Texto publicado originalmente em agosto de 2015 e reeditado

Ele nunca fez grandes sucessos na Champions League. Nunca defendeu um clube tão badalado internacionalmente. Seu único título de expressão é o Campeonato Inglês de 1994/95, numa das maiores zebras das últimas três décadas. Mesmo na seleção, atravessou um período de altos e baixos da Inglaterra. Pouco importa. É impossível não classificar Alan Shearer como uma lenda. Se não dá para medir sua grandeza por taças, ela se transforma nos muitos e muitos gols que marcou ao longo da carreira. Maior artilheiro da história da Premier League, também foi eleito o melhor jogador da primeira década do torneio. A trajetória marcante de um matador, que completa 50 anos nesta quinta. Que abriu mão de viver ainda mais no topo, apenas para defender o clube de seu coração, o Newcastle.

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Shearer nasceu numa família de operários na região de Newcastle. Seu pai, um metalúrgico, era quem mais o incentivava a apostar em seu talento no futebol. O garoto começou a ganhar destaque com os times escolares, antes de se juntar ao Wallsend Boys, um clube especializado em categorias de base no norte da Inglaterra. No entanto, de lá, a promessa partiu ao sul do país. Descoberto pelo Southampton, mudou-se para o clube quando tinha 16 anos. Não demorou para estourar com os Saints na primeira divisão e ser titular na seleção inglesa com apenas 21 anos.

Dono de um bom porte físico, Shearer era um goleador nato. Daqueles capazes de resolver o jogo em um único toque na bola, com um chute poderoso rumo às redes. Combinava também bom senso de posicionamento e presença de área. Mas ia além. O explosivo centroavante tinha a sua qualidade técnica inegável, de saber pegar na bola como poucos, desenvolvida ainda na juventude. Quando estava nas categorias de base, o garoto preferia jogar no meio de campo, onde “poderia ter mais a bola nos pés”. Só que o ofício incontestável como o artilheiro acabaram moldando o prodígio tempos depois.

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O sucesso em Southampton o levou ao Blackburn, em um momento endinheirado da equipe, recém-comprada por um torcedor milionário. Então, o centroavante se tornou o símbolo da ascensão dos Rovers. Em 138 jogos na recém-criada Premier League, marcou incríveis 112 gols. Em três temporadas seguidas, terminou como artilheiro da competição. Sagrou-se campeão inglês em 1995, na inacreditável campanha do time de Kenny Dalglish. Acabou apontado como terceiro melhor do mundo em 1996, pela Fifa, e terceiro melhor da Europa, pela Bola de Ouro, mesmo ano em que ainda foi artilheiro da Eurocopa, dentro da Inglaterra.

Naquele momento, Shearer poderia ir ao clube que quisesse. Aos 26 anos, era reconhecido como o melhor centroavante do mundo. Mas teve sorte de receber uma proposta irrecusável justamente do time que mais sonhava defender – que, diga-se, vivia ótimo momento financeiro e havia sido vice-campeão inglês na temporada que acabava de se encerrar. Pretendido por Juventus, Milan e Barcelona, chegou a negociar com o Manchester United, onde prometia uma dupla infernal com Cantona. Mas preferiu o Newcastle, o seu time de infância, no qual tinha sido até mesmo gandula.

Por £15 milhões, Shearer desembarcou em St. James’ Park, na maior transferência da história até então – superando em poucas semanas o recorde estabelecido por Ronaldo rumo ao Barcelona, um ano antes que o próprio brasileiro voltasse a quebrar a marca em sua ida para a Internazionale. Obviamente, havia um salário suntuoso oferecido ao inglês, mas o valor sentimental também era imenso. E que já começou a ser pago com a recepção de milhares de alvinegros em sua apresentação.

“Eu me lembro de meu primeiro jogo em St. James’ Park como se fosse ontem. Era agosto de 1982, eu tinha 12 anos, e o Newcastle enfrentaria o Queens Park Rangers. Pegamos o metrô e chegamos bem cedo para absorver a atmosfera. Comprei um cachecol no caminho e não podia acreditar quando meu pai me disse que guardou ele até hoje. Eu nunca esqueceria o que senti ao entrar na Gallowgate. Não vi muito o jogo, mas quando fizemos o gol, me senti flutuando. Vencemos por 1 a 0 e nunca senti nada assim antes. O melhor é que Kevin Keegan estava estreando naquele dia e marcou o gol da vitória. Ao vê-lo correr rumo a nós com os braços abertos, em puro êxtase, tive certeza de que me tornaria jogador de futebol”, declarou, anos depois, relembrando a sua primeira vez nas arquibancadas do Newcastle.

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Shearer nunca ganhou um grande título com o Newcastle, por mais que o clube vivesse um bom momento entre o final dos anos 1990 e o início dos 2000, frequentando as primeiras posições na tabela. Em sua primeira temporada, treinado justamente por Kevin Keegan, passou muito perto de reconquistar a Premier League, mas os Magpies perderam a ótima vantagem que tinham na liderança e acabaram superados pelo Manchester United. Ao final daquela campanha, o centroavante poderia ter quebrado outra vez o recorde de maior transferência, com Bobby Robson oferecendo £20 milhões para substituir Ronaldo no Barcelona. Entretanto, o craque já não tinha mais motivos para se mudar ou ganhar mais dinheiro. Sua felicidade estava mesmo em St. James’ Park, perto da família.

A decisão permitiu a Shearer se transformar num dos maiores ídolos de uma das torcidas mais fanáticas da Inglaterra. Seu comprometimento durou dez temporadas, até sua aposentadoria – e teve um breve retorno como técnico, embora não tenha conseguido evitar o rebaixamento em 2009. Dedicação que resultou em 206 gols, com o camisa 9 eternizado também como goleador máximo da história dos alvinegros. “Quando o Newcastle me contratou em 1996, eles me deram a chance de representar meu clube de infância. De viver os melhores anos da minha carreira. Eu sempre irei agradecer a maneira como eles me tornaram o que sou hoje em dia”, afirmou. Uma gratidão que também será sempre compartilhada por cada torcedor do Newcastle.