Os 60 anos da Eurocopa: A história completa, parte IV (2008-2016)

Por Felipe dos Santos Souza e Leandro Stein

Nesta sexta, encerrando a série, a quarta parte do especial recordando a história da Eurocopa, na semana em que o torneio completa 60 anos. Para conferir a primeira parte, você pode acessar por este link. Já a segunda parte está disponível aqui. Por fim, aqui está a terceira parte.

Áustria/Suíça 2008: E era só o começo…

Novamente, dois países sediariam uma Eurocopa. No entanto, as seleções deles estavam distantes de seus melhores momentos. No grupo A, a Suíça pouco evoluíra em relação à equipe da Copa de 2006: embora não exatamente envelhecida, não vivia boa fase, e tinha possíveis revelações apenas em Gelson Fernandes e Gökhan Inler. Pior: enfrentaria a República Tcheca, que ainda possuía parte da base que fizera fama na década, como Cech, Grygera, Ujfalusi, Rozehnal, Jankulovski e Koller. Mais ainda, teria pela frente Portugal, ainda se aproveitando da motivação que Luiz Felipe Scolari incutia como poucos num elenco que não tinha mais Figo, mas contava com Deco, Petit, Nani, o ainda promissor João Moutinho… a comandar todos, Cristiano Ronaldo, então na ponta dos cascos.

Poucos prestaram atenção na Turquia. Justificável: de volta a uma grande competição, após a Copa de 2002, o time de Fatih Terim tinha até veteranos, como Rustu e Emre Belozoglu, mas contava principalmente com atletas que não eram conhecidos, até poucos anos antes: Hamit Altintop, Arda Turan, Colin Kazim-Richards, Semih Senturk, Nihat Kahveci… parecia uma equipe razoável, mas verde demais para enfrentar uma Eurocopa. E a primeira rodada aparentou comprovar tudo isso: os tchecos fizeram 1 a 0 na Suíça, na Basileia, e Portugal passou pelos turcos sem dificuldade (2 a 0), em Genebra.

No entanto, as coisas começaram a mudar na rodada posterior: com Deco e Cristiano Ronaldo como destaques, em Genebra, os Tugas despacharam a República Tcheca (3 a 1), enquanto a Basileia testemunhou a Turquia sacramentar a eliminação da Suíça (2 a 1). Mas a última rodada já daria mostras da emoção que aquela Euro teria: o St. Jakob-Park, da Basileia, viu uma partida empolgante. Turcos e tchecos disputavam a segunda vaga às quartas de final. Com 2 a 0 no placar (Koller e Plasil), o time de Karel Bruckner parecia destinado a eliminar os adversários.

Só que o time “verde” se revelou maduro para empreender uma virada histórica, nos últimos quinze minutos finais de jogo. Arda Turan fez o primeiro, aos 30 minutos da etapa final. E Nihat Kahveci foi o herói. Aos 42, empatou, aproveitando falha de Cech num cruzamento. E, aos 44 do 2º, o atacante virou o jogo e deu a classificação à Turquia. Ainda houve tempo para a expulsão do goleiro Volkan, nos acréscimos. Com as três alterações já feitas, o atacante Tuncay Sanli teve de ir para o gol. E, enfim, a Turquia assegurou a vaga, de modo eletrizante. No outro jogo, a Suíça se despediu da torcida fazendo 2 a 0 sobre os já classificados portugueses.

No grupo B, o outro anfitrião da Euro trazia ainda mais desconfiança sobre si. Alguns torcedores, mais apocalípticos, defenderam que a Áustria sequer deveria participar da primeira Eurocopa de sua história. Os destaques do time treinado por Josef Hickersberger eram poucos: o goleiro Alex Manninger e o meia Andreas Ivanschitz. E um dos adversários do grupo seria a Alemanha. Considerado favorito ao título após a boa Copa que fizera em 2006, o Nationalelf era constituído pela base de dois anos antes: Lehmann, Lahm, Schweinsteiger, Ballack, Klose, Podolski… como outros integrantes do grupo, a Croácia, que contava com uma equipe elogiada pela experiência (Simunic, os irmãos Robert e Niko Kovac, Srna, Olic), mas que tinha mais esperança em Luka Modric. E a Polônia, que era vista com ainda mais desconfiança do que os anfitriões austríacos.

Na estreia, em Klagenfurt, a Alemanha fez 2 a 0 na Polônia, com Podolski fazendo os dois. Em Viena, a Áustria até teve desempenho honroso, mas um pênalti convertido por Modric, logo no início do jogo, resolveu o jogo a favor da Croácia. Que protagonizaria, na segunda rodada, a grande surpresa: com nova ótima atuação de Modric, gols de Srna e Olic, venceu categoricamente a Alemanha, fazendo 2 a 1 e garantindo a ida às quartas de final.

Áustria e Polônia morriam juntas, com o 1 a 1 em Viena, que entrou para a história apenas por ver o mais velho jogador a marcar numa Eurocopa: Ivica Vastic, que tinha 38 anos e 257 dias, remanescente da participação austríaca na Copa de 1998, empatou aquele jogo, com pênalti nos acréscimos do segundo tempo. Se serve de consolo a ambas, ofereceram alguma dificuldade nos jogos finais. A Alemanha só garantiu vaga nas quartas após fazer difícil 1 a 0 na anfitriã, que se despediu com mais honra do que se pensava. A Croácia, por sua vez, terminou com a terceira vitória em três jogos: outro 1 a 0 na Polônia.

O grupo C era visto, indubitavelmente, como o Grupo da Morte: Itália e França, simplesmente campeão e vice mundial à época, no mesmo grupo. A Holanda até poderia exercer alguma ameaça. Tinha time para isso: Van Nistelrooy, Robben, Sneijder, Van Persie… mas não tinha constância, regularidade. A Azzurra tinha técnico diferente (Roberto Donadoni), mas a base era a que conquistara a quarta Copa do Mundo, em 2006: Buffon, Zambrotta, Pirlo, Gattuso, Toni… já a França não tinha mais Zidane. Grande e sentida perda. Mas os Bleus de Raymond Domenech, muito questionado, tinham Malouda, Ribéry, Anelka, Makélélé, Thuram, as revelações Karim Benzema e Samir Nasri… deveriam passar. Com isso, o papel de coadjuvante ficava, até por eliminação, à Romênia, que esperava muito de Adrian Mutu, com Christian Chivu como grande coadjuvante.

No entanto, o que ocorreu naquela chave deverá ser resumido por uma espirituosa frase de Arjen Robben: “Não disseram que esse era o Grupo da Morte? Então, estamos matando todo mundo.” Contando com boas atuações de Sneijder e Van Nistelrooy, e alguma sorte ao ver alterações de última hora darem certo (o 4-2-3-1, novo esquema da equipe, obteve êxito; Engelaar, experimentado ao lado de Nigel de Jong, entrou bem no time; Boulahrouz, convocado às pressas no lugar do cortado Babel, deu mais força à defesa), a Holanda voou no grupo. Contando com um contra-ataque rapidíssimo e letal como principal arma, e com Van der Sar esplendoroso na defesa, o time destroçou Itália (3 a 0), na estreia, e França (4 a 1), na Basileia. De quebra, mesmo jogando com time reserva, ainda tratou de despachar a Romênia (2 a 0), fechando a primeira fase como favorita quase unânime ao título.

Restava ver, então, quem seria o outro classificado às quartas de final. E a Romênia ofereceu grandes dificuldades a França e Itália, em Zurique. Com a primeira, um empate insosso sem gols; com a segunda, um tenso 1 a 1 (que poderia até ter eliminado os italianos, não tivesse Buffon defendido um pênalti de Mutu). Restou, então, ver Bleus e Azzurra jogarem a sorte na partida direta. E os italianos se valeram do nervosismo visível dos franceses para abrir o placar: aos 25 minutos do primeiro tempo, Abidal derrubou Toni na área, foi expulso, e o pênalti foi marcado. Pirlo fez 1 a 0. Na etapa final, bastou uma falta cobrada por De Rossi desviar na zaga francesa, e estava feito o 2 a 0 que levou os azzurri às quartas, iniciando, de certa forma, a grande crise que a seleção francesa viveria.

No grupo D, a Espanha era vista como o time a ser batido. Pelo menos, ali, já que a falta de firmeza nos momentos decisivos pesava fortemente sobre os ombros do time de Luis Aragonés. O meio-campo era elogiável, com Xavi, Iniesta e o brasileiro naturalizado Marcos Senna deixando Cesc Fàbregas no banco; Fernando Torres e David Villa eram dos grandes atacantes do mundo à época, bem como Iker Casillas o era, no gol. Não seria necessário muito para sobrepujar uma Grécia ainda vivendo da memória do mágico 2004, uma Suécia mediana e uma Rússia que ainda era incógnita.

Pelo menos naquele primeiro momento, a incógnita virou certeza: a Rússia era um time que daria vexame. Pois caiu por 4 a 1 para os espanhóis, em Innsbruck, enquanto a Suécia, ostentando a experiência (Ljungberg, Anders Svensson, Henrik Larsson) e a habilidade (Ibrahimovic), expôs a decadência grega, aplicando 2 a 0 nos helênicos, em Salzburg. Na segunda rodada, os espanhóis se garantiram nas quartas, fazendo 2 a 1 nos suecos – com Villa marcando o gol da vitória aos 47 do 2º tempo. E a Rússia mostrou como o julgamento inicial era precipitado, fazendo 1 a 0 na Grécia.

E por que o julgamento era precipitado? Porque, exatamente naquele 2008, o Zenit vencera a Copa da Uefa. Porque alguns jogadores do time comandado pelo holandês Guus Hiddink, como o goleiro Igor Akinfeev, o meia Konstantin Zyryanov e o atacante Roman Pavlyuchenko, eram elogiados Europa afora. E, principalmente, porque o grande jogador daquela equipe, Andrey Arshavin, estava suspenso nas duas primeiras partidas. A suspensão acabou, e Arshavin pôde voltar contra a Suécia, no confronto direto para definir quem iria às quartas junto dos espanhóis. Bastou: em Innsbruck, ele seria um dos destaques do categórico 2 a 0 sobre o time de Lars Lagerback, fazendo um dos gols (o outro foi de Pavlyuchenko) e sendo o cérebro, no meio-campo. No outro jogo, a Espanha foi de time misto, mas venceu a Grécia, fazendo 2 a 1.

Os dois primeiros jogos nas quartas de final foram diferentes. Com dois gols em quatro minutos, no primeiro tempo (Schweinsteiger, aos 22, e Klose, aos 26), a Alemanha encaminhou bem sua classificação, contra Portugal, na Basileia. Ainda antes do intervalo, Nuno Gomes deu esperanças à seleção das Quinas, diminuindo. Só que o gol de Ballack, aos 16 minutos da etapa final, praticamente encerrou o assunto. Helder Postiga ainda diminuiu e deu alguma emoção, aos 42 minutos, só que o time português dependia demais do coração e da técnica de Cristiano Ronaldo para virar o jogo em poucos minutos. E os alemães retornaram às semifinais, após 12 anos.

Já a partida que definiu o adversário germânico, em Viena, poderia ter sido apagada durante 118 minutos. Um 0 a 0 truncado no tempo normal e em boa parte da prorrogação. Até que, aos 14 minutos da segunda parte do tempo extra, Ivan Klasnic fez 1 a 0. Croácia classificada? Não. Porque a Turquia já aprendera a não desistir, após a vaga nas quartas ter sido arrancada a fórceps. E foi premiada com um milagre ainda maior: nos acréscimos, aos 17 minutos, Semih Senturk empatou inacreditavelmente a partida, levando a definição aos pênaltis. Neles, o veterano Rustu, substituindo o suspenso Volkan no gol, defendeu três cobranças. E o 3 a 1 levou os turcos às semifinais. Tão incrível quanto heroico.

Na Basileia, esperava-se novo show holandês, contra a Rússia. Mas dois fatores não eram previstos. O primeiro afetou o espírito holandês: o grupo unido foi atingido em cheio pela morte de Anissa, filha de Boulahrouz, que nascera prematuramente durante a Euro. E o segundo foi o fato de Guus Hiddink saber como seus compatriotas jogavam. E teve a solução perfeita: tirar espaço para os contra-ataques da Oranje, na defesa, e impor velocidade para pegar a lenta defesa holandesa, no ataque. Bastou: contando com performances ótimas da dupla Pavlyuchenko e Arshavin, a Rússia fez 1 a 0, e não fez mais porque Van der Sar defendeu várias bolas. E porque Van Nistelrooy, no abafa, empatou, aos 42 minutos do segundo tempo. Mas, na prorrogação, não houve jeito de evitar: Torbinski fez 2 a 1, e Arshavin coroou sua performance fazendo o terceiro e definindo o jogo. Levando a Holanda a provar do próprio veneno, a Rússia protagonizava uma brilhante surpresa.

E, novamente em Viena, Espanha e Itália fizeram uma partida muito estudada, com poucos lances de emoção. Não impressiona, portanto, que ela tenha ido para os pênaltis. E neles se deu o triunfo que mudou, talvez, o destino de uma geração, o destino de uma seleção: Casillas defendeu dois pênaltis, e a Espanha fez 4 a 2 na Itália, que ficou à beira de dar prosseguimento à sofrida campanha que fazia. Tendo vencido os italianos pela primeira vez desde 1920 (!), a Fúria começava a crer que podia chegar.

E a crença aumentou na semifinal. Cansada pelo ritmo alucinante que impusera contra a Holanda, a Rússia fez pouco mais do que assistir à ótima performance espanhola em Viena. No segundo tempo, o time construiu uma vantagem categórica de 3 a 0. Xavi, Iniesta e Marcos Senna ditaram o ritmo da partida como queriam, enquanto Villa (e Daniel Güiza, reserva muito utilizado) atormentavam, no ataque. Passar à primeira final de um torneio entre seleções desde 1964 ampliou a autoconfiança daquela geração – que já parecia promissora na Copa de 2006, diga-se de passagem.

Na semifinal disputada na Basileia, a Turquia lembrava uma tropa que disputava uma guerra e continuava no campo de batalha, mesmo dizimada. Sofrendo com suspensões e lesões, o banco de reservas contra a Alemanha tinha apenas seis jogadores, descontando-se o goleiro. E, no entanto, quase o time de Fatih Terim conseguiu um novo milagre. Abriu o placar, com Ugur Boral, aos 22 minutos da etapa inicial. Schweinsteiger empatou, aos 26. Mas, no entanto, os turcos ofereciam aos alemães tanta dificuldade quanto a que vários países, mundo afora, tiveram para ver o segundo tempo do jogo: uma tempestade na Suíça fez o sinal de tevê cair por várias vezes. Até que Klose fez 2 a 1, aos 34 minutos. Tudo acabado? Não: o espírito de luta inacreditável levou ao empate, com Semih Senturk, aos 41. Porém, foi a vez da Alemanha assumir o papel de estraga-prazeres que tantas vezes incorporou: no último minuto, Philipp Lahm fez 3 a 2. Todos felizes: Alemanha na sexta final de Euro em sua história, e Turquia orgulhosa pela participação algo histórica.

Só que, na decisão, quem exibiu calma foi a Espanha. Ainda que o jogo em Viena tenha sido muito tenso, o time mostrou, novamente, um meio-campo com atuação quase perfeita. Xavi, Iniesta e Fàbregas exibiam capacidade de armação incrível, e ainda ajudavam Marcos Senna, perfeito, na marcação. Quando as coisas falhavam, Sergio Ramos e Puyol mostraram raça na defesa. Por sorte espanhola, poucas vezes houve erros na frente. Tanto é que, aos 33 minutos do primeiro tempo, Fernando Torres recebeu a bola livre e tocou na saída de Lehmann para abrir o placar.

A Alemanha, aos poucos, foi indo mais para o ataque. Aos poucos, foi ficando mais nervosa. Aos poucos, foi vendo como a Espanha estava madura para ganhar o título que acabou vencendo, enfim, acabando com décadas de frustração. A conquista da Eurocopa foi a primeira mostra da geração que levaria a seleção a títulos nunca dantes ganhos.

Polônia/Ucrânia 2012: A fúria volta a reinar

A fórmula se repetia e mais uma vez a Eurocopa seria disputada em dois países. Polônia e Ucrânia levavam o torneio para o leste do continente. Seria uma organização com seus percalços, considerando os atrasos em algumas obras e mesmo o desafio logístico, já que os ucranianos não faziam parte da União Europeia. Discussões políticas sobre o governo da Ucrânia também gerariam boicote de alguns estadistas, insatisfeitos com o tratamento dos direitos humanos no país. Nas ruas, protestos do grupo Femen.

A anfitriã Polônia encabeçava o Grupo A, com uma equipe que se valia do bom momento do Borussia Dortmund, mas não era de todo expressiva. Kuba, Piszczek e o ainda ascendente Lewandowski lideravam o time, que ainda contava com o promissor goleiro Szczesny e o tarimbado zagueiro Wasilewski, além de Obraniak na armação. No restante, a chave reunia as sensações de outras edições recentes da Eurocopa.

A Grécia de Fernando Santos ainda contava com alguns remanescentes de 2004, como o capitão Karagounis e Katsouranis, seu parceiro no meio-campo. Também se valia de gente um pouco mais jovem como Torosidis, Sokratis e Samaras, além do artilheiro Gekas. Mas não era tão forte quanto nos tempos de Otto Rehhagel. A Rússia ainda tentaria repetir o impacto de 2008 com um time que seguia com os mesmos protagonistas, a exemplo de Arshavin, Pavlyuchenko, Akinfeev, Zhirkov e Zyryanov, adicionando gente do calibre de Kerzhakov e Denisov. E a República Tcheca ainda tinha Petr Cech no auge, mas Rosicky perseguido pelas lesões e Baros cada vez mais no ostracismo. Plasil seria uma peça importante para organizar o meio.

Logo na abertura, a Euro 2012 teve sua dose de emoção. E não foi dessa vez que a Grécia aprontou na primeira partida, contra a Polônia. Lewandowski abriu o placar de cabeça e a situação melhorou aos anfitriões, quando Sokratis foi expulso no final do primeiro tempo. Já na volta do intervalo, Salpingidis saiu do banco para deixar tudo igual. Mas quando parecia que os poloneses entregariam o resultado a um adversário com 10 homens, um herói inesperado apareceu: o goleiro reserva Tyton. Aos 25, Szczesny cometeu pênalti e foi expulso. Tyton entrou e pegou a cobrança de Karagounis, determinando o empate por 1 a 1. Já a Rússia se mostrava disposta a repetir 2008, goleando a República Tcheca por 4 a 1, com dois gols do meteórico Dzagoev.

Os tchecos se reergueriam no segundo compromisso, batendo a Grécia por 2 a 1. Os dois gols foram anotados logo nos seis primeiros minutos. Rosicky comandou sua equipe. Em contrapartida, a Rússia começava a esfriar, com o empate por 1 a 1 diante da Polônia. E os russos acabaram eliminados na primeira fase da competição.

A Grécia ficou com a vaga graças à vitória por 1 a 0 sobre a Rússia na terceira rodada, com tento do interminável Karagounis. As duas equipes terminaram com quatro pontos e, como confronto direto é o que vale como principal critério de desempate à Uefa, os gregos passaram. O passeio dos russos na abertura não adiantou de nada, enquanto a República Tcheca não só se recuperou, como também acabou com a liderança da chave. Os tchecos despacharam a anfitriã Polônia. Milan Baros definiu o triunfo por 1 a 0.

O Grupo B carregava a pecha de “grupo da morte”. E não poderia ser por menos, com a Holanda saindo do vice mundial em 2010 para se colocar como cabeça de chave. A Oranje preservava seus grandes heróis, com Van Persie artilheiro da Premier League, enquanto Sneijder perdera espaço na Inter e Robben era questionado por falhar na final da Champions com o Bayern. Havia ainda medalhões como Van Bommel, Heitinga e Stekelenburg na espinha dorsal de Bert van Marwijk, além de opções da estirpe de Kuyt, Huntelaar e Van der Vaart.

A Alemanha de Joachim Löw perseguia um troféu à sua excelente geração. Nomes como Özil, Müller e Neuer se viam mais prestigiados ao lado dos tarimbados Lahm, Schweinsteiger e Podolski. Mario Gómez começou no ataque, mas Klose estava à espreita. E outras opções ascendiam, a exemplo de Hummels, Reus, Götze e Kroos. Não era uma equipe totalmente pronta, mas tinha sua força.

Já Portugal de Paulo Bento não tinha ido bem na Copa de 2010 e via uma boa oportunidade de dar a volta por cima. Cristiano Ronaldo era mais aclamado do que nunca por sua fase no Real Madrid. Tinha ao lado escudeiros como Nani, João Moutinho e Raul Meireles. Pepe liderava a zaga lusitana, ao lado de Bruno Alves. Já a Dinamarca corria por fora, outra vez sorteada em grupo duro, em que Christian Eriksen não parecia suficiente para garantir um bom verão a Morten Olsen.

O jogão da primeira rodada ficou por conta do Alemanha x Portugal. A Mannschaft sofreu, mas venceu por 1 a 0. Mario Gómez marcou de cabeça aos 27 do segundo tempo e os alemães deram sorte, com duas bolas dos tugas na trave. Já a Holanda decepcionou. Ou melhor, a Dinamarca surpreendeu: 1 a 0, com um belo gol de Krohn-Dehli. A Oranje teve volume de jogo, mas não eficiência.

A Alemanha se aproximou da classificação ao superar também a Holanda, por 2 a 1. Os alemães fizeram grande primeiro tempo, com dois gols de Gómez, além de grande atuação de Schweinsteiger. A Oranje pressionou no final, mas só descontou, com Van Persie. Portugal se reergueria no outro jogo da rodada com uma emocionante vitória por 3 a 2 sobre a Dinamarca. Abriu dois tentos de vantagem, cedeu o empate com dois tentos de Bendtner a dez minutos do fim e via Ronaldo perder gols feitos – numa noite em que gritos de “Messi” ecoaram nas tribunas. Quem surgiu como salvador foi Silvestre Varela, com o tento da vitória aos 42 do segundo tempo.

Fechando o Grupo B, a Alemanha manteve os 100% de aproveitamento ao fazer sua parte e vencer a Dinamarca por 2 a 1 – poupando parte dos titulares. O interesse, de qualquer forma, ficava ao que acontecia no Portugal e Holanda. Cristiano Ronaldo encerrou a melancólica participação da Oranje, brilhando na virada por 2 a 1. Precisando de uma vitória por dois gols de diferença para avançar, os holandeses até saíram na frente com Van der Vaart. Mas Ronaldo colocou a bola sob os braços e resolveu, com dois gols. O craque dava as caras na Eurocopa.

O Grupo C prometia um favoritismo claro, com Espanha e Itália brigando pela liderança. Campeã da Euro 2008 e da Copa 2010, a Roja estava um passo à frente, claro. Vicente del Bosque mantinha o fortíssimo sistema defensivo, apesar da lesão de Puyol. Piqué e Ramos ocupavam o miolo de zaga, Alba era um lateral esquerdo mais confiável, Casillas mantinha a braçadeira de capitão. No meio, a consistência conhecida com o trio Busquets, Xavi e Xabi Alonso. O que não se resolvia era o ataque. Iniesta e David Silva eram intocáveis nas pontas. Mas, com Villa ausente por contusão e Torres em sua draga, Fàbregas seria improvisado diversas vezes como o falso 9.

A Itália precisava se reerguer da decepção na Copa de 2010 e de novo tinha problemas com escândalo de apostas no país. Dentro de campo, pelo menos, Cesare Prandelli montou uma equipe equilibrada. Não poderia ser diferente, com Buffon no gol, além de um trio defensivo composto por Chiellini, Barzagli e Bonucci – com De Rossi jogando de líbero nas primeiras partidas. Pirlo orquestrava o meio, com a companhia valorosa de Marchisio. Já na frente, os bad boys Balotelli e Cassano eram os favoritos.

Corria por fora a Croácia de Slaven Bilic, já com bons valores representados por Srna, Modric, Rakitic, Perisic e Mandzukic. Eduardo da Silva era outra alternativa no ataque. Ainda não dariam liga naquele momento. E um pouco mais abaixo estava a Irlanda, sob a tutela de Giovanni Trapattoni, com os intermináveis Robbie Keane e Duff emprestando a experiência.

Não seria a primeira rodada a definir o líder. Espanha e Itália estrearam com um jogo movimentado, no qual prevaleceu a igualdade por 1 a 1. A Roja trabalhava os passes, a Azzurra se defendia e contra-atacava. A estratégia italiana deu mais certo e um grande passe de Pirlo a Di Natale rendeu o primeiro gol. O empate, ao menos, não tardou, num chute de Fàbregas. Poderia até rolar a virada, mas Torres perdoou. A liderança ficava com a Croácia, que venceu por 3 a 1 a Irlanda, com dois gols de Mandzukic.

A Espanha começaria a despontar à liderança depois de golear a Irlanda por 4 a 0. Torres ganhou uma chance entre os titulares e correspondeu com dois gols. O domínio foi total, em noite que também teve tentos de Silva e Fàbregas. Pior à Itália, que até contaria com um gol de falta de Pirlo para sair na frente, mas cedeu o empate por 1 a 1 à Croácia, com Mandzukic deixando sua marca na etapa complementar.

Aqueles resultados definiriam o Grupo C. Na última rodada, a Espanha passou aperto contra a Croácia, mas venceu por 1 a 0, com um gol de Jesús Navas no apagar das luzes. A Itália também não foi brilhante, pelo menos garantindo a segunda posição com o triunfo por 2 a 0 sobre a Irlanda. Balotelli saiu do banco e fez um golaço de voleio, dando sua resposta após ser vítima de cânticos racistas contra os croatas.

O Grupo D, por fim, trazia dois favoritos escancarados. Mas não tão confiáveis, especialmente a França, sempre incendiária em seus vestiários. Laurent Blanc era quem domava as rédeas naquela vez. Ribéry, Benzema e Nasri compunham o tridente ofensivo, mas o time não mantinha a mesma qualidade nos outros setores, onde Malouda e Evra surgiam como referências. Lloris usava a braçadeira no gol.

A Inglaterra chegava em turbulência. Fabio Capello pedira demissão meses antes, após a FA tirar a braçadeira de capitão de Terry por caso de racismo. Roy Hodgson assumiu e precisou se virar com a suspensão de Rooney no início da campanha e com o corte de Lampard por lesão. Era um time cheio de jovens, mas nem por isso tão cativante. Nomes como Welbeck e Ashley Young povoavam o 11 inicial. Gerrard e Ashley Cole carregavam as expectativas de outros tempos.

A anfitriã Ucrânia vivia o adeus de Shevchenko, com Voronin e Tymoshchuk representando a velha guarda, mas também o surgimento de Konoplyanka e Yarmolenko. Já a Suécia era de Ibrahimovic na frente, resguardado por bons coadjuvantes como Källström, Sebastian Larsson, Mellberg e Rosenberg.

As duas potências se pegaram logo de cara. Empataram em 1 a 1. A França dominou durante boa parte do tempo, mas precisou buscar o prejuízo depois que Lescott fez o primeiro. Nasri igualaria. A grande história, todavia, ficaria ao Ucrânia 2×1 Suécia. Ibra abriu o placar, mas Shevchenko mostrou quem mandava. Com 35 anos, o ídolo balançaria as redes duas vezes para permitir a vitória de seu país.

Com segurança, a França não se intimidou com Shevchenko e venceu a Ucrânia por 2 a 0 na segunda rodada. O jogo em Donetsk precisou ser paralisado por conta de uma forte tempestade. Nada que atrapalhasse a superioridade dos Bleus, com gols de Ménez e Cabaye, ambos servidos por Benzema. A Inglaterra manteria o ritmo, mas suou para vencer da Suécia por 3 a 2, em noite de duas viradas. Theo Walcott mudou a história do duelo ao sair do banco. Fez o do empate e cruzou para Welbeck definir o placar de letra.

E a Inglaterra, de maneira até surpreendente, conduzida por um excelente Gerrard, ficaria com a primeira posição. Na volta de Rooney ao time, o atacante assinalou o gol que assegurou o placar de 1 a 0 sobre a Ucrânia, com grande colaboração de Pyatov. O clima favorável ao redor da França começou a ruir com a derrota por 2 a 0 para a já eliminada Suécia, com direito a um golaço de voleio de Ibra. Com quatro pontos, os Bleus avançaram na conta do chá.

Definidos os classificados, as quartas de final previam dois clássicos e dois duelos com francos favoritos. Portugal era um deles e fez sua parte contra a República Tcheca. Cristiano Ronaldo crescia na competição e deu a vitória por 1 a 0 aos tugas. O camisa 7 tentou muito e chegou a carimbar a trave duas vezes, até resolver com um cruzamento de João Moutinho. A ótima fase de Petr Cech não seria suficiente para sustentar os tchecos.

Já a outra favoritaça era a Alemanha, diante da Grécia. Löw mudou a equipe titular, com as boas participações de Reus e Klose. As escolhas deram certo e o Nationalelf se impôs com autoridade, ganhando por 4 a 2. O primeiro tempo já teve amplo domínio dos alemães, para Lahm inaugurar o marcador. Samaras até empatou num contra-ataque durante o início do segundo tempo, mas a resposta seria dura. Antes dos 30 minutos, viriam mais três tentos com Khedira, Klose e Reus. Özil foi outro a arrebentar. Só no fim Salpingidis voltaria a descontar, de pênalti.

Os melhores jogos ficaram para depois. A Espanha manteve seu ritmo e cozinhou o galo da França nos 2 a 0 de Donetsk. O domínio da Roja seria amplo, com os Bleus fechados na defesa. Não evitaram o gol de Xabi Alonso logo aos 18 minutos, cabeceando cruzamento da Alba. Com a vantagem no placar, os espanhóis seguiram pressionando mais e só no segundo tempo os franceses saíram ao ataque, com dificuldades para arrematar. No fim, um pênalti permitiu que Xabi Alonso se confirmasse como protagonista. Era o 100° jogo do volante pela seleção. Barrado do time titular, Nasri ainda causou confusão depois ao brigar com jornalistas e mostraria como o ambiente permanecia como um entrave à França.

Por fim, a Itália se tornou a última classificada ao infligir o trauma dos pênaltis outra vez à Inglaterra. Apesar do 0 a 0 no placar, seria uma partida com muitas chances. De Rossi carimbou a trave logo no início, enquanto Buffon e Hart trabalhavam bem. Regidos por Pirlo, os italianos tinham o domínio, mas sem acertar o pé. Na prorrogação, a falta de eficiência persistiu e os dois times teriam que decidir na marca da cal. Montolivo até perdeu antes, para fora, mas logo depois Ashley Young carimbaria o travessão. Pirlo calou as provocações de Hart com uma cavadinha inesquecível. E quem possibilitou a classificação foi Buffon, pegando o tiro de Ashley Cole. Definiu o triunfo por 4 a 2.

Na primeira semifinal, em Donetsk, a Espanha possuía o rótulo de algoz de Portugal ao eliminar os vizinhos na Copa de 2010. A frustração dos tugas se repetiria, com nova queda, agora nos pênaltis. Vicente del Bosque apostou em Negredo no comando de seu ataque para aquela ocasião. Já os portugueses, também descontentes com seu centroavante, confiariam em Hugo Almeida no lugar de Hélder Postiga. Nenhum deles seria capaz de mudar o 0 a 0 nos 120 minutos.

Seria um jogo tenso, de poucas chances de gol, em que a marcação adiantada de Portugal complicava a vida da Espanha – com grande partida de Pepe. Cristiano Ronaldo e Iniesta perdoaram nas melhores oportunidades. No segundo tempo, os lusitanos incomodavam mais e Ronaldo seguia como a principal ameaça. Somente na prorrogação é que a Roja melhorou, mas Rui Patrício fazia milagres sob os paus. Nos pênaltis, o goleiro pegaria logo o primeiro chute de Xabi Alonso. Mas a Espanha tinha Casillas, que compensou ao parar João Moutinho. Todos converteram até que Bruno Alves carimbasse o travessão. Fàbregas marcou no último penal da Espanha, definiu a vitória por 4 a 2 e sequer deixou Ronaldo bater o seu – com o craque bradando “injustiça” a quem quisesse ver no telão.

Já em Varsóvia, a freguesia da Alemanha nos grandes jogos contra a Itália seria reafirmada. E o placar de 2 a 1 confere uma falsa impressão de equilíbrio, num duelo no qual a Azzurra sobrou. Foi o jogo da vida de Balotelli, em sua famosa comemoração ao tirar a camisa e responder aos racistas que o atacaram na fase de grupos. Noite infeliz dos alemães, especialmente pelas escolhas de Löw, que tirou alguns jogadores que vinham bem das quartas (Reus e Klose), sem obter o mesmo resultado com Gómez e Podolski.

A Alemanha até começou melhor o jogo e esbarrou na Itália. Aos 20 minutos, o duelo começou a mudar quando Cassano girou e cruzou para Balotelli marcar de cabeça. A Azzurra se defendia bem e tocava com eficiência. Já na segunda etapa, com o desespero da Mannschaft, os italianos tiveram os contragolpes a seu favor. Criaram várias chances, até que Balotelli assinasse uma pintura aos 36. Lançado por Montolivo, o atacante encheu o pé e mandou a bola na gaveta de Neuer. Özil descontou nos acréscimos, cobrando pênalti, o que era uma nota de rodapé.

Espanha e Itália se enfrentariam na final em Kiev. Pelo retrospecto recente, a Roja parecia ter vantagem após os títulos na Copa de 2010 e na Euro de 2008. A Azzurra, ainda assim, sabia o caminho das pedras com remanescentes do tetra em 2006 e via um Pirlo em estado de graça. Depois do empate na primeira rodada, era possível ter um jogo equilibrado no Estádio Olímpico. Não foi o que aconteceu. Naquela que talvez seja a maior partida dos anos áureos dos espanhóis, o time de Vicente del Bosque pulverizou os italianos. O tiki-taka jogou por música na goleada por 4 a 0.

Para a final, a Espanha voltava a utilizar Fàbregas como homem centralizado no ataque. A movimentação do meio-campista improvisado seria importante, especialmente à atuação de Iniesta. Já a Itália vinha com a equipe completa e calcada em Pirlo, mas não seria isso que evitaria a decepção do time de Cesare Prandelli, envolvido pelos ibéricos.

O primeiro tempo seria relativamente equilibrado, embora o primeiro gol tenha saído logo cedo. Aos 13 minutos, depois de um passe de Iniesta a Fàbregas, o falso 9 cruzou para David Silva completar. Chiellini saiu machucado logo depois e a Azzurra até possuía mais posse de bola, mas sem superar Casillas. A impressão de que a reação italiana se tornaria impossível veio aos 41, num raro contra-ataque espanhol. Xavi enfiou e Alba arrancou pela esquerda, finalizando com categoria para superar Buffon. Dava tranquilidade antes do intervalo.

E, no segundo tempo, tudo deu errado à Itália. Prandelli tirou Cassano para botar Di Natale e queimou sua terceira substituição pouco depois, com Thiago Motta na vaga de Montolivo. O volante se lesionou com poucos minutos e a Azzurra teria que se virar com um a menos. A Espanha, que já dominava, brilharia mais. Em saída de bola errada, Xavi passou para Torres (que saíra do banco) marcar o terceiro aos 39. Já o golpe de misericórdia veio aos 43, com Torres servindo Mata, outro a entrar apenas no final. Era uma coroação inquestionável da Roja.

Pela primeira vez, uma seleção europeia emendava três títulos consecutivos nos grandes torneios. Aquela aura até poderia não durar mais tanto tempo, mas não havia quem questionasse a Espanha. Iniesta, mesmo sem balançar as redes, seria merecidamente eleito o craque da competição por sua coleção de dribles e passes.

França 2016: O brilhantismo de onde menos se espera

A Eurocopa parecia perfeita com 16 times, mas o jogo político levou à sua ampliação em 2016. Pela primeira vez, o torneio continental contaria com 24 equipes. Ampliaria também seus mata-matas, inaugurando as oitavas de final. E caberia à França a incumbência de organizar o novo modelo da competição, com dez estádios, no retorno da Euro ao país após 32 anos. Seria uma competição com boas histórias, mas não exatamente um bom futebol – e desde a fase de grupos.

A França, mais do que país-sede, também era favorita ao título. Vinha em crescente desde a Copa do Mundo, mesmo desfalcada por Benzema, envolvido no escândalo de extorsão com Valbuena. Os jovens ganhavam espaço, com Griezmann e Pogba assumindo cada vez mais o protagonismo. Kanté era uma grata novidade do Leicester, enquanto Matuidi, Sissoko e Payet atravessavam grandes fases. Apenas a defesa não era tão confiável, com Evra e Lloris servindo de referências. Varane era desfalque.

O chaveamento também ajudou a França. A Suíça representava a principal ameaça no Grupo A. Apesar da reconhecida força defensiva, os helvéticos traziam bons destaques no apoio, como Ricardo Rodriguez e Xherdan Shaqiri. A campanha nas Eliminatórias havia sido segura. A Romênia voltava às grandes competições sem muito brilho, numa geração que se apoiava em Vlad Chiriches, Nicolae Stanciu e Florin Andone. Já a candidata a surpresa era a Albânia, estreante na Euro. Lorik Cana era o capitão, com alguns jovens como Elseid Hysaj e Taulant Xhaka buscando um lugar ao sol.

Apesar do favoritismo, a França passou aperto na estreia. Derrotou a Romênia por 2 a 1, em triunfo só garantido aos 44 do segundo tempo. Payet foi o nome do jogo, com uma assistência para Giroud abrir o placar e um chutaço que valeu o triunfo – bem como suas lágrimas na saída de campo, aclamado pela torcida. No duelo de fundo, a Suíça bateu a Albânia por 1 a 0, embora o destaque fosse o confronto entre os irmãos Granit e Taulant Xhaka – cada um por uma seleção, após sua família ter deixado Kosovo rumo à Suíça às vésperas da Guerra da Iugoslávia.

A França permaneceu com problemas na segunda rodada, quando Didier Deschamps poupou destaques e a vitória sobre a Albânia se consumou depois dos 45 do segundo tempo. Griezmann e de novo Payet fizeram os gols nos 2 a 0. Já a Suíça se confirmava como segunda força do Grupo A, mesmo com o empate por 1 a 1 diante da Romênia.

Na rodada final, os Bleus empataram com os suíços por 0 a 0. Com a vaga assegurada, Deschamps poupou alguns jogadores e os franceses até fizeram uma boa apresentação, com lances plásticos. As duas equipes avançaram aos mata-matas, com a França em primeiro. E, apesar da eliminação, o ponto alto ficou à histórica vitória da Albânia por 1 a 0 sobre a Romênia. Sadiku fez o gol que valeu os primeiros três pontos aos albaneses numa Eurocopa. O feito rendeu uma comemoração explosiva e o governo até deu passaportes diplomáticos aos atletas, mas o resultado não seria suficiente para colocar a seleção entre os melhores terceiros colocados rumo às oitavas.

O Grupo B era encabeçado pela Inglaterra, novamente treinada por Roy Hodgson. Muita gente da Euro anterior havia deixado a equipe, com as responsabilidades sobre Rooney e Hart. Mas não que a mudança fosse ruim, com boas novidades despontando naqueles anos, incluindo Harry Kane e Sterling. Vardy e Rashford ainda apareciam como opções ao setor ofensivo. Faltava só mais segurança do meio para trás, com Gary Cahill servindo de defensor mais rodado.

A Rússia era dirigida pelo experiente Leonid Slutsky e já pensava na Copa de 2018, mas não empolgava. O time tinha vários desfalques por lesão, incluindo Dzagoev, Zhirkov e Shirokov. Dzyuba e Golovin não fariam tanto barulho na Euro, enquanto Akinfeev e Vasili Berezutski seguiam como esteios na defesa. A Eslováquia parecia mais promissora que os russos em sua estreia na Euro, com Hamsik carregando o time, além de Skrtel capitaneando a zaga. Todavia, quem merecia mesmo atenção era Gales. Não só por Bale, mas por outras peças valorosas, como Ramsey, Allen, Robson-Kanu e Ashley Williams.

Gales estreou na liderança do Grupo B, ao bater a Eslováquia por 2 a 1 no primeiro compromisso. Bale fez o primeiro e, depois da pressão dos eslovacos, Robson-Kanu deu os três pontos. A mesma alegria não foi compartilhada pela Inglaterra, que dominou a Rússia e cedeu o empate por 1 a 1 nos acréscimos do segundo tempo. Dier fez o gol dos Three Lions e Akinfeev continha o bombardeio, até que Vasili Berezutski atrapalhasse os planos do time de Roy Hodgson.

Muito melhor à Inglaterra seria a segunda rodada, contra Gales. O susto inicial se reverteu em júbilo antes do apagar das luzes, com o triunfo por 2 a 1. Os galeses encerraram o primeiro tempo em vantagem, a partir do gol de Bale. Mas Vardy saiu do banco no segundo tempo e começou a proporcionar outra perspectiva aos ingleses. Até que, nos acréscimos, Sturridge se tornasse outro substituto salvador para a virada. Já a Eslováquia se recuperava ao superar a Rússia por 2 a 1, com gol e assistência de Hamsik.

Gales não só se reergueu na terceira rodada, como também tomou a primeira colocação. Venceu a Rússia por 3 a 0, com Bale e Ramsey deixando os seus. Na outra partida, apesar do insosso empate por 0 a 0, Inglaterra e Eslováquia também avançaram aos mata-matas, com os Three Lions descolando a segunda colocação do Grupo B. O compromisso serviu para Roy Hodgson fazer mudanças no time, que não deram resultados e já traziam preocupação sobre o verdadeiro potencial dos ingleses.

Campeã do mundo dois anos antes, a Alemanha não enfrentava grande concorrência no Grupo C. Mas não que o time de Joachim Löw fosse incontestável, com jogadores importantes que se despediram e outros que vinham em baixa. Schweinsteiger e Podolski já eram reservas a esta altura. As expectativas ficavam depositadas sobre Neuer, Kroos, Müller, Özil, Hummels e outros que não manteriam totalmente o nível visto no Brasil em 2014. Havia sinais de relaxamento desde antes da Euro. Entre as boas novidades, menção a Kimmich.

A Irlanda do Norte surpreendeu em sua classificação à Eurocopa, liderando até mesmo seu grupo nas eliminatórias. Mas os estreantes não eram tão bem cotados. O artilheiro Kyle Lafferty e o capitão Steven Davies eram tidos como principais nomes, mas ninguém capaz de provocar incêndios como Will Grigg – cantado a todo momento, sendo que sequer sairia do banco. A Polônia tentava se mostrar um time mais confiável nas grandes competições. Tinha um ataque potente com Lewandowski e Milik, além de outras boas peças, como Krychowiak, Glik e Fabianski. E a Ucrânia não via uma geração de encher os olhos, com Konoplyanka, Yarmolenko e Rakitskiy se sobressaindo.

Durante a estreia, a Alemanha cumpriu o esperado ao vencer a Ucrânia por 2 a 0. Ainda assim, não foi uma boa exibição do time, com Neuer salvando a pátria e Schweinsteiger saindo do banco para concluir o marcador. A Polônia se emparelhava na dianteira do Grupo C, graças ao gol de Milik, que rompeu a forte marcação da Irlanda do Norte no 1 a 0.

Milik seria o vilão da Polônia na segunda rodada, quando seus gols perdidos poderiam ter levado a equipe além de um sonolento 0 a 0 contra a Alemanha. E o pragmatismo da Irlanda do Norte deu resultado nos 2 a 0 para cima da Ucrânia. Já na rodada final, a Alemanha teve sua melhor atuação para avançar em primeiro. Mario Gómez anotou o gol no triunfo por 1 a 0, mas o goleiro McGovern evitou um placar pior à Irlanda do Norte. A Mannschaft liderou com sete pontos, com a Polônia atrás apenas pelo saldo, após derrotar a Ucrânia num burocrático 1 a 0, tento de Kuba. E os norte-irlandeses, para seu alívio, ainda descolariam uma vaga entre os melhores terceiros com somente três pontos.

O Grupo D tinha a bicampeã Espanha, mas indicava certo equilíbrio. Vicente del Bosque seguia no comando após a frustração na Copa de 2014, mas não tinha muito sucesso em seu processo de renovação. O time seguia dependendo de Iniesta, David Silva, Piqué, Sergio Ramos, Fàbregas e outros astros de outros momentos. Um pouco da novidade surgia com De Gea e Morata, mas não mais do que isso.

A Croácia parecia ganhar consistência e tinha uma equipe equilibrada. Modric, Rakitic, Perisic e Mandzukic vinham mais maduros em relação à Euro anterior, ainda capitaneados por Srna. A Turquia tinha o comando do ídolo Fatih Terim, mas com um elenco apenas razoável, em que Arda Turan era o destaque individual e Hakan Çalhanoglu representava a esperança. E a sensação de declínio pesava contra a República Tcheca, cada vez com menos destaques nas grandes ligas. Cech e Rosicky continuavam segurando as pontas, com a companhia de Darida e Plasil.

A Espanha seguiu sem convencer mesmo com a vitória por 1 a 0 sobre a República Tcheca na estreia. Iniesta se safou das críticas, com a assistência para Piqué garantir o triunfo no final. A liderança seria compartilhada com a Croácia, que não lembrou o jogo eletrizante da Euro 2008 contra a Turquia, mas triunfou por 1 a 0. Cortesia de Modric, que acertou um chute de fora da área para definir o resultado.

A vida da Espanha seria mais tranquila na segunda rodada: 3 a 0 na Turquia, com dois gols de Morata e outro de Nolito. Já a Croácia viu um 2 a 0 virar 2 a 2 contra a República Tcheca. Rakitic brilhara no começo positivo, com um belo gol tocando por cima de Petr Cech. Contudo, um pênalti bobo de Vida cedeu o empate aos tchecos no fim do segundo tempo. Seria uma partida marcante a Srna, que enterrou seu pai dias antes e voltou para integrar a seleção, caindo em lágrimas durante o hino nacional. Também aconteceria uma paralisação por sinalizadores atirados em campo.

Surpresa para muitos, a Croácia encerrou o Grupo D na liderança. Poupou jogadores e ainda assim derrotou a Espanha na terceira rodada, por 2 a 1. A Roja dominou o início do encontro e abriu o placar logo cedo, aos sete minutos, em jogada de David Silva e Fàbregas que Morata escorou às redes. Os croatas, porém, davam seus avisos até com bola na trave, antes de Kalinic aproveitar uma falha de Sergio Ramos e empatar. Não era o dia do zagueiro, que perdeu uma boa chance no segundo tempo e teve um pênalti defendido por Subasic. A Croácia, que tinha criado outras chances, virou aos 41. Kalinic rolou para Perisic definir uma grande vitória.

Com a Croácia em primeiro e a Espanha já garantida nas oitavas, em segundo, quem rodou foi a Turquia. A vitória por 2 a 0 sobre a República Tcheca seria insuficiente para fazer saldo e se colocar entre os melhores terceiros. Yilmaz e Tufan anotaram os tentos do triunfo que rendeu uma despedida de cabeça erguida, mas melancólica aos turcos.

O Grupo E era visto como o ‘grupo da morte’, mas apenas por guardar o confronto mais esperado da primeira fase, entre Bélgica e Itália. Não que qualquer uma das equipes parecesse ameaçada de ir aos mata-matas, ainda mais com até três componentes avançando por chave. Antonio Conte estava à frente da Itália e os jogadores à disposição não eram tão bons, mas a qualidade de seus defensores bastaria. Buffon, Barzagli, Bonucci, Chiellini e De Rossi seriam suficientes às esperanças da Azzurra. Na frente, afinal, os nomes principais eram Pellè e Éder.

Já a Bélgica seguia devendo como a tal geração promissora, apesar da campanha digna na Copa de 2014. Não faltavam talentos a Marc Wilmots, com Courtois, Alderweireld, Vermaelen e Vertonghen na defesa – sem Kompany. O meio melhorava ainda mais com Witsel, De Bruyne e Nainggolan. Mais à frente, Hazard para desequilibrar e Lukaku para fazer os gols. A Irlanda via o inconfundível Robbie Keane ter espaço no elenco, embora baseasse seu jogo nas bolas longas a Shane Long e Jonathan Walters. John O’Shea usava a braçadeira. Já a Suécia, motivada pela classificação na repescagem contra a rival Dinamarca, não trazia tantas novidades. Pelo contrário, cheirava mofo a escalação com Ibrahimovic, Källström e Isaksson. Forsberg era o principal sopro de juventude.

A grande partida da fase de grupos aconteceu em Lyon, onde a Itália encarou a Bélgica. E quem apostava nos Diabos Vermelhos se deu mal, com um triunfo gigante da Azzurra. Bem mais organizada, a equipe de Antonio Conte manteve a sobriedade na defesa e atacou com velocidade. Assim, abriu o placar, num lançamento de Bonucci para Giaccherini. E matou o jogo no finalzinho, com Pellè. A alegria de Buffon, comemorando pendurado no travessão, virou uma cena emblemática naquela Euro. Bem menos interessante seria o outro confronto, com empate por 1 a 1 entre Irlanda e Suécia.

A Itália seguia surfando na onda positiva ao derrotar a Suécia por 1 a 0, belo gol de Éder no final, sem encaixar tanto seu jogo desta vez. E a Bélgica se recuperou na segunda rodada com os 3 a 0 sobre a Irlanda, dois gols de Lukaku. Por fim, a Azzurra confirmou a liderança apesar da derrota para a Irlanda. Contra um adversário recheado de reservas, Brady premiou uma atuação cheia de garra no triunfo por 1 a 0, que dava uma vaga entre os melhores terceiros aos irlandeses. A Bélgica ficaria com o segundo lugar, ao bater também a Suécia, sem tanto esforço. O gol seria de Nainggolan, no fim, com um bonito chute.

Fechando a fase de grupos, o Grupo F teria uma grande atração: Cristiano Ronaldo. De resto, não atraía muito. O favoritismo de Portugal era expresso na equipe de Fernando Santos. Pepe, Rui Patrício, Nani e Quaresma continuavam como nomes essenciais à rotação. Mas os lusitanos também injetavam sangue novo com Raphaël Guerreiro, William Carvalho, Renato Sanches e outros atletas mais jovens para contribuir na campanha – além do talismã Éderzito no banco, prestes a fazer história.

A Áustria vinha de uma baita campanha nas eliminatórias e até prometia mais do que fez, com uma escalação que reunia Alaba, Arnautovic, Junuzovic e Dragovic. A Hungria voltava a um torneio internacional após 30 anos contando bastante com o folclórico goleiro Király. Gera vestia a camisa 10. Já a braçadeira ficava a Dzsudzsák, importante ao ataque. De qualquer maneira, a curiosidade se atiçava pela estreia da pequena Islândia, que já vinha prometendo sua aparição nos torneios internacionais desde 2014. O técnico Lars Lagerbäck consumou o feito com um time bem montado, que era destaque também por toda a mobilização do país ao redor da campanha. Gylfi Sigurdsson recebia os holofotes, mas logo o continente decoraria nomes como Halldórsson, Gunnarsson e Bjarnason.

Portugal começaria a descobrir a Islândia de uma maneira nada digesta. O duelo em Saint-Étienne fez conhecido o hino cantado a plenos pulmões e os gritos de guerra nas arquibancadas. Assim, o ferrolho nórdico seria capaz de conter o possante ataque protagonizado por Cristiano Ronaldo. Os lusitanos dominaram e fizeram o primeiro com Nani. Um cruzamento, entretanto, valeu o empate de Bjarnason no início do segundo tempo. O placar de 1 a 1 seria garantido na marra pelos islandeses, com Halldórsson trabalhando dobrado. Ao final, ficaria lembrada a queixa de CR7, sobre a maneira como os oponentes “comemoraram o resultado”. O empate já era uma vitória. A Hungria, por sua vez, começou na liderança ao vencer a Áustria por 2 a 0, graças a dois contra-ataques.

Portugal ficou com a classificação seriamente ameaçada ao empatar por 0 a 0 contra a Áustria. Os tugas bem que tentaram, mas o goleiro Robert Almer estava inspirado. E rolou até pênalti perdido por Cristiano Ronaldo, que acertou a trave a 15 minutos do fim. O craque também teria um gol corretamente anulado por impedimento. O equilíbrio mantinha todo mundo vivo no Grupo F, também com o Islândia 1×1 Hungria. Os nórdicos foram melhores e saíram na frente com Gylfi Sigurdsson, mas um gol contra no final custou os pontos.

E o Grupo F se provaria mesmo o mais emocionante daquela Eurocopa, com duas grandes partidas em seu fechamento. A brava Islândia conquistaria a merecida primeira vitória no torneio e até beiraria a liderança. O jogo sólido dos nórdicos já garantia ao menos o empate contra a Áustria. Bodvarsson abriu o placar num início superior dos islandeses, mas os austríacos ainda tinham chances e empataram no segundo tempo, com Schöpf, após já terem desperdiçado um pênalti. Mas o time de Lars Lagerbäck não entregaria tão facilmente seu sonho e buscou o triunfo por 2 a 1 no último minuto. Bjarnasson fez a jogada e Traustason virou o herói aos 49 do segundo tempo.

A Islândia só ficou com a segunda colocação porque a Hungria, líder, passou com um gol a mais de saldo. E os magiares fizeram Portugal sofrer, com o empate por 3 a 3 que quase derrubou a Seleção das Quinas, mas ainda permitiu que avançassem entre os melhores terceiros colocados. Foi uma loucura em Lyon, com os lusitanos sempre precisando correr atrás do prejuízo. Gera abriu o placar num chutaço de fora da área. Portugal pressionou e ia parando em Király, até Cristiano Ronaldo passar a Nani, que empatou antes do intervalo.

Logo no início do segundo tempo, Dzsudzsák retomou a vantagem de falta e CR7 correu atrás com um toque de letra belíssimo, que valeu o empate. Tudo tranquilo? Não com o terceiro gol húngaro na sequência, num chute venenoso de Dzsudzsák. Mas CR7 não ia permitir que a campanha portuguesa terminasse daquela forma, decretando o empate de cabeça. Com meia hora no relógio, até cabiam mais gols. Os tugas tentaram mais, embora a melhor chance tenha vindo numa bola na trave da Hungria. Não era para a campanha do time de Fernando Santos acabar ali, afinal. Com três empates, ainda sem vencer, Portugal começava a pegar embalo.

As oitavas de final começaram com três partidas no primeiro dia. E indicavam que, se aquela Eurocopa seguia econômica em gols, poderia guardar suas doses de emoção. Polônia e Suíça fizeram um jogo sem favoritos, no qual o empate por 1 a 1 durante os 120 minutos enfatizou isso. Com Lewandowski apagado, Kuba chamou a responsabilidade e abriu o placar. A Suíça pressionou no segundo tempo, com bola na trave e milagre de Fabianski. Marcaria mesmo com a incrível bicicleta de Shaqiri, o tento mais bonito da Euro. O embate medroso seguiu prorrogação adentro e a Polônia avançou nos pênaltis, com vitória por 5 a 4, após Xhaka mandar para fora.

Gales confirmou sua empolgante campanha na sequência, ao passar pela Irlanda do Norte. O jogo não seria tão lembrado, com aperto para garantir a vitória por 1 a 0 através de um gol contra. Já no esperado Portugal x Croácia, a sorte é que havia um Quaresma para abrilhantar os 120 minutos sofríveis. Num jogo travado, com poucas brechas, a prorrogação se tornou inescapável. E aos 12 minutos do segundo tempo extra que o resultado seria garantido, em ótimo ataque lusitano. Renato Sanches e Nani armaram o lance que Cristiano Ronaldo arrematou. Parou em Subasic, mas Quaresma estava lá para fazer no rebote. Até haveria um pandemônio no último lance, o último suspiro croata, mas era tarde demais para evitar a derrota por 1 a 0.

A França passou pela Irlanda com vitória por 2 a 1, em tarde comandada por Griezmann. Para acordar, entretanto, os Bleus precisaram de um susto. E ele se deu com um pênalti convertido por Brady, aos dois minutos. O primeiro tempo seguiria provando a paciência dos franceses, até que Griezmann aparecesse na segunda etapa e convertesse os dois gols de sua equipe. Bem diferente do sofrimento francês seria a goleada da Bélgica, 4 a 0 na pobre Hungria. Desta vez nem os milagres de Király, que jogou bem mesmo com um dedo quebrado, adiantaram. Alderweireld abriu o placar aos dez minutos e os Diabos Vermelhos martelaram, mas só desenharam a goleada nos 15 minutos finais, incendiados por Hazard. O ponta fez um, enquanto Batshuayi e Carrasco também deixaram os seus.

Já a Alemanha só foi jogar como campeã do mundo naquele momento, com os 3 a 0 para cima da Eslováquia. Boateng inaugurou o marcador logo cedo com um belo gol e Özil até perdeu um pênalti. O segundo veio no final do primeiro tempo, com Mario Gómez, efetivado como titular. E a tranquilidade da equipe seria maior na etapa complementar, em mais uma cobrança de escanteio de Kroos, que rendeu o tento de Julian Draxler.

O melhor das oitavas, de qualquer forma, ficaria reservado para o último dia. Primeiro porque havia um Itália e Espanha, que cumpriram as expectativas com uma partida histórica. O time de Antonio Conte era um dos mais bem treinados da competição e sabia fazer seu jogo, entre a forte defesa e o ataque vertical. Valeu a revanche contra a Roja, após a final de 2012. Pressionando de início, a Azzurra esbarrava em De Gea, até que Chiellini aproveitasse uma sobra para abrir o placar. A Espanha tentou reagir principalmente no segundo tempo e as alterações demoraram a surtir efeito. Quando surtiram, pararam em um gigantesco Buffon. Isso não significava que os italianos deixassem de atacar ou que De Gea estivesse menos ocupado. Tanto é que, nos contragolpes, viria o segundo gol. Pellè pegou de primeira e determinou o fim da dinastia espanhola com a vitória por 2 a 0.

Não menos inesquecível seria o que aconteceu no segundo jogo daquele dia. E por motivos diferentes, já que Inglaterra e Islândia estavam distantes de constar no mesmo patamar. Mas o tal conto de fadas dos vikings teria um capítulo fantástico, com a vitória por 2 a 1 em Nice. Daqueles resultados que marcam a desgraça dos Three Lions. E isso porque os ingleses, com um pênalti convertido por Rooney, abriram o placar com quatro minutos. O baque seria instantâneo: Ragnar Sigurdsson empatou dois minutos depois e aos 18 já sairia a virada, em chute de Sigthórsson que contou com a colaboração de Hart. A Inglaterra não se encontrou mais depois disso, sem conseguir romper a sólida marcação dos adversários. Pelo contrário, até parecia que os islandeses fariam o terceiro. Mais seguros, os nórdicos comemoraram a maior vitória de sua história, em grande noite do capitão Gunnarsson.

As quartas de final começaram com o duelo entre Portugal e Polônia. Mais uma vez o empate por 1 a 1, mais uma vez a definição por pênaltis. Agora, para a classificação da Seleção das Quinas na marca da cal. Os lusitanos tiveram que se recompor após o tento de Lewandowski logo no início. E quem pagava a aposta era Renato Sanches, que surgia como fenômeno na Euro, empatando aos 33. Numa bela trama com Nani, o garoto se tornou o herói. Depois de um primeiro tempo mais aberto, o duelo se arrastaria pelos 75 minutos restantes, com Pepe fazendo um papel especialmente destacável para tomar conta de sua área. Coube a Rui Patrício decidir nos pênaltis, pegando o tiro de Kuba e permitindo a vitória por 5 a 4.

O adversário de Portugal na semifinal seria Gales, que apresentou sua própria geração e despachou a Bélgica com a vitória por 3 a 1. Os galeses também precisaram conter uma pressão inicial e se reerguer depois que Nainggolan abriu o placar. Contaram com o empate de Ashley Williams ainda no primeiro tempo. Os craques chamaram a responsabilidade no lado britânico e, com uma jogada possibilitada por Bale e Ramsey, Robson-Kanu virou aos dez minutos da etapa complementar. O nervosismo não ajudou os belgas, que não souberam destravar a marcação adversária. E o golpe fatal seria dado por Vokes, a quatro minutos do fim, levando Gales a uma inimaginável semifinal.

O grande duelo das quartas se deu em Bordeaux, onde Alemanha e Itália reeditavam um dos maiores clássicos da Europa. O Nationalelf podia não exibir sua melhor forma, mas encerrou seu pesadelo contra os carrascos italianos graças à vitória nos pênaltis, após o empate por 1 a 1. Seria um jogo extremamente tático (e sem tantas emoções) ao longo dos 120 minutos. A Azzurra travou o ataque alemão no primeiro tempo e só na segunda etapa as trincheiras se abririam. Florenzi já faria milagre para desviar um chute de Müller, antes que Gómez realizasse uma jogada de ponta e cruzasse para Özil emendar às redes. A Alemanha até poderia ter matado o jogo, mas havia um Buffon do outro lado. E a Itália, graças a um pênalti infantil de Boateng, empatou com Bonucci aos 33.

A Alemanha sentiu o baque e quase tomou a virada no tempo normal. Já a prorrogação veria dois times pouco dispostos a assumirem os riscos. A Mannschaft tinha mais a bola, mas Draxler falhou nas melhores chances. O destino eram os pênaltis. E as dez primeiras cobranças não se tornaram suficientes. Foi uma disputa horrível dos batedores. Müller, Özil e Schweinsteiger erraram entre os alemães. Não que os italianos fizessem melhor, com os desperdícios de Bonucci, Pellè e Zaza – este, com aquela batida candidata a mais ridícula da história. Nas alternadas, curiosamente, todos passaram a acertar o pé. E as penalidades se arrastariam até a nona série, quando Neuer pegou o tiro de Darmian e Hector definiu o triunfo germânico por 6 a 5. Batalha vencida, depois de cinco derrotas consecutivas dos alemães contra os italianos em mata-matas de competições internacionais.

A quarta seleção confirmada nas semifinais foi a França, com sua melhor vitória na competição. E isso significava que os Bleus não deram qualquer margem à zebra da Islândia, atropelada por 5 a 2 no Stade de France. O primeiro tempo furioso dos franceses encaminhou o resultado. Aos 12 minutos, Matuidi serviu Giroud para o primeiro. Griezmann cobrou escanteio e Pogba fez o segundo logo depois. Antes do intervalo, caberiam os gols de Payet e Griezmann – este, com um belo corta-luz de Giroud, antes que o companheiro de ataque encobrisse o goleiro. A França só relaxou no segundo tempo, quando Sigthórsson até deu alguma esperança aos islandeses, mas Giroud as enterrou com o quinto tento. Já no final, Lloris teve certo trabalho, até Bjarnason dar números finais ao embate. Não diminuía a façanha da Islândia, mas expressava também a força do time de Didier Deschamps.

Nas semifinais, um campeão inédito poderia surgir a partir do confronto entre Portugal e Gales. Era um duelo especialmente interessante pela comparação entre Cristiano Ronaldo e Bale, companheiros no Real Madrid que mediriam forças com suas seleções. E aquela, sem muitas dúvidas, seria a atuação para marcar a campanha de CR7 na Euro 2016. O time de Fernando Santos, que não empolgava até ali, cresceria no momento certo para uma incontestável vitória por 2 a 0.

O primeiro tempo ainda careceria de emoção em Lyon. Portugal tinha o jogo sob controle, o que não significava criar grandes perigos. Já Gales sentia falta do suspenso Ramsey, sem ter com quem Bale se associar. No segundo tempo, Ronaldo apareceu. O craque abriu a contagem logo aos cinco minutos, fuzilando Hennessey após cobrança de escanteio. E daria vida mais tranquila aos tugas três minutos depois, em tiro de fora da área que Nani desviou no meio do caminho.Os galeses, com sua cota de milagres esgotada, estiveram mais propensos a sofrer o terceiro. Pela segunda vez em sua história, a Seleção das Quinas chegava à final da Euro. E pretendia um final bem diferente ao de 2004.

Do outro lado, França e Alemanha tinham um histórico de sucessos na Eurocopa bem maior. E, numa edição do torneio que revertia freguesias, coube aos Bleus encerrarem sua sina de eliminações dolorosas contra a Mannschaft. A lição aprendida a duras penas na Copa de 2014 estava assimilada. Desta vez, foi o time de Didier Deschamps que atuou de uma maneira segura e encontrou o caminho em Marselha. Griezmann era o cara do time e guardou mais dois gols, que valeram a vitória por 2 a 0 e a aguardada presença dos anfitriões no Stade de France para a decisão.

Desde o primeiro tempo, a Alemanha pressionou a França. Não encontrou forma de romper a muralha dos Bleus, com Matuidi e Pogba trancando a cabeça de área. Fazia falta Mario Gómez, que, lesionado, não tinha um substituto com a mesma presença de área em Müller. Além do mais, Lloris também emendava defesa atrás de defesa. O drama alemão aumentou no final do primeiro tempo, quando Schweinsteiger cometeu um pênalti bobo e Griezmann converteu. O placar aumentou o desespero de uma Mannschaft sem soluções no segundo tempo. Aos 27, a França matou o jogo. Pogba roubou a bola e fez a jogada para Griezmann ampliar. Sequer os germânicos conseguiram diminuir.

França e Portugal nutriam certa rivalidade nas grandes competições. E o retrospecto era mais um motivo para os Bleus se sentirem confiantes: avançaram nas semifinais da Euro em 1984 e em 2000, além de prevalecerem também na Copa de 2006, regidos por Platini ou por Zidane. Os portugueses, como azarões da vez, não precisavam se inibir em adotar uma estratégia mais defensiva, para que Cristiano Ronaldo resolvesse na frente. Um pragmatismo que seria ainda mais necessário, dadas as circunstâncias em Saint-Denis.

O drama no primeiro tempo giraria ao redor de Ronaldo. Logo aos oito minutos, o craque sentiu uma lesão no joelho após choque com Payet. Tentou voltar a campo duas vezes e parecia disposto ao sacrifício, mas a dor não permitiu que ele seguisse. Desabaria no gramado e sairia às lágrimas, substituído por Quaresma aos 25. Num primeiro tempo de poucas chances, a França até arriscou mais, mas Rui Patrício mantinha a segurança sob os paus e o zero no placar. Fez ótimas intervenções quando Griezmann e Sissoko tentaram estufar as redes.

O segundo tempo continuou com a França dominando a posse de bola e tentando romper a defesa portuguesa. Griezmann, quando poderia sublinhar seu momento iluminado, cabeceou para fora. Rui Patrício seguia contendo Sissoko e Giroud, enquanto Lloris só teria um pouco mais de dificuldades em cruzamento fechado de Nani. E quase o herói foi Gignac, que saiu do banco no segundo tempo. Num lance em que deixou Pepe no chão, o centroavante carimbou o pé da trave. O placar zerado se arrastava e a solução só viria na prorrogação.

O predestinado no Stade de France seria outro: Éderzito, um centroavante de pouca técnica, muitas vezes menosprezado na Seleção das Quinas. O camisa 9 havia entrado ainda no final do segundo tempo, para brigar pelos lançamentos na frente e tentar dar um respiro a Portugal. Seria ele, o bissauense crescido em Coimbra, que garantiria a taça tão aguardada pela seleção portuguesa. O centroavante já tinha forçado uma defesa de Lloris, antes que Guerreiro acertasse o travessão na prorrogação. Cristiano Ronaldo, quase um treinador adjunto gesticulando à beira do campo, não escondia a ansiedade. Mas o continente caiu sob domínio da armada lusitana aos quatro minutos do segundo tempo extra. Éderzito acertou o chute que nunca mais acertará em sua vida, tão forte quanto preciso, para vencer Lloris de fora da área. O gol que assinalou o 1 a 0 no placar e botou Portugal no topo da Europa. A França não mais reagiria.

Cristiano Ronaldo, em sua quarta Eurocopa, tinha seu prêmio merecido por tanto se entregar à seleção de Portugal. O time era feito de outros heróis, como Rui Patrício, Guerreiro, Sanches, Nani, Quaresma e especialmente Pepe – para muitos, o melhor jogador da equipe campeã. Aos trancos e barrancos, o plantel de Fernando Santos pode não ter sido o melhor na somatória do torneio. Mas soube quando decidir, até mesmo quando confiou no inesperado Éderzito para isso.