Enquanto existiu, a União Soviética manteve uma forte identidade como seleção nacional. Era o time “científico”, de jogadores muito bem treinados e preparados fisicamente para potencializar seu talento. E que quase sempre começava sua escalação com um goleiro competentíssimo sob as traves. Lev Yashin desbravou uma nova dimensão aos seus colegas de profissão, muito graças às inovações e ao trabalho árduo no dia a dia. Seu herdeiro não apareceu imediatamente após a aposentadoria do Aranha Negra, mas reforçou o respeito aos arqueiros soviéticos. Rinat Dasaev ganhou o apelido de ‘Cortina de Ferro’ por aquilo que fazia em sua área, um verdadeiro ginasta de luvas. Para muitos, o melhor do mundo em sua posição na década de 1980, unindo frieza, agilidade e segurança. Gigante que completou 60 anos de idade nesta terça, devidamente reverenciado por tudo o que ofereceu ao futebol.

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A carreira de Dasaev como goleiro é daquelas que contam com uma forcinha do acaso para dar certo. Nascido em Astrakhan, no delta do Volga, o garoto sempre gostou de praticar esportes. Começou nas piscinas, se destacando na natação, até que uma lesão na mão o levasse ao futebol. Por ser o mais baixo da turma, sempre brincava como goleiro nos bate-bolas da vizinhança – inclusive no inverno, quando a neve caía e o hóquei era o lazer mais viável. Já na adolescência, por influência do pai, passou a treinar no principal time da região, o Volgar. Era atacante. Num dia em que chegou mais cedo ao treino, resolveu suprir a ausência momentânea dos arqueiros. Agradou tanto o técnico que ficou. E a natureza deu sua forcinha, com o estirão do menino mirrado quando tinha 14 anos, crescendo 14 centímetros em 12 meses. Neste sentido, teve ajuda dos exercícios físicos elaborados pelo próprio pai, que se inspirou na ginástica e desenvolveu diversas aptidões do futuro craque.

Aos 18 anos, Dasaev disputou as suas primeiras partidas na equipe principal do Volgar. Mesmo tão jovem, tornou-se um dos protagonistas do clube na segunda divisão do Campeonato Soviético. Fechou o gol em diversos jogos, inclusive contra o Spartak Moscou. O clube mais popular do país foi rebaixado em 1976 e tentava se reconstruir na segundona. Viu no promissor goleiro um nome para o futuro. A ida do técnico do Volgar, Fyodor Novikov, à comissão técnica dos moscovitas facilitou o negócio. Na capital, o novato seria treinado por Konstantin Beskov, que trabalhara com os dois melhores goleiros da história soviética até então: em seus tempos de atacante, jogou com o ‘Tigre’ Alexei Khomich e com Lev Yashin. Posteriormente, o Aranha Negra seria dirigido por Beskov em diferentes momentos da carreira, tanto na seleção soviética quanto no Dynamo Moscou.

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Durante os primeiros meses no Spartak, Dasaev precisou disputar posição com Aleksandr Prokhorov, goleiro experiente, com passagens pela seleção e medalhista de bronze nos Jogos Olímpicos de 1976. Não demorou para que o jovem ganhasse a titularidade. Pelos alvirrubros, aliás, é que o novato aprimorou o seu estilo de jogo. Treinando intensamente sob o auxílio de Beskov (que sabia um bocado do ofício por sua convivência com Khomich e Yashin) e inspirado nos métodos dos melhores arqueiros do mundo, desenvolveu a sua própria cartilha. Era sóbrio e, ao mesmo tempo, arrojado. Saía muito bem do gol, com velocidade, seguro nas intervenções pelo alto e atacando a bola nos pés dos adversários. Apresentava uma capacidade física acima do comum, por sua envergadura e potência, às vezes até chegando antes dos chutes. Também tinha enorme qualidade para iniciar as jogadas de ataque com seus precisos lançamentos com as mãos. E com frequência executava pontes perfeitas para agarrar a bola, combinando agilidade e elasticidade. Era o ‘Gato’, como costumavam chamá-lo no país.

Em 1978, o Spartak estava de volta à primeira divisão. E, por mais que o nível competitivo da liga fosse alto, com o Dynamo Kiev atravessando excelente momento e o Dinamo Tbilisi servindo de base à seleção, Dasaev ajudou os moscovitas a retornarem ao topo. Em 1979, com a defesa menos vazada e inúmeros milagres do camisa 1, os alvirrubros reconquistaram o Campeonato Soviético depois de uma década em jejum. Naquela temporada, o jovem de 22 anos também ganharia o prêmio de melhor arqueiro do país, algo que se repetiria outras oito vezes nos nove anos seguintes – a exceção aconteceu em 1984. Além disso, também recebeu suas primeiras convocações à seleção adulta a partir de então.

A estreia de Dasaev em uma competição internacional aconteceu nos Jogos Olímpicos de 1980, em Moscou. Apesar do favoritismo dos anfitriões, eles acabaram surpreendidos pela Alemanha Oriental nas semifinais, precisando se contentar com o bronze. Naquele mesmo ano, o goleiro fez uma de suas partidas mais emblemáticas pela URSS. Dois dias depois de seu aniversário de 23 anos, visitou o Brasil, em amistoso comemorativo pelas três décadas do Maracanã. Fez boas defesas e permitiu a virada dos soviéticos por 2 a 1, em cima do time que tinha Zico, Sócrates, Nelinho, Júnior, Cerezo, Zé Sérgio, Éder, Raul e outros craques. Foi a primeira derrota de Telê Santana à frente da equipe e uma das duas únicas até o Sarriá.

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Nas Eliminatórias, Dasaev sofreria míseros dois gols na campanha que levou os soviéticos de volta à Copa do Mundo pela primeira vez desde 1970. Lideraram com sobras uma chave delicada, que ainda contava com Tchecoslováquia, Gales, Turquia e Islândia. Já no Mundial da Espanha, o reencontro com os brasileiros aconteceu logo na estreia. E a grande atuação do goleiro magnífico foi em vão, diante dos chutaços de Sócrates e Éder nos minutos finais. Apesar da derrota, os soviéticos passaram no segundo lugar do grupo com grandes atuações de Dasaev. Contra a Escócia, inclusive, salvou uma cabeçada à queima-roupa que foi apontada pela Fifa como segunda maior defesa da história das Copas, atrás apenas da famosa arte de Gordon Banks. Na segunda fase de grupos, com o arqueiro voando, a URSS venceu a Bélgica e empatou com a Polônia, mas acabou eliminada por ter feito menos gols que os poloneses contra os belgas. O goleiro ao menos teve o seu talento reconhecido, ganhando o prêmio de melhor jogador do país naquele ano.

Absoluto na seleção, Dasaev não teve a mesma felicidade rumo à Euro de 1984, mas deu a volta por cima nas Eliminatórias da Copa de 1986, com mais uma classificação, avançando ao lado da incensada Dinamarca. No Mundial do México, os soviéticos dominaram uma chave complicada, especialmente pela concorrência de França e Hungria –  com novas exibições de destaque do camisa 1. Todavia, caíram logo nas oitavas de final, em um dos jogos mais eletrizantes da história das Copas. Com uma bela ajuda da arbitragem, o bom time da Bélgica venceu por 4 a 3. As enormes expectativas sobre o time de Valeri Lobanovsky caíam por terra. No ano seguinte, o goleiro teria ao menos uma felicidade no Campeonato Soviético, capitaneando o Spartak a mais uma conquista, depois de cinco vice-campeonatos nas sete edições anteriores da liga.

A única participação de Dasaev na Eurocopa veio em 1988, deixando França e Alemanha Oriental pelo caminho nas Eliminatórias. O goleiro cresceu demais na fase final da competição, colecionando milagres na vitória por 1 a 0 sobre a Holanda e garantindo a liderança dos soviéticos em seu grupo. Depois, nas semifinais, eliminaram a Itália. Mas aí veio a decisão em Munique e o lance mais famoso da carreira de Dasaev. Uma bola que ele acabaria por aplaudir, no chute fantástico de Marco van Basten que ratificou o triunfo da Holanda por 2 a 0. A dúvida se poderia ter feito melhor naquele lance impossível permeia muitas das entrevistas do veterano. Porém, nada que questionasse as suas qualidades sob as traves. Não à toa, ao final daquele ano, acabou eleito pela IFFHS como melhor arqueiro do mundo, prêmio criado em 1987 e de grande prestígio na época. Também teve sua sétima e última aparição na lista de votados à Bola de Ouro. De 1982 a 1988, foi mencionado em todas as edições do prêmio. Viveu seu melhor desempenho em 1982, sexto colocado e melhor entre os goleiros, à frente até de Dino Zoff.

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O ano de 1988 também representou um passo rumo ao fim da carreira de Dasaev. Naquele momento, o Campeonato Soviético já tinha abraçado o profissionalismo e o mercado local se abriu às transferências. Assim, a negociação do craque foi irremediável. O Sevilla investiu alto no camisa 1 e ele se mudou à Andaluzia aos 31 anos, em novembro de 1988 – recebido por milhares de torcedores em seu desembarque. Despediu-se do Spartak como um dos maiores ídolos da história, com mais de 300 partidas disputadas apenas pela liga e recordista em jogos portando a braçadeira de capitão. Além disso, somou 185 aparições sem sofrer gols pelo clube, número bastante significativo. Uma pena que os seus sucessos tenham se limitado às fronteiras da União Soviética. Ao longo daqueles anos, o Spartak não teve muita felicidade em suas campanhas continentais. Nas duas aparições na Copa dos Campeões, acabou eliminado pelo Real Madrid nas quartas de final (1979/80) e pelo Steaua Bucareste nas oitavas (1988/89).

Apesar das dificuldades de adaptação, Dasaev viveu alguns bons momentos no Sevilla. Após uma temporada de meio de tabela no Campeonato Espanhol, ajudou o time a se classificar à Copa da Uefa em 1989/90, terminando na sexta colocação do campeonato – a melhor campanha dos últimos sete anos. Bons tempos na Andaluzia, em equipe que também contava com Toni Polster, Pablo Bengoechea e Manolo Jiménez. Além disso, o veterano participou de toda a classificação da União Soviética à Copa do Mundo de 1990, sua terceira e terceira consecutiva do país. Contudo, após uma estreia ruim diante da Romênia, em que falhou no primeiro tento de Marius Lacatus, o capitão entrou em rota de colisão com Lobanovsky. Relegado ao banco de reservas, viu o time cair na primeira fase. Encerrava sua passagem pela seleção nacional com 91 partidas. Foi o segundo jogador que mais defendeu os soviéticos, atrás apenas de Oleg Blokhin.

Aquele se marcava como o momento de declínio do craque. De volta ao Sevilla, Dasaev sofreu um acidente de automóvel e fraturou a mão. Passou a temporada inteira no banco de reservas, com a chegada do jovem Juan Carlos Unzué e a ascensão de seu substituto, Monchi. A limitação a três estrangeiros em campo também minava o espaço do soviético, principalmente após a contratação de Iván Zamorano. Assim, ao término de seu contrato, de maneira silenciosa, a Cortina de Ferro encerrou a sua carreira em 1991. Permaneceria na Andaluzia, trabalhando como técnico da base e treinador de goleiros dos rojiblancos. Aliás, transmitir seus conhecimentos sob as traves continuou sendo a arte de Dasaev, retornando ao Spartak nos últimos anos. Hoje, segue nos bastidores dos moscovitas e acompanha de perto o retorno de seu antigo clube às glórias. Além disso, é figura recorrente nos eventos relacionados à Copa do Mundo de 2018. Nada mais justo, a quem por tantos anos foi idolatrado na seleção.