou os três primeiros mundiais deste ciclo, vitimado em 1971. No entanto, o atacante tinha um herdeiro virtuoso ao posto de craque do time: Hristo Bonev, considerado um dos melhores jogadores da Europa na década de 1970. Lenda búlgara que completa 70 anos nesta sexta.

Nascido em Plovdiv, Bonev iniciou a carreira aos 17 anos, defendendo o Lokomotiv local. Não teve tempo de disputar a Copa de 1966, mas no ano seguinte já se tornou um dos destaques da seleção, mesmo em um clube acostumado a não conseguir competir com as potências locais. Meia de grande capacidade técnica e com vocação para marcar gols, logo ele dominaria a camisa 8 da equipe nacional. E liderou a campanha do país rumo ao México, em 1970. Foram quatro gols de Bonev em seis jogos nas Eliminatórias. O mais importante, garantindo o empate por 1 a 1 em Roterdã contra a Holanda, que começava a formar a Laranja Mecânica. Ponto que valeu para os búlgaros terminarem à frente da Polônia, de Deyna e Lubánski. Bonev foi eleito o melhor jogador do país em 1969, aos 22 anos.

A participação da Bulgária na Copa de 1970 foi modesta. Não passou da fase de grupos, com derrotas para Peru e Alemanha Ocidental, além do empate contra Marrocos. Bonev deixou sua marca contra os peruanos. Mas foi justamente no ciclo seguinte que o camisa 8 chegaria ao ápice de sua forma. Entre 1972 e 1974, ele figurou sempre entre os jogadores votados à Bola de Ouro. Símbolo da excelência representado principalmente na seleção. Nas Eliminatórias rumo ao Mundial de 1974, o meia marcou sete gols em seis jogos. Os búlgaros encerraram a campanha de maneira invicta, à frente de Portugal de Eusébio e da Irlanda do Norte de George Best.

Na Alemanha Ocidental, outra vez, a Bulgária se despediu da Copa sem vitórias. Mas não fez feio. Empatou com Uruguai e Suécia, apesar da goleada por 4 a 1 sofrida para a Holanda. Bonev, capitão do time, deixou sua marca contra os uruguaios. Já em 1978, a nova tentativa do veterano em retornar ao Mundial acabou frustrada pela França nas Eliminatórias. Nada que diminuísse a sua história.

Bonev encerrou sua passagem pela seleção búlgara em 1979. Marcou o gol de honra de seu país na derrota por 2 a 1 para a Argentina, campeã do mundo, no Monumental de Núñez. Chutaço do meio da rua que surpreendeu Ubaldo Fillol e ressaltou uma das maiores virtudes do craque. Em 12 anos servindo a equipe nacional, estabeleceu dois recordes, com 96 jogos e 47 gols. Atualmente, é o terceiro em partidas, superado apenas por Stiliyan Petrov e Borislav Mihaylov. Já no total de bolas nas redes, apenas Dimitar Berbatov conseguiu batê-lo. O camisa 8, inclusive, tem 10 gols a mais que Stoichkov  também uma média superior de gols.

Por clubes, Bonev não ergueu muitas taças. Faturou apenas uma Copa da Bulgária pelo Lokomotiv, em 1983, e um Campeonato Búlgaro em breve passagem pelo CSKA Sofia, em 1968. Sua idolatria em Plovdiv, todavia, se construiu a partir de sua dedicação e de seu talento. Foram 404 jogos e 180 gols pelo clube, apenas na liga nacional. Em 1984, aos 37 anos, o meia pendurou as chuteiras. E a despedida em sua cidade natal contou com homenagens dignas a um dos melhores de seu tempo. O jogo festivo contou com a participação de Bobby Moore, Jan Tomaszewski, Wolfgang Overath, Ferenc Bene, entre outros craques. Além disso, do lado de fora, Lev Yashin agraciou o amigo com sua presença ilustre. Em 1971, na despedida do soviético, o búlgaro foi um dos convidados em campo.

Aposentado como jogador, Bonev não se afastou do futebol. Continuou trabalhando como técnico, passando por clubes da Bulgária e da Grécia. Depois, chegou ainda à seleção em 1994, atuando como assistente de Dimitar Penev, seu companheiro nos tempos de atleta. Assumiu o time após a eliminação precoce na Euro 96. O ex-meia era visto com desconfiança pelas estrelas do elenco, que não o queriam no cargo. No entanto, contornou a situação ao construir uma relação de confiança, especialmente com Stoichkov. Bonev permaneceu à frente do time até a Copa do Mundo de 1998, com mais uma queda na primeira fase. Já na última década, passou a se dedicar ao Lokomotiv Plovdiv, se tornando até mesmo presidente.