A segunda rodada da Copa do Mundo de 1970 teve seu início em 6 de junho. União Soviética e Peru conquistavam resultados amplos para se aproximar das quartas de final, enquanto a Romênia tentava despontar como surpresa. Já a decepção ficou para o duelo mais aclamado, em fraquíssimo 0 a 0 no Itália x Uruguai. No Brasil, o noticiário se concentrava sobre o encontro com a Inglaterra no dia seguinte. Confira mais um episódio de nosso diário do Mundial:

Gérson descartado contra a Inglaterra

Conforme o Jornal dos Sports, Gérson seria poupado do jogo contra a Inglaterra, para não colocar em risco sua própria presença na sequência da Copa do Mundo. O meio-campista seguia disposto a participar do duelo, mesmo se recuperando de um estiramento. No entanto, o médico Lídio Toledo achava que não valia arriscar e convenceu Zagallo. A princípio, o Canhotinha também poderia ser poupado contra a Romênia, caso o Brasil vencesse os ingleses e não precisasse do resultado na rodada final. Rivellino faria a função na armação, enquanto Paulo Cézar Caju ocuparia o lado esquerdo do meio-campo.

Incentivo a Tostão

Tostão tinha um incentivo especial para enfrentar a Inglaterra. Roberto Abdala Moura, médico que o operou às vésperas da Copa do Mundo, estaria no estádio. O atacante havia se submetido a uma delicada operação após sofrer um descolamento de retina. E o ídolo do Cruzeiro não escondia a motivação: “A presença do Doutor Moura é para mim da maior importância. Ele confia tanto em minha completa recuperação que deixou seu trabalho nos Estados Unidos para assistir hoje ao mais difícil de todos os jogos do Brasil no Grupo III e ao mais difícil teste ao qual me impus: partir para cima da impiedosa defesa inglesa, para abrir os clarões que necessitamos para vencer”, disse, ao Jornal dos Sports. De fato, Tostão seria decisivo naquele embate.

O técnico Alf Ramsey fala ao Jornal dos Sports

“Tenho um esquema tão rígido que não está em meus cálculos sofrer um gol sequer. Só posso assegurar é que teremos uma defesa muito boa, mesmo que os laterais Newton e Cooper não possam jogar. Se os titulares não jogarem, ainda assim o sistema defensivo não perderá sua consistência. Tivemos uma preparação magnífica, mas altitude e calor serão problemas, evidentemente. No primeiro jogo enfrentamos uma equipe europeia, que viveu os mesmos problemas que nós. Hoje é diferente. Os brasileiros terão dificuldades também com a altitude, mas não sentirão os efeitos do calor. Só hoje saberemos se nossa preparação foi ou não um êxito total. Será nossa prova máxima”.

Pelé, sobre sua postura, ao Jornal dos Sports

“Eles são os campeões mundiais e jogam muito bem. Jogarei contra eles como sempre, com o maior desejo de vitória, com total dedicação. Eu quero ganhar esta e todas as partidas da Copa, porque fiz uma carreira e tenho que encerrá-la bem. Consideram-me o melhor, portanto terei de honrar sempre esse compromisso”.

Félix e o perigo aéreo, ao Jornal do Brasil

“Contra os ingleses, se a única jogada deles são bolas altas sobre a área, não tenho qualquer receio. Eu, Brito e Piazza daremos conta do recado. O que eu não gostaria, isso sim, é que os ingleses jogassem da maneira como joga o ataque do Brasil, com tabelinhas e passes curtos. Isso é que é ruim. Pois a todo instante eles ficam em condições para o chute a gol. Além disso, creio que nenhum goleiro quer ter como atacantes adversários gente com o chute de Rivellino ou Gérson, com o talento de Pelé ou Tostão”

Vavá, em sua coluna no Jornal dos Sports

“É bobagem ficarmos nos torturando com a defesa. O Brasil sempre jogou um futebol ofensivo. Nunca sacrificou homens de ataque para fortalecer a linha de zagueiros. Isso não quer dizer que vamos abandonar a cautela com que ganhamos os títulos de 58 e 62. Devemos jogar cautelosamente e para frente”.

Ingressos esgotados

Os ingressos para Brasil x Inglaterra estavam esgotados na véspera da partida. Segundo o Jornal dos Sports, só era possível encontrar bilhetes com cambistas. Os preços, entretanto, haviam triplicado: dos US$8 fixados para US$24.

“Ingleses vão jogar maquiados”

Era essa a manchete do Jornal dos Sports, em matéria que apresentava o protetor solar como novidade – e com sua dose de preconceito: “A maior preocupação dos ingleses na partida contra os brasileiros é o sol, que voltou a brilhar intensamente hoje em Guadalajara. Os ingleses vão jogar, por precaução médica, maquiados com creme especial, visando proteger e evitar a ação dos raios solares sobre sua pele muito branca. A pomada especial foi testada nos jogadores sob ação ultravioleta, dando bons resultados. O fato tem sido comentado aqui na base da gozação, que os ingleses vão acabar o jogo como garotas de Ipanema – bem tostadinhos”.

Quando Cláudio Coutinho barrou Helenio Herrera

Helenio Herrera, um dos maiores treinadores do mundo naquele momento, cobria a Copa de 1970 para um jornal. Na véspera da partida contra a Inglaterra, o Mago visitou a concentração da seleção brasileira. Sua intenção era entrevistar Zagallo e Pelé. Acabou barrado por Cláudio Coutinho, supervisor do time, que explicou: membros da imprensa serão recebidos apenas no dia seguinte ao jogo. Contrariado, Herrera insistiu e pediu para que chamassem Zagallo, seu amigo, a fim de esclarecer a situação. O técnico até se dirigiu a Herrera, mas disse que a decisão cabia a Coutinho. Impassível, o supervisor manteve sua postura e afirmou que as regras serviam para todos. Herrera foi embora de mãos abanando.

“Foi então que Zagallo contou o episódio de 62, no Chile, quando Herrera era técnico da seleção espanhola que perdeu de 2 a 1 para o Brasil. No intervalo, com a vitória parcial da Espanha por 1 a 0, Zagallo e todos os jogadores brasileiros ouviram, por um vão dos vestiários, que ficavam lado a lado, as instruções de Herrera, feitas de propósito para que ouvissem, mandando que os espanhóis fossem à frente e liquidassem o jogo, porque os brasileiros eram uns velhos que não podiam aguentá-los. Zagallo nunca esqueceu essa passagem de sua carreira e, embora disposto a receber Herrera, aplaudiu a atitude de Coutinho pela coincidência de motivos: disciplina da delegação e uma velha conta de oito anos”, escreveu o Jornal dos Sports.

Nobby Stiles e a razão de seu sorriso banguelo

Nobby Stiles começou a Copa no banco da Inglaterra, mas era cotado para enfrentar o Brasil e cuidar de Pelé. Marcador implacável, o jogador do Manchester United tinha fama de violento, além de ser conhecido por uma peculiaridade: não tinha os quatro dentes incisivos superiores. Até usava uma dentadura fora de campo, mas não nas partidas. Ao Jornal do Brasil, explicou o motivo: “Tiro os dentes postiços por causa de uma experiência trágica. Imagine que eu jogava com os dentes. Em 1963, estava namorando e ia à Irlanda pedir a mão de minha garota em casamento, depois da partida habitual de sábado à tarde. Pois bem: perdi a dentadura, fiquei procurando-a em campo até escurecer e acabei indo conhecer os pais de minha mulher sem os dentes mesmo. Desde então, nunca mais”.

Grupo III: Romênia 2×1 Tchecoslováquia

O primeiro duelo na segunda rodada do Grupo III oferecia a um dos “azarões” um pouco de esperança na chave contra Brasil e Inglaterra. Romênia e Tchecoslováquia dependiam da vitória, se quisessem provocar uma surpresa no último compromisso. E apesar de certo favoritismo atribuído aos tchecoslovacos, com mais tradição e um futebol ofensivo, os romenos conquistaram o triunfo por 2 a 1. Foi uma partida aberta, em que as duas equipes poderiam ter saído com o placar favorável, embora a Romênia realmente tenha sido mais agressiva.

Assim como o que aconteceu contra o Brasil, a Tchecoslováquia se valeu de um gol logo nos primeiros minutos dentro do Estádio Jalisco. O cruzamento de Bohumil Vesely veio na medida a Ladislav Petras, que desviou de cabeça e mais uma vez comemorou fazendo o sinal da cruz. Entretanto, com a defesa bem postada, a Romênia não concedeu mais tantas chances aos oponentes. E amassou no ataque. As principais jogadas vinham pela direita, com o lateral Lajos Satmareanu e o meia Alexandru Naegu. O goleiro Alexander Vencel realizou dois milagres para salvar os tchecoslovacos, em arremates de Emerich Dembrovschi e Florea Dumitrache.

O merecido empate da Romênia só veio aos sete minutos do segundo tempo. Radu Nunweiller fez uma enfiada primorosa e Naegu foi premiado com o gol. Dominou dando um corte seco no marcador, antes de bater longe do alcance de Vencel. A situação parecia aberta e os dois goleiros operaram grandes defesas para manter o empate. Ainda assim, os romenos estavam um passo à frente, com um tento anulado e outra bola que bateu no árbitro quando tinha endereço. Já aos 30, a virada se concretizou. Depois de um pênalti clamoroso sobre Naegu, Dumitrache cobrou na gaveta e coroou sua grande atuação. Antes do fim, quase a Tchecoslováquia arrancou um pontinho, em bomba de Ján Zlocha que carimbou a trave.

Técnico romeno, Angelo Niculescu esbanjou confiança depois do jogo, em aspas de O Globo: “Depois que vimos como os tchecos atuaram frente ao Brasil, chegamos à conclusão de que eles não estavam tão poderosos como tudo fazia crer. Havia falhas de marcação e o quadro rendia pouco do meio-campo em diante. Estávamos preparados depois que eles abriram o placar, nossos jogadores sabiam que a arma dos tchecos era tentar o máximo de gols nos minutos iniciais, buscando uma vantagem que lhes permitisse armazenar fôlego para o período final. Quando o primeiro tempo terminou, voltamos sabendo que teríamos que forçar a velocidade para passar facilmente pelos marcadores. E aconteceu exatamente isso”.

Grupo IV: Peru 3×0 Marrocos

A seleção peruana vinha de uma vitória histórica contra a Bulgária, mas sabia os cuidados que precisava tomar contra os marroquinos. Os africanos quase surpreenderam a Alemanha Ocidental na estreia, dando trabalho na virada dos europeus. Mais consciente, a equipe do técnico Didi jogou sério e encaminhou a classificação com uma larga vitória por 3 a 0. Hugo Sotil, que havia saído bem do banco na abertura, ganhou a posição como titular no ataque.

Durante o primeiro tempo, Marrocos ainda dificultou a partida ao Peru. A Blanquirroja se mantinha no ataque, mas via o goleiro Allal Ben Kassou mais uma vez fechar sua meta, auxiliado pelo trabalho incansável do zagueiro Moulay Khanousi. Entre os desperdícios e as boas intervenções da defesa, o placar não saiu do zero, por mais que os peruanos fossem superiores. Já os marroquinos não chegaram tanto à frente, mas poderiam muito bem ter aberto a contagem no início do segundo tempo, em cabeçada executada dentro da pequena área que seguiu para fora.

O Peru ainda errava demais suas conclusões, até sair na frente aos 20 minutos. Sotil chutou para Ben Kassou rebater à queima-roupa, mas Teófilo Cubillas aproveitou o rebote. Roberto Challe ampliou dois minutos depois, em belíssima jogada individual, na qual abriu um clarão na zaga adversária. Por fim, com assistência de Sotil, Cubillas concluiu o triunfo aos 30. Antes do fim, ainda houve um tento peruano anulado. Com quatro pontos, o time se classificaria por antecipação se a Bulgária não conquistasse o triunfo sobre os alemães no dia seguinte.

Depois da partida, Didi se recusou a falar com a imprensa. O treinador reagia após declarações falsas atribuídas a ele saírem nos jornais, dizendo que escalaria seus reservas contra a Alemanha Ocidental e que levaria todos os seus jogadores para assistirem ao Brasil x Inglaterra. Segundo O Globo, ainda existiam rumores de desentendimentos entre os jogadores “por questões de namoros” e a acusação de que objetos desapareceram no hotel onde estava o elenco. O chefe da delegação, antes da vitória sobre Marrocos, se pronunciou e desmentiu os problemas.

Helmut Haller, o brigão

Helmut Haller deveria ser barrado da seleção alemã-ocidental para o confronto com a Bulgária. Presente em sua terceira Copa do Mundo e ídolo da Juventus, todavia, o veterano não seria tirado do time apenas pelo rendimento ruim na estreia contra Marrocos. Segundo o Jornal dos Sports, ele agrediu Uwe Seeler durante um treinamento. Os companheiros separaram a briga, mas o técnico Helmut Schön deu razão ao capitão Seeler. Como se não bastasse, em outro treino, um torcedor alemão invadiu o campo e disse a Haller que ele deveria ter ficado em casa. O atacante tentou correr atrás do invasor, mas foi contido.

Grupo II: Itália 0x0 Uruguai

A partida de maior expectativas naquele sábado de Copa do Mundo aconteceu em Puebla. Itália e Uruguai protagonizavam um confronto de bicampeões mundiais, ambos vistos como potenciais candidatos ao título. Entretanto, a decepção foi geral. Os dois times apresentaram um futebol defensivo e pobre. O empate por 0 a 0 prevaleceu num dos embates mais modorrentos da competição, que não impediria ambos de seguirem sua caminhada até os mata-matas. Naquele momento, ainda assim, a igualdade parecia mais perigosa à Celeste – que teria pela frente a Suécia na última rodada.

Apesar de ter febre na véspera, Angelo Domenghini entrou na ponta direita pela Itália, deixando Gianni Rivera outra vez no banco. Enquanto isso, Julio César Cortés era o substituto de Pedro Rocha, que se lesionou na estreia do Uruguai e seria desfalque até o fim da Copa. Com a Azzurra na retranca, a Celeste (jogando de branco) teve mais campo para avançar no primeiro tempo. Isso não significava muitas chances de gol, com os charruas contidos pela barreira humana italiana. Os lances de perigo se restringiam apenas a chutes de longe, mas nada que desse tanto trabalho a goleiros do nível de Ladislao Mazurkiewicz e Enrico Albertosi.

No segundo tempo, a Itália é que partiu um pouco mais para cima, sem conseguir muito. Os times pareciam atuar com displicência e se mostravam pouco dispostos a se abrir. De novo, os chutes de longe eram a principal saída. Gigi Riva era quem aparecia um pouco mais, tentando aumentar a velocidade do ataque italiano, mas sem grande colaboração dos companheiros. Prova da decepção, os 30 mil presentes nas arquibancadas vaiaram sonoramente os times, após o apito final. “Itália e Uruguai empatam no medíocre jogo do medo”, era a manchete de O Globo, enquanto o Jornal do Brasil estampava: “Uruguai e Itália empatam em jogo ruim – o pior jogo da Copa”.

Grupo I: União Soviética 4×1 Bélgica

A Bélgica corria por fora no Grupo I da Copa do Mundo. Sua chance de buscar a classificação começava sobretudo na segunda rodada, com o confronto direto diante da União Soviética. Entretanto, os belgas decepcionaram bastante. Não competiram com a eficiência dos soviéticos e sucumbiram na goleada por 4 a 1, que aproximava a equipe de Gavril Kachalin dos mata-matas. A URSS tomou a dianteira logo no início do embate no Estádio Azteca e alargaria bem a vantagem no segundo tempo, antes do gol de honra.

A União Soviética adotou a estratégia de atuar na defesa, esperando as brechas aos contra-ataques. A Bélgica partiu para cima e, quando Wilfried van Moer poderia ter balançado as redes, perdeu dois lances absurdos, entre a defesa do goleiro Anzor Kavazashvili e o rebote no travessão. Aos 14 minutos, os soviéticos responderiam com o primeiro gol. Anatoliy Byshovets recebeu de Vladimir Muntyan e chutou de longe para balançar as redes. Depois disso, a zaga prevaleceu diante das investidas dos Diabos Vermelhos. Os belgas até intensificaram a pressão na volta do intervalo, mas pararam na atuação inspirada de Kavazashvili.

Kakhi Asatiani ampliou aos 12 do segundo tempo. Deu um lindo drible no zagueiro, antes de chutar rasteiro na saída do goleiro. Seis minutos depois, Byshovets anotou um gol ainda mais espetacular. Cortou da direita para o centro e soltou a bomba de canhota, acertando o ângulo do goleiro Christian Piot. E o baile teria mais um tento aos 31, em troca de passes até Vitaliy Khmelnytskyi acertar o peixinho dentro da área. A Bélgica só descontou a quatro minutos do fim. Wilfried Puis acertou a trave no tiro de longe e Raoul Lambert assinalou no rebote.