O Brasil concluiu a fase de grupos na Copa de 1970 com 100% de aproveitamento. A terceira vitória aconteceu contra a Romênia. A Seleção começou com tudo no Jalisco e fez 25 minutos deslumbrantes. No entanto, diminuiu o ritmo e correu riscos – tanto pelos ataques adversários, contra a fragilizada defesa canarinho, quanto pelas pancadas distribuídas nos brasileiros. Além do mais, a equipe de Zagallo descobria quem seria seu próximo adversário: o Peru, treinado por Didi, que acabou sendo presa fácil à Alemanha Ocidental de Gerd Müller no outro duelo mais notável da quarta-feira. Confira mais um episódio de nosso diário sobre a Copa de 70:

Grupo III: Brasil 3×2 Romênia

Ainda existia um mínimo risco de uma eliminação precoce da seleção brasileira na Copa do Mundo, mas, diante do futebol apresentado pela equipe de Zagallo, a possibilidade parecia nula. Mesmo assim, o técnico preferiu não dar chances ao azar e entrou com a equipe praticamente completa para encarar a Romênia na última rodada do Grupo III. Inglaterra e Tchecoslováquia se enfrentariam apenas no dia seguinte e, desta maneira, o Brasil precisava evitar uma derrota por dois gols de diferença para não depender do resultado no último duelo da chave. Um empate bastava para garantir a liderança. Mas só a vitória satisfazia aquele timaço, o que se consumou com os 3 a 2 no placar.

Como antecipado pelo médico Lídio Toledo, Gérson e Rivellino foram poupados por lesões menores. Zagallo preferiu esperar a recuperação plena dos craques e escalá-los apenas nos mata-matas. Muito bem contra a Inglaterra, Paulo Cézar Caju mantinha seu lugar pelo lado esquerdo do meio-campo, na função de Rivellino. Enquanto isso, Piazza era adiantado à cabeça de área, com Fontana ocupando o miolo de zaga. Já a Romênia repetia a escalação da vitória sobre a Tchecoslováquia, mesmo sem que o craque Florea Dumitrache estivesse 100%.

A Romênia até mostrou um jogo ofensivo no importante triunfo sobre os tchecoslovacos. Todavia, contra o Brasil, os romenos começaram fechados na defesa. A Seleção trocava passes com enorme facilidade e não tinha medo de arriscar, com muitos chutes de fora da área. A pressão era incessante e os azarões se safavam basicamente com faltas na entrada da área. Deram até sorte de não tomarem o gol logo. Paulo Cézar forçou boa defesa do goleiro Stere Adamache, antes de fazer fila na marcação até a linha de fundo e acertar o travessão, quase sem ângulo. Depois, Everaldo soltou um míssil da intermediária e carimbou o poste.

O gol do Brasil parecia questão de tempo. A equipe jogava solta. Clodoaldo ganhava mais liberdade para subir e finalizar da entrada da área, assim como fazia Everaldo pela esquerda. Já nas pontas, as arrancadas de Jairzinho e Paulo Cézar eram sempre perigosas. A Romênia pouco conseguia produzir do outro lado, travada pela defesa brasileira. E o primeiro tento veio aos 19 minutos, após uma falta sofrida por Pelé na entrada da área. O Rei soltou a bomba e a bola, a meia altura, passou no buraco aberto pelos jogadores brasileiros ao lado da barreira. Era um lance semelhante ao primeiro tento contra a Tchecoslováquia, de Rivellino.

O segundo gol não demoraria, saindo três minutos depois. Jairzinho resolveu cair mais pelo lado esquerdo e clareou o caminho com o primeiro drible, passando a Paulo Cézar. O jovem, então, entortou o marcador e bateu cruzado de dentro da área. Jair só teve o trabalho de empurrar às redes, anotando seu quarto tento no Mundial. A Romênia perdeu uma baita oportunidade de descontar na sequência, quando Brito errou e Dumitrache ficou sozinho com Félix. O camisa 9, porém, tentou encobrir o arqueiro e exagerou na força. E se a situação não favorecia os romenos, o técnico Angelo Niculescu resolveu trocar seu goleiro. Mesmo sem culpa, Adamache foi sacado e deu lugar a Rica Raducanu, titular durante a preparação.

O Brasil relaxou com a vantagem estabelecida no placar. Félix passou a ser ameaçado e o primeiro gol da Romênia ocorreu aos 33 minutos, num lance de desatenção. Dumitrache era o homem mais perigoso do ataque e recebeu o lançamento na área. O atacante tabelou com as pernas de Brito e chutou, antes que Carlos Alberto ou Fontana travassem. Félix tocou na bola, que passou por baixo de sua mão. A marcação brasileira cochilava, muitas vezes deixando os romenos solitários na área, e Fontana sentia a falta de entrosamento. Dumitrache foi flagrado em impedimento quando ficou livre diante de Félix e Brito salvou no último momento um arremate de Mircea Lucescu dentro da área.

Além do mais, a Romênia não economizava nas pancadas. O Brasil diminuía a intensidade também para não sofrer as consequências. Clodoaldo e Pelé precisaram de tratamento médico por faltas sofridas na intermediária. Depois de um lançamento longo, Jairzinho tomou um encontrão de Raducanu e ficou caído no gramado por alguns minutos, sem que o pênalti fosse assinalado. Pelé chegou a tomar um carrinho por trás pouco antes do intervalo, mas o árbitro austríaco Ferdinand Marschall contemporizava e só mostrou dois amarelos ao longo de toda a partida.

O segundo tempo teve um ritmo mais lento, com o Brasil administrando a vantagem. Alexandru Naegu cabeceou com perigo, antes que Pelé exigisse uma plástica defesa de Raducanu. E aos 11, a Seleção sofreria a primeira baixa. Everaldo sentiu o tornozelo numa dividida e deu lugar a Marco Antônio. Antes da entrada do camisa 6, quase os romenos se aproveitam para empatar, com uma perigosa bola cruzada. O duelo só voltou a esquentar graças a Pelé, que batalhava por cada lance e voltava para ajudar os companheiros. O Rei chegou a ter um gol anulado, ao dar um toquinho com a mão para tirar a bola do marcador. Já o terceiro tento aconteceu aos 22. Após uma cobrança curta de escanteio, Jairzinho cruzou e Tostão desviou com um toque acrobático de calcanhar. A pelota veio ao meio da área e Pelé completou de carrinho.

O Brasil não podia relaxar, contudo. Emerich Dembrovschi quase descontou no lance seguinte, com uma finalização muito perigosa rente à trave. Dumitrache, nulo no segundo tempo, deu lugar a Gheorghe Tataru. O substituto entrou bem e logo exigiria uma defesaça de Félix, que executou uma ponte para desviar o tiro à linha de fundo. Os europeus exploravam bastante os espaços pelo lado direito. Já a Seleção teve outro problema com a lesão de Clodoaldo. O volante estava voando baixo e foi suplantado por Edu – o que levava Paulo Cézar a ser recuado ao meio.

O Brasil até deu certo trabalho a Raducanu e seguia tomando porrada, mas os romenos terminaram por descontar aos 39. Depois de um cruzamento da direita, Félix saiu mal para interceptar e Dembrovschi só cumprimentou de cabeça. E o empate quase veio aos 40, num chute venenoso de Tataru por cobertura. Félix salvou. Por fim, a Seleção deixou uma última boa impressão, em contra-ataque envolvente e com boas trocas de passes. Pelé cruzou a Tostão, mas Raducanu operou grande defesa. Na pior atuação do Brasil até então, as fragilidades do sistema defensivo pareciam mais expostas com os erros de posicionamento e os lapsos, embora o ataque também tenha ficado aquém, sem manter o gás visto no início do duelo. Deu para o gasto.

Zagallo comenta a partida

“O objetivo era alcançar o primeiro lugar e creio que cumprimos mais uma etapa da nossa missão. Reconheço que o Brasil teve atuação abaixo do esperado e dos outros jogos anteriores. Isso se deve, principalmente, às alterações feitas no time e também, em parte, por falta de maior motivação – como sucedeu contra os ingleses e os tchecos. Estes jogos eram para valer de verdade e as atuações foram diferentes. Foi o jogo mais violento que já disputamos nesta Copa. As bolas divididas eram constantes ameaças de contusões e, por isso, mandei o time soltar de primeira, a fim de evitar possíveis machucados”, analisou, ao Jornal dos Sports.

Angelo Niculescu nega a violência

“O Brasil tem jogadores de alta qualidade e da melhor técnica. A vitória foi justa sob todos os pontos. É, portanto, meu favorito para levar a Copa. A Romênia cumpriu seu papel neste campeonato, colhendo resultados honrosos e por isso tenho certeza de que seremos recebidos com entusiasmo por nossa torcida. Meu time estava em ritmo ascendente e a atuação contra o Brasil foi bem melhor do que esperávamos. Se tivéssemos mais sorte, talvez o resultado fosse outro. Não vi o meu time usar violência, pois jogou dentro do seu estilo viril”, disse o técnico da Romênia, ao Jornal dos Sports.

Também explicou sua opção por mudar o goleiro durante o primeiro tempo: “Um goleiro que leva dois gols em 25 minutos sofre sempre a influência negativa e, por isso, achando que poderia estar muito mais abalado, tirei-o do time. Estou convencido de que não me equivoquei nas substituições. Com isso, o time melhorou e ganhou mais confiança”.

Mário Américo, o massagista-mensageiro

“Isso é só o começo, meu velho. Nas quartas de final, a gente vai ter de fazer muita malandragem. Quando um jogador cai, geralmente entramos eu e o doutor Lídio. Geralmente eu levo as instruções do técnico e, enquanto massageio, vou transmitindo. Mas, domingo contra a Inglaterra, quando o Pelé caiu e o doutor já ia entrando em campo, chamei o Zagallo, dei-lhe um balde com água. Ele foi lá e deu um jeito na moçada”, contou Mário Américo, histórico massagista da Seleção, à Folha de S. Paulo.

João Saldanha, em sua coluna n’O Globo

“A pior coisa de nossa equipe não foram os homens da retaguarda. A pior coisa foi o banco de reservas. Se alguém tinha de sair, como aconteceu, muitas modificações eram obrigadas a ser feitas. Assim sendo: saiu Clodoaldo, contundido, entrou Edu. Superficialmente, aparentemente um homem por outro. Muito bem. Mas, dentro do campo, Paulo Cézar (o melhor brasileiro da partida junto com Pelé e Jair) foi para o meio, Pelé recuou e assim, em uma modificação de um homem, três foram obrigadas dentro da cancha. O branco de reservas do Brasil não está à altura da Copa do Mundo. Faltam homens de meio-campo. Se a contusão de Clodoaldo for séria, teremos grandes dificuldades de organizar a parte mais importante do campo. Mas, de qualquer maneira, o Brasil já obteve uma participação condigna no Mundial de 1970”.

Armando Nogueira, em sua coluna no Jornal do Brasil

“Não sei se Zagallo não teria feito melhor mantendo Piazza na zaga e escalando Roberto Miranda na frente, ficando a meia-cancha com Clodoaldo, Paulo Cézar e Pelé. Teria nessa fórmula a vantagem de assegurar a integridade da linha de beques, reforçar o bloco ofensivo, sem afetar o rendimento da meia-cancha. Não seria nada mau ver Pelé um pouco mais recuado, defendendo-se do ataque desleal dos beques romenos. Enfim, o time do Brasil agradou-me demais pela serenidade com que resistiu, ainda no primeiro tempo, jogo indefinido, às pauladas de Dinu, Dumitru e Mocanu. Pauladas desferidas com clara intenção de tirar de campo Pelé e Jair. Aliás, a equipe brasileira tem jogado esse Mundial com notável autocontrole, procurando jogar e só jogar, indiferente à violência do rival”.

Fernando Horácio, em sua coluna no Jornal dos Sports

“Das três opções que Zagallo formulou para a seleção brasileira jogar sem Gérson e Rivellino, ele escolheu a pior. A entrada de Fontana na linha de zagueiros, com a deslocação de Piazza para o meio de campo, desarrumou definitivamente a defesa brasileira e abalou toda a estrutura da equipe. Sorte do Brasil que o adversário de ontem era o ingênuo time romeno, que se prestou corretamente ao papel de cobaia, perdendo o jogo, mas colocando em evidência toda a fragilidade da defesa brasileira. […] Talvez esta partida tenha sido no meio do caminho, quando a seleção já se deixava envolver por um clima de euforia, o aviso necessário de que a estrada da Copa do Mundo é mais áspera do que muitos pensam. Foi, acima de tudo, uma advertência e uma lição para o treinador Zagallo”.

Nélson Rodrigues, em sua coluna n’O Globo

“Amigos, os 25 minutos iniciais contra a Romênia mostraram um futebol jamais atingido em qualquer Copa, seja na terra, seja no céu. O nosso adversário sofreu um massacre inédito. Era de dar pena. Passes límpidos, exatos, macios. Uma qualidade, uma classe, um sortilégio absurdo. Era um jogo mágico. E o Brasil, se tivesse uma motivação forte, teria feito nesse período de sonho uns dez gols. E, depois de 2×0, paramos um pouco. Para que forçar um score de basquete? Para que se matar num jogo já resolvido? E, então, o Brasil passeou, o Brasil deslizou. Já me daria satisfeito com os 2×0, que podiam ter sido 6×0, 7×0. Os romenos, atônitos, eram espectadores e os brasileiros, os artistas”.

“Ontem, os nossos jogadores aprenderam esta verdade absoluta: só se ganha uma Copa do Mundo de cara amarrada e, repito, só se ganha uma Copa do Mundo com total seriedade. Basta um segundo de máscara, de indolência, distração, para que um abismo se cave aos nossos pés. Feita esta restrição, que é, sobretudo, uma advertência, temos esta alegria: com aqueles 25 minutos do primeiro tempo, ficou patente, com uma evidência objetiva e até espetacular, que não há, no presente campeonato, uma equipe com o nosso talento, a nossa imaginação, o nosso virtuosismo, a nossa magia”.

As avaliações do Jornal dos Sports

Alf Ramsey se prepara

A Inglaterra não poderia mais alcançar a liderança, após a vitória do Brasil, mas só dependia de um empate contra a Tchecoslováquia para se classificar. O técnico Alf Ramsey se mostrava tranquilo, ao Jornal dos Sports: “Temos muito boas possibilidades de obter a classificação se mantivermos o alto nível de jogo que tivemos nas partidas contra a Romênia e o Brasil. A perda do jogo para o Brasil certamente não nos beneficiou, mas os jogadores podem estar satisfeitos pela grande partida que fizeram e que só perderam por causa da sorte dos brasileiros”.

Grupo IV: Alemanha Ocidental 3×1 Peru

Embora classificados, Alemanha Ocidental e Peru tinham um grande interesse no confronto direto em León: o líder do Grupo IV evitaria o duelo contra o Brasil nas quartas de final. Didi foi matreiro e, mesmo declarando que pouparia titulares, escalou a equipe completa. Porém, a Blanquirroja não teve forças para encarar a Mannschaft, também com suas principais peças. Gerd Müller comandou os 3 a 1, definidos logo no primeiro tempo.

Müller, aliás, era dúvida para o jogo. O centroavante sentiu dores na véspera da partida e quase foi poupado. Entrou em campo para marcar o seu segundo hat-trick consecutivo no Mundial, totalizando sete tentos em três aparições. Na história das Copas, apenas quatro jogadores conseguiram anotar duas tripletas: Sándor Kocsis, Just Fontaine, Gerd Müller e Gabriel Batistuta. O húngaro e o alemão-ocidental ainda registraram a proeza em partidas seguidas.

Com a marcação individual em cima de Franz Beckenbauer, o papel na armação ficou com Wolfgang Overath. E o jogo da Alemanha Ocidental fluiu, em sua melhor apresentação na fase de grupos. Müller começou a dar as cartas aos 19 minutos, quando recebeu um passe de Reinhard Libuda, dominou e definiu. O segundo veio após um cruzamento de Hannes Löhr, para mais uma definição do camisa 13. Já aos 39, Müller completou de cabeça uma belíssima jogada de Uwe Seeler pela direita.

Seeler, aliás, era muito ativo na construção dos ataques e não sentia o peso dos 33 anos. Fazia uma excelente apresentação. O Peru até descontou pouco antes do intervalo, em cobrança de falta executada por Teófilo Cubillas, que desviou na barreira e enganou Sepp Maier. Na volta ao segundo tempo, Didi melhorou o rendimento do Peru, mas a Mannschaft se defendia com segurança. Até dava para Müller fazer mais, em duas cabeçadas perigosas. Além disso, o goleiro Luis Rubiños terminou como destaque peruano. Com o resultado, a Alemanha Ocidental fechou o Grupo IV com três vitórias e teria o direito de seguir em León às quartas de final. O Peru, na segunda posição, já sabia que estava no caminho do Brasil em Guadalajara.

Zezé Moreira elogia a Alemanha Ocidental

“Os alemães são muito inteligentes e estão com um ótimo meio de campo. A equipe está armada para este Mundial como ninguém. A defesa é boa e marca em cima. O meio de campo e o ataque, a exemplo da própria seleção brasileira, são o ponto alto. A principal característica é não guardar posição. Nosso time está muito melhor, mas não podemos deixar esse Müller cabecear ou chutar frente ao gol, ele é muito bom. Beckenbauer é um estilista, pena que não seja brasileiro”, declarou Zezé Moreira, técnico do Brasil na Copa de 1954, ao Jornal do Brasil.

Grupo I: União Soviética 2×0 El Salvador

A União Soviética encarou seu jogo mais fácil do grupo, contra El Salvador. A equipe desejava não apenas confirmar a classificação, como também garantir a liderança da chave – que dava o direito de seguir atuando no Estádio Azteca. Os soviéticos cumpriram sua parte com o triunfo por 2 a 0, ainda que a vitória relativamente magra pudesse permitir que o México tomasse a ponta no dia seguinte, contra a Bélgica. Os gols saíram apenas no segundo tempo, diante de 89 mil nas arquibancadas.

El Salvador conseguiu fazer um bom trabalho defensivo, apesar do domínio soviético desde o primeiro tempo. Os centro-americanos eram apoiados pela torcida da casa, vide os interesses do México na tabela, e até criaram boas ocasiões nos primeiros minutos. Entretanto, a URSS manteve o cerco e explorou os espaços surgidos na volta do intervalo. Anatoliy Byshovets abriu o placar aos seis minutos do segundo tempo, partindo em velocidade e tocando na saída do goleiro. Já aos 29, o próprio camisa 16 ampliou, aproveitando a segunda assistência de Vladimir Muntyan, em lindo lance do meio-campista na intermediária.

Pancadaria no treino da Bélgica

A Bélgica fez uma campanha tímida na Copa e ainda teve problemas de indisciplina. Segundo o Jornal dos Sports, Johan Devrindt e Odilon Polleunis saíram no braço durante um treino, antes da partida contra o México. Uma entrada dura de Polleunis provocou o entrevero. Depois de ser atendido pelo médico, Devrindt se levantou e acertou um soco no companheiro, que caiu no chão. O técnico Raymond Goethals suspendeu as atividades depois disso. Havia um racha no plantel, entre jogadores de defesa pertencentes ao Standard de Liège e atacantes sobretudo vindos do Anderlecht.

Grupo II: Suécia 1×0 Uruguai

O Uruguai tinha decepcionado em suas duas primeiras partidas, com uma vitória burocrática sobre Israel e um empate insosso contra a Itália. Pois a Celeste conseguiu ir ainda pior na terceira rodada, ao perder para a Suécia por 1 a 0. Que Pedro Rocha fizesse falta, a equipe de Juan Hohberg estava muito aquém das expectativas, pelo renome de seus jogadores. E nem isso evitou a classificação dos charruas. Os suecos tinham sido mais incompetentes anteriormente ao empatarem com os israelenses, azarões da chave. Assim, o triunfo não serviu de nada. Com os mesmos três pontos e um gol a mais no saldo, os uruguaios se mantinham à frente dos escandinavos e se classificavam.

A partida teve um problema sério de véspera. Este deveria ser o primeiro jogo apitado pelo brasileiro Aírton Vieira de Moraes no Mundial. Todavia, uma acusação feita por jornalistas suecos, de que os uruguaios tinham subornado o árbitro, o tirou da ocasião. A afirmação revoltou os dirigentes do Uruguai, mas a Fifa preferiu escalar o americano Henry Landauer de última hora na vaga do brasileiro. Apesar das promessas feitas pela Fifa de que o episódio seria “investigado com seriedade”, Vieira de Moraes ainda apitou o Itália x Israel no dia seguinte.

O Uruguai parecia muito mais interessado no empate e tomou sufoco da Suécia ao longo do primeiro tempo. O atacante Ove Kindvall, campeão europeu com o Feyenoord dias antes, dava muito trabalho à zaga celeste e criava as melhores jogadas de sua equipe. O goleiro Ladislao Mazurkiewicz precisou realizar ao menos duas grandes defesas, enquanto também viu uma bola em sua trave. E mesmo a mudança na arbitragem não anulou o sentimento de injustiça dos escandinavos, que reclamaram de um pênalti não marcado e também de um gol anulado. Apesar da violência dos sul-americanos, Landauer não distribuiu nenhum cartão.

Durante o segundo tempo, o Uruguai até saiu um pouco mais ao ataque, mas não conseguiu inverter o cenário. A Suécia continuava como o melhor time em campo e fazia por merecer o resultado, mas precisou persistir até o final. A entrada do ponta Ove Grahn, aos 39 minutos, provou-se decisiva e ele garantiria o triunfo no apagar das luzes. O cruzamento da direita culminou em uma bonita conclusão do camisa 10. Apesar disso, ainda faltava um gol para os escandinavos conseguirem a classificação e não houve tempo hábil.

Os indisciplinados da Fifa

O sistema de cartões foi introduzido na Copa de 1970, mas a arbitragem não estava muito acostumada a utilizar o amarelo ou o vermelho. Assim, o pau comeu solto em várias partidas. Antes da terceira rodada, a Comissão Disciplinar da Fifa publicou um comunicado advertindo seis jogadores por violência. O inglês Francis Lee era um dos citados, por entradas duras contra Everaldo e Félix no duelo contra o Brasil. O romeno Radu Nunweiller e o tchecoslovaco Andrej Kvasnák eram outros citados do Grupo III. O uruguaio Julio César Cortés e os israelenses Shraga Bar e David Primo completavam a lista.

Eleições presidenciais

A Fifa realizaria sua próxima eleição presidencial em 23 de junho, dois dias após a final no Azteca. E a Folha de S. Paulo relatava que Stanley Rous deveria ser reeleito, talvez por aclamação, já que não havia outro candidato àquela altura. “Comenta-se que houve barganhas e que tudo já está decidido, citando-se a exclusão da Rodésia para calar o grupo africano, que tem 34 votos e é muito unido. Ainda que remota, existe para alguns observadores a possibilidade de uma modificação com o afastamento de Rous. Isso aconteceria com a mobilização dos africanos, liderados pela Etiópia. Mas Rous nunca se descuidou. O Mundial de 1974, com 24 países, alegra os fracos e dá votos a Rous”, dizia o jornal. Com uma legislação que promovia a segregação racial, a Rodésia (atual Zimbábue) disputou as Eliminatórias, mas na Ásia, por manobra de Rous para evitar boicotes. Porém, a pressão dos outros africanos levou o banimento do país.

Peruca aos craques carecas

Secretário-geral da Fifa, Helmut Kaeser tinha uma recomendação curiosa: que os jogadores carecas usassem perucas, para diminuir os efeitos do sol. “Bobby Charlton é homem de excelentes condições físicas, um dos melhores do mundo. Mas já teve de ser retirado de campo por causa do cansaço. Tenho a impressão de que foi o sol causticante, incidindo diretamente sobre sua calva, que o afetou mais que qualquer outra coisa”, opinou, segundo a Folha. Gérson era o candidato no Brasil a ganhar novas madeixas.

A charge de Henfil no Jornal dos Sports

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