Youri Djorkaeff teve uma carreira extremamente afortunada. Afinal, ele pode se gabar: foi o fiel escudeiro de craques da estirpe de Ronaldo Fenômeno e Zinedine Zidane, justo em momentos apoteóticos de ambas as lendas. Não que o meia fosse exatamente um carregador de piano para os gênios. Longe disso, ele ia muito além do que sua camisa 6 sugeria, meia-atacante de qualidade técnica refinada e poder de decisão. Era daqueles que conseguem engrandecer ainda mais os gigantes. E que, assim, também se colocou entre os grandes. Em uma carreira que circulou em vários clubes tradicionais, o francês desfrutou a idolatria na maioria deles. Mais do que isso, foi um dos protagonistas dos Bleus em dois de seus maiores títulos, a Copa do Mundo de 1998 e a Eurocopa de 2000.

Filho de uma armênia e de um calmuco-polonês, Djorkaeff tinha o sangue boleiro correndo nas veias. Seu pai, Jean Djorkaeff, construiu uma carreira de respeito como jogador profissional. Defendeu alguns dos maiores clubes do país, ídolo principalmente em Lyon e Olympique de Marseille, além de fazer parte do PSG em seus primeiros anos. Tão bom que disputou a Copa do Mundo de 1966. Dois anos depois, nasceu seu segundo filho, Youri – batizado assim por referência ao filme Doutor Jivago. Logo na infância, começou a praticar diferentes esportes: natação, atletismo, tênis, judô. A paixão, todavia, estava mesmo no futebol. Era fã de Johan Cruyff, enquanto admirava o Liverpool campeão de tudo na virada dos anos 1970 para os 1980.

Djorkaeff iniciou sua trajetória em pequenos clubes franceses na adolescência, até ganhar uma chance no Sochaux. Agradou em campo, mas inexplicavelmente acabou dispensado – em episódio que, em sua autobiografia, acredita ter sido causado por xenofobia a suas origens imigrantes. Seu primeiro grande passo aconteceu no Grenoble, aos 15 anos de idade. Rapidamente ascendeu e passou a integrar o elenco principal, que militava na Ligue 2. Sua estreia aconteceu ainda aos 17 anos, contra o Montpellier de Laurent Blanc, seu futuro colega de seleção. Em tempos nos quais o time oscilava entre a segunda e a terceira divisão, o meia sustentava enorme moral. Em seus cinco anos por lá, usou a braçadeira de capitão e ganhou o apelido de “pequeno Mozart”. Em 1989/90, transferiu-se ao Strasbourg. E, no Estádio de la Meinau, o jovem viveu o ápice de sua forma, com 21 gols na segundona.

A escalada levou o Monaco de Arsène Wenger a contratar o prodígio. Aos 23 anos, Djorkaeff passou a compor um dos melhores elencos da França – companheiro de Lilian Thuram, Emmanuel Petit, George Weah e Ramón Díaz. Os monegascos não conseguiam competir com o esquadrão do Olympique de Marseille, bancado por Bernard Tapie. Assim, precisou se contentar com o vice-campeonato nas duas primeiras temporadas. Já a desforra aconteceu na Copa da França de 1990/91, titular na vitória sobre os próprios marselheses na final. Na temporada seguinte, disputou também a decisão da Recopa Europeia, desta vez derrotado pelo Werder Bremen de Otto Rehhagel. O meia passou cinco anos no principado, ganhando ainda a companhia de Jürgen Klinsmann, Sonny Anderson, Enzo Scifo, entre outros. O clube, porém, não conquistou outros títulos. Individualmente, ao menos, o saldo foi positivo ao jovem. Foi artilheiro da Ligue 1 em 1993/94, com 20 gols, e recebeu sua primeira convocação à seleção.

O Estádio Louis II parecia pequeno demais a Djorkaeff e ele deu um novo passo em 1995/96, juntando-se ao PSG. Os parisienses atravessavam um momento de inegável prestígio, acumulando taças e figurando entre os melhores times da Europa. O meia permaneceu apenas um ano no Parc des Princes, mas o suficiente para ser feliz. Vice-campeão na Ligue 1, foi fundamental na conquista da Recopa Europeia. Anotou quatro gols ao longo da campanha, inclusive na semifinal contra o respeitável Deportivo de La Coruña. Ao final da temporada, disputou sua primeira competição internacional, a Euro 1996. Era uma das referências ofensivas da França, que caiu apenas nas semifinais. Acabou eleito para o time ideal do campeonato.

Então, Djorkaeff seguiu para o auge de sua carreira. Tinha propostas de diversos grandes clubes, escolhendo a Internazionale como seu futuro. Em Milão, experimentou a adoração da torcida nerazzurra, por seus lances de efeito e os belos gols. O primeiro ano com os interistas foi excelente. Marcou 14 gols na Serie A, em campanha que rendeu a terceira colocação. Também foi finalista da Copa da Uefa, derrotado no confronto decisivo contra o Schalke 04. E anotou um tento lembrado entre os mais bonitos da história do clube, em voleio imparável contra a Roma. O suficiente para se tornar xodó.

Referendado, Djorkaeff ganhou a companhia de Ronaldo em 1997/98 – em time que também contava com Diego Simeone, Iván Zamorano, Nwankwo Kanu, Giuseppe Bergomi, Gianluca Pagliuca e Javier Zanetti. Aquela Inter terminou vice-campeã da Serie A e faturou a Copa da Uefa, passando por cima da Lazio na final. Então, o francês chegava motivado à Copa do Mundo. Homem de confiança de Aimé Jacquet, havia encabeçado a renovação dos Bleus a partir da ausência no Mundial de 1994. Anotou gols importantes ao longo daquele ciclo. E apesar das discussões de que não poderia atuar ao lado de Zidane, por se atrapalharem em campo, complementou o craque em momentos da competição.

Em uma França que sofria por sua falta de opções confiáveis no ataque, entre a inexperiência de Trezeguet e Henry, ou a limitação de Guivarc’h e Dugarry, cabia a Djorkaeff oferecer um pouco mais de talento em suas chegadas. Marcou apenas um gol naquela competição, durante a vitória sobre a Dinamarca na fase de grupos. Mas teve sua importância pelo respiro que oferecia ao setor ofensivo. Foram duas assistências essenciais na reta final: para Thuram empatar a semifinal contra a Croácia e para Zidane ampliar a vantagem sobre o Brasil na decisão. Ao final, Youri levantou a taça.

O prestígio de Djorkaeff na Inter, contudo, não se manteve plenamente. Ainda anotou seus gols, mas viu os questionamentos aumentarem. Deixou o San Siro após uma modesta oitava colocação na Serie A. Em 1999/00, o francês tornou-se reforço do Kaiserslautern, campeão alemão um ano antes. Atraído pela chance de trabalhar com Otto Rehhagel, o meia viveu uma ótima temporada de estreia, autor de 11 gols. Embalo necessário para brilhar também na Euro 2000, mesmo sem estar em sua melhor forma física. Titular em metade dos jogos com Roger Lemerre, em uma seleção francesa mais completa do que dois anos antes, o camisa 6 deu sua contribuição. Foram dois gols, um deles para sacramentar a vitória sobre a Espanha nas quartas de final.

A sequência de Djorkaeff no Kaiserslautern não foi boa. Não conseguiu ser tão efetivo e entrou em atrito com Andreas Brehme, substituto de Rehhagel. E naquelas duas temporadas seguintes, mesmo com a seleção francesa as coisas não foram bem. Titular contra Senegal na estreia, não evitou o vexame dos Bleus na Copa do Mundo de 2002. Neste momento, a carreira do meia parecia se encaminhar ao final, já aos 34 anos. Houve tempo para uma recuperação. Contratado pelo Bolton ainda no início de 2002, ele se estabeleceu como estrela de um elenco recheado de veteranos. Era o homem da ligação no time de Sam Allardyce. Idolatrado no Estádio Reebok, disputou a final da Copa da Liga em 2004, derrotado pelo Middlesbrough. Além disso, depois de terminar as duas primeiras campanhas lutando contra o rebaixamento, levou os Whites a um digníssimo oitavo lugar em 2003/04.

Por fim, Djorkaeff teve uma efêmera passagem pelo Blackburn, antes de se mudar para os Estados Unidos. Defendeu por duas temporadas o New York MetroStars, rebatizado depois como Red Bulls. Aposentou-se em 2006, aos 38 anos. Pela seleção, a qual defendeu até 2002, foram 82 jogos e 28 tentos. É o oitavo maior artilheiro da história dos Bleus, com uma média de gols superior à de Karim Benzema. Segue ovacionado pelos antigos torcedores, sobretudo os da Internazionale, recebendo homenagens recentes no San Siro.

Ao longo de mais de duas décadas atuando profissionalmente, Djorkaeff teve o prazer de atuar com grandes jogadores e integrar ótimos times. Sem dúvidas, contribuiu para que individualidades e coletivos atingissem seus ápices. A capacidade técnica do meia, afinal, se evidenciava: a boa condução, os dribles, os domínios, a visão de jogo, os passes. O pé direito possuía uma precisão imensa, principalmente nos tiros de média distância, incluindo aí as cobranças de falta. Sua incisividade permitia arrancadas fulminantes por entre os zagueiros, virtude esta complementada pelo sangue frio nas definições. E, apesar das acusações de ser “fominha”, a quantidade de assistências indica o contrário. Talento que pode ficar abaixo de Zizou ou do Fenômeno, mas que faz o eterno camisa 6 merecer sua menção honrosa ao lado de tamanhas lendas.