Sinisa Mihajlovic é um dos símbolos de um momento crucial ao futebol na Iugoslávia. O versátil defensor participou das últimas glórias de um país às vésperas da cisão. Consagrou-se como um dos maiores talentos do Estrela Vermelha, vencedor da Copa dos Campeões em 1991. No entanto, o sonho de disputar a Euro 1992 terminou rompido pela guerra. Depois do bloqueio internacional, o craque voltaria a empunhar a bandeira da Iugoslávia ao lado de outros sérvios e de montenegrinos, presente na Copa do Mundo de 1998 e na Euro 2000. De qualquer maneira, seu ápice aconteceu mesmo por clubes, ao vestir algumas das maiores camisas da Itália e se transformar em lenda na Serie A. Referência que merece as reverências, no dia em que completa 50 anos de idade.

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Mihajlovic representa exatamente o caldeirão cultural da Iugoslávia. Nasceu em Vukovar, uma cidade no atual território croata, próxima à fronteira com a Sérvia. Seu pai era sérvio, mas vindo da Bósnia, enquanto sua mãe era de etnia croata. Apesar de sua identificação como sérvio, sobretudo por frequentar a Igreja Ortodoxa, não negava as suas raízes croatas. E sua trajetória acabaria marcada também pela crueldade da guerra. Sua antiga casa em Vukovar acabou destruída por militares croatas, entre eles um amigo de infância. Seus pais tiveram que fugir, diante dos riscos evidentes. Além disso, um tio materno do jogador foi capturado por forças sérvias e só ganhou a liberdade com a intervenção do sobrinho. Lidar com o ranço nos Bálcãs foi uma constante na carreira do defensor, algo que influenciaria os seus rumos dentro de campo.

Formado nas categorias de base do NK Borovo, Mihajlovic chegou a ser cortejado pelo Dinamo Zagreb, mas não entrou em acordo na hora de assinar o contrato. Recebendo o desdém do técnico Ciro Blazevic, futuro comandante da seleção croata, o jovem resolveu retornar para sua cidade natal. Por conta da pendência, também perdeu a chance de participar do Mundial Sub-20 com a célebre seleção iugoslava que faturaria o título em 1987. Mas logo o destino abriria outras portas ao talento. Em 1988, ele assinou com o Vojvodina. Logo virou um dos destaques do time, que surpreendeu e conquistou o Campeonato Iugoslavo em 1988/89. Jogando no meio-campo, o novato disputou 31 partidas e anotou quatro gols, como um dos homens de confiança do técnico Ljupko Petrovic. Depois, ainda teria a chance de disputar a Champions com o clube. Evidenciava sua firmeza defensiva e o seu dom para bater na bola.

Nos descaminhos do futebol, Mihajlovic “caiu para cima” em dezembro de 1990. O Estrela Vermelha gastou alto e contratou o jovem destaque para o seu time. Por lá, seria treinado outra vez por Ljupko Petrovic. O volante tomou conta da cabeça de área e, ao lado de outros tantos craques, viveria a maior glória de um clube iugoslavo naquela mesma temporada. Seria ele, afinal, um dos heróis na conquista da Champions. A participação decisiva de Mihajlovic aconteceu na semifinal, contra o Bayern de Munique. Anotou um gol de falta para abrir o placar e ainda participou do tento contra de Klaus Augenthaler, que possibilitou o empate por 2 a 2 nos instantes finais e garantiu os alvirrubros na histórica final. Já na decisão contra o Olympique de Marseille, converteria uma das cobranças na disputa por pênaltis, que confirmou a façanha dos balcânicos.

Uma semana depois, outro episódio célebre aconteceu na final da Copa da Iugoslávia. O duelo entre Estrela Vermelha e Hajduk Split evidenciou o ódio que tomava conta do país. Igor Stimac se transformou mo arqui-inimigo de Mihajlovic em campo. Entre provocações pesadíssimas, o croata declarou que “rezava para que a família do sérvio fosse assassinada”. Após tantas entradas duras e trocas de agressões, ambos foram expulsos no segundo tempo. O caso mais evidente de uma carreira cercada também por polêmicas. Além de sua habilidade, Mihajlovic era reconhecido por seu temperamento agressivo e por atitudes explosivas que o levaram a diferentes suspensões.

Mihajlovic permaneceu no Estrela Vermelha por mais uma temporada. Disputou a primeira edição do Campeonato Iugoslavo após a declaração de independência de Croácia e Eslovênia. Da mesma maneira, na busca pelo bicampeonato da Champions, os sérvios sequer puderam mandar os seus jogos no país. E a eclosão do conflito prejudicou principalmente a carreira do meio-campista na seleção. Convocado a partir de 1991, Mihajlovic perdeu a oportunidade de disputar a Eurocopa. O embargo internacional impediu que a Iugoslávia figurasse na fase final do torneio, mesmo classificada e já concentrada na Suécia. O craque também não permaneceria nos Bálcãs, assinando com a Roma para a temporada 1992/93.

Na capital, Mihajlovic ganhou seu espaço logo na primeira temporada, sob as ordens do técnico Vujadin Boskov. No entanto, a saída do comandante e a queda de desempenho atravancaram a carreira do sérvio com os giallorossi. Duas temporadas depois, ele arrumou as malas e se juntou à Sampdoria. Em Gênova, recuperou o seu melhor futebol. Se o desempenho dos blucerchati não era o mesmo do início da década, o defensor ao menos virou um dos protagonistas da equipe. E foi como jogador da Samp que ele auxiliou a Iugoslávia na caminhada rumo à Copa do Mundo de 1998. Seria titular nas quatro partidas da equipe, anotando o gol da vitória contra o Irã.

Após o Mundial, Mihajlovic se mudou ao clube que mais marcou a sua carreira. Em tempos endinheirados da Lazio, o defensor foi uma parte importante do projeto do esquadrão laziale. E não se nega a importância do sérvio na ascensão da nova potência da Serie A. Novamente sob as ordens de Sven-Göran Eriksson, que havia sido o seu comandante na Samp, o craque chegou ao seu melhor nível. Virou uma peça imprescindível e acumulou gols. Conquistou a Serie A, duas Copas da Itália, uma Recopa Europeia e uma Supercopa da Uefa. É um dos jogadores mais queridos, quando se pensa naquela era gloriosa dos biancocelesti. Especialmente por suas virtudes, entre os lançamentos cirúrgicos e os chutes magistrais. O momento mais lembrado aconteceu logo em sua primeira temporada, anotando uma tripleta apenas em cobranças de falta nos 5 a 2 contra a Sampdoria.

Sem a mesma consistência física, Mihajlovic se tornou menos frequente em suas últimas temporadas com a Lazio. Em 2004, acabou assinando com a Internazionale, levado pelo amigo Roberto Mancini. Seria uma breve passagem de dois anos por Milão. Apesar das raras presenças, acumulou mais alguns títulos, inclusive anotando o gol decisivo na final da Copa da Itália de 2004/05. Aposentou-se aos 37 anos, com um vastíssimo currículo pelo Calcio. Já com a seleção, estaria presente ainda na Euro 2000, marcada sobretudo pelo tenso jogo contra a Croácia, que definiu a classificação da Iugoslávia. Disputou 69 partidas pela equipe nacional. Deixaria um rico legado e uma memória vivíssima por suas múltiplas qualidades, da firmeza na defesa à precisão no apoio.

Como técnico, Mihajlovic ainda permaneceria na Itália. Treinou diferentes clubes do país, com menções a Milan, Fiorentina, Sampdoria e Torino. Além do mais, também comandou a seleção da Sérvia por um breve período entre 2012 e 2013, sem conseguir a classificação à Copa do Mundo. Segue como um ídolo na Bota e também em sua terra natal, sempre festejado por sua participação no inesquecível Estrela Vermelha de 1991. Um grande.