A seleção brasileira de 1982 costuma ser celebrada como uma das melhores da história, ao menos no papel. E são mesmo poucos os elencos tão talentosos quanto aquele convocado por Telê Santana. Entre os titulares, claro, mas também no banco de reservas. O camisa 19 daquele time era Renato. Revelação do Guarani, ídolo do São Paulo e do Atlético Mineiro. Substituto de Zico, acabou não entrando em campo no Mundial da Espanha. Mas a mera presença no grupo, companheiro de quarto de Sócrates, indica o nível do talentoso meia-atacante. Ao longo de uma década, o “Pé Murcho” foi considerado um dos jogadores mais técnicos do futebol brasileiro, com 25 partidas disputadas pela Seleção. Nome histórico, que merece as reverências em seu aniversário de 60 anos.

Renato nasceu na cidade de Morungaba, próxima a Campinas, e começou a desenvolver sua habilidade no futebol de salão. Quando tinha 16 anos, tentou a sorte no Palmeiras, seu time de coração, mas não passou nas peneiras. Seu destino mudou pouco depois, quando recebeu o convite de Adaílton Ladeira para se juntar aos juvenis do Guarani. A partir de então, precisou de meses para se tornar um fenômeno. Aos 18 anos, já se destacava nos profissionais, apontado como uma das principais revelações do Campeonato Brasileiro. Justamente o torneio que eternizaria seu nome entre os célebres campeões.

Mesmo jovem, Renato se transformava em uma das referências do Guarani. E viveu grandes momentos em 1978, sob as ordens de Carlos Alberto Silva. Ao lado de Zé Carlos e Zenon, formava uma sublime trinca no meio de campo do Bugre. Junto com Careca, era um dos jovens que abrilhantavam a sensação do Brasileirão. O meia teve papel fundamental naquela conquista. Abriu a vitória cheia de simbolismo contra o Internacional, no Beira-Rio, por 3 a 0. Depois, deixou sua marca também nas quartas de final e nas semifinais da competição. Sagrou-se campeão, parte do primeiro time do interior do Brasil (e, ainda hoje, o único) a registrar o feito. Foram 10 gols naquela campanha, só menos que Careca e Zenon.

O bom momento no Guarani levou Renato à seleção brasileira em 1979, convocado por Cláudio Coutinho. Integrou o elenco que disputou a Copa América daquele ano. Na equipe nacional, aliás, é que ganhou o apelido que serviria de referência: “pé murcho”, por conta do chute fraco, dificultado pelo pé de tamanho 43 e pela passagem meteórica pelas categorias de base, sem aprimorar o fundamento. O batismo oferecido por Sócrates não agradava o meia, que, em contrapartida, reconhecia a deficiência. Não à toa, passou a treinar intensamente suas finalizações, com cerca de 300 arremates por dia. Empenho que resultaria em muitos gols.

No primeiro semestre de 1980, Renato acabou levado pelo São Paulo, acompanhando Carlos Alberto Silva. Logo conquistou a idolatria da torcida no Morumbi, agora servindo Serginho no ataque. E o sucesso não demorou a vir. Renato teve grandes atuações na conquista do Campeonato Paulista. Era considerado por Pepe, técnico do Santos, adversário na final, como a peça-chave dos tricolores. Provou isso dentro de campo, com o passe para que Chulapa sacramentasse o título. Já no ano seguinte, o bicampeonato estadual contou também com gol do Pé Murcho diante da Ponte Preta.

renato

A fase no São Paulo foi a melhor da carreira de Renato. O apelido cada vez menos fazia sentido para o meia. Assim, se firmou na Seleção com Telê Santana. Tornou-se nome corriqueiro nas convocações até 1983, também sob as ordens de Carlos Alberto Parreira. Teve a honra de fazer parte do grupo no Mundial de 1982, além de também disputar a Copa América de 1983, titular no meio-campo.

O craque tricolor permaneceu no São Paulo até 1984, vendido ao Botafogo durante reformulação encabeçada por Cilinho. Sua passagem pelo Rio de Janeiro, contudo, não foi boa. O renascimento começou a partir de 1986, negociado com o Atlético Mineiro. E o Pé Murcho também mereceu a adoração da massa do Galo, vivendo fases de artilheiro. Conquistou três títulos estaduais em Belo Horizonte. Já o momento de maior destaque aconteceu na Copa União de 1987. Jogando mais à frente, no ataque, Renato brilhou na ótima campanha do time de Telê Santana. Caiu na semifinal para o Flamengo, é verdade. Mas acabou reconhecido como um dos melhores da competição, ao receber a Bola de Prata da Revista Placar e ganhar as últimas convocações à Seleção, depois de quatro anos de ausência, participando de amistosos sob as ordens do mestre Carlos Alberto Silva.

Renato ficou no Atlético até 1989, quando foi desbravar novas fronteiras no Japão. E o sucesso às vésperas do advento da J-League aconteceu naturalmente. Ele levou o Nissan Motors, atual Yokohama F. Marinos, ao título do Campeonato Japonês – ainda como artilheiro e eleito para a seleção do torneio. Permaneceu lá até 1992, disputando a temporada inaugural da J-League pelo Kashiwa Reysol. Veteraníssimo, retornou ao Brasil para defender ainda a Ponte Preta e o Taubaté, onde se aposentou.

“Renato é inteligente, tem boa visão de jogo, ótima colocação e muita habilidade”, avaliava Telê Santana, à Revista Placar, em novembro de 1987. Os dribles e os passes sempre foram trunfos do meia-atacante, que unia isso a uma capacidade atlética invejável, de quem corria o campo todo incansavelmente. E evoluiu ainda mais quando colocou o seu “pé murcho” na forma. Aliás, murcho ou não, seu pé nem sempre era problema para marcar muitos gols. Bastava ao jogador romper a defesa até dentro da área. Algo que, para um talento como ele, não era tão difícil assim.