Gabriel Omar Batistuta: um nome que impõe respeito em qualquer um, especialmente nos zagueiros e goleiros que tinham o desprazer de enfrentar o artilheiro. Durante seu auge, na década de 1990, Batigol se consagrou como um dos atacantes mais letais que o futebol já viu. Um contrassenso para quem começou tarde no esporte e enfrentou dificuldades para vingar. Nada que o seu empenho e os poderosos chutes não pudessem mudar, resultado em centenas de gols. O matador deixou saudades em muita gente, especialmente nos torcedores da Fiorentina, onde viveu o seu ápice. Os campeões romanistas e os saudosos argentinos não contrariam tal afirmação, assim como outros tantos milhares de fãs, que apreciavam o seu futebol decisivo e voraz. Nesta sexta, o camisa 9 completa 50 anos. Assim, resolvemos reunir 50 pílulas (entre fatos históricos, gols marcantes, jogos inesquecíveis, declarações ou características) que reconstroem a sua lenda. Aproveite:

A oficina acabou trocada pelos gols

Batistuta nasceu em Avellaneda, uma pequena cidade na Província de Santa Fe. Aos seis anos, mudou-se à vizinha Reconquista. Cresceu em uma família simples, ligada ao campo. Seu pai trabalhava em um frigorífico, enquanto a mãe era secretária de uma escola. O futebol demorou a pegar o garoto, que até batia a sua bola, mas não era exatamente vidrado no esporte. Não à toa, não cogitava ser jogador profissional e se dedicava aos estudos. Seu desejo? Virar mecânico de automóveis e ter sua própria oficina. Chegou até mesmo a ingressar em uma escola técnica, mas não concluiu a formação. A bola logo entrou em sua vida.

Das quadras para os campos, graças a Maradona

Curiosamente, o primeiro esporte que Batistuta levou a sério não foi o futebol. Graças à sua altura, jogava vôlei e principalmente basquete. Treinava bastante com a bola laranja, até que a Copa do Mundo mudasse a sua vida. Segundo sua biografia, Gabriel ganhou de um amigo o poster de Diego Maradona publicado pela revista El Gráfico, às vésperas da Copa do Mundo de 1986. O presente atiçou a ambição do adolescente, que já se encantara com Mario Kempes em 1978, e o esplendor do camisa 10 no Mundial do México se tornou a certeza do que desejava. A partir de então, nasceria um goleador insaciável.

O Gordo de Reconquista

O tipo físico parecia não ajudar muito Batistuta. Embora fosse alto, o garoto era um tanto quanto rechonchudo. Ganhou o apelido de “Gordo”, mas logo provou que seu peso não era problema para balançar as redes. Começou a despontar em competições estudantis, até se juntar ao amador Grupo Alegria, um clube de bairro. Defenderia ainda o Platense, onde jogou por dois anos, até chamar atenção do Newell’s Old Boys. Gabriel estourou quando passou a ser convocado para uma seleção local de Reconquista. O time surpreendia no campeonato regional e chegou a eliminar o Pachamé, que contava com um tal de Fernando Redondo. Já na decisão, apesar da derrota, o camisa 9 agradou a torcida em Rosario. Recebeu uma oferta de Jorge Griffa, antigo ídolo leproso, para se juntar ao Newell’s. “Ele não parecia um jogador. Era um rapaz grandalhão, que não sabia como cabecear e não tinha o físico de atleta. Mas quando chutava a bola, ela podia ir a qualquer lugar”, declarou Griffa, em entrevista à Sky Sports, anos depois.

Gols por alfajores

O aspirante a mecânico aceitou a proposta do Newell’s. Mais do que um sonho de menino, era a possibilidade de um trabalho, em tempos difíceis à economia argentina. E o adolescente sofreu em seus primeiros meses em Rosario, morando no alojamento sob as arquibancadas do Coloso del Parque. Lidava com a distância da família, com a saudade de Reconquista, com a exigência dos treinamentos. Cogitou até mesmo voltar para casa, mas acabou impedido por seu pai. Osmar Batistuta nunca gostou de futebol e desejava que o filho continuasse os estudos, mas tinha dado sua palavra a Griffa de que o garoto se provaria por um ano. Compromisso mantido, Bati começou a deslanchar na base leprosa. E ganhou um importante aliado: Marcelo Bielsa, seu treinador nos juvenis. El Loco seria fundamental também por ajudar o El Gordo a emagrecer. Intensificou os treinos físicos, apertou a dieta. A comida era regulada a Gabriel, enquanto o rapaz ganhava dinheiro para fazer tarefas no CT do Newell’s. O excesso de peso logo se foi e o camisa 9 voou baixo. Retribuía Bielsa com gols, enquanto o treinador o premiava com alfajores.

Em poucos jogos, a final da Libertadores

Após passar pelo time reserva do Newell’s, Batistuta estreou pela equipe principal em 1988, aos 19 anos. Era uma indicação de Bielsa ao técnico José Yudica. E, de algumas aparições no Campeonato Argentino, o prodígio não demorou a ser chamado para disputar a Libertadores. Os leprosos eram os atuais campeões nacionais e haviam alcançado as semifinais, na qual enfrentariam o San Lorenzo. Pois foi justamente nesta ocasião grandiosa que Bati anotou o seu primeiro gol profissional. Dentro do José Amalfitani, determinou a vitória por 2 a 1 sobre o Ciclón e botou os rosarinos em sua primeira final continental. Tata Martino deu o passe e o camisa 7 soltou a bomba de fora da área. A bola desviou na marcação e encobriu o goleiro antes de entrar. Já na decisão contra o Nacional de Montevidéu, o novato foi titular em ambas as partidas. No jogo de ida, a vitória no Coloso del Parque nasceu a partir do rebote de um de seus chutes. Todavia, o Bolso ficaria com a taça.

Mesmo sem tanto impacto, decisivo ao River

Se não foi exatamente um estrondo no Newell’s, apesar do bom começo, Batistuta atraiu a atenção de outros clubes. No início de 1989, ele jogou o Torneio de Viareggio, tradicional competição de base, emprestado ao Deportivo Italiano. Até recebeu sondagens do Calcio, mas acabaria arrumando suas malas ao River Plate. Estreou pelo clube na Liguilla, um mini-torneio que valia vaga na Libertadores. Logo de cara, anotou um lindo gol na decisão contra o San Lorenzo, que garantiu os Millonarios na competição continental. Dominou a bola que ia escapando e, com um giro mortal, emendou um chutaço da entrada da área. Pena que a primeira impressão não se confirmaria em Núñez. A sequência não se manteve e o jovem centroavante acabou dispensado quando Daniel Passarella chegou ao comando do time. O primeiro dos embates com o Kaiser, que se repetiriam anos depois.

A sensação que elevou o moral do Boca Juniors

Batistuta deixou o Monumental para fazer um caminho pouco usual: seguiu à Bombonera e assinou com o Boca Juniors. Os xeneizes ainda torciam o nariz para o antigo rival, que não possuía grandes números e nem apresentava grande mobilidade. Eram “El Camión”. Contudo, o jovem que começou tarde ao futebol logo se aprimorou. O chute potente seguia como a sua grande arma, mas ele passou a aliar explosão e muita inteligência na movimentação. Era o tal “cacoete de centroavante” que tomava as veias de Gabriel. Bati virou Batigol em La Boca. Formou uma dupla infernal com Diego Latorre, seu amigo também fora da cancha. O ápice aconteceu a partir do momento em que Óscar Tabárez assumiu os boquenses. Anotou 11 gols no Clausura, que garantiu o Boca na decisão do Campeonato Argentino contra o próprio Newell’s, campeão do Apertura. O problema é que, convocado pela seleção para a Copa América, o craque seria desfalque na final vencida pelos leprosos.

O Brasil logo conheceu Batigol, arrasador na Libertadores

O primeiro grande ano da carreira de Batistuta aconteceu em 1991. Além da supracitada conquista do Clausura (que não valeu para as contas de campeões nacionais, entretanto), o centroavante gastou a bola na Libertadores. Sua grande exibição na fase de grupos aconteceu em pleno Monumental. Anotou dois gols contra o River Plate e contribuiu à eliminação precoce dos rivais. Depois, se tornaria o pesadelo dos brasileiros nos mata-matas. Foram dois gols na vitória sobre o Corinthians na Bombonera, pelas oitavas de final; e um em cada jogo diante do Flamengo, pelas quartas. Nas semifinais, porém, os xeneizes sucumbiriam ao Colo-Colo, em duelos tumultuados. Diante da confusão generalizada em Santiago, que selou a classificação do Cacique, Batigol chegou a ser detido por agressão, mas logo acabaria liberado pela polícia.

A Copa América de 1991

A estreia de Batistuta pela seleção argentina aconteceu em junho de 1991. Foi titular durante o amistoso contra o Brasil, no Pinheirão. Claudio Caniggia anotou o gol no empate por 1 a 1. Duas semanas depois, Alfio Basile seguiu confiando no jovem para compor o ataque da Albiceleste na estreia da Copa América. Não se arrependeu. Batigol fez dois nos 3 a 0 sobre a Venezuela. Em batalha tensa contra o Chile na etapa seguinte, desta vez calou o Estádio Nacional de Santiago, ao garantir o triunfo por 1 a 0. E encerraria a fase de grupos perfeita anotando mais um na goleada sobre o Paraguai. Antes do torneio, o empresário de Gabriel havia falado que, se somasse seis gols, conseguiria a almejada transferência ao Calcio. Meta cumprida no quadrangular final. Primeiro, anotou o terceiro tento nos 3 a 2 sobre o Brasil. E garantiu a taça com o gol do título na vitória por 2 a 1 sobre a Colômbia. Os seis gols o botaram na artilharia. Pela primeira vez desde a década de 1950, a Argentina conquistava a Copa América.

Um craque flagrado pelo olhar cinematográfico

Também titular na Copa América, Diego Latorre referendou sua excelente fase no Boca Juniors com a transferência à Fiorentina. Filho do dono da Viola, Vittorio Cecchi Gori foi convidado a dar sua opinião sobre a chegada do armador. O vice-presidente do clube assistiu a alguns vídeos e fez uma análise categórica: “Traga também Batistuta”. O olhar clínico tinha razão. Vittorio Cecchi Gori também foi um renomado produtor de cinema, assim como seu pai, Mario. Trabalhou com diretores do porte de Federico Fellini, Giuseppe Tornatore, Roberto Benigni e Martin Scorsese, participando inclusive da produção de “A Vida é Bela”. Ironias do destino à parte, Batistuta recebeu o apelido de “Rei Leão” em Florença. Já o cartola, apesar de sua importância ao clube naquele momento, seria preso por fraudes e responsabilizado pela falência da Fiorentina mais de uma década depois.

Um gol que valeu cinco mil cartas

Batistuta demorou a engrenar na Fiorentina, que não teve um começo de temporada fácil. Sebastião Lazaroni era o técnico da Viola e foi demitido logo na quinta rodada, diante dos maus resultados. O centroavante anotou três gols ao longo do primeiro turno. O ponto de virada aconteceu logo na primeira partida do segundo turno. A torcida em Florença se incendiou para o clássico contra a Juventus, em anos fervilhantes de ódio contra o clube que roubou Roberto Baggio dos violetas. Pois logo o novo ídolo ocuparia o coração dos florentinos. Bati abriu o placar na vitória por 2 a 0 sobre a Velha Senhora, com uma bela cabeçada. No dia seguinte, a Gazzetta dello Sport convidou seus torcedores a enviarem uma mensagem ao novo ídolo. Pilhas e pilhas de papéis se amontoaram na redação. Foram cerca de 5 mil cartas e faxes em dois dias. Seriam mais nove gols ao longo do returno da Serie A 1991/92, com seu clube terminando com o 12° lugar.

As lágrimas do rebaixamento

Batistuta não nega que demorou a se aclimatar durante a chegada a Florença. O segundo ano, porém, já guardava o melhor do centroavante. O artilheiro anotou 16 gols em 32 partidas, com atuações decisivas. O problema é que a Fiorentina, após almejar as copas europeias no primeiro turno, despencou a partir de janeiro e terminou rebaixada na equilibrada Serie A 1992/93. Os prantos tomaram o Artemio Franchi, pelo desastre que não acontecia desde o final da década de 1940 com o clube. Bati também chorou e se assustou ao ver o presidente Mario Cecchi Gori, aos 73 anos, sair escoltado pela polícia. Naquela época, tinha propostas polpudas para a sequência de sua carreira, inclusive do Real Madrid. Recusou e se comprometeu a colocar o time de volta na elite do Calcio.

A Copa América de 1993

As últimas conquistas da seleção principal da Argentina tiveram Batistuta como protagonista. Em 1992, a Albiceleste faturou a Copa Rei Fahd, protótipo da Copa das Confederações. Também ganhou a Copa Artemio Franchi, torneio intercontinental contra o vencedor da Eurocopa, a Dinamarca. E o bi da Copa América se consumou em 1993. Desta vez o centroavante não foi tão letal, anotando o gol da vitória sobre a Bolívia na estreia e passando em branco nos quatro empates consecutivos dos argentinos. Sergio Goycochea mais uma vez se projetou como herói, com triunfos sobre Brasil e Colômbia nos pênaltis. Já a decisão viu a recuperação de Batigol. Balançou as redes duas vezes na vitória por 2 a 1 sobre o México. Em sua terceira e última participação na Copa América, em 1995, Batistuta fez mais quatro gols em quatro jogos, até a eliminação para o Brasil nas quartas de final.

A redenção na Serie B

A adoração de Batistuta em Florença, entre tantos motivos, possui a sua razão principal concentrada na temporada 1993/94. Foi quando o craque deu sua cara a tapa e reergueu os violetas na Serie B. Ainda era uma equipe bem mais forte do que a média à segundona, com Francesco Toldo despontando no gol, Stefan Effenberg preenchendo o meio-campo e Francesco Baiano dando velocidade ao ataque. De qualquer maneira, o redentor foi Bati. Mesmo ausente por compromissos com a seleção, anotou 16 gols em 26 partidas. Treinada por Claudio Ranieri, a Viola terminou com o título, cinco pontos à frente do vice, o Bari.

O gol que colocou a Argentina na Copa

Ao longo de 1993, Batistuta não escapou do fiasco protagonizado pela Argentina nas Eliminatórias da Copa. Anotou dois gols, em duas vitórias sobre o Peru, mas também estava em campo nos históricos 5 a 0 da Colômbia em Núñez. A Albiceleste teria que jogar a repescagem. Ganhava o acréscimo de Maradona, aquele herói do poster na parede do quarto em Reconquista. E o artilheiro também teria sua influência, mesmo que indireta, na vitória por 1 a 0 sobre a Austrália. O centroavante cruzou a bola prensada por Alex Tobin, que acabou encobrindo o goleiro e determinando o chorado resultado. Garantiu os argentinos no Mundial dos Estados Unidos.

A primeira tripleta em Copas, ofuscada por Maradona

Os meses anteriores haviam representado um grande alívio a Batistuta. Recolocou a Fiorentina na Serie A e salvou a Argentina nas Eliminatórias. Chegaria mais leve à Copa do Mundo e cotado como um dos nomes a se observar nos EUA, aos 25 anos. A goleada por 4 a 0 sobre a Grécia, na estreia, costuma ser lembrada pela comemoração enlouquecida de Maradona, no terceiro gol da tarde em Boston. O que nem todos mencionam foi a partida arrasadora do camisa 9. Batistuta anotou três gols. Logo aos dois minutos, abriu o placar e fez o tento mais rápido da Albiceleste na história das Copas. Ampliou aos 44, num belíssimo chute da entrada da área. E fecharia a conta aos 90, cobrando pênalti. O centroavante passou em branco contra Nigéria e Bulgária na sequência do torneio. Faria mais um no jogaço contra a Romênia, sem evitar a queda nas oitavas de final do Mundial.

A volta com tudo à Serie A

Se a primeira divisão do Campeonato Italiano havia sentido falta de Batistuta durante sua ausência? A resposta veio logo de cara. O centroavante estava sedento por recolocar a Fiorentina entre os principais clubes da Serie A. Fez isso enquanto pôde, no impressionante início da temporada. Bati anotou 13 gols nas 11 primeiras rodadas. Não falhou em uma partida sequer, balançando as redes de cada um de seus adversários. Quebrou o recorde de partidas seguidas marcando na liga, algo que seria igualado por Fabio Quagliarella apenas na última semana. Naquele momento, a Viola chegou a ocupar a terceira colocação. A derrota para a Juventus botou um ponto final na sequência e o rendimento, a bem da verdade, cairia depois disso. Não que tenha sido ruim, pelo contrário: o argentino terminou como artilheiro da competição, somando 26 gols. A Fiorentina, contudo, despencou e acabou em 10°.

A inesquecível Copa da Itália

Batistuta terminou a Serie A 1995/96 com 19 gols e a Fiorentina, que ocupou a vice-liderança em parte do segundo turno, encerrou a campanha no honroso quinto lugar. Mas o potencial do time só esteve claro na Copa da Itália. Após 21 anos, os violetas findavam seu jejum e reconquistavam o título nacional. Batigol, obviamente, foi vital à façanha. Marcou apenas dois gols nas primeiras fases, guardando o seu melhor a partir das semifinais. Registrou uma tripleta contra a Internazionale em Florença e garantiu também a vitória por 1 a 0 em Milão. Já nas finais, ante a Atalanta, marcou um no Artemio Franchi e confirmou a festa em Bérgamo concluindo os 2 a 0, após Lorenzo Amoruso ter aberto o placar. Na mesma noite, os jogadores ainda voltariam a Florença, onde 40 mil fanáticos os aguardavam em seu estádio. “Quando eu saí do túnel com a taça em minhas mãos, eu me senti, por um momento, o melhor do mundo”, afirmou o ídolo, sobre a sensação.

A maior declaração de amor

A Supercopa da Itália pode ser um título meramente acessório, mas Batistuta soube dar valor à conquista em 1996. A Fiorentina encarou um timaço do Milan, na época treinado por Óscar Tabárez. E a vitória por 2 a 1 em Milão teve o selo do craque. O argentino marcou os dois gols, definindo o resultado aos 38 do segundo tempo. O tento decisivo veio em uma potente cobrança de falta e, na comemoração, o camisa 9 saiu correndo às câmeras para declarar à esposa: “Eu te amo, Irina”. Depois explicaria, emocionado pela conquista: “Só queria compartilhar com a mulher da minha vida um momento mágico de minha carreira”.

O golaço na Recopa

Raras foram as aparições de Batistuta nas competições europeias com a camisa da Fiorentina. Disputou uma edição da Champions, uma da Recopa e uma da Copa da Uefa. A melhor campanha aconteceu na esteira do título da Copa da Itália, na Recopa Europeia de 1996/97. A Viola alcançou as semifinais, até ser eliminada pelo Barcelona, futuro campeão. E o centroavante deixou sua marca contra cada um dos adversários. A atuação mais importante aconteceu contra o Benfica, na ida das quartas de final, com um gol e uma assistência em Florença. Já diante do Barça, a torcida no Camp Nou precisou se curvar ao goleador. Contra o time que possuía Ronaldo, Stoichkov, Giovanni e Figo em sua linha de frente, Bati arrancou o empate por 1 a 1. Anotou uma pintura da entrada da área, virando o corpo e soltando um petardo indefensável a Vítor Baía. Pediu silêncio na comemoração. Pena que o ídolo tenha sido desfalque na volta. Dentro do Artemio Franchi, o triunfo por 2 a 0 carimbou a passagem dos blaugranas rumo à decisão.

A estátua de bronze e a estrela

Em Florença, diziam que Batistuta ganharia as eleições para prefeito se quisesse concorrer. E as dúvidas quanto a isso cessaram também na temporada 1995/96. Após completar 100 jogos com a camisa da Viola na Serie A, o artilheiro virou uma estátua de bronze diante das arquibancadas do Artemio Franchi. A ocasião parecia mesmo um mero pretexto para exaltar o ídolo que resgatou o moral da agremiação e valorizou sua história. Na mesma época, um grupo de astrônomos de Florença descobriu uma nova estrela, e o nome escolhido para batizá-la era evidente: Batistuta.

Cobiçado por Sir Alex Ferguson

Apesar das conquistas na Copa da Itália e na Supercopa, Batistuta queria mais. Seguia empilhando gols na Serie A, mas a quinta colocação parecia uma barreira intransponível. Foram mais 12 tentos em 1996/97, antes de perseguir Oliver Bierhoff na artilharia, com 21 tentos em 1997/98. O craque já dava sinais de desgaste e cobrava a diretoria por um time mais competitivo, assim como por um treinador mais tarimbado. E quase o Manchester United se aproveitou da brecha na intertemporada de 1998. Os Red Devils fizeram uma proposta de US$44 milhões pelo matador, um recorde para a época. A chegada de Giovanni Trapattoni se tornou decisiva para a sua permanência em Florença, ganhando ainda mais a adoração dos torcedores violetas.

A noite mágica ao lado de Ronaldo

Batistuta e Ronaldo formavam um ataque arrasador nos videogames, mas nunca tiveram a chance de se somar na mesma equipe. Nunca em uma partida oficial. Afinal, um amistoso organizado pela Fifa antes do sorteio da Copa de 1998 reuniu os dois gênios. A entidade pegou um atleta de cada um dos 32 países classificados ao torneio e formou dois times: um representando a Europa e o outro, o Resto do Mundo. Zidane até poderia estar do lado oposto, mas os europeus sofreram ante a dupla sensacional. Jogando mais na armação, o brasileiro fez dois gols e deu três assistências. Já o argentino fuzilou Andreas Köpke duas vezes e ainda retribuiu um dos presentes ao Fenômeno. O colombiano Anthony de Ávila completou a contagem para o Resto do Mundo.

A segunda tripleta em Copas, marca única

Apesar do sucesso na Fiorentina, Batistuta não sustentava a mesma importância na seleção argentina às vésperas da Copa de 1998. Até marcou três gols nas Eliminatórias, mas terminou a caminhada preterido por Hernán Crespo. Daniel Passarella, outra vez, surgia no caminho do artilheiro. Ainda assim, ele faria uma ótima sequência de amistosos às vésperas do Mundial e assumiu a titularidade na França. Anotou o gol da vitória sobre o Japão na estreia e, contra a Jamaica, balançou as redes três vezes. Tornou-se o quarto jogador na história das Copas a anotar duas tripletas (ao lado de Sándor Kocsis, Just Fontaine e Gerd Müller), bem como o primeiro a fazer isso em duas edições diferentes do torneio.

O jogaço contra a Inglaterra

Certamente um dos melhores jogos das últimas Copas foi o Argentina x Inglaterra de 1998. Um duelo tenso com motivações extracampo, mas que também rendeu um embate inesquecível dentro das quatro linhas. O craque teria sua participação no épico empate por 2 a 2, anotando o primeiro da Albiceleste, em cobrança de pênalti. Era um incômodo constante por sua movimentação e sua potência no ataque, embora tenha sido substituído por Abel Balbo no segundo tempo. Do banco, veria a classificação nos pênaltis. A mesma sorte não teve no compromisso seguinte, contra a Holanda. Bati carimbou a trave de Edwin van der Sar, antes que Dennis Bergkamp anotasse seu histórico gol aos 45 do segundo tempo, classificando a Orange às semifinais.

Quando foi possível sonhar com o Scudetto

As promessas da Fiorentina não foram em vão. De fato, o time de Giovanni Trapattoni sonhou com o Scudetto na Serie A 1998/99. Batistuta parecia ter voltado mordido da Copa do Mundo e arrebentava seus adversários, com direito a uma tripleta sobre o Milan, então líder, para botar a Viola na primeira colocação. O forte elenco florentino ainda contava com Edmundo, Toldo, Rui Costa, Torricelli, Heinrich e outros grandes jogadores. Faltou fôlego. A Viola permaneceu na ponta até fevereiro. Bati havia se lesionado neste momento, enquanto Edmundo arrumou problemas ao voltar para curtir o carnaval no Brasil. A equipe emendou uma sequência ruim nas dez últimas rodadas e terminou na terceira colocação. Foi suficiente, ao menos, para garantir o retorno à Liga dos Campeões após mais de três décadas. Bati fez 21 gols, apenas um a menos que Amoroso na artilharia.

A solitária Champions pela Viola

A Champions League começava a se ampliar em 1999/00, quando a Fiorentina disputou o torneio pela segunda vez em sua história. E a Viola teria um desempenho digno. Na primeira fase de grupos, ajudou a despachar o Arsenal, em chave que também contava com o Barcelona. Ficaria no caminho durante a segunda fase de grupos, atrás de Manchester United e Valencia. Batistuta maltratou principalmente os ingleses. Foram cinco gols em dez partidas, um contra os Gunners e dois contra os Red Devils. Na visita a Highbury, determinou a vitória por 1 a 0 com um tirambaço quase sem ângulo. E ainda garantiu a vitória no Artemio Franchi contra os então campeões, sem perdoar um erro de Roy Keane. Por fim, em Old Trafford, apesar da derrota por 3 a 1, mostrou o que os mancunianos perderam ao não contratá-lo, com um golaço de fora da área.

Recorde para um trintão

A Fiorentina não manteria a toada na Serie A 1999/00. Terminou na oitava colocação, distante de qualquer sonho. Batistuta continuou letal na linha de frente, com 23 gols, sua segunda melhor marca pelo clube e atrás apenas de Andriy Shevchenko na artilharia. Todavia, às vésperas de completar 32 anos, o craque desejava o Scudetto. Preferiu deixar a cidade e a torcida que amava. Pedido direto do técnico Fabio Capello, a Roma pagou uma fortuna pelo artilheiro. Virou a terceira maior contratação da história naquele momento; e, até a mudança de Leonardo Bonucci ao Milan, também era o negócio mais caro envolvendo um jogador acima de 30 anos. Após o título da Lazio, os giallorossi precisavam de uma resposta. Encontraram o homem certo.

Escrevendo a história em Roma

Batistuta se encaixou em uma potência. Acrescentou faro de gol a uma Roma que já possuía Totti, Delvecchio, Montella, Tommasi, Cafu, Samuel, Aldair e outros jogadores notáveis. Cumpriria o seu trabalho, anotando os tentos necessários para a conquista de seu almejado Scudetto. Mesmo podendo dividir a responsabilidade com outros excelentes atacantes, o argentino assumiu o papel de goleador para si. Foram 20 gols em 28 partidas, artilheiro do time e quarto na lista geral do campeonato. Acumulou atuações decisivas e gols fundamentais, sobretudo na reta final. Foram quatro tentos nas últimas quatro rodadas, garantindo a distância de dois pontos sobre a Juventus. No último compromisso, ao lado de Totti e Montella, carimbou os 3 a 1 sobre o Parma, para delírio da torcida no Estádio Olímpico.

O reencontro com a Viola

Todavia, o jogo mais emblemático de Batistuta na campanha do título com a Roma aconteceu justamente em seu reencontro com a Fiorentina. O velho ídolo manteve o profissionalismo, por mais doloroso que fosse. O gol da vitória por 1 a 0 seria dele, em um chute fabuloso de fora da área. Não comemorou, embora fosse abraçado por todos os companheiros. Ao final da partida, respeitoso à torcida violeta, se dirigiu ao setor visitante no Estádio Olímpico e saudou os fãs. A adoração por Bati seria insubstituível, independentemente de seu destino. “No fim do jogo, eu sentia muita alegria porque ganhamos três pontos importantes, mas logo depois eu me senti muito triste, pensando em todos esses anos com a Fiorentina. Minha família cresceu em Florença. Lá eu me tornei o que sou agora e essas coisas não podem ser esquecidas. Espero que os torcedores da Viola entendam. Eu demonstrei meu respeito a eles. Não queria punir a Fiorentina. Às vezes, porém, temos que fazer coisas que não queremos”, declarou, após a partida.

Os tornozelos minaram o substituto de Ronaldo

Batistuta esteve distante de causar o mesmo impacto nas temporadas seguintes pela Roma. Anotou apenas seis gols na Serie A 2001/02, em que os giallorossi até brigaram pelo título, sem ter o mesmo sucesso. Entre os seus tentos, destaque a um que valeu a vitória sobre a Juventus. Se não podia sair às ruas antes, pelo fanatismo dos romanistas pedindo autógrafos, agora evitava o público pelas cobranças pesadas. E, pior, os seus tornozelos o martirizavam pelas dores constantes. Ficaria apenas mais meio ano na capital, com quatro gols no primeiro turno da Serie A 2002/03. Às vésperas de completar 34 anos, chegou à Internazionale como uma aposta para preencher a lacuna deixada por Ronaldo, vendido ao Real Madrid meses antes. Ao longo do empréstimo, anotou apenas dois gols pelo Campeonato Italiano e mal deixou lembranças.

O terceiro e último Mundial

Depois que Marcelo Bielsa assumiu a seleção argentina, na esteira da eliminação na Copa de 1998, Batistuta se tornou um nome menos frequente nas convocações. O treinador preferia dar continuidade ao seu processo de renovação e resguardava o veterano. Na arrasadora campanha das Eliminatórias rumo ao Mundial de 2002, o centroavante esteve em campo cinco vezes e fez cinco gols, eclipsado por Crespo. Já no Japão, o velho artilheiro tomou a posição e garantiu a única vitória, com o gol de cabeça que consumou o triunfo por 1 a 0 sobre a Nigéria. No entanto, não manteve o rendimento e pouco ajudaria nas duas rodadas seguintes, com a eliminação da Albiceleste. Anos depois, aliás, o ídolo declararia que nunca entendeu a opção de Bielsa por não utilizá-lo junto a Crespo na linha de frente. Poderia ter sido uma dupla letal, mas os matadores apenas se alternaram.

O último lampejo no Catar

As limitações físicas levaram Batistuta a deixar o futebol italiano em 2003. Assumiu que suas condições não permitiam atuar em alto nível e, aos 34 anos, aceitou a proposta do Al-Arabi, interessado em absorver uma nova cultura. Disputou apenas uma temporada completa no Campeonato Catariano, em tempos bem menos badalados que os atuais. Faturou a artilharia da competição com 25 gols, sete a mais que o segundo maior goleador, e anotados em apenas 18 jogos. Praticamente um ponto final, considerando que somou apenas mais três jogos na temporada seguinte, antes de pendurar as chuteiras, vencido pelas lesões.

A vida simples além do futebol

Ao longo de sua carreira, Batistuta se mostrou um artilheiro explosivo. Contudo, a personalidade séria se refletiu em sua trajetória longe do futebol. Até pelas dores que sentia, o craque tentou afastar sua vida pessoal do que acontecera dentro do campo. Chegou a morar por dois anos na Austrália, antes de se refugiar novamente no interior da Argentina, perto dos campos onde cresceu, levando uma vida simples. Trabalhou brevemente como dirigente no Colón e fez a formação para ser técnico, mas suas aparições ligadas ao futebol são esporádicas. O jogador de basquete e vôlei da juventude, aposentado, começou a praticar pólo (conquistando inclusive títulos na Argentina) e golfe. “Cheguei até lugares que nunca imaginei. Cheguei à seleção, que era um sonho, mas nada além. Estava em casa e via jogar Maradona, Kempes, Bertoni, Valdano. Eu não encontrava lugar para mim dentro de tudo isso, mas a vida me levou até lá”, avaliaria, em 2018, sem negar a importância da bola.

O maior artilheiro da Albiceleste

A eliminação contra a Suécia em 2002 foi o último jogo de Batistuta pela seleção argentina. Anotou 54 gols em 77 partidas – outras fontes falam em 56, embora o duelo contra a Eslováquia em 1995 não seja reconhecido oficialmente. Ainda em 1998, ultrapassou Maradona como maior artilheiro da seleção. Além disso, permanece como maior goleador do país em Copas do Mundo, com 10 tentos no total. Perderia seu trono apenas no número absoluto, com Lionel Messi demorando 111 partidas para igualar as suas 54 bolas nas redes em 2016. Diante do novo rei, Batigol afirmaria: “Honestamente, não fiquei muito bravo, mas fiquei um pouco, sim… Era um título pessoal que eu tinha. Não era só uma coisa velha que estava guardada. Eu gostava de sair pelo mundo dizendo: ‘Sou o maior artilheiro da história da seleção argentina’. Mas o que ainda posso dizer é que estou em segundo lugar, atrás de um extraterrestre”.

Um dos maiores da Serie A

A contribuição de Batistuta à história do Campeonato Italiano é significativa. Embora tenha sido artilheiro apenas uma vez, o argentino superou a marca dos 20 gols em cinco temporadas. Foram 184 gols em 318 partidas, o que mantém uma respeitável média de mais de 15 tentos por campanha – e em uma época de defesas realmente fortes na liga. Não à toa, os anos áureos do Calcio nos anos 1990 inescapavelmente passam pela imagem do artilheiro cabeludo acionando sua metralhadora na tradicional comemoração. É o 12° jogador com mais gols na história do Campeonato Italiano e o quarto entre os estrangeiros da liga.

Os grandes técnicos que se valeram de seus gols

Batistuta teve a honra de ser treinado por comandantes históricos. Ou, ao contrário, eles tiveram o gosto de contar com os gols do artilheiro. A lista é extensa: Óscar Tabárez, Alfio Basile, Claudio Ranieri, Giovanni Trapattoni, Fabio Capello… E há a relação especial com Marcelo Bielsa, que acolheu o garoto no início de carreira, fundamental ao seu desenvolvimento como um craque. “Eu me encontrei com Bielsa recentemente. Dei um abraço e disse que gosto muito dele, que o estimava. Ele também se emocionou porque sinto que me considera. Marcelo me educou, me ensinou tudo da vida profissional como jogador”, afirmaria em 2018.

Os grandes parceiros que se consagraram

Além do mais, Batistuta firmou parcerias históricas dentro de campo. De Caniggia a Claudio López, de Francesco Baiano a Edmundo, de Latorre a Totti: sempre esteve muito bem acompanhado. Facilitou o trabalho dos armadores, assim como contou com o talento de seus parceiros. E mesmo que breve, a relação com Maradona é significativa. Não apenas pela Copa de 1994, mas pela consideração entre o ídolo e o fã que virou craque. “Para mim, Maradona é o maior de todos. Ele representa o argentino em tantas coisas, não apenas no futebol. E ele foi quem nos trouxe as estrelas, conquistando a Copa do Mundo. Tinha carisma, talento e uma habilidade rara. O que acontece com Diego vem acompanhado por uma luz particular. Embora não concorde com muitas coisas que ele faça, e seu estilo de vida não é o meu, sou quase o oposto, nós dois temos uma boa relação. Para mim ele permanecerá como o maior. O que falta para Messi em relação a Maradona é essa dimensão fantástica, quase onírica”, diria. Diego, por sua vez, já apontou que Bati foi o melhor centroavante com quem atuou e até mesmo o ajudou com conselhos em sua adaptação ao futebol italiano.

A inspiração perene

Um episódio lamentável relacionado a Batistuta aconteceu em 2017. Segundo o craque, ele foi ignorado por metade dos jogadores da Argentina ao fazer uma visita aos vestiários da seleção. Ao menos, não são poucos os novos artilheiros que o reverenciam. Mais do que isso, os talentos que o colocam como uma inspiração. Uma das declarações mais legais nos últimos anos veio do outro lado do Rio da Prata: Edinson Cavani admitiu até mesmo que passou a deixar o cabelo crescer por causa de Batigol. “Até hoje sou fã. Batistuta não era um atacante típico. Um jogador forte que era incrivelmente efetivo em frente ao gol. Eu sempre tentei copiá-lo. Eu sempre faço um pouco isso”, apontou o uruguaio.

O profissionalismo acima de tudo

“O futebol para mim é acima de tudo uma grande responsabilidade. No momento em que me tornei profissional, sabia que todas as vezes em que entrava em campo ou nos treinamentos, havia gente que pagava para ver um espetáculo no qual eu era um dos atores. Então, deste ponto de vista sempre foi um trabalho duro. Não sou como os jogadores que aproveitam o jogo. Eu não, não tinha esse prazer. Muita vezes eu fiz isso depois de uma partida, depois de uma bela vitória, depois de um título. Naqueles momentos, sim, eu curtia. Mas durante o jogo eu nunca me tranquilizava, porque sentia que não poderia errar. Deveria criar, fazer o melhor, porque estava sendo observado por pessoas que pagaram e se sacrificaram para serem felizes. Nunca pensei que o futebol era uma história entre eu e a bola. Para mim sempre o público esteve à frente. Era meu dever dar o máximo. Meus tornozelos também foram afetados por este conceito de futebol. E a vida. E as pessoas próximas a mim”

O drama causado por suas dores

“Deixei o futebol e, de um dia para o outro, não podia caminhar mais. Eu urinava na cama, mesmo com o banheiro a três metros, porque não queria me levantar. Eram quatro horas da manhã e pensei que ia doer meu tornozelo se ficasse em pé. Fui até o médico e pedi para ele cortar as minhas pernas. Ele me olhou e me perguntou se estava louco. Eu insistia, não podia mais, vivia mal humorado. Não podia controlar a dor, era impossível transmitir isso as pessoas. Eu vi Pistorius e pensei que aquela era a minha solução. O doutor me disse que não ia me amputar. Ele fixou o tornozelo direito com parafusos. Meu problema é que não tenho cartilagem e tendões, meus 86 quilos são suportados pelos ossos. E o impacto entre eles gerava minha dor. A situação foi melhorando, ainda que tenha passado muito tempo. Estou muito melhor nos últimos anos”.

A identificação com Florença

“Todos os dias, ao longo de dez anos, eu estive em Florença. Minha primeira memória é que eu achei a cidade feia. Chegava de Roma pela estrada e me perguntei para onde estava indo. Porque, ao final da estrada, uma imagem pouco usual apareceu para mim. Eu vinha da Argentina, onde tudo era novo, os prédios de vidro, os arranha-céus. Ver estas construções de cinco séculos me deram uma impressão diferente. Depois comecei a apreciar e percebi como era maravilhoso. Depois de três ou quatro meses, já estava apaixonado por Florença. Entendi os florentinos e te asseguro que não é fácil. Eles me entenderam e me casei com a causa violeta. Pensei que ser campeão aqui seria ótimo, mas não aconteceu. Ainda assim chegamos longe. Agora sei como Florença é uma cidade belíssima”.

A carta escrita para Astori

“Estou do outro lado do mundo, mas gostaria de estar em Florença para me despedir de Davide com meu povo. Quando as notícias terríveis chegaram, eu tive a mesma reação: estava em choque, sem palavras, por uma morte sem resposta. Um jogador que morre durante o sono é algo inexplicável, inacreditável e inaceitável. Um trauma que afeta a comunidade e o mundo todo. Não conhecia Davide pessoalmente, mas meus amigos da Fiorentina falavam sobre sua classe e habilidade, que era ainda maior fora de campo. Ele estava sempre ocupado nos vestiários escrevendo. Ele tinha uma atitude exemplar. Sempre achei que a história violeta tivesse apenas um capitão, meu amigo Giancarlo Antognoni. A partir de agora, teremos dois para sempre. Tentaremos honrar a memória de Davide e ajudar Francesca, Vittoria e sua família”.

A mensagem a Emiliano Sala

“Porque é um futebolista argentino de Santa Fe com os mesmos sonhos que tive na Europa e com o mesmo sacrifício, na mesma posição. Porque sei que os goleadores nunca se entregam. Hoje rezo por você”.

A relação com a família

“Não tenho nenhuma recordação de minha carreira em casa, porque não queria que meus filhos me vissem como um mito. Eu sou uma pessoa normal. Você não vê uma foto como jogador, nada. Nem um troféu. Talvez algum dia eu sinta falta disso. Eu mantive minha família distante do mito, sobre o que os torcedores pensavam sobre mim. Sou outra coisa. Alguém normal. Meus filhos sabem porque descobriram sozinhos. Acho que eu fiz bem. Talvez estivesse errado em não manter as camisas que fizeram parte da minha carreira. Um dia eu sentirei falta delas, acho. Os troféus estão guardados em algum lugar, posso encontrá-los. No final, entretanto, as amizades permanecem”.

Como vê a carreira hoje em dia

“Não tenho arrependimentos sobre minha carreira, não agora. Até um ano atrás sim, tinha todos os lamentos possíveis. De que fiz poucos gols, não conquistei muitos troféus. Não estava feliz com minha carreira. Messi me superou na seleção. Não estava feliz. Mas isso tem mudado, comecei a ver o que eu fiz, o que eu era e o que me tornei. Estava errado. Eu sempre olhei para frente e nunca sobre o que deixei. Desde que mudei meu ponto de vista, fiquei mais calmo. Estou feliz. Porque, dos campinhos, cheguei a jogar nos melhores estádios do mundo, com os melhores jogadores do mundo, venci e tive o amor do público. Seria impossível não ser feliz. Seria tolo se não fosse”.

A homenagem mais recente

Ao longo dos últimos anos, Batistuta retornou a Florença para receber diferentes homenagens. Em 2006, ele pegou as chaves da cidade. Já o maior tributo aconteceu dez anos depois, em 2016, quando foi condecorado como cidadão honorário. Além de ser ovacionado na prefeitura, também participou de um jogo festivo no Estádio Artemio Franchi. Anotou três gols e estremeceu novamente as arquibancadas, como fez tantas vezes na carreira. “Eu me senti horrível quando fui para a Roma, porque não cumpri todas as expectativas dos torcedores. Não há comparação por este reconhecimento [ao receber o título de cidadão de Florença]. Eu não esperava por isso, mas queria, porque genuinamente me considero um ‘fiorentino’. Estou feliz. Amei e amo Florença, a Fiorentina e a população, e sinto o amor deles por mim. Eu me sinto em casa aqui”, apontou, na época.

A frieza letal

Instinto. Uma característica primordial a qualquer centroavante, que Batistuta elevava à máxima potência. O talento do artilheiro dependia bastante de seu domínio do espaço. Sabia onde se posicionar, o momento de atacar, os atalhos para pegar as defesas desprevenidas, quantos toques precisava dar na bola até se encontrar com as redes. Não à toa, marcava gols de todas as formas – por ar ou por terra, dentro ou fora da área, de direita ou de canhota. Um atacante completo porque, além da explosão em seu auge, combinava inteligência e a aprimorada técnica em seu ofício.

As patadas

Todavia, Batistuta não seria tão grande se não fosse a sua capacidade nas finalizações. O chute potente do adolescente acima do peso, que chamou atenção do Newell’s Old Boys, viraria a grande marca da carreira. Uma das pernas direitas mais temidas da história do futebol. A posição não era problema para soltar a patada, geralmente teleguiada a um local onde o goleiro não conseguiria pegar. A habilidade o tornou até mesmo um exímio cobrador de faltas, assim como rendia inesquecíveis acrobacias, sem deixar a bola cair. Especialista.

Gols, muitos gols

Aproveite:

PS: Vale conferir também o especial produzido pelo amigo Caio Brandão, no Futebol Portenho, que ajuda a complementar esta leitura.