“Esse é o meu herói”

Ouvir uma frase de tamanho significado deve fazer qualquer jogador de futebol se arrepiar. Não é a mera questão de ser ídolo, de ser exemplo, de ser homem de confiança. É ser herói. É ser aquele que habita os melhores sonhos, que é capaz de feitos extraordinários, que tem superpoderes. Ou, neste contexto, que tem valores profundos, uma história de vida marcante, um talento que abriu portas. Lucas Radebe tinha plena consciência de tudo o que superou para se tornar profissional, para jogar em um grande clube europeu, para se tornar capitão da seleção. Sabia que, para alguns de seus compatriotas, era realmente um herói. Mas certamente sentiu algo diferente quando escutou as palavras saindo da boca de Nelson Mandela, ele sim tratado como um herói nacional pelo fim do Apartheid. Foi Madiba quem disse sobre o zagueiro: “Esse é meu herói”. Um dos maiores heróis que o futebol já teve, afinal.

A gentileza de Mandela aconteceu em 2002, durante um evento solene em Leeds. O ex-presidente da África do Sul imaginava estar em Liverpool e estranhou a presença de Radebe entre aqueles que o recebiam. No entanto, voltaria-se às demais autoridades e soltou sua célebre frase. Uma história que o zagueiro repetidamente continua contando, um tanto quanto sem graça, mas sem perder a humildade e o orgulho. Naquele momento, o defensor já tinha construído sua reputação. Pela seleção, conquistou a Copa Africana de Nações e disputou dois Mundiais. Com o Leeds United, sustentava uma inegável idolatria e um respeito enorme, entre os melhores de sua posição na Premier League. Até mesmo havia recebido prêmios por seu trabalho social, inclusive da Fifa. Mas ainda residia em seu peito o menino de Soweto. O garoto que cresceu no Apartheid, antes de virar símbolo da quebra de barreiras em seu país.

A história de vida de Radebe, aliás, pode ser compartilhada por milhões de sul-africanos que cresceram em meio às cisões impostas pelo regime racista. Nascido em 12 de abril de 1969, o garoto era o quarto entre 11 irmãos que viviam em Diepkloof, no coração de Soweto. Durante o início da adolescência, Lucas presenciava os constantes conflitos entre a polícia e os jovens de sua comunidade, em meio à luta pelo fim do Apartheid. Ele também se juntava aos protestos, que quase sempre acabavam em derramamento de sangue. Temendo o que poderia acontecer com o garoto, seus pais o mandaram para Bophuthatswana, a região ao norte do país de onde vieram e que havia sido declarada independente em 1977. Por lá, ele estaria distante da violência e se dedicaria aos estudos. Mas a mudança também abriu novos caminhos ao rapaz. Iniciou sua carreira em uma equipe local, como goleiro, e chamou a atenção de “Ace” Ntsoelengoe, antigo atacante do Kaizer Chiefs. O veterano era olheiro do clube e levou o prodígio para lá em 1989. Aos 20 anos, ele voltava a Soweto, mas para defender o time mais popular da África do Sul.

A princípio, Radebe assumiu o gol nos juniores do Kaizer Chiefs. Entretanto, logo perceberam que o garoto alto também possuía talento com a bola nos pés e o passaram ao meio-campo. Por fim, fincaria o pé no miolo de zaga, o local onde foi soberano. Ainda em 1989, o novato realizou sua estreia como profissional. Disputava a National Soccer League, competição criada em 1985 já sem as divisões do Apartheid. E o clube de Soweto era uma força dominante naqueles tempos. O jovem participou do título logo em sua primeira temporada, faturando o campeonato nacional mais duas vezes em 1991 e 1992.

A ascensão meteórica de Radebe o transformou em um dos jogadores favoritos do Kaizer Chiefs. Não era apenas um menino “da casa”, de Soweto. Também era um zagueiro que deixava tudo em campo, conhecido pela raça e pela imposição física, unindo a isso a perseguição implacável aos atacantes e os lances acrobáticos. Todavia, a vida do defensor sofreria grande impacto em 1991. O primeiro evento marcante aconteceu em janeiro. O Estádio Orkney estava cheio para o clássico contra o Orlando Pirates, quando uma briga entre torcedores gerou um enorme tumulto. Ao todo, 42 pessoas morreram pisoteadas no local. “Vi corpos em todo canto, inclusive de crianças. Aquilo foi muito impactante. Mudou minha vida, porque pensei que precisávamos tratar melhor os torcedores. Desde então, sempre tentei ser legal com os fãs e dedicar um pouco de tempo”, contou o veterano, à FourFourTwo.

Meses depois, o próprio Radebe seria a vítima. O jogador saiu com seus irmãos, para fazer compras à mãe. Em dado momento, eles ouviram um tiro, algo corriqueiro em Soweto naqueles tempos. No entanto, o zagueiro começou a sentir dores e percebeu que estava sangrando. Uma bala perdida atingiu suas costas e se alojou em sua coxa. Por sorte, não dilacerou qualquer órgão vital. “No passado, eu vi jogadores tão bons quanto eu que foram feridos ou mortos antes de aproveitarem seu talento”, relembrou o veterano, ao Yorkshire Evening Post. “Pensei que estava acabado quando fui atingido por aquela bala. Definitivamente o futebol profissional acabaria para mim, possivelmente o fim total. Poderia ter sido fatal. Tive sorte. Foi uma das ocasiões que me ensinaram apreciar a vida. Aproveitar o tempo, tratar as chances que você recebe com seriedade e perceber que todo dia pode ser o último”.

Encaminhado ao hospital, Radebe passou por uma cirurgia emergencial e voltou a atuar depois de algumas semanas. Já no ano seguinte, em julho de 1992, realizava sua estreia pela seleção da África do Sul. Foi titular contra Camarões, no lendário jogo que reiniciou a história unificada dos Bafana Bafana. A equipe não atuava em partidas oficiais desde 1955, por conta das sanções ao Apartheid.

Nome frequente nas convocações, Radebe permaneceu no Kaizer Chiefs até 1994. Naquela temporada, o Leeds United levou Philemon Masinga como grande reforço para o seu ataque. A diretoria dos Whites, contudo, achou que seria uma boa ideia contratar outro jogador sul-africano para auxiliar na adaptação do centroavante. Um olheiro indicou o zagueiro, comprado sem sequer ter sido observado pelo técnico Howard Wilkinson. Não à toa, em sua estreia, Radebe foi utilizado como ponta pelo treinador. A aclimatação foi difícil, longe da família e em um ambiente totalmente distinto ao que cresceu. Mas, no fim das contas, apenas o “acompanhante” vingou. Mesmo querido pela torcida, “Chippa” Masinga não deu certo em Elland Road e se transferiu ao St. Gallen após duas temporadas. Já o companheiro virou um dos maiores emblemas do clube no período. Por sua origem e pela liderança em campo, ganhou o sugestivo apelido de “The Chief”.

A ascensão de Radebe no Leeds correu paralelamente ao impacto inicial causado pela seleção da África do Sul. Em 1996, o país recebeu a Copa Africana de Nações – um evento que, de maneira similar ao famoso Mundial de Rúgbi no ano anterior, teve importante papel para simbolizar a nova era que o país construía com o fim do Apartheid. E igualmente os Bafana Bafana superaram favoritos para terminar com o título. Radebe era dúvida para o torneio, ao romper os ligamentos cruzados do joelho meses antes. Temia-se até que a grave lesão pudesse encerrar sua carreira e o Leeds cogitou dispensá-lo. Com muito foco, o defensor se recuperou a tempo da CAN e ainda precisou enfrentar uma queda de braço com o técnico do clube para ser liberado à competição. Começou no banco, mas virou titular ao final da fase de grupos e compôs uma sólida dupla de zaga com Mark Fish. A segurança do sistema defensivo foi vital à seleção, com apenas um gol sofrido nos mata-matas. Por fim, após a vitória derradeira sobre a Tunísia, Mandela esteve presente para entregar a taça a Neil Tovey, volante que foi parceiro de Radebe no Kaizer Chiefs e também possui sua importância dentro do contexto histórico do esporte local.

“Voltar ao futebol internacional em 1992 foi fantástico. Mas o maior momento da África do Sul foi ganhar a CAN em 1996. O time se preparou durante um longo período e tínhamos resultados ruins. Ganhar o torneio transformou os Bafana Bafana em heróis nacionais. Batemos a Tunísia na final, dentro do Soccer City, e a atmosfera era incrível. A gente se encontrou com Madiba antes do jogo e ele nos inspirou bastante. Além do mais, várias estrelas do rúgbi e do críquete estavam nas arquibancadas. Isso uniu o país”, recontou o zagueiro, à FourFourTwo.

Tovey defendeu a seleção até 1997 e Radebe virou o herdeiro natural da braçadeira de capitão. Liderou a África do Sul a outra boa campanha na CAN de 1998, terminando com o vice-campeonato. Mas nada comparado ao sentimento envolvido pela primeira Copa do Mundo do país. A dramática vitória sobre o Congo, com gol de Phil Masinga, desencadeou uma festa sem tamanho entre os sul-africanos. Fariam um papel digno no Mundial de 1998. A despeito da derrota para a França na estreia, os Bafana Bafana seguraram empates contra Dinamarca e Arábia Saudita. Não conquistaram a classificação, mas isso era apenas um detalhe diante da mera presença no torneio. “The Chief” ocupou de vez o coração de seus compatriotas, encarnando o orgulho de vestir a camisa e representar o país.

O ano de 1998 também foi especial para Radebe em Elland Road, sublinhando sua adoração. Ao longo das duas primeiras temporadas com o Leeds United, o sul-africano permaneceu como um coringa no elenco, encarou uma lesão séria e por vezes foi preterido pelo técnico. Sua ética de trabalho acabaria conquistando a todos, como ficou exemplificado em abril de 1996. Diante de uma urgência, chegou a ser utilizado como goleiro reserva durante uma visita ao Manchester United e, por ironia do destino, o titular na noite foi expulso aos 16 minutos de jogo. Pois o zagueiro assumiu a responsabilidade, realizando boas defesas, apesar da derrota simples. Tamanha dedicação seria reconhecida a partir de 1996/97, virando titular na zaga sob as ordens de George Graham, novo técnico da equipe. Já na campanha seguinte seguinte, não apenas manteve o seu posto, como terminou eleito o melhor jogador dos Whites no ano. “The Chief” acompanhou o crescimento de um time que voltou a ocupar as primeiras posições na Premier League e viveu caminhadas memoráveis nas competições continentais. Apesar das propostas que recebeu de potências da época, como Manchester United e Roma, reiterou seu compromisso com a agremiação.

O ápice daquela célebre equipe do Leeds aconteceu na virada do século. Em 1999/00, os Whites terminaram a Premier League na terceira colocação, após liderarem até o início do segundo turno, e alcançaram as semifinais da Copa da Uefa. Já em 2000/01, a arrancada na reta final permitiu que terminassem a liga na quarta colocação, enquanto foram até as semifinais da Champions. Chegaram a derrotar pesos pesados como Milan, Lazio e Deportivo de La Coruña. Caíram apenas para um fortíssimo Valencia. Treinado por David O’Leary, o Leeds tinha nomes como Mark Viduka, Robbie Keane, Lee Bowyer, Alan Smith e Harry Kewell abrilhantando seu elenco. Jonathan Woodgate era um dos esteios da defesa, assim como o recém-contratado Rio Ferdinand. Radebe usava a braçadeira de capitão e atravessava o ápice de sua carreira. Pena que uma lesão no joelho o afastou justamente nos mata-matas.

E o mais marcante é que o sucesso de Radebe não se limitava às quatro linhas. O zagueiro também conduzia trabalhos sociais na África do Sul, relacionados principalmente a crianças. Usava o futebol como uma maneira de promover a integração no país, após os duros anos de Apartheid. Por isso mesmo, o principal título do sul-africano veio na cerimônia de gala da Fifa. A entidade deu o Prêmio Fair Play ao veterano em 2000, por sua luta contra o racismo e pela esperança que seus projetos garantiam à juventude. Depois, ele se tornaria embaixador do SOS Children’s Villages, ligado à confederação internacional.

Também em 2000, Radebe capitaneou a África do Sul ao terceiro lugar da Copa Africana de Nações. Já em 2002, participou de sua segunda Copa do Mundo. Ainda com a braçadeira de capitão, esteve presente na primeira vitória do país em Mundiais, batendo a Eslovênia por 1 a 0. Na sequência, anotou um gol na apertada derrota para a Espanha, por 3 a 2. Apesar disso, os Bafana Bafana foram outra vez eliminados na fase de grupos, agora pelo saldo de gols. O desempenho honroso, mesmo assim, rendeu uma recepção calorosa aos atletas no retorno para casa. Os jogos na Coreia do Sul estariam entre os últimos do zagueiro pela seleção. Em 2003, voltou para dois amistosos, encerrando sua passagem. Foram 70 partidas do capitão pela equipe nacional.

A carreira de Radebe com o Leeds United também não duraria tanto. Por conta de constantes lesões no joelho e no tornozelo, ele sequer entrou em campo na temporada 2001/02 – concentrando suas energias justamente para jogar a Copa do Mundo. Nesta época, ganhou outro apelido no departamento médico do clube: “O Guerreiro”. O sul-africano também seria menos frequente entre os titulares nas duas campanhas seguintes, quando os Whites já sentiam as consequências dos exageros feitos durante os sucessos continentais e encaravam a crise financeira. O rebaixamento seria incontornável em 2003/04. Radebe permaneceu em Elland Road mesmo assim, disputando três jogos na campanha que iniciou as penúrias na Championship. Só então pendurou as chuteiras, tratado como uma lenda pelo clube. Quase 40 mil pessoas estiveram presentes para sua partida de despedida.

Quinze anos depois de sua aposentadoria, Radebe continua tratado como um ícone cult do futebol. O seu jeito carismático e o carinho constante com os torcedores contribuem para a adoração. Apesar dos dramas pessoais que enfrentou, perdendo a esposa em 2008 e o pai em 2009, o sorriso largo resiste como uma marca registrada. E o sinal maior de sua personalidade se escancarou em uma visita recente a Soweto. Questionado por não andar com seguranças, o veterano respondeu: “Eu vivia nessas ruas quando era jovem, aqui é minha casa. Você não quer seguranças em sua casa. Eu me sinto seguro com minha própria gente e em minha própria comunidade. Se eu fosse com seguranças, o que eles diriam? ‘Esse é Lucas Radebe, quem ele pensa que é?’. Não quero isso. Fiz as mesmas coisas de quando era jovem. Andei pelas mesmas ruas, comi a mesma comida. Estas são minhas raízes”. Palavras que indicam seu caráter e explicam seu respeito.

Radebe segue recebendo diversas condecorações, principalmente na África do Sul e na Inglaterra. É considerado um dos maiores ídolos do Leeds, um dos melhores zagueiros estrangeiros da Premier League e um dos principais símbolos do Bafana Bafana. Porém, o sucesso que construiu nos gramados é apenas um trampolim à sua maior contribuição: o desejo de reerguer seu país. Os trabalhos sociais e a inspiração promovida pelo futebol deixaram marcas em milhares de sul-africanos. Não há prêmio maior do que ser chamado de herói por um compatriota. E este pode ser outro garoto de Soweto, mas até Nelson Mandela.

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Depois daquele encontro em 2002, os laços de Radebe e Mandela aumentariam. Ambos participaram ativamente da candidatura da África do Sul à Copa do Mundo, assim como ajudaram a promover o evento. Viraram grandes amigos. E diante do falecimento do ex-presidente em 2013, o zagueiro escreveu uma belíssima carta de despedida. Traduzimos abaixo:

“Há muita coisa que eu gostaria de dizer a você, e lamento por não ter mais a chance. Dito isso, sinto-me um privilegiado de tê-lo conhecido e de ter me beneficiado com sua sabedoria e seu exemplo. Você me ensinou lições de liderança, humildade, generosidade, coragem e integridade. Dizer que você inspirou a mim e a minha geração seria um eufemismo”

“Minha carreira não seria possível sem você. A chance de jogar no nível mais alto fora da África do Sul não existiria antes de sua libertação. Quando os tempos eram difíceis em meus primeiros dias em Leeds, longe da África do Sul, eu tirei motivação de sua coragem e tenacidade. Quando eu capitaneei equipes, seja os Bafana Bafana ou o Leeds, você era meu modelo de liderança. Sua capacidade de unir as pessoas por uma causa comum, a despeito das diferenças, foi um grande dom”

“Acho que falo por todos que vestiram as camisas dos Bafana Bafana, dos Springboks ou dos Protea, assim como por qualquer outro esportista sul-africano, quando digo que nunca atuamos apenas por nós mesmos ou por nosso país. Atuamos por você e pelos ideais especiais que você representava. Você me ensinou como o esporte poderia ser uma força indomável para a mudança social e como isso poderia impactar os indivíduos, as comunidades e as nações”

“Fiquei muito orgulhoso ao recebê-lo em Leeds, minha casa longe de casa, e sei a alegria que você sentiu pelos meus feitos. Aquilo foi muito emocionante. Você nunca saberá o quanto aquela visita significou a Feziwe, minha falecida esposa, e a mim. É um dia que ficará para sempre gravado em minha mente. Eu sempre me senti especial por você ter me dado um apelido, ‘Mthimkhulu'”.

“Os livros da história do esporte na África do Sul mostrarão estatísticas e vitórias. O que eles não trarão, no entanto, é que foi a magia de Madiba que forjou esses resultados e desempenhos. Que uniu um país e seu povo ao longo do caminho. Sem dúvidas, essa magia continuará vivendo. Obrigado, Tata”

Uma série de fotos de Radebe encarando grandes jogadores

Radebe contra Bergkamp (Ben Radford /Allsport)
Radebe contra Le Tissier (Phil Cole/ALLSPORT)
Radebe contra Michael Laudrup (Stu Forster/Allsport)
Radebe contra Yorke (Steve Morton/EMPICS via Getty Images)
Radebe contra Owen (Simon Wilkinson/EMPICS via Getty Images)
Radebe contra Zola (John Marsh/EMPICS via Getty Images)
Radebe contra Shearer (Barrington Coombs/EMPICS via Getty Images)
Radebe contra Shevchenko (Nick Potts/EMPICS via Getty Images)
Radebe contra Crespo (Adam Davy/EMPICS via Getty Images)
Radebe contra Henry (Adam Davy/EMPICS via Getty Images)
Radebe contra Van Nistelrooy (Neal Simpson/EMPICS via Getty Images)
Radebe contra Schmeichel, observado por Cantona (John Giles – PA Images/PA Images via Getty Images)