“Ser jogador de futebol é como ir ao cinema: você assiste a um filme legal, come uma pipoca, toma refrigerante. Aproveita. Mas, em certo momento, o filme acaba e você precisa voltar à realidade”

A analogia feita por Rudi Völler sobre sua trajetória nos gramados diz muito não apenas sobre a carreira do atacante, como também sobre a sua visão de mundo. O “filme” vivido pelo alemão foi dos bons: incluiu títulos de Copa do Mundo e de Champions League, idolatria em diferentes clubes, mais de 350 gols anotados. O “Alemão Voador” permaneceu como sucesso de bilheteria por duas décadas, quase sempre atuando em alto nível. Além do mais, também conquistava respeito por sua personalidade. Sujeito simples, longe da glamourização que o esporte costuma proporcionar, o veterano causa simpatia imediata por sua franqueza sem perder a docilidade. Assim, virou uma das figuras mais queridas do futebol alemão.

Longe da Alemanha, Völler muitas vezes é lembrado por seu bigode característico e pelo penteado inconfundível, assim como pelo infame episódio com Frank Rijkaard na Copa de 1990. Dentro de seu país, em compensação, a valorização do craque é imensa. Sabem reconhecer o tamanho de seu talento, atacante dos mais completos que o Nationalelf já viu, e também nutrem um carinho especial pela pessoa além do futebol. Gritos de “Ruuuuuuuuudi” eram constantes nos estádios alemães, e não apenas aos clubes que defendeu. Como era de se esperar, nesta semana em que Völler completou 60 anos, as homenagens foram constantes. Muitos dedicaram seu apreço ao herói nacional.

Rudolf Völler nasceu em Hanau, uma pequena cidade na região de Frankfurt mais conhecida por ser o berço dos Irmãos Grimm. Seu primeiro professor no futebol esteve dentro de sua própria casa. Kurt Völler era metalúrgico e também trabalhou como gerente de armazém, mas conciliava seus empregos com as atividades no 1860 Hanau. Além de atuar na equipe amadora da cidade, o pai de Rudi ainda treinava as categorias de base e começou a levar o rebento para o clube. A partir dos oito anos, o garoto passou a aprimorar o seu talento. Até então, a bola era apenas um brinquedo além do horário da escola.

Rudi Völler anotava dezenas gols nas equipes infantis do 1860 Hanau. Deixava claro que o clube era pequeno demais para a sua ascensão. Então, o adolescente procurou novos rumos para desenvolver sua carreira. Embora o Eintracht Frankfurt fosse o grande clube da região, Rudi tinha preferência pelo Kickers Offenbach. O adolescente acompanhava os jogos da equipe ao lado do irmão mais velho, Dieter. Os alvirrubros disputavam com frequência a Bundesliga na época, embora fizessem campanhas modestas, e tinham um dos atacantes mais efetivos do país – Erwin Kostedde, o primeiro negro a defender a seleção alemã. Ao lado de Gerd Müller, Kostedde era um dos ídolos de Völler e influenciou seus rumos.

Aos 15 anos, Völler se juntou às categorias de base do Kickers Offenbach. Seguindo o exemplo do pai, o atacante conciliava a carreira com os estudos e começou a trabalhar ainda nos tempos de juvenil. Foi funcionário na própria administração do clube e teve um emprego na indústria automotiva. Todavia, o futebol oferecia outro caminho ao alemão-ocidental e ele não demoraria a se juntar aos profissionais alvirrubros. A estreia pelo Kickers Offenbach aconteceu em novembro de 1977, aos 17 anos, enfrentando o Darmstadt pela segundona. Em sua primeira temporada, o novato somou seis partidas e contribuiu com um gol.

O Kickers Offenbach fazia campanhas medianas na segunda divisão da Bundesliga, o que não impedia a progressão de Völler. O atacante virou titular na segunda temporada e contribuiu com 11 gols, enquanto anotou sete em sua terceira campanha com os alvirrubros. A equipe ainda teve seu brilho na Copa da Alemanha de 1979/80, quando alcançou as quartas de final após eliminar o poderoso Hamburgo de Kevin Keegan. Mesmo o clube de coração já não era mais suficiente e Rudi se mudaria para a Baviera em 1980. A proposta veio do 1860 Munique, que desembolsou 700 mil marcos para levar a promessa.

Völler pôde disputar a elite da Bundesliga pela primeira vez em 1980/81. O prodígio começou bem sua nova etapa com o 1860 Munique, mas caiu de desempenho e não evitou o rebaixamento dos Leões ao final da temporada. Disputar a segundona novamente, porém, seria importante ao desenvolvimento do jovem. Völler atravessou uma campanha imparável em 1981/82. Faltou um ponto para seu time conquistar o acesso, mas não por culpa do artilheiro, que anotou 37 gols em 37 partidas pela competição – um recorde que se mantém ainda hoje. A reta final da campanha, em especial, guardou atuações estrondosas do atacante. Na última rodada, ele não teve piedade do Kickers Offenbach e anotou quatro gols no encontro com os antigos companheiros. Logo deixaria o Estádio Grünwalder.

A reputação de Völler, afinal, se renovava também com as seleções de base. O jovem integrava o time sub-23, que contava com uma forte geração na época. Comandado pelo recém-aposentado Berti Vogts, o elenco reuniu diversos jogadores que futuramente fariam carreira na equipe principal da Alemanha Ocidental – incluindo Lothar Matthäus, Pierre Littbarski, Eike Immel, Wolfgang Rolff e Thomas Allofs. A força se provou no Campeonato Europeu da categoria em 1982, com a campanha até a decisão, vencida pela Inglaterra de Justin Fashanu e Sammy Lee. Referência no ataque, Völler terminou eleito como o melhor jogador da competição. Seria a chave para descolar outra transferência.

Enfrentando problemas financeiros, o 1860 Munique perdeu sua licença na liga e terminou rebaixado à terceira divisão. Os Leões venderiam Rudi Völler ao Werder Bremen, que deixara a segundona pouco tempo antes e apresentava um projeto ambicioso na Bundesliga. Os Verdes eram treinados por Otto Rehhagel, antigo comandante do Kickers Offenbach. Mais emblemático ainda, Völler chegou para substituir justamente Erwin Kostedde no ataque, quando seu ídolo já se encaminhava ao fim da carreira. Aos 22 anos, o novo atacante sequer precisou de tempo para se aclimatar ao Weserstadion.

A primeira temporada de Völler com o Werder Bremen já seria suficiente para alçá-lo ao posto de xodó da torcida. O atacante anotou quatro gols logo em sua estreia, uma vitória por 5 a 3 sobre os tchecoslovacos do Nitra pela Copa Intertoto. Já na Bundesliga, o primeiro tento aconteceu no clássico contra o Hamburgo, em empate por 1 a 1 arrancado dentro do Volksparkstadion contra os atuais campeões nacionais. Rudi brilharia também no dérbi do segundo turno e decidiria outras tantas partidas ao longo da temporada. O Bremen fechou o Campeonato Alemão na segunda colocação, sua melhor classificação em 15 anos, e só perdeu a taça para o Hamburgo no saldo de gols. Com 23 tentos, Völler foi o artilheiro do torneio e também acabou eleito como o melhor jogador de 1983 no país.

O momento inspirado de Völler também abriria as portas na seleção principal. O jovem havia sido pré-convocado na lista de 40 nomes para a Copa do Mundo de 1982, mas esteve longe de concorrer com Klaus Fischer e Horst Hrubesch por um lugar rumo à Espanha. No entanto, passou a ganhar espaço e faria sua estreia na Mannschaft em novembro de 1982, sob as ordens de Jupp Derwall. A partir de então, seria um nome imprescindível, até por aquilo que fazia no Weserstadion.

O Werder Bremen atravessou o período mais consistente de sua história a partir da década de 1980. O clube rondava os principais títulos e visava o topo da tabela na Bundesliga. Norbert Meier, Dieter Burdenski, Klaus Fichtel e Benno Möhlmann eram alguns jogadores emblemáticos do período. Ainda assim, o estrelato recaía a Völler, que viu seu talento florescer sob as ordens de Otto Rehhagel. “Tive muitos bons treinadores, mas Otto era o homem certo, no momento certo e no clube certo. Com ele, pude brilhar em campo e meu jogo se beneficiou”, recontou Völler à revista Kicker, em entrevista publicada nesta semana.

Rehhagel tinha uma concepção mais defensiva do futebol, mas contava com a capacidade de Völler para definir na frente. Sem possuir a força física como virtude, o atacante compensava com inteligência e velocidade. O alemão-ocidental possuía um bom senso de colocação e também se movimentava bastante, buscando o jogo pelos lados do campo. Partia para cima no um contra um e escapava facilmente da linha de zaga. A finalização era uma virtude, sabendo dosar refinamento e potência. Rudi arrematava de primeira com maestria, inclusive com a canhota se necessário, e tinha um gosto especial por maltratar os goleiros com toques por cobertura. Além do mais, se virava em espaços reduzidos, tanto por seu bom domínio de bola quanto pelos dribles curtos. Era completo.

Depois da impactante primeira temporada com o Werder Bremen, foram mais quatro anos em altíssimo nível no Weserstadion. Völler se firmou como um dos principais atacantes da Bundesliga no período, acumulando ótimos números. Não repetiria a artilharia, mas quase sempre brigou por ela, com 99 gols em 137 aparições pelo Campeonato Alemão. Superou a marca dos 18 gols em quatro das cinco campanhas e, quando ficou abaixo disso, foi porque passou meses afastado por lesão. O grande lamento se concentrou em não ter erguido a Salva de Prata. O Bremen bateu na trave mais duas vezes como vice do Bayern, tricampeão sob as ordens de Udo Lattek. Em 1985/86, aliás, a conquista escapou de novo no saldo de gols.

Ao mesmo tempo, a seleção alemã desfrutava da inspiração de Völler. Autor de gols importantes nas eliminatórias da Euro 1984, o atacante foi chamado à fase final do torneio continental e desabrochou com a Mannschaft. A Alemanha Ocidental caiu ainda na fase de grupos, mas as boas atuações foram suficientes para colocar o camisa 9 no time ideal do campeonato. Völler compôs a linha de frente ao lado de Klaus Allofs e Karl-Heinz Rummenigge, com uma atuação especialmente marcante na única vitória de seu time, responsável pelos gols nos 2 a 1 sobre a Romênia.

Völler também contribuiu à qualificação da Alemanha Ocidental à Copa do Mundo de 1986 e outra vez vestiu a camisa 9 no México. Mesmo voltando de lesão, ganhou a confiança do técnico Franz Beckenbauer e começou o torneio como titular. Durante a fase de grupos, o atacante anotou o primeiro gol na virada contra a Escócia, mas passou em branco nos outros dois compromissos. Perdeu a posição na sequência da competição, à medida que Rummenigge chegou à sua melhor forma física. De qualquer maneira, saindo do banco, seria importante na reta final do Mundial.

Na semifinal contra a França, Völler concluiu a vitória por 2 a 0 nos instantes finais, encobrindo o goleiro Joël Bats antes de arrematar às redes vazias. Já na decisão contra a Argentina, o substituto reviveu as esperanças de seu time após entrar no lugar de Klaus Allofs, na volta do intervalo. Rummenigge descontou após um escanteio desviado no primeiro pau pelo camisa 9 e, a dez minutos do fim, o próprio Völler possibilitou o empate de cabeça. Contudo, quando o Nationalelf acreditou na virada e partiu para cima, Diego Maradona acertou um passe magistral para Jorge Burruchaga determinar a vitória albiceleste por 3 a 2.

“Tivemos sorte de chegar à final em 1986. Nosso time não era tão bom quanto o de 1990. Perdemos para um adversário muito melhor. Mas, depois do empate, ficamos próximos de vencer o jogo. Cometemos um grande erro: queríamos ganhar nos 90 minutos. Os argentinos estavam grogues, quase nocauteados, e quisemos tirar vantagem da situação, mas arriscamos muito. Acho que teríamos vencido se a partida fosse à prorrogação, porque eles tinham se cansado muito e nós estávamos em melhor forma. Logicamente, os sul-americanos eram tecnicamente bem melhores que nós e, graças ao passe maravilhoso de Maradona, eles merecidamente ganharam”, comentaria Völler, à FourFourTwo, em 2007.

Após a decepção no México, Völler permaneceu no Werder Bremen por mais uma temporada. Entretanto, naqueles tempos o melhor futebol do mundo era jogado na Itália e a transferência para a Serie A se tornou um passo natural. Em 1987, o alemão-ocidental assinou com a Roma, que vinha de títulos importantes nos anos anteriores. O atacante ocupava uma das vagas aos estrangeiros dos giallorossi, ao lado de Zbigniew Boniek, em elenco que também contava com Bruno Conti, Roberto Pruzzo, Giuseppe Giannini e Fulvio Collovati. Curiosamente, logo após sua saída, Otto Rehhagel conduziu o Bremen ao título da Bundesliga, com Karl-Heinz Riedle ocupando a lacuna no ataque.

A falta de sorte em relação ao Werder Bremen não impediu Völler de ser feliz na Roma. O atacante não causou tanto impacto em sua primeira campanha, com somente três gols anotados em 21 partidas, mas contribuiu à terceira colocação dos giallorossi na concorrida Serie A. Já ao final da temporada, Völler voltou a se juntar à seleção alemã-ocidental na Euro 1988. Aquela foi a primeira competição em que compôs a linha de frente com o ascendente Jürgen Klinsmann, um parceiro que complementava suas virtudes. Todavia, o Nationalelf não cumpriu as expectativas por jogar em casa e caiu diante da Holanda nas semifinais. O camisa 9 anotou dois gols, ambos na vitória por 2 a 0 sobre a Espanha, durante a fase de grupos.

De volta à Itália, Rudi Völler cresceu a partir de sua segunda temporada com a Roma. Os giallorossi fizeram um mercado de transferências intenso, ao contratarem Renato Gaúcho e Andrade como complementos estrangeiros após o adeus de Boniek, além de Daniele Massaro. A equipe treinada por Nils Liedholm não se saiu tão bem assim e terminou na oitava posição da Serie A, perdendo a vaga na Copa da Uefa após um jogo extra contra a Fiorentina. O alemão-ocidental, ao menos, segurou as pontas e ganhou moral com os romanistas por seus dez gols anotados. Aquela Serie A 1988/89 seria marcada por seus compatriotas Matthäus e Brehme, protagonistas no Scudetto da Internazionale.

Adorado em Roma, Völler ganhou o apelido de “Alemão Voador”. E a temporada de 1989/90 seria essencial para que o atacante realmente chegasse voando à Copa do Mundo. Rudi teve seu melhor desempenho na Serie A, com 14 gols em 32 partidas – metade deles anotados nas últimas oito rodadas. Neste ínterim, teve a honra de decidir um dérbi contra a Lazio – disputado no velho Estádio Flaminio, por causa das reformas do Olímpico ao Mundial. A Roma terminaria em sexto naquela campanha, em que trouxe mais um alemão-ocidental ao seu plantel: Thomas Berthold, comprado junto ao Verona.

Berthold, também nascido em Hanau, era companheiro de quarto de Völler na seleção e foi convencido pelo amigo a se mudar à capital. Juntos, também disputariam a Copa de 1990. E foi neste momento que Berthold deu outro apelido famoso ao companheiro. Por conta dos cabelos brancos do atacante, passou a chamá-lo de “Tante Käthe” – que pode ser traduzido como ‘Tia Käthe’, como se as madeixas grisalhas fizessem Völler ficar parecido com uma senhora idosa. A imprensa alemã divulgou a história e a brincadeira pegou também entre os torcedores.

Antes mesmo da Copa do Mundo, Völler já tinha sido determinante à classificação da Alemanha Ocidental. Em uma campanha acidentada do time de Franz Beckenbauer nas Eliminatórias, o atacante contribuiu com quatro gols. A vaga só seria garantida na última partida e, com o tento de empate assinalado pelo camisa 9, a Mannschaft venceu Gales de virada em Colônia, para carimbar seu passaporte. No Mundial da Itália, Völler se reencontraria com alguns remanescentes do vice em 1986, mas em elenco fortalecido também pelo surgimento e pelo amadurecimento de outros talentos.

Titular absoluto ao lado de Klinsmann no ataque, Völler anotou os seus três gols naquela Copa durante a fase de grupos. O primeiro veio na estreia, durante os 4 a 1 sobre a Iugoslávia, aproveitando uma falha do goleiro Tomislav Ivkovic. Já na segunda rodada, o camisa 9 foi o destaque nos 5 a 1 sobre os Emirados Árabes Unidos. Marcou dois gols, em lances de oportunismo. Sua jogada mais bonita no Grupo D, ainda assim, aconteceu no duelo em que passou em branco. No empate por 1 a 1 contra a Colômbia, Völler contribuiu com uma baita assistência. Deixou dois marcadores no chão com seus dribles e executou o passe com a parte de fora do pé, para Littbarski fuzilar René Higuita.

Os mata-matas da Copa de 1990 seriam movimentados a Völler, e por diferentes motivos. A começar pela revanche com a Holanda nas oitavas de final, em embate carregado de rivalidade e tensão. Foi quando o camisa 9 se tornou vítima do momento mais famoso de sua carreira. Uma falta na lateral do campo serviu de faísca. Frank Rijkaard acertou um carrinho duro sobre o adversário e recebeu o amarelo. Na sequência, quando passou por Völler, o holandês deu uma cusparada em seus cabelos e os dois começaram a discutir. O alemão-ocidental reclamou com o árbitro Juan Carlos Loustau e também ganhou o amarelo. Mas não parou por aí.

Na cobrança da falta em direção à área, o goleiro Hans van Breukelen saiu do gol para ficar com a bola e Völler tirou o corpo para não se chocar com o adversário na disputa. De novo, Rijkaard veio tirar satisfação e o bate-boca se tornou mais intenso. Loustau, então, resolveu mostrar o vermelho direto a ambos. Como se não bastasse, Rijkaard deu uma segunda cusparada na nuca do alemão-ocidental. Ambos seguiram aos vestiários do San Siro, onde voltaram a se confrontar.

“Tivemos um pequeno entrevero na porta do vestiário. Mas Frank e eu guardamos para nós mesmos o que aconteceu. Não é legal receber duas cuspidas. Mas, para mim, esse era um problema menor. Você joga uma Copa do Mundo a cada quatro anos e eu já tinha 30 anos. Assumi que 1990 poderia ser minha última chance de me tornar campeão e então fui expulso. Um torneio como esse pode acabar num instante. Isso bateu forte em mim”, relatou o atacante, em entrevista à Kicker.

Völler falaria sobre o assunto também à FourFourTwo: “Ainda não entendo por que fui expulso e acho que o árbitro levará isso para o túmulo. Ele queria dar um exemplo com nós dois para que a situação se acalmasse – o que deu certo. Havia algum veneno entre os jogadores, Alemanha x Holanda sempre foi um jogo problemático. Frank me pediu desculpas meses depois”. O pedido de desculpas ocorreu durante um duelo entre Roma e Milan, pela Serie A. Segundo o holandês, a separação recente de sua esposa também contribuiu à atitude destemperada no Mundial.

O próprio Rijkaard assumiria toda a culpa pelo incidente, admitindo sua vergonha pelo ato repugnante. “Naquele dia, eu estava errado. Não houve insulto de Rudi. Sempre tive muito respeito por Völler, mas fiquei louco quando vi o cartão vermelho. Fiquei feliz que ele tenha aceitado meu pedido de desculpas. Não tenho nenhum sentimento ruim sobre ele”, diria, em entrevista ao jornalista Simon Kuper. Dois anos depois, Völler e Rijkaard foram convidados a se reconciliar em um comercial de manteiga. Aceitaram participar para deixar a rusga publicamente para trás e ainda doaram o cachê a instituições de caridade.

Já dentro de campo, as expulsões ajudaram bem mais a Alemanha Ocidental que a Holanda nas oitavas de final da Copa. Völler era importante ao Nationalelf, mas Rijkaard tinha um papel imprescindível para fazer o meio-campo funcionar e, naquele jogo, havia sido designado para marcar de perto Klinsmann. Sem o adversário em sua cola, Klinsi teve uma atuação memorável e liderou o triunfo dos alemães-ocidentais por 2 a 1. Já nas quartas de final, com Riedle na vaga do suspenso Völler, Matthäus garantiu o triunfo por 1 a 0 sobre a Tchecoslováquia.

O retorno de Völler ao time aconteceu nas semifinais, contra a Inglaterra. O camisa 9 permaneceu em campo durante 38 minutos, quando se lesionou e deu lugar a Riedle. Do banco, acompanhou o sofrido empate por 1 a 1, em que os ingleses foram melhores, apesar da classificação alemã-ocidental nos pênaltis. Graças ao resultado em Turim, a Mannschaft teria sua revanche contra a Argentina. E o clima era de extrema confiança, não apenas pela evolução do time nos quatro anos posteriores à derrota no México, como também pelo declínio da Albiceleste.

A final da Copa de 1990 aconteceria no Estádio Olímpico de Roma. Jogar “em casa” era uma motivação para Rudi Völler, mas o atacante era dúvida para o encontro com a Argentina. “Durante o último treino, eu queria fazer algo a mais por causa da minha lesão. Estava forçando. Então, Beckenbauer veio a mim e disse: ‘Você é estúpido? Não precisa provar nada aqui. Pode decidir por si mesmo se joga amanhã ou não’. Isso era típico do Franz. Era uma final de Copa! Não há maior prova de confiança”, contou Völler, à Kicker. No dia seguinte, o nome do atacante estava na escalação alemã-ocidental.

Aquela decisão é lembrada como uma das mais enfadonhas da história das Copas. A Argentina tinha chegado tão longe com uma clara estratégia: descolar algum passe do sacrificado Maradona a Caniggia e contar com as defesas de Goycochea nos pênaltis. Bem mais consistente, a Alemanha Ocidental era favorita e dominava a partida, mas tinha dificuldades para criar chances contra um adversário entrincheirado. O gol saiu apenas aos 40 do segundo tempo. E com a participação de Völler. O atacante sofreu o pênalti convertido por Andreas Brehme, que gerou a vitória por 1 a 0 e o tricampeonato mundial.

Mesmo 30 anos depois, os argentinos continuam reclamando daquela marcação de pênalti. Roberto Sensini visou a bola. Völler não discorda, aliás: “Costumo responder sobre aquele pênalti dizendo que alguns árbitros marcariam e outros não. Ele marcou, mas não precisava. Acho que o apito soou porque ocorreram duas ou três situações anteriores em que o árbitro decidiu injustamente contra nós. Honestamente, se ele não tivesse apontado a marca da cal, não teríamos reclamado muito”. A Argentina, que já tinha um jogador expulso naquele momento, ainda receberia outro vermelho antes do apito final.

Campeão do mundo, Völler retornaria à Roma para mais uma temporada especial. A campanha na Serie A foi apenas razoável, com a nona colocação da equipe. Outra vez o alemão-ocidental foi artilheiro do plantel, com 11 gols. Por outro lado, os reais sucessos viriam nos mata-matas. Os romanistas conquistaram a Copa da Itália, despachando Foggia, Genoa, Juventus e Milan na duríssima campanha. A decisão, em ida e volta, aconteceria contra a Sampdoria de Gianluca Vialli e Roberto Mancini – que conquistara o Scudetto semanas antes. Na capital, a vitória da Roma por 3 a 1 teve gol e assistência de Völler. E seria dele o tento definitivo em Gênova, cobrando pênalti, para selar o empate por 1 a 1.

Aquela taça também apaziguou a sensação do “quase”, após uma campanha igualmente histórica na Copa da Uefa. A Roma tinha perdido a decisão em maio. Foi outra caminhada dificílima, em que os giallorossi eliminaram Benfica, Valencia, Bordeaux, Anderlecht e Bröndby. O Alemão Voador marcou dez gols na trajetória, inclusive o que colocou os romanistas na final – aos 42 do segundo tempo, em cima de Peter Schmeichel, nos 2 a 1 sobre a excelente equipe do Bröndby. Na última etapa, porém, a taça escapou. A Inter de Matthäus, Klinsmann e Brehme venceu a ida por 2 a 0 no San Siro e, na volta, o triunfo por 1 a 0 seria insuficiente aos giallorossi, então treinados por Ottavio Bianchi.

Völler completou sua quinta temporada na Roma em 1991/92, despedindo-se do clube neste momento. Thomas Hässler chegou para o lugar de Berthold, enquanto Aldair era o outro estrangeiro no elenco. Por vezes usando a braçadeira de capitão, o Alemão Voador ajudou os giallorossi terminarem a Serie A na quinta colocação. Anotou sete gols naquela campanha, totalizando 45 em seus cinco anos na liga. Logo depois, Völler disputou a Euro 1992. Ante a ausência do lesionado Matthäus, o camisa 9 assumiu a braçadeira de capitão, mas quebrou o braço logo na estreia e veria do banco o restante do torneio. A Alemanha, agora unificada, perdeu a decisão para a Dinamarca.

Aos 32 anos, Völler despediria-se da seleção ao final de 1992. Queria se dedicar apenas ao clube e tinha um novo desafio pela frente: conduzir o Olympique de Marseille a um estágio superior em suas campanhas. Os marselheses contavam com uma equipe estrelada e empenhavam-se para conquistar a Champions League, da qual tinham sido vice-campeões em 1991. A partir de 1992/93, Völler se somaria ao ataque para dar um pouco mais de tarimba internacional aos celestes, ocupando a lacuna deixada após a venda de Jean-Pierre Papin ao Milan. Seria importante também para colocar o time de Raymond Goethals no topo da Europa.

Num misto de experiência e juventude, Völler se entendeu bem no ataque com Alen Boksic. A dupla produziu 41 gols na Ligue 1, 18 deles anotados pelo alemão. O Olympique de Marseille chegou a conquistar o pentacampeonato nacional, mas o título terminou revogado após o escândalo de manipulação de resultado contra o Valenciennes. A taça que valeu mesmo foi a da Champions, esta sem contestação da justiça.

Völler anotou apenas dois gols ao longo da campanha, mas teve um papel essencial na criação da equipe e acumulou seis assistências. Algumas das vitórias no quadrangular semifinal contaram com grande contribuição do veterano, possibilitando a classificação na chave que contava com Rangers, CSKA Moscou e Club Brugge. Já na decisão, o camisa 9 perdeu uma boa oportunidade durante o segundo tempo. Ao menos, estava presente em campo quando Basile Boli assegurou a histórica vitória por 1 a 0 sobre o Milan, que deu a Orelhuda aos marselheses.

Völler seguiu no Olympique de Marseille para a temporada seguinte, mas os problemas além das quatro linhas brecaram o momento daquele esquadrão. Os celestes não puderam tentar o bicampeonato na Champions e, embora tenham disputado a Ligue 1, acabaram rebaixados pelo imbróglio da campanha anterior. O camisa 9 somou seis gols e faria as malas após o descenso. Recebeu propostas do Benfica e do Paris Saint-Germain, mas decidiu que era hora de voltar para casa. Desta forma, assinou com o Bayer Leverkusen e voltaria a disputar a Bundesliga.

Antes de retomar a carreira na Alemanha, no entanto, Völler faria uma última aparição pela seleção em competições internacionais. Berti Vogts convenceu o atacante a desistir da aposentadoria e voltou a incluí-lo nas convocações às vésperas da Copa do Mundo de 1994. Aos 34 anos, o medalhão disputou o seu terceiro Mundial. Em uma campanha conturbada da Mannschaft, em que os egos falaram mais alto do que a bola, Völler esquentou o banco durante a fase de grupos, entrando apenas no segundo tempo da partida contra a Espanha. O camisa 13 ganhou a posição a partir das oitavas, contra a Bélgica. Seria brilhante em um dos melhores jogos daquela Copa.

Com um toquinho por cima de Michel Preud’Homme, Völler abriu o placar no Soldier Field. Georges Grün empatou graças a um vacilo do atacante na área defensiva, mas logo ele se redimiria do outro lado. O Alemão Voador recuperou uma bola no meio-campo, tabelou com Klinsmann e devolveu o passe limpo para o companheiro fuzilar. Antes do intervalo, Völler também faria o terceiro de cabeça, e veria os companheiros desperdiçarem um caminhão de gols no segundo tempo, antes que os belgas descontassem para 3 a 2. Já nas quartas de final, o veterano voltou ao 11 inicial e chegou a ter um gol corretamente anulado por impedimento, mas nada pôde fazer diante da virada da Bulgária, que custou a eliminação alemã. Tia Käthe se despediu da seleção com 47 gols em 90 partidas, quarto maior goleador do Nationalelf. Em Copas, foram oito tentos.

O instinto artilheiro continuou preponderando a Völler na BayArena, onde viveu seus dois últimos anos da carreira como jogador. Por vezes capitão do Leverkusen, o veterano fez uma excelente temporada de retorno. Foram 16 gols e 13 assistências na Bundesliga, liderando um setor ofensivo que também contava com Ulf Kirsten, Paulo Sérgio e Bernd Schuster. Os Aspirinas, entretanto, terminaram na sétima colocação.

Já na campanha seguinte, os números do Alemão Voador caíram, mas ainda assim ele ajudou com dez gols e quatro assistências. O Leverkusen correu o risco de ser rebaixado naquela temporada de 1995/96 e disputou a partida da sobrevivência na rodada final da Bundesliga, em confronto direto com o Kaiserslautern. A grande cena do último jogo profissional de Völler aconteceu, na verdade, após o apito derradeiro: ele consolava o amigo e adversário Brehme, aos prantos após o inédito descenso do Kaiserslautern, o clube onde atuou durante grande parte da carreira.

Völler se aposentou como jogador, mas seguiu no Bayer Leverkusen. O veterano construiu uma ótima relação com os Aspirinas, a ponto de ser eleito para a seleção do centenário do clube. Já em meados de 1996, Tia Käthe passou a ocupar o cargo de diretor esportivo. O ex-atacante teve papel importante no fortalecimento da agremiação durante a virada do século, especialmente pelas apostas certeiras no mercado de transferências, que transformaram a equipe em real candidata ao título da Bundesliga. Sob as ordens de Christoph Daum, o Leverkusen foi três vezes vice-campeão nacional e ainda abocanhou um terceiro lugar entre 1996/97 e 1999/00.

O sucesso do Bayer Leverkusen levou Rudi Völler ao comando da seleção alemã, mas por puro acaso. O Nationalelf fez uma campanha fraca na Euro 2000, eliminado na fase de grupos, e o técnico Erich Ribbeck acabou demitido. Christoph Daum era a escolha natural para assumir a equipe e assim a federação alemã decidiu. Contudo, seu contrato com o Leverkusen seguia em vigor até 2001 e ele permaneceria no clube por mais um ano, até assumir a equipe nacional em definitivo. Völler seria um “quebra galho” durante essa transição. Por conhecer os métodos de Daum na BayArena, começaria a aplicá-los na seleção. Além disso, por toda a sua história na Mannschaft e por seu carisma, o interino também atenuaria as críticas após eliminação no torneio continental.

A questão é que Völler começou muito bem seu trabalho, mesmo sem experiências anteriores como treinador. Estreou goleando a Espanha por 4 a 1 em amistoso. Já na abertura das Eliminatórias à Copa de 2002, a Alemanha derrotou a Grécia por 2 a 0, antes de superar a Inglaterra por 1 a 0 em Wembley, naquele que foi o último jogo antes da demolição do estádio original. Naquele mesmo momento, Christoph Daum se envolveu em um escândalo por uso de cocaína. O técnico perdeu seu pré-contrato com a Mannschaft e também deixaria o Leverkusen. Völler foi efetivado na seleção e ainda dirigiu o clube de maneira interina.

A sequência da passagem de Völler pelo comando técnico da seleção não seria tão tranquila. O time acumulou seus tropeços e se complicaria nas Eliminatórias. Além de dois empates com a Finlândia, a equipe sofreu a vingança da Inglaterra no Estádio Olímpico de Munique, com a histórica goleada por 5 a 1 comandada por Michael Owen. Durante aquele jogo, o pai de Rudi ainda sofreu um ataque cardíaco e o treinador precisou voltar às pressas para Hanau, onde acompanhou a recuperação do idoso. Kurt Völler pôde ver seu filho na quarta Copa, após a classificação na repescagem contra a Ucrânia.

Aquela geração da Alemanha estava longe de ser brilhante e ainda sofreu com desfalques, a exemplo de Sebastian Deisler e Mehmet Scholl. Apesar disso, Völler conseguiu transformar um time desacreditado em competitivo. Construiu uma boa relação com os jogadores, através de seu jeito afável, e também possuía uma boa visão de jogo para mexer na equipe conforme as partidas. Escorada na fase monstruosa de Oliver Kahn, a Mannschaft se beneficiou com a queda de favoritos e o caminho facilitado no Mundial de 2002. Alcançou a final contra o Brasil, mas sucumbiu à redenção de Ronaldo em Yokohama. Nada que atrapalhasse a consideração por Völler, ainda maior após superar as expectativas naquela Copa.

“Nosso segredo, como sempre para a seleção alemã, era sermos incrivelmente bem organizados. Também foi importante jogar a repescagem, porque os jogos contra a Ucrânia definitivamente nos uniram. Ficamos mais fortes e fomos à Copa com um ótimo espírito de equipe. Não jogamos um futebol maravilhoso no Mundial, mas tivemos um goleiro incrível em Kahn e Ballack, que sempre marcou gols no momento certo. Éramos azarões contra o Brasil e tivemos algumas boas chances quando o placar estava zerado. Mas você sabe como é o futebol: eles foram o melhor time durante o Mundial e mereceram o título”, analisaria, à FourFourTwo, cinco anos depois.

Völler permaneceu à frente da Alemanha até a Euro 2004. A classificação ao torneio já tinha sido turbulenta, sobretudo após um empate contra a Islândia. Questionado pelo tropeço, o treinador teve um raro momento de fúria durante uma mesa redonda na TV e deixou um clássico ao jornalismo esportivo alemão. Já na etapa final da competição, os alemães sequer venceram durante a fase de grupos, com direito a um empate contra a irrisória Letônia. O veterano deixou o cargo depois disso, sem investir na carreira como treinador. Até aceitou um convite da Roma em 2004, mas saiu após cinco partidas, sem se entender com as estrelas do elenco. Em 2005, dirigiu o Leverkusen interinamente por sete jogos.

Völler ainda é visto com frequência na BayArena. Afinal, em janeiro de 2005 ele recobrou o seu posto como diretor esportivo, completando 13 anos no cargo. Teve papel fundamental para moldar a filosofia do clube, com um futebol costumeiramente ofensivo e apostas em jovens promessas. Já em 2018, Völler subiu de posição e se tornou chefe-executivo dos Aspirinas. Apesar do primeiro amor no Kickers Offenbach e da idolatria no Werder Bremen, o ex-atacante coloca o Leverkusen como sua principal paixão na Bundesliga – ainda que em seu grande coração caiba a Roma. Deve permanecer mais alguns anos à frente do time alemão, contribuindo com sua vasta vivência. E certamente seguirá aplaudido por outras torcidas na Alemanha, que reconhecem sua história e não se acanham ao chamá-lo também de ídolo. O carisma fala por si.