A Alemanha possui uma das escolas de goleiros mais respeitadas do mundo. De grandes nomes como Toni Turek e Hans Tilkowski, há um salto de qualidade inegável com Sepp Maier. O lendário arqueiro de quatro Copas do Mundo aperfeiçoou técnicas e treinamentos, deixando um enorme legado a seus sucessores. A partir de então, é difícil mencionar um arqueiro do Nationalelf sem qualidade. E, nesta dinastia, Bodo Illgner se coloca como um dos expoentes. Presente em dois Mundiais, o camisa 1 fez história em 1990, e não apenas por faturar o tricampeonato. Aos 23 anos, segue como o goleiro titular mais jovem a conquistar a taça, assim como foi o primeiro a passar os 90 minutos de uma decisão de Copa sem sofrer gols. Nome reverenciado pelos alemães, sobretudo em Colônia, que completa 50 anos nesta sexta.

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Nascido em Koblenz, Illgner começou cedo no futebol. Aos seis anos, já treinava no pequeno Hardtberg. Passou uma década no clube, até ser pinçado em 1983 pelo Colônia, o clube que mudaria a sua carreira. E tudo aconteceu muito rápido ao prodígio. A primeira chance de entrar em campo veio em fevereiro de 1986, em uma fogueira danada. Titular da seleção, Harald Schumacher foi expulso ao cometer pênalti contra o Bayern de Munique. O garoto de 18 anos já entrou para tentar parar a cobrança de Lothar Matthäus. Não conseguiu, mas logo ganharia confiança no clube. A pressão primordial foi importante para forjar o seu caráter.

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Na temporada seguinte, Illgner já conquistaria a posição, mas não apenas por seus méritos. Schumacher nunca foi um cavalheiro. E causou uma polêmica imensa com sua autobiografia, na qual afirmou que muitos de seus companheiros, tanto de clube quanto de seleção, jogavam dopados. Depois de 14 temporadas na meta do Colônia, um dos maiores ídolos da história dos alvirrubros saiu pela porta dos fundos. Porém, para alegria da torcida, havia outro craque de luvas pronto para se firmar. O jovem, às vésperas de completar 20 anos, agarrou a chance de sua vida. Desistiu do pré-contrato que tinha com o Nuremberg e iniciou outro grande período de um camisa 1 no Estádio Müngersdorfer.

A partir de então, o talento abriu o caminho a Illgner como num passe de mágica. Fechando o gol do Colônia, já ganhou a primeira chance na seleção principal em setembro de 1987, após ter feito parte de todos os níveis desde o sub-16. Se Schumacher deixou uma lacuna também no Nationalelf, o provável herdeiro seria mais do que óbvio. Ainda assim, o jovem pegou apenas experiência na Euro 1988. Reserva de Eike Immel, do Stuttgart, o novato viu do banco a campanha até as semifinais. Já na sequência do ciclo, ganhou a confiança de Franz Beckenbauer para assumir a meta. Mais do que isso, virou pupilo de Sepp Maier, recém-nomeado como treinador de goleiros da equipe nacional. “Ele é equilibrado, tem poder de decisão e se empenha muito nos treinos”, avaliava o mestre.

A fase no clube referendava Illgner: o arqueiro foi eleito o melhor da Bundesliga em 1988/89 e em 1989/90, embora coletivamente não tenha sido tão feliz, com o vice-campeonato do Colônia em ambas oportunidades. A primeira grande conquista, por fim, aconteceu a partir de junho de 1990, em plena Copa do Mundo. Aos 23 anos, era titular absoluto do Nationalelf, protegido por uma defesa competentíssima, encabeçada por Jürgen Kohler, Klaus Augenthaler e Guido Buchwald. O camisa 1 transmitia bastante segurança, especialmente nas saídas de gol. Brilhou nas semifinais, ao defender o pênalti de Stuart Pearce. Já na tensa decisão contra a Argentina, manteve a meta invicta ao longo dos 90 minutos e teve o gosto de erguer a taça com seus companheiros.

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Depois da conquista, Illgner passou a ser reconhecido como um dos melhores goleiros do mundo. Faltava sorte com o Colônia, distante das primeiras posições da Bundesliga e vice da Copa da Alemanha em 1991. Ainda assim, o alemão acabou eleito o melhor goleiro da liga por mais duas temporadas, além de também ser apontado como o melhor da Europa em 1991. Não à toa, permanecia firme na seleção. Vice-campeão da Euro 1992, tentou defender o trono na Copa de 1994. No entanto, o Mundial dos Estados Unidos foi para esquecer. O camisa 1 se envolveu em uma polêmica por conta de declarações de sua esposa. Ganhou a disputa ferrenha com excelente Andreas Köpke pelo posto de titular, mas pouco impressionou. Sofreu sete gols em cinco partidas, com os alemães eliminados pela Bulgária.

Ao final da competição, Illgner tomou uma decisão inesperada: pendurou as luvas da seleção. Aos 27 anos, ainda teria uma longa carreira no Nationalelf, mas preferiu se afastar das convocações – em decisão que, anos depois, avaliaria como um erro. Abriu espaço para Köpke, enquanto também permitiu a ascensão de Oliver Kahn na hierarquia. E mesmo no Colônia não permaneceria muito tempo. Ficou mais duas temporadas, até atrair o interesse do Real Madrid, então treinado por Fabio Capello. Deixou os alvirrubros com 326 jogos pela Bundesliga, entre os 10 que mais entraram em campo pelo clube.

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No Bernabéu, experimentou o sucesso logo em seu primeiro ano. Os merengues faturaram La Liga em disputa acirrada com o Barcelona de Ronaldo, apenas dois pontos à frente dos rivais. Illgner foi titular em 40 das 42 rodadas, importantíssimo para manter a segunda melhor defesa da competição. A equipe da capital perdeu apenas três jogos com o alemão. Já na temporada seguinte, Jupp Heynckes começou a apostar em Santiago Cañizares. Coube ao camisa 25 recuperar a posição na hora certa. No momento de fazer história. A partir de fevereiro, Illgner voltou ao gol. Não teve sucesso em La Liga, mas deu ao Real Madrid algo bem maior: a Liga dos Campeões, após 32 anos de jejum. O paredão sofreu apenas um gol nos cinco jogos finais. Segurou a Juventus na decisão em Amsterdã, na célebre vitória por 1 a 0, com gol de Predrag Mijatovic.

A conquista da Champions serviu de consagração a Illgner, aos 31 anos. Contudo, o final de sua carreira não estava distante. Dono da meta também na temporada seguinte, acabaria sofrendo uma grave lesão no ombro. Substituído inicialmente por Albano Bizzarri, na verdade deu a brecha para uma verdadeira lenda do Real Madrid: Iker Casillas. Prodígio como o alemão em seu início e que, como ele, também se tornaria campeão do mundo. Illgner ainda faria parte do elenco no título da Champions de 1999/00, em campo em apenas um dos jogos. Em 2001, campeão de La Liga outra vez, mas no banco, optou por pendurar as luvas. Já tinha alcançado o seu lugar na história. Atualmente, trabalha como comentarista nos Estados Unidos. Oferece o conhecimento de quem viveu tanto, de quem fez tanto.

Vale conferir também o texto sobre Illgner do amigo Fernando Figueiredo Mello, no efemérides do éfemello