Mais um dia sem jogos na Copa de 1970, antes que a segunda rodada da fase de grupos começasse. Após vencer a Tchecoslováquia na estreia, o Brasil se preparava ao duelo com a Inglaterra. A preocupação seguia com Gérson, que sofrera um estiramento na coxa e era dúvida. Segundo o médico Lídio Toledo, o meio-campista “tinha medo de injeção”, mas aceitou o recurso para acelerar o tratamento. No entanto, Paulo Cézar Caju entrou em seu lugar nos treinamentos. Confira mais um capítulo de nosso diário sobre o tri:

Zagallo fala sobre Gérson

“Gérson é um jogador que faz falta ao time. Tem a voz de comando e, além disso, sua falta quebra um pouco a estrutura da equipe, por seu entrosamento com os demais jogadores e por seu excelente toque de bola. Entretanto, não podemos ficar apavorados diante da possibilidade de perdermos um elemento valioso. É o risco que corremos numa guerra como a Copa do Mundo. De qualquer maneira, acredito piamente que o Gérson estará jogando com todas as suas forças contra os ingleses. Acho que se ele estivesse muito machucado, não poderia ter dado um carrinho como deu no tcheco, depois que nos avisou que havia sentido uma fisgada na coxa. Enfim, isso é inevitável”, falou o treinador do Brasil, ao Jornal dos Sports.

Zagallo elogia Jairzinho

Uma das armas da Inglaterra era o lateral esquerdo Terry Cooper, muito ativo no apoio. Zagallo, entretanto, apostava suas fichas no Furacão: “Quem deve marcar o Cooper é o Jairzinho. Se o inglês avançar, caberá ao Jair o primeiro combate e, assim, impedi-lo de ameaçar nosso esquema defensivo. Aliás, o Jairzinho fez isso contra os tchecos, sempre auxiliando a zaga quando possível, e tenho certeza que o inglês não terá muito êxito na jogada. Jairzinho foi eficiente em tudo. Deu o estalo que eu esperava há muito tempo. Suas atuações regulares foram mais em consequência das minhas ordens de se poupar ao máximo nos jogos-treino”.

O bandeira que visitou Pelé

Uma cena inimaginável aconteceu na concentração do Brasil dois dias antes do jogo contra a Inglaterra: Roger Machin, o bandeirinha designado para o duelo, foi visitar Pelé. Segundo o Jornal dos Sports, os dirigentes brasileiros receberam o francês com incredulidade. Dono de uma escolinha de futebol, ele queria algumas recordações do Rei para entregar aos seus garotos, como uma camisa e postais autografados. “A direção da CBD, ainda surpresa, acabou achando que houve muita personalidade de Machin ao visitar a concentração, mesmo dias antes do jogo”. Ele também seria o árbitro principal no Inglaterra x Tchecoslováquia da terceira rodada.

Brasil, o melhor fisicamente

Todos os elencos da Copa do Mundo foram submetidos a testes de avaliação física pelo Conselho Mundial de Saúde. E os cientistas apontaram que o Brasil apresentava as melhores condições. Um dos responsáveis pela preparação, Cláudio Coutinho comentou a’O Globo: “Isso para nós, numa época em que tanto se elogia o preparo físico dos europeus, é motivo de grande orgulho, pois os resultados dos exames a que nossos jogadores foram submetidos em Guanajuato pelos professores da Universidade de Milão provam que também os preparadores físicos brasileiros se encontram atualizados e nivelados aos melhores do mundo. Preferimos transferir todos os méritos para os jogadores, que desde o início dessa preparação se mostraram compenetrados no seu dever e têm dado à comissão técnica todo o apoio necessário”.

Zizinho, em sua coluna no Jornal dos Sports

“Por falar em Pelé, ele mais uma vez provou que ’em um mundo de cegos, quem tem miopia é Rei’. Conversava com ele um dia antes do jogo e ele falava sobre os goleiros da Copa. Observava que, quando a bola estava no meio-campo, os goleiros europeus caminhavam até a linha da grande área, levados talvez pelo nervosismo da grande responsabilidade que é disputar uma Copa. Vejam bem o que Pelé armou. Placar de 1 a 1, duríssimo, quando Pelé recebe a bola no grande círculo, dentro do campo brasileiro. Esse ‘grande míope’ atirou de onde estava, num chute de 60 metros, cobrindo o goleiro que se encontrava adiantado. A bola passou a um palmo da trave, não querendo fazer justiça à mais brilhante jogada que vi em muitos anos. Se a bola entra, não seria tão somente o gol dessa Copa, mas de todas as Copas”.

“Considero o Tostão um dos jogadores mais importantes do nosso time. Zagallo deu a ele a missão do sacrifício. Tostão joga na frente, de costas para o zagueiro, fazendo o pivô. Sente-se que ele não está em boa forma física e técnica, mas ainda executa com habilidade e inteligência a mais difícil tarefa de um ataque: abrir espaço jogando com ou sem a bola. Afirmo que, se não fosse Tostão, mesmo sem pique, sem potência nos arremates e sem velocidade no dribles, o Pelé, o Gérson e o Rivellino não teriam jogado tanto. Esse mineiro valente e inteligente foi o ponto de apoio da brilhante exibição de seus companheiros e, consequentemente, da seleção brasileira”.

Paulo Cézar Caju, possível substituto de Gérson

“Não gostaria de entrar no lugar do Gérson por uma contusão. Ele é muito necessário ao time. Mas todos estamos aqui para colaborar, de qualquer maneira. Não me importa em que lugar me escalem. Seja na ponta, seja no meio-campo. O importante é ajudar o Brasil a ganhar a taça. Não há propriamente titulares e reservas nesta seleção. O ideal de todos é um só. Por isso, joga quem está em melhores condições. E quem fica de fora torce por seu substituto e deseja o seu sucesso. Hoje somos um todo”, falou, ao Jornal dos Sports.

Edu, que perdeu a posição para Rivellino, fala sobre a reserva

“Com a vinda de Zagallo, passei para a reserva e logo começaram a dizer que eu havia perdido o interesse pela luta da posição. Tudo mentira. Lutei e lutarei sempre para ser o titular da Seleção e não me importo se estou na reserva. Já estive na mesma situação no Santos e o bom é saber que estamos no esquema do técnico. Se tiver chances de jogar, vou mostrar que meu futebol é o mesmo: aquele das Eliminatórias, que agradou a tanta gente. Talvez agora esteja até melhor, em função do preparo físico que me submeti. Estou no melhor da forma física e, se for escalado, vou acontecer. Não estou aborrecido por ser reserva”, disse, ao Jornal dos Sports.

Rogério, o craque espião

Rogério, ponta do Botafogo cortado do elenco brasileiro quando já estava no México, seguia com a delegação. Ele passou a desempenhar o papel de observador e viajava para assistir aos compromissos das outras seleções. Instruído por Zagallo, veria a Alemanha Ocidental enfrentar a Bulgária em León. Já tinha acompanhado antes Peru 3×2 Bulgária, ao lado de Carlos Alberto Parreira, então parte da comissão técnica. “Embora não me considere tão bem preparado para desempenhar essa missão, acredito que possa ajudar o Zagallo de alguma forma. O que lastimo é não poder estar presente no jogo contra a Inglaterra, pois acho que vai ser o melhor da Copa”, afirmou, a’O Globo.

Alf Ramsey mantém o time

Se no Brasil existia certa dúvida sobre Gérson, na Inglaterra quem talvez não jogasse era o lateral direito Keith Newton, que se lesionou na estreia contra a Romênia. Tommy Wright era o substituto. Também cogitava-se que o carniceiro Nobby Stiles, titular em 1966 e multicampeão com o Manchester United, pudesse entrar na cabeça de área. Alf Ramsey, no entanto, garantiu que repetiria a escalação e deixaria o volante no banco. “Estamos treinando esta equipe há bastante tempo, ela vem rendendo o que esperávamos e não vejo razão para que, vindo de uma vitória que não deixou margem à dúvida, fizéssemos trocas sem mais nem menos. Este deverá ser um encontro altamente interessante para o público, que terá a ocasião de ver nossa disposição tática, buscando neutralizar a alta técnica dos brasileiros”, comentou, a’O Globo.

Yashin não pôde se despedir

Lev Yashin tinha 40 anos quando foi chamado para disputar a Copa do Mundo de 1970. O veterano se integrou de última hora ao elenco soviético, após um corte, e era uma espécie de porta-voz dos jogadores, por toda a sua fama. Prestes a encerrar sua carreira, era esperado que o Aranha Negra se despedisse da seleção como titular contra a Bélgica, ganhando o posto de Anzor Kavazashvili. Todavia, ele sentiu dores musculares na perna durante uma atividade no jardim do hotel e acabou barrado. O Jornal do Brasil relatava a tristeza no elenco soviético pela má notícia sobre seu grande ídolo.

Libuda entra no ataque alemão-ocidental

Depois da estreia ruim contra Marrocos, em que jogou muito abaixo de seu potencial, a Alemanha Ocidental viria com mudanças para enfrentar a Bulgária. A principal novidade era Reinhard Libuda, ponta muito habilidoso que havia sido titular durante as Eliminatórias, mas esquentou o banco na primeira partida. O jogador do Schalke 04 entraria no lugar do veterano Helmut Haller, que não rendeu bem. Sigfried Held seria outro barrado, com uma chance a Hannes Löhr, que saiu do banco e participou do gol da vitória.

O “excesso” peruano

Segundo o Jornal dos Sports, torcedores peruanos foram multados em León. Teriam sido pegos pela polícia por “excessos na comemoração da vitória peruana” e precisaram pagar uma multa. “Um punhado deles pagou rindo e cantando, e depois ainda continuou a festa em hotéis”, descrevia o periódico. Além disso, um torcedor peruano foi preso por ter atirado uma garrafa em campo antes de começar a partida. Com pena, os policiais emprestaram um rádio para que ele ouvisse no xilindró a sensacional virada do Peru sobre a Bulgária por 3 a 2.

Adamec, “covarde” contra o Brasil

Jozef Adamec chegou à Copa do Mundo com a pecha de craque da Tchecoslováquia, mas acabou afastado pelo técnico Jozef Marko. O atacante não fez uma boa partida contra o Brasil. Segundo o Jornal dos Sports, o treinador barrou seu astro por “covardia e por não se empenhar como seus companheiros”. Os colegas de ataque também teriam se queixado do camisa 10. Adamec entraria apenas no segundo tempo contra a Romênia, na segunda rodada.

Rivera, criador de casos

O principal duelo do Grupo II aconteceu na segunda rodada, com Itália e Uruguai lutando pela primeira colocação da chave. A Azzurra tinha problemas, já que o ponta Angelo Domenghini estava com febre na véspera da partida e talvez fosse barrado. Giuseppe Furino e Gianni Rivera eram os candidatos a substituí-lo. Rivera, entretanto, voltava a criar caso. Visto como incompatível à equipe pelo técnico Ferruccio Valcareggi, por ocupar a mesma posição de Sandro Mazzola, o meia também não queria jogar em outro lugar. Rivera colecionava problemas e ameaçou deixar a concentração antes do início do Mundial. A federação italiana chegou a levar Nereo Rocco, seu técnico no Milan, ao México para acalmá-lo e convencê-lo a seguir.

Tabela indefinida

A Copa do Mundo estava em andamento, mas ninguém sabia como seria a definição das sedes nas semifinais. Os quatro grupos aconteciam em quatro cidades distintas e, nas quartas de final, os líderes seguiriam atuando no mesmo estádio. Porém, não havia determinação prévia de qual seria o embate semifinal realizado no Jalisco e qual seria o embate semifinal realizado no Azteca. O Globo previa confusão, como a que ocorrera em 1966. A princípio, a Inglaterra deveria atuar em Goodison Park na semifinal, mas houve uma mudança para que ficasse em Wembley.

Troféu México

Antes mesmo dos mata-matas da Copa do Mundo, já se discutia a possibilidade de alguém ficar em definitivo com a posse da Taça Jules Rimet. Brasil, Itália e Uruguai eram os candidatos, todos bicampeões do mundo. E até surgiam interessados em doar o próximo troféu. A Folha de S. Paulo relatava: “Vários cidadãos mexicanos – industriais e homens de negócios – ofereceram-se para doar a nova taça que ainda não tem nome, desde que a Fifa comprometa-se a dar-lhe o nome de ‘Troféu México’ como homenagem ao país que serve de sede ao presente campeonato”. A ideia, todavia, não iria para frente. O escultor italiano Silvio Gazzaniga criou a taça atual.

Racismo e discriminação em pauta

Há 50 anos, a discussão sobre o racismo estava na pauta da Fifa. Como noticiava a Folha: “Quatro países africanos pediram à Fifa a inclusão em seus estatutos de uma cláusula condenando a discriminação racial, política e religiosa entre os países-membros. Pediram ainda a exclusão da Rodésia. Os países, liderados pela Etiópia, são Argélia, Egito e Sudão. A Rodésia não participa das finais da Copa do Mundo por ter sido eliminada ao perder um jogo de classificação para a Austrália”. A Rodésia, atual Zimbábue, mantinha leis discriminatórias e segregacionistas. Em resposta, os demais africanos se recusavam a enfrentar o país nas Eliminatórias. A Fifa, entretanto, remanejou a Rodésia à disputa na OFC e a seleção até montou um time multirracial. Os rodesianos seriam suspensos pela entidade meses depois.

Ao mesmo tempo, havia um boicote dos países árabes a Israel. Nenhuma outra seleção do Oriente Médio disputou as Eliminatórias Asiáticas, em protesto. Sentindo-se discriminados, os israelenses também pediam uma atitude à Fifa. “Israel pediu que a Fifa expulse todo país que se recuse a participar das competições organizadas. O pedido foi feito com base no compromisso existente entre os países árabes de não jogarem contra os israelenses”, noticiava a Folha. A Coreia do Norte, por questões políticas, também se recusou a encarar Israel na qualificação e abriu mão de tentar disputar sua segunda Copa consecutiva por isso.

Um amistoso mundial ao final da Copa

O Peru havia sofrido um grande terremoto no dia da abertura da Copa do Mundo, em tragédia que deixou cerca de 70 mil mortos. Presidente da federação mexicana, Guillermo Canedo sugeriu que, dois dias depois da final, o campeão do torneio disputasse um amistoso contra uma seleção formada pelos demais países, para angariar fundos. Ou então, que se fizesse um América x Europa. Presidente da Fifa, Stanley Rous declarou que não tinha sido informado e que precisaria estudar a possibilidade, já que as delegações deveriam retornar para casa logo após as eliminações.

A seleção do mundo entre 1950 e 1970

Uma votação britânica escolheu em 1970 os melhores jogadores do futebol nos 20 anos anteriores. Participaram 80 jornalistas, de 35 países. A seleção ideal escolhida foi a seguinte: Yashin, Djalma Santos, Bozsik, Billy Wright, Facchetti; Beckenbauer, Bobby Charlton; Stanley Matthews, Pelé, Di Stéfano e Puskás. Pelé foi o mais citado, com 76 votos. Yashin e Di Stéfano completavam esse pódio, com Djalma Santos em quarto.