No momento em que os sentimentos nacionalistas tomaram os Bálcãs e o país começou a se desmembrar nas lutas de independência, o futebol iugoslavo contava com um talento inquestionável. O Estrela Vermelha ergueu a taça da Champions em 1991, estrelado por craques de diferentes cantos do país, enquanto a seleção pintava como favorita na Euro de 1992 – tanto que a Dinamarca, herdeira da vaga dos balcânicos, saiu campeã. Natural, então, que muita gente se pergunte qual o tamanho do sucesso que a Iugoslávia faria nos anos 1990 se tivesse se mantido unida? E, a essa questão, é preciso emendar outra: qual a grandeza de Dragan Stojkovic se ele pudesse ter liderado aquela geração.

ESTRELA VERMELHA: A última glória de um país esfacelado

Sem muitas dúvidas, Stojkovic foi o grande craque que a Iugoslávia produziu na década de 1980. O meia extremamente habilidoso estourou muito cedo no futebol. Tinha acabado de completar 16 anos quando subiu ao time titular do Radnicki Nis. Para se tornar a principal revelação do país naqueles anos. Mesmo em um time modesto, o garoto ganhou a posição de titular na seleção, disputando a Euro de 1984 aos 19 anos. A equipe não passou da primeira fase, mas vendeu caro a derrota para a França de Platini, futura campeã. No pequeno clube, Stojkovic chegou a ser rebaixado no Campeonato Iugoslavo. Mas manteve a honra de subir antes de se despedir, rumo ao Estrela Vermelha.

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Em Belgrado, Stojkovic viveu o seu auge. Passou apenas quatro anos no Estrela Vermelha, o suficiente para ser considerado um dos maiores ídolos do clube. Não conquistou a Europa com os alvirrubros, caindo nos pênaltis para o Milan de Gullit e Van Basten na melhor das chances, em 1988/89. Entretanto, na temporada seguinte, o segundo título iugoslavo do craque valeu a passagem para a conquista continental de 1991. O camisa 10 era o toque de magia no meio-campo, marcando lindos gols e dando passes para a talentosa geração que surgia, encabeçada Savicevic, Prosinecki, Jugovic e Pancev.

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Porém, Stojkovic não pôde viver o melhor ano do Estrela Vermelha. Eleito por duas vezes o melhor jogador do país, gerava a cobiça de grandes europeus. Além disso, o clima tenso na Iugoslávia contribuía para a vontade de ir embora. Em maio de 1990, como capitão, tirou o time de campo do famoso clássico com o Dínamo de Zagreb que descambou em pancadaria entre ultras sérvios e croatas. E a deixa para a sua saída foi a estupenda Copa do Mundo que o meia fez em 1990.

Referência técnica de uma seleção muito jovem, Stojkovic destoou. Apesar da derrota na estreia para a Alemanha Ocidental, o camisa 10 comandou a classificação para a segunda fase. E, aos 25 anos, fez uma das maiores partidas de sua vida nas oitavas de final, anotando os dois gols contra a Espanha. Já nas quartas, ainda que Stojkovic tenha feito sua seleção jogar melhor do que a Argentina de Maradona no 0 a 0, a eliminação aconteceu nos pênaltis, parando em Goycochea. Como consolação, foi eleito para o time ideal do Mundial.

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Da Itália, Stojkovic partiu direto para o Olympique de Marseille, uma potência que se formava. E, de muito perto, viu o sucesso do Estrela Vermelho. Os marselheses foram justamente os vice-campeões no título continental dos iugoslavos. Inicialmente no banco, o craque entrou em campo tarde demais para impedir a glória de seus velhos companheiros. “Você não acredita que ficará em um lado diferente de seus amigos. Mas é a vida. Foi muito difícil para eu aceitar, mas fui para o banco e joguei oito minutos no tempo extra. Pedi para não bater o pênalti, não queria essa responsabilidade contra eles. Perdi como um membro do Marseille e estava triste por isso, mas também fiquei feliz por ver o Estrela campeão. Mas ainda acho que foi um erro eu ter sido reserva. Os jogadores do Estrela tinham medo do que eu poderia fazer”, recordou o meia, em entrevista ao In Bed With Maradona.

Três vezes finalista da Bola de Ouro quando estava no Estrela Vermelha, Stojkovic não desfrutou do mesmo sucesso em outros cantos da Europa. Jogou muito pouco nos quatro anos que passou em Marselha, assim como teve uma passagem rápida e frustrada pelo Verona. Sem poder buscar sua redenção na seleção, banida da Euro de 1992 e da Copa de 1994, partiu para desbravar o futebol japonês. Aos 29 anos, chegou como grande estrela do Nagoya Grampus Eight, em tempos que jogadores de primeiro nível iam para a J-League. Tornou-se o maior ídolo do clube, eleito o melhor do campeonato em 1995 e três vezes o melhor atacante.

A despedida de Stojkovic do futebol internacional, porém, ainda aconteceu no final dos anos 1990. Integrando sérvios e montenegrinos, a Iugoslávia ressurgiu para disputar a Copa de 1998. Camisa 10 e capitão, comandou a campanha até as oitavas de final e marcou um gol no empate por 2 a 2 contra a Alemanha, vendo de perto o sucesso dos ex-companheiros croatas. Além disso, também esteve na Eurocopa de 2000, na segunda eliminação consecutiva para a algoz Holanda. Um ano depois, pendurou as chuteiras.

Fora dos campos, Stojkovic também fez sucesso. Chegou a ser presidente do Estrela Vermelha e também viveu grandes momentos como técnico do Nagoya Grampus, levando o clube ao título em 2010. O auge de Piksi, no entanto, aconteceu mesmo nos gramados. O craque que chegou a ser comparado com Maradona acumulou dribles mágicos, lindos gols, assistências fora do comum. Era daqueles jogadores para serem aplaudidos de pé. Pena que nem sempre as ocasiões conspiraram a seu favor. Mas, no dia em que completa 50 anos, Stojkovic merece ser lembrado como um dos maiores talentos já surgidos no Leste Europeu. Mesmo sem ter a Copa de 1994 a seu favor, como Hagi ou Stoichkov, o camisa 10 da Iugoslávia foi um dos grandes.

Abaixo, nada de miséria: cinco vídeos sobre a classe de Stojkovic, com destaque para o último, um golaço que ele marcou como técnico (isso mesmo, de terno e gravata) do Nagoya Grampus.