Vencedora de quatro Copas do Mundo, status que a coloca num clube seleto de gigantes do futebol mundial, a seleção italiana surpreendentemente não detém o mesmo cartel em se tratando de torneios continentais: venceu apenas uma Eurocopa, em uma das edições que sediou, em 1968, há longínquos 50 anos. O herói daquele título, o autor do gol que selou a conquista, não costuma ser reverenciado como uma lenda do Calcio, mas é lembrado no país por sua carreira digna de nota. Trata-se do atacante siciliano Pietro Anastasi, que completa 70 anos neste sábado.

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Anastasi não vive apenas deste feito, porém. Foi o grande destaque de uma equipe que causou sensação no Calcio no fim dos anos 60: o pequeno Varese. Também foi campeão, goleador e até capitão da Juventus de seu coração por várias temporadas, firmando-se como um emblema de uma equipe bianconera prestes a se converter num esquadrão. Ainda disputou Copa do Mundo, teve passagem pela Inter e arranjou tempo para brilhar já perto do fim da carreira pela pequena Ascoli. Em suma, um grande personagem do futebol da Bota por mais de uma década.

Origens

Nascido em Catânia, na Sicília, em 7 de abril de 1948, em uma numerosa família operária (“Comigo éramos nove, e morávamos numa casa pequena”), desde pequeno tinha um passatempo comum a milhares de garotos italianos: o futebol das peladas de rua. O menino Pietro era tifoso da Juventus (apesar de o clube se localizar na outra ponta do país, ao norte) e cultuava John Charles, o “Gigante Gentil” galês, lendário camisa 9 bianconero.

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O sonho da carreira de jogador profissional começou numa equipe local, a hoje extinta Massiminiana, que disputava a Serie D italiana. Logo conquistaria a reputação de goleador, embora ainda muito jovem. Em 1966, aos 18 anos, seus 18 gols em 31 jogos impulsionaram o acesso histórico do pequeno clube. Mas ele não continuaria por lá para desfrutar da ocasião.

Num dado domingo, o Varese veio a Catânia enfrentar o time da casa pela Serie B. Após o jogo, o diretor esportivo do clube lombardo, Alfredo Casati, teve de ceder seu lugar no voo de volta a uma grávida e acabou retido por mais um dia na cidade. Para passar o tempo, recebeu e aceitou a sugestão do barman do hotel de assistir a um jogo entre a Massiminiana e o Paternò, pela terceira divisão. O barman ainda fez outra recomendação: prestar atenção num excelente garoto que jogava no ataque do time giallorosso.

Anastasi causou ótima impressão e foi contratado de imediato, no vestiário. Depois de estrear na Serie A com um 11º lugar na temporada 1964/65 e ser rebaixado na campanha seguinte, o Varese havia se desfeito de boa parte de seus destaques, como o meia franco-argentino Nestor Combin, o ponta sueco Knut Andersson, o meia e capitão Luigi Ossola e o centroavante Roberto Boninsegna. Era, mesmo assim, um clube promissor e uma boa aposta para retornar à elite do Calcio.

O estouro nacional no Varese

Junto com a favorita Sampdoria (que ficaria com o título), o Varese dirigido por Bruno Arcari sobrou na Serie B: garantiu uma das duas vagas de acesso com várias rodadas de antecipação e terminou a competição nove pontos à frente dos terceiros colocados Catania, Catanzaro e Reggiana. Autor de seis gols e terceiro artilheiro da equipe, Anastasi foi apontado como uma das revelações do torneio. Mas nada comparável ao que viveria ali no extremo norte italiano na temporada seguinte.

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O Varese foi a grande sensação da Serie A em 1967/68. Reforçado por nomes experientes como o lendário líbero e capitão interista Armando Picchi, o meia Giuseppe Tamborini (ex-Roma) e o atacante Giovanni Vastola (ex-Bologna), o time fez campanha histórica. Permaneceu invicto em seu estádio, com dez vitórias e cinco empates, sofrendo apenas três gols nos 15 jogos em casa. Bateu a Inter (1 a 0), o futuro campeão Milan (2 a 1) e aplicou uma inesquecível goleada de 5 a 0 sobre a Juventus, detentora do scudetto.

Anastasi, que já havia balançado as redes rossoneri, marcou uma memorável tripleta contra seu time de coração. Ao todo, terminou como artilheiro isolado da equipe, com 11 tentos (mesmo número do “Bambino D’Oro” Gianni Rivera e do brasileiro Angelo Sormani, ambos milanistas). O Varese ficou numa ótima oitava colocação, que poderia ter sido ainda melhor não fosse a campanha pobre fora de casa.

Chegada à seleção

Atacante rápido, incansável na movimentação por todo o setor, de boa habilidade e chute com ambos os pés e faro de gol, Anastasi chamou a atenção do técnico da seleção Ferruccio Valcareggi, que empreendia uma renovação na equipe após o fiasco da Copa de 1966. Após avançar em seu grupo classificatório da Eurocopa de 1968 e despachar a Bulgária nas quartas de final em ida e volta, a Itália foi apontada como sede da fase final do torneio. Para esta etapa, Valcareggi incluiu o jogador do Varese.

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Na semifinal, jogando em Nápoles, os italianos empataram sem gols com a União Soviética após 120 minutos. A vaga na decisão foi decidida então na moedinha, e os donos da casa levaram a melhor. Insatisfeito com a falta de poder de conclusão no ataque, Valcareggi decidiu barrar para a final contra a Iugoslávia a dupla de astros Mazzola e Rivera, dando uma chance a Anastasi e ao milanista Lodetti.

O jogo contra os balcânicos, no entanto, também seria duro. Dzajic abriria o placar no primeiro tempo e só a dez minutos do fim a Nazionale arrancaria o empate num gol contestado, com Domenghini cobrando falta supostamente sem a autorização do árbitro. O empate continuou na prorrogação, forçando a realização de um jogo extra, dali a dois dias, no mesmo Estádio Olímpico de Roma. Novamente insatisfeito, Valcareggi trocou nada menos que cinco jogadores do time (entre eles, trazendo Mazzola de volta, em sua real posição de trequartista). Mas Anastasi foi mantido entre os titulares. E, aos 20 anos de idade, seria decisivo.

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Desta vez foi a Itália quem abriu o placar com Luigi Riva, logo aos 12 minutos. E aos 31, num contra-ataque, De Sisti passaria a Anastasi na linha da grande área. De costas para o gol, o atacante ajeitou e, no quique da bola, girou e acertou um chute quase de sem-pulo, entrando no canto do goleiro Pantelic. Aquele seria o gol do título. Sem pernas para reagir, já que haviam mantido dez dos 11 titulares do jogo de dois dias antes, os iugoslavos não chegaram a ameaçar no segundo tempo, e os azzurri levantaram, diante de sua torcida, seu único troféu europeu na história.

Não foi apenas a Valcareggi que Anastasi impressionou: a Internazionale esteve bem perto de contratá-lo, aproveitando-se da relação próxima entre Alfredo Casati e o dirigente interista Italo Allodi. Mas, vivendo momento político de indefinição, a Inter viu a Juventus correr por fora e ganhar a parada, com proposta mais vantajosa, além de feita diretamente ao presidente do Varese.

Goleador de uma Juventus renovada

Em suas duas primeiras temporadas em Turim, Anastasi balançou as redes 15 vezes em cada edição da Serie A, mas a equipe não chegou a brigar por títulos. Na temporada seguinte, no entanto, a renovação empreendida pelo novo treinador – o antigo ídolo interista Armando Picchi – começaria a dar resultado. Picchi, no entanto, precisaria se afastar do comando durante a campanha devido a um câncer na coluna, falecendo prematuramente aos 36 anos, em maio de 1971.

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Com o tcheco Cestmír Vycpálek assumindo o posto, a Juve chegaria à final da Copa das Feiras graças a um Anastasi em ótima forma, anotando dez gols em nove partidas. A Vecchia Signora despacharia o Rumelange de Luxemburgo, Barcelona (com direito a vitórias no Camp Nou e no Comunale), Pécsi Dózsa, Twente e Colônia. Na final, diante do Leeds, o jogo de ida em Turim foi interrompido pela forte chuva que alagou o campo, sendo disputado outra vez desde o início dois dias depois.

O empate em 2 a 2 deixou os italianos em situação complicada para a volta. Em Elland Road, os ingleses saíram na frente com gol de Allan Clarke, mas Anastasi empatou para a Juve ainda no primeiro tempo. O segundo gol que daria o título aos bianconeri, no entanto, não veio. E o clube ainda teria de aguardar mais alguns anos por seu primeiro título do continente.

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Mas a semente para uma nova Juventus, em breve vencedora, já estava lançada. E começaria a frutificar com o scudetto de 1972, numa equipe que superaria Milan e Torino por um ponto numa reta final acirrada, e na qual já despontavam jovens nomes como Roberto Bettega, Fabio Capello, Franco Causio, Giuseppe Furino e Luciano Spinosi, todos com idades entre 21 e 25 anos, além do próprio Pietro Anastasi, artilheiro do time na conquista com 11 gols.

O scudetto ajudaria a trazer o atacante de volta à seleção após dois anos, em abril de 1972, na partida de ida das quartas da final da Eurocopa de 1972, contra a Bélgica em Milão. Mas não conseguiu furar a firme defesa belga, que sustentou um empate sem gols. Na volta, o atacante perdeu o lugar. E os italianos, o jogo: os Diabos Vermelhos venceram por 2 a 1 em Bruxelas, avançaram para a fase final da competição e puseram fim ao sonho do bicampeonato continental aos comandados de Valcareggi.

Mesmo assim, continuaria sendo utilizado com frequência na seleção. Nas Eliminatórias para a Mundial de 1974, ele marcaria o único gol na difícil e importante vitória sobre a Turquia em Istambul. E em junho de 1973, atuando em seu conhecido Estádio Comunale de Turim, abriria o placar num jogo marcante para a Itália: a vitória por 2 a 0 sobre a Inglaterra, em amistoso comemorativo dos 75 anos de fundação da federação nacional, foi o primeiro triunfo dos azzurri sobre os ingleses nas quatro décadas de história do confronto, depois de oito partidas com quatro empates e quatro derrotas.

O momento na Juventus também era bom. O time campeão de 1972 recebeu dois ótimos reforços vindos do Napoli: o goleiro Dino Zoff e o atacante ítalo-brasileiro José Altafini. Mas para levantar o bicampeonato foi preciso raça para uma reação assombrosa na reta final. Cinco pontos atrás do Milan a seis rodadas do fim do torneio, a Juve venceu todos os seus últimos compromissos e contou com tropeços dos rossoneri para conquistar o título por um ponto, na última rodada.

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O time também andou outra vez perto de seu primeiro caneco europeu. Na Copa dos Campeões, os bianconeri superaram Olympique de Marselha, Magdeburg, Ujpest Dozsa e Derby County, antes de serem derrotados pelo Ajax de Johan Cruyff na final em Belgrado. Anastasi balançou as redes apenas duas vezes ao longo da competição, mas selou a vitória por 1 a 0 diante dos alemães-orientais em Turim e o empate em 2 a 2 como visitante diante dos húngaros, que valeu a classificação pelos gols fora de casa.

Na temporada seguinte, mesmo com o clube perdendo o scudetto para a Lazio por dois pontos, seu desempenho individual foi excelente: foram 16 gols em 23 partidas, incluindo duas espetaculares tripletas nas duas últimas rodadas, diante de Fiorentina e Lanerossi Vicenza. Seus números lhe deram enfim a chance de disputar uma Copa do Mundo, o que lhe escapara quatro anos antes por um motivo tolo: já na concentração mexicana, fez uma brincadeira com o massagista, que se irritou e o golpeou abaixo da cintura. O soco provocou sangramento nos testículos, que precipitaram a dispensa imediata do atacante.

Decepção na Copa e saída da Juve

Para o Mundial de 1974, a Itália era apontada como uma das maiores favoritas. Invicta há 15 jogos (desde a derrota para a Bélgica dois anos antes), ainda se mantinha há impressionantes 12 partidas sem sofrer gols, mesmo tendo enfrentado seleções como Brasil, Inglaterra e Alemanha Ocidental. Porém, acabaria decepcionando e caindo ainda na primeira fase, num papelão imprevisível.

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Na primeira partida, contra o modesto time do Haiti, viu sua invencibilidade defensiva ruir logo no começo do segundo tempo, num gol de Emmanuel Sanon, abrindo o placar para os caribenhos. Mas se salvaria do vexame ao conseguir virar e vencer por 3 a 1, com Anastasi (que havia entrado durante a etapa final no lugar do laziale Giorgio Chinaglia) anotando o terceiro gol.

O atacante da Juventus ganhou a posição para o jogo seguinte, fundamental para a situação do grupo, contra uma Argentina que vinha de perder para a Polônia. Dominada durante boa parte do jogo, a Azzurra saiu atrás no gol do ponteiro René Houseman, mas chegaria ao empate numa infelicidade do zagueiro Roberto Perfumo, desviando para as próprias redes uma bola aparentemente inofensiva.

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A decisão da vaga ficaria então para a última rodada, com os italianos precisando ao menos do empate com os poloneses, já que os argentinos provavelmente venceriam o fraco Haiti (como fizeram). Mas já no primeiro tempo, a Polônia abria 2 a 0 no marcador com uma cabeçada de Szarmach e um chutaço de fora da área de Deyna. A Itália, que teve Anastasi formando dupla de frente com Chinaglia no primeiro tempo e Boninsegna no segundo, só descontou a cinco minutos do fim, com Fabio Capello. E disse adeus à Copa.

Anastasi só faria mais dois jogos pela Itália após aquele Mundial, ambos pelas Eliminatórias da Eurocopa de 1976: derrota para a Holanda por 3 a 1 em Roterdã e empate sem gols com a Polônia em Varsóvia. A Azzurra também não foi além daquela etapa: a única vaga ficou com a Laranja. Na mesma época, o fim de ciclo na seleção também se estenderia ao clube.

Embora fosse promovido a capitão com a aposentadoria do líbero Sandro Salvadore e conquistasse outro scudetto na temporada seguinte ao Mundial, sua relação com o técnico Carlo Parola, ídolo histórico do clube e substituto de Cestmír Vycpálek, não era das melhores. Em meados de 1976, numa troca que mexeu com o Calcio, ele seguiria para a Internazionale, enquanto Roberto Boninsegna viria para a Juve.

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Sua passagem por Milão, que duraria duas temporadas, só não seria completamente decepcionante pela conquista da Copa da Itália em 1978 (então apenas o segundo título interista no torneio), e mesmo assim entrando apenas no último minuto da decisão contra o Napoli. Na ocasião, Anastasi perdera espaço no elenco pela chegada do jovem centroavante Alessandro Altobelli, trazido do Brescia. Na Serie A, os nerazzurri ficariam em quarto na primeira campanha (longínquos 18 pontos atrás da campeã Juventus) e quinto na seguinte, além de caírem na primeira rodada da Copa da Uefa em ambas as temporadas.

O último grande momento

Com 30 anos, era hora de o atacante buscar outros desafios. Acabou aportando na recém-promovida Ascoli, que disputava sua terceira temporada na Serie A, mas contava com elenco de relativa experiência, encabeçado pelo goleiro Felice Pulici, campeão em 1974 com a Lazio. Na primeira temporada, o objetivo de permanência na elite foi concretizado apenas na última rodada, mas sem muitos sustos. Na campanha seguinte, porém, o time faria história, e Anastasi viveria seu último grande momento no Calcio.

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Os bianconeri começariam mal, vencendo a primeira apenas na sétima rodada. Mas perto da virada do turno iniciariam uma grande sequência. Na última rodada, bateriam a já campeã Inter por 4 a 2 em Milão, assegurando em campo a quinta colocação, a melhor de sua história. Mais tarde, com a decretação da punição ao Milan pelo escândalo do Totonero, o clube ainda subiria uma posição, para um ainda mais memorável quarto lugar. Contra os nerazzurri, Anastasi marcaria um de seus cinco gols na temporada. Mas o tento inesquecível foi outro, também contra um de seus ex-clubes.

Em 30 de dezembro de 1979, pela 14ª rodada, logo aos oito minutos de partida, ele escoraria de cabeça um cruzamento, abrindo o caminho para a vitória por 3 a 2 sobre a Juventus em pleno Comunale de Turim. Era a primeira vez que balançava as redes naquela temporada. Mas a simbologia era ainda maior: tratava-se de seu centésimo gol na Serie A, e marcado contra seu clube de coração.

A grande campanha, entretanto, não valeu ao clube a passagem para conhecer a Europa: vivendo mau momento clubístico no continente, o Calcio contava então com apenas duas vagas na Copa da Uefa. Anastasi permaneceria mais uma temporada na Ascoli, que voltaria a se salvar da queda na última rodada. E em meados de 1982, penduraria as chuteiras após jogar um ano no Lugano, da segunda divisão suíça, tornando-se mais tarde comentarista em canais de televisão italianos.