Num clube de tantos ídolos e tantos craques históricos, a Juventus reserva um lugar especial ao seu “Trio Mágico”. A trinca ofensiva formada por Giampiero Boniperti, John Charles e Omar Sívori é considerada por muitos a mais prolífica da história da Velha Senhora, bem como uma das mais fulminantes do Calcio. A parceria perdurou durante quatro temporadas, de 1957/58 a 1960/61, rendendo três Scudetti e incríveis 204 gols divididos apenas entre os três pela Serie A. A campanha mais incrível completou 60 anos nesta sexta-feira: a conquista do Campeonato Italiano de 1959/60, na qual os juventinos empilharam recordes e mostraram o máximo poder de dominação do triunvirato.

Boniperti era o mais velho do Trio Mágico, ídolo da Juventus em outras conquistas. Nascido e criado na região de Turim, o craque dizia que a Juve “não era o meu time do coração, mas meu próprio coração”. Começou em pequenos clubes amadores, mas sua profissionalização ocorreu na Velha Senhora, a partir dos 16 anos. Inicialmente utilizado na ponta, seria deslocado como centroavante e se firmou como um dos artilheiros mais implacáveis do Calcio nos anos 1950. Conduziu a Velha Senhora à conquista do Scudetto em 1949/50, o primeiro após a tragédia com o Grande Torino, e repetiria a dose em 1951/52. Nomes como Ermes Muccinelli, Rinaldo Martino, John Hansen, Karl Aage Hansen e Karl Aage Praest recheavam a linha de frente.

As glórias não durariam por tanto tempo. A Juventus perdeu forças na sequência da década e começou a ocupar posições modestas na tabela. Chegou a emendar duas campanhas na nona colocação da Serie A, em 1955/56 e 1956/57. Os louros faziam parte do passado. A virada da Juve aconteceu a partir de 1957. Após alguns meses como interino no cargo, Umberto Agnelli assumiu em definitivo a presidência do clube – sucedendo o pai (Edoardo, dirigente no pentacampeonato dos anos 1930) e o irmão mais velho (Gianni, à frente da agremiação nas glórias do início dos anos 1950). Aos 21 anos, o herdeiro da Fiat realizaria investimentos altos nos bianconeri, em tempos de “milagre econômico” na Itália – quando o país crescia após superar as mazelas deixadas pela Segunda Guerra Mundial.

A Juventus quebrou a banca no verão de 1957, ao contratar Sívori e John Charles. Revelado pelo River Plate, o argentino faria sucesso no Campeonato Sul-Americano de 1957. A Juve estava de olho no garoto desde antes e a conquista com a seleção terminou de convencer os italianos. Os bianconeri pagaram uma fortuna, quebrando o recorde de transferência mais cara do mundo na época, em dinheiro que ajudou o River a concluir as arquibancadas do Monumental. Enquanto isso, Charles também fazia seu nome. O galês acumulava gols na segundona com o Leeds United e, depois de levar os Whites ao acesso, faturou a artilharia do Campeonato Inglês em 1956/57, autor de 38 tentos em 40 partidas. O clube até resistia em vender seu astro, mas um incêndio em Elland Road estremeceu as finanças. Para bancar a reforma do estádio, a diretoria cedeu às investidas juventinas, em outro negócio suntuoso para a época.

O Trio Mágico se entendeu de imediato na Juventus – por mais que seus gênios divergissem um bocado. Aos 21 anos, Sívori era dono de uma canhota venenosa. Habilidoso e driblador, o argentino era explosivo. Também com visão de jogo e arremates impossíveis, decidia grandes partidas. John Charles tinha 26 anos e, apesar de seu porte físico gigantesco, possuía uma destreza fora de série. De fato jogava como homem de área, mas movimentava-se bastante e abria espaços aos companheiros. Além disso, marcava gols de todas as formas e apresentava um ótimo controle de bola. Já Boniperti, na experiência de seus 29 anos, reencaixou-se naquele time. Passou a circular mais para conduzir a armação e reger a orquestra. O capitão usava sua precisão agora para criar e dar passes açucarados aos companheiros. Era tão cerebral que motivou a criação do termo “centrocampista” pelo mítico jornalista Gianni Brera.

A primeira temporada da Juventus com seu triunvirato seria logo marcante. Sob as ordens do técnico Ljubisa Brocic, a Velha Senhora conquistou a Serie A 1957/58. A campanha é bastante lembrada não apenas pela maneira como os juventinos sobraram no topo da tabela, com oito pontos de vantagem sobre a vice-campeã Fiorentina, mas também porque o décimo Scudetto valeu a primeira estrela no peito da camisa – uma sugestão do próprio presidente Umberto Agnelli. O time produziu ao todo 77 gols, 58 assinalados pelo trio de craques.

No entanto, a qualidade do ataque não fazia as conquistas se tornarem automáticas à Juventus. Ljubisa Brocic contava com um elenco jovem e que seria mantido para a temporada seguinte, mas sem que os bianconeri repetissem o sucesso. O treinador, aliás, entrou em rota de colisão com Sívori e seria demitido em novembro de 1959. Antes disso, a Juve caíra logo na primeira fase da Copa dos Campeões para o Wiener, com direito a uma goleada por 7 a 0 dos austríacos em Viena. O time também não acompanhou o ritmo dos fortes concorrentes na Serie A e terminou na quarta colocação, atrás de Milan, Fiorentina e Internazionale. A consolação seria o título na Copa da Itália. A Velha Senhora eliminou Alessandria, Fiorentina e Genoa, antes de golear a Inter por 4 a 1 na decisão. Charles, Sívori e Sergio Cervato anotaram os gols.

A Juventus entrou na temporada 1959/60 ciente que precisava se alavancar. E o principal passo de Agnelli esteve em sua escolha para o comando técnico da equipe. O dirigente buscou Renato Cesarini, um dos craques do esquadrão que conquistou o pentacampeonato italiano nos anos 1930. Após pendurar as chuteiras, o argentino foi um dos responsáveis por montar La Máquina do River Plate e também comandou a própria Juve de 1946 a 1948. Retornaria a Buenos Aires para dirigir as categorias de base do River e por lá lançou Sívori. Cesarini seria o responsável por recomendar o prodígio a Agnelli e, de volta a Turim, também poderia lapidar melhor as habilidades do intempestivo jovem craque.

Cesarini desempenhava uma função mais ligada à gestão do elenco como “diretor técnico”. Quem permanecia mais próximo dos jogadores durante os treinamentos era Carlo Parola, outro veterano da Velha Senhora. O centro-médio defendeu o clube durante toda a década de 1940 e integrou aquelas equipes campeãs de quando Boniperti estourava. Vendido à Lazio em 1954, Parola se aposentou logo depois e assumiu um posto na comissão técnica dos biancocelesti. Assumiria na sequência o comando da pequena Anconitana, até ser convidado para retornar à Juve como treinador. Era um homem de confiança, sobretudo do capitão.

Um dos méritos dos novos comandantes seria aproveitar melhor Sívori. A habilidade do argentino deslumbrava, mas até então mais a serviço de seus lances individuais do que propriamente da equipe. O jovem funcionaria melhor coletivamente e, com isso, acabaria por alavancar seus números. Charles permanecia como a referência dentro da área, generoso também ao colaborar com seus companheiros. E, no papel de maestro, Boniperti não perdia a qualidade técnica que o marcava.

Obviamente, aquela Juventus ia além de seu Trio Mágico. No gol, revezaram-se Carlo Mattrel e Giuseppe Vavassori, dois arqueiros formados pelo clube que chegaram à seleção italiana. Trazido da Sampdoria, Benito Sarti reforçava a linha defensiva naquela campanha, atuando geralmente ao lado de Bruno Garzena na faixa central. As laterais reuniam Flavio Emoli e Umberto Colombo, duas bandeiras juventinas. Já o centromédio era Sergio Cervato, referência da forte equipe da Fiorentina e contratado pouco antes, que contribuía com sua capacidade técnica e mesmo com seus gols. Boniperti costumava auxiliá-lo com seus recuos. Já na frente, enquanto John Charles e Sívori se combinavam com mais constância pelo meio, as pontas eram de Gino Stacchini e Bruno Nicolè, duas jovens revelações do Scudetto de 1957/58 que se firmaram desde então.

Os principais concorrentes da Juventus na Serie A 1959/60 estavam claros. O Milan vinha da conquista na temporada anterior e tinha sua coleção de craques, principalmente no ataque, onde apareciam Nils Liedholm, Juan Alberto Schiaffino e José Altafini. Cesare Maldini liderava os rossoneri mais atrás. Sob as ordens do argentino Luis Carniglia, a Fiorentina havia anotado 95 gols em 34 jogos na campanha anterior. O sueco Kurt Hamrin era a estrela da companhia, com a parceria de Miguel Montuori. Já a Internazionale vivia sua última temporada antes da vinda de Helenio Herrera, em elenco no qual Antonio Angelillo recebia o rótulo de craque. Bologna, Padova, SPAL e Roma foram outros figurantes que chegaram a incomodar, mas sem o nível competitivo das “quatro potências” da época.

O início de campanha imparável da Juventus seria determinante ao título. Os bianconeri anotaram dez gols nas primeiras três rodadas: 4 a 1 sobre o Lanerossi Vicenza, 4 a 0 sobre o Padova e 3 a 1 sobre a SPAL. Quando a Atalanta conseguiu brecar os líderes com um empate por 2 a 2 em Bérgamo, a Velha Senhora respondeu enfiando 7 a 0 na pobre Alessandria em Turim. Charles e Sívori anotaram dois tentos cada, enquanto o placar foi complementado por Boniperti, Cervato e Stivanello.

Depois de uma vitória sobre a Lazio, o primeiro triunfo nos confrontos diretos aconteceu na sétima rodada. Sívori brilhou com dois gols nos 3 a 1 de virada sobre a Fiorentina, dentro do Estádio Olímpico de Turim. A Juventus derraparia um pouco na sequência, com derrotas para Bologna e Napoli, intercaladas por um triunfo sobre o Genoa. Nada que derrubasse o time da ponta. E, a partir de então, os juventinos voariam baixo entre dezembro e fevereiro. A recuperação ocorreria no duelo que valia a liderança, com John Charles definindo o placar de 1 a 0 sobre a Internazionale. Após um empate contra a Udinese, a Juve ganhou os oito compromissos seguintes. Entre eles, 2 a 0 sobre o Milan em pleno San Siro, além de uma goleada por 4 a 0 sobre a Roma em Turim.

Com a arrancada até a 20ª rodada, a Juventus conseguiu abrir uma vantagem de cinco pontos na liderança. Neste momento, o trio formado por Milan, Fiorentina e Internazionale correspondia ao segundo pelotão. Uma derrota para a Atalanta em Turim auxiliou a concorrência, quebrando a boa fase. Duas vitórias depois, a Velha Senhora visitou Florença e sucumbiu à Fiorentina. A vitória por 1 a 0 deixou a Viola a dois pontos dos favoritos à taça. Mas aquele seria um baque importante para os bianconeri acordarem. Voltaram a disparar com cinco triunfos consecutivos, em um dos momentos mais iluminados da campanha.

O sprint final começou com 3 a 0 sobre o Bologna. Na Ligúria, 6 a 2 para cima do Genoa. O Napoli tomou o troco por 4 a 2 em Turim, com tripleta de Sívori. A Inter cairia por 3 a 0 em Milão, com mais dois do argentino e outro de Boniperti. Ainda haveria um emocionante 4 a 3 sobre a Udinese. Os perseguidores ficaram para trás e a vantagem sobre a Fiorentina, que emendou empates, chegava aos sete pontos. A Velha Senhora se permitiu um empate contra a Roma na capital, por 2 a 2, até que o jogo do título acontecesse em 15 de maio. Campeão no ano anterior, o Milan passaria sua faixa no Estádio Olímpico de Turim. Dois gols de Sívori e um de Boniperti determinaram o placar de 3 a 1, que, combinado à derrota da Viola para a Sampdoria, garantiu o 11° Scudetto juventino.

Com mais três rodadas pela frente, a Juventus tirou um pouco o pé. Derrotou o Bari, antes de encerrar a campanha com empates diante de Sampdoria e Palermo. Os 55 pontos acumulados, ainda assim, fecharam a Serie A com uma vantagem de oito sobre a Fiorentina – que acabou na segunda colocação. Aquela pontuação marcaria o recorde dos juventinos no campeonato com 18 participantes – igualando o primeiro ano do penta, em 1930/31. As 25 vitórias também são a marca máxima da Juve na liga com 18 times. E assim permaneceram os 92 gols, 15 a mais em relação ao Scudetto anterior. Sívori terminou como artilheiro da liga com 28 gols, enquanto John Charles acumulou 23 tentos. Boniperti faria sete, mas entregaria muitos mais aos dois companheiros de frente. Outros nomes como Nicolè, Stacchini e Cervato também contribuíram aos placares dilatados.

Aquela temporada guardaria mais uma alegria à Juventus. O clube conquistou mais uma vez a Copa da Itália. Numa campanha cheia de emoções, a equipe superou Sampdoria, Atalanta e Lazio. Já a final aconteceu no San Siro, em setembro de 1960, contra a Fiorentina. John Charles marcou dois gols no empate por 2 a 2, que forçou a prorrogação. Logo no começo do tempo extra, um gol contra de Dante Michele garantiu a vitória por 3 a 2 e levou a taça para Turim. Pela primeira vez em sua história, a Juve garantiu a dobradinha entre copa e liga.

A Juventus novamente caiu cedo na Champions 1960/61, eliminada pelo CSKA Sofia logo de cara. Na Serie A, ao menos, veio o bicampeonato. A campanha acabaria de maneira conturbada, com direito a uma confusão com a Internazionale. De qualquer maneira, foi uma despedida gloriosa aos últimos momentos do Trio Mágico em campo. Boniperti se aposentou ao final da temporada, antes que John Charles também passasse a conviver com problemas físicos e retornasse ao Leeds. Quem permaneceu por mais tempo foi mesmo Sívori, Bola de Ouro em 1961, que saiu quatro anos depois. O legado daquelas glórias, todavia, vai além. Em período de migração massiva do sul da Itália para a industrial Turim, a torcida bianconera se expandiu bastante naquelas temporadas. Novas gerações de juventinos se formaram para recontar a lenda de Boniperti, Charles e Sívori.