O Brasil relaxava um dia após sua estreia na Copa do Mundo, com a goleada sobre a Tchecoslováquia por 4 a 1. Pelé recebia rasgados elogios de todos os lados. Ainda assim, os olhares se voltavam ao compromisso com a Inglaterra, dois dias depois, pela segunda rodada do Grupo III. Confira mais um episódio do nosso diário sobre o Mundial de 1970.

A dúvida sobre Gérson

Lesionado durante a fase final da preparação brasileira, Gérson voltou a sentir dores contra a Tchecoslováquia e saiu de campo por precaução, logo após o terceiro gol nos 4 a 1. O meio-campista chorou no banco de reservas, porque não queria ser substituído, mas não escondia as limitações nos movimentos. O Canhotinha tinha um estiramento que poderia se complicar como uma contusão mais séria e, por isso, a comissão técnica mantinha cuidados redobrados quanto à sua presença contra a Inglaterra. Contudo, ele não queria perder o jogo.

“Domingo eu jogo de qualquer maneira, mesmo que esteja apenas com 30% da minha forma física. Precisamos vencer os ingleses de qualquer jeito e eu vou entrar em campo nem que seja de maca. É o nosso jogo mais importante, porque eles são mais técnicos e têm um time bem entrosado. É um grande azar eu voltar a sentir esta contusão, mesmo às vésperas de uma partida tão importante. Mas tenho certeza de que vou me recuperar a tempo e domingo estarei ajudando o time a derrotar os ingleses e a garantir a classificação”, disse, ao Jornal do Brasil.

Tostão, futuro médico

Além de Gérson, Tostão e Clodoaldo eram outros dois titulares com problemas físicos leves. O atacante sentia dores no dorso do pé e, por precaução, o médico Lídio Toledo tirou uma chapa. Segundo o Jornal do Brasil, Tostão teria dito: “Acho melhor o senhor não fazer esta chapa não, pois mesmo que acuse fratura eu vou jogar contra os ingleses de qualquer maneira”. O craque entraria na faculdade de medicina após se aposentar precocemente, em 1975.

Zagallo comenta suas táticas

“Não podemos abrir mão do nosso sistema defensivo e jamais poderemos atuar no 4-2-4 como a seleção vinha jogando na fase de classificação, porque assim daríamos um campo aberto para que eles manobrassem perfeitamente dentro do nosso setor defensivo. Com todo cuidado que jogamos, com o Pelé fazendo até um quarto homem dentro do nosso campo, a Tchecoslováquia criou certas situações perigosas. Imaginem se jogássemos no 4-2-4, como as coisas poderiam se complicar muito mais. Será que o resultado seria esse?”, analisou, a’O Globo.

Demissão no meio da Copa?

Segundo a Folha de S. Paulo, nos bastidores discutia-se uma possível demissão do técnico da Tchecoslováquia depois da estreia contra o Brasil. Jozef Marko foi criticado por sua decisão de, no intervalo, substituir Ivan Hrdlicka por Andrej Kvasnák no meio-campo. Hrdlicka era quem marcava Gérson e, no segundo tempo, o Canhotinha mandou no jogo. Além do mais, Kvasnák perdeu uma chance inacreditável de empate quando o placar estava em 2 a 1. O veterano da Copa de 1962 era visto como descomprometido pelos companheiros, que chegaram a pedir para que fosse barrado do 11 inicial.

Capita queria provocar Alf Ramsey

A Inglaterra mantinha sua fama de arrogante, em especial o técnico Alf Ramsey. Ao Jornal dos Sports, Carlos Alberto Torres prometia tirar onda em caso de vitória: “Se o Brasil ganhar domingo, eu saio correndo até o banco dos reservas ingleses, tiro a camisa e dou de presente ao Alf Ramsey, para acabar com a máscara dele. Uma vez eu fiz isso com o juiz Arnaldo César Coelho. Foi num jogo Santos e Botafogo, que o Botafogo venceu por 3 a 2, com uma arbitragem calamitosa. No fim do jogo eu tirei a camisa e dei de presente ao Arnaldo”.

Alf Ramsey teoriza o confronto com o Brasil

“De acordo com a lei da relatividade, não se pode afirmar, de modo absoluto, que alguma coisa seja fácil ou difícil. Assim, acho que o jogo contra os brasileiros será as duas coisas: fácil, fisicamente; difícil, tecnicamente. Em termos de futebol-força, a superioridade inglesa é indiscutível, pois dispomos de jogadores fisicamente fortes. Mas a grande arma dos brasileiros é a técnica primorosa e, principalmente, seu senso de improvisação. Contudo, ainda acredito mais na Inglaterra”, afirmou o técnico dos ingleses, ao Jornal dos Sports.

Rivellino descreve seu gol

“Fiquei emocionado com a estreia. Primeiro, porque tomamos um gol que não estava em nossos cálculos. Depois, quando Pelé foi derrubado e os tchecos formaram a barreira. Achei que a falta estava para mim. Mas vi Pelé perto da bola. E vi Gérson. Fiquei triste. Aí o Pelé gritou: ‘É sua, Rivellino, largue a bomba’. Sabe, isso dá confiança na gente. Vi o Jairzinho na barreira e pensei: vai ser por aquele lado. Senti um negócio subindo pelo corpo e, de repente, a turma toda estava em cima de mim. Eu tinha empatado a partida. Naquele momento, tive a impressão de que ganharíamos. Naquela hora, também pensei nos meus pais, na minha noiva e no meu Corinthians. Era demais para mim”, declarou Rivellino, à Folha.

Jairzinho ganhava confiança

“Minhas atuações irregulares não tinham sentido. Estava sempre bem fisicamente, mas tecnicamente deixava a desejar, sofrendo as mais severas críticas. Felizmente, tudo passou e cumpri minha promessa: acertaria de qualquer maneira contra os tchecos, nem que tivesse de cair morto em campo”, declarou, ao Jornal dos Sports.

Pelé pensa na Inglaterra

“Estreamos muito bem contra a Tchecoslováquia e acho que devemos continuar jogando o futebol que sabemos, respeitando acima de tudo os adversários, pois todos que aqui se encontram são bons e difíceis. O jogo de domingo contra os ingleses é diferente, porque eles demonstraram estar mais bem estruturados que os tchecos e têm uma base de alguns anos, pois poucos jogadores não disputaram a última Copa. De qualquer forma, penso que devemos nos preocupar menos com o adversário e cuidar de jogar o futebol que sabemos”, falou o Rei, em conversa com O Globo.

Vavá, em sua coluna no Jornal dos Sports

“Sou um fã de Pelé. Para mim, está avançado vinte anos em futebol. Ninguém ainda conseguiu entendê-lo como devia e fica esperando que ele entenda os outros. Como muita gente não consegue entender o Pelé, inventaram que ele estava acabado para o futebol. Este foi o maior absurdo que já escutei na minha vida, dito por muita gente com fama de entender de futebol, mas que não consegue entender o Pelé. […] Eu já vi Pelé assim, mas não melhor. Está um assombro. Fez jogadas de arrepiar. A bola que mandou do meio-campo brasileiro, antes da linha central, de cobertura, foi uma coisa de louco. Juro que fiquei todo arrepiado. Pensei: será que depois de tanto tempo de futebol, fazendo o que ninguém jamais fez, ainda tem tempo de inventar e executar uma jogada dessas? E o gol que marcou? Que beleza”.

Menotti se encontra com Pelé

Oito anos antes de levar a Argentina ao título mundial, César Luis Menotti era um treinador iniciante presente no México. Ex-jogador do Santos, visitou a concentração do Brasil e elogiou Pelé, ao Jornal dos Sports: “Quem joga um futebol como o seu deveria ser considerado campeão do mundo honóris-causa. Havia 80 mil pessoas no Jalisco, mas só Pelé sentiu que o goleiro estava fora do gol e lançou a bola. Sem agastar os outros, estou deslumbrado com a atuação de Pelé. Em futebol é assim, vale o que se faz no campo e não o que se diz por aí”.

O bate-bola de Pizzuti e Sívori sobre Pelé

Nas páginas do jornal O Globo, o repórter Jorge Leal trazia uma conversa descontraída e ao mesmo tempo analítica com duas feras argentinas: Juan José Pizzuti, multicampeão como treinador do Racing, e Omar Sívori, lenda da Juventus, que acabara de pendurar as chuteiras e começava a trajetória como técnico no Rosario Central. E eis que Pelé rendeu um interessante diálogo entre os dois:

Sívori: “Se eu tivesse que dirigir um jogador temperamental como eu? Você quer uma resposta 100% honesta? Francamente, acho que o matava… Exceto se esse Sívori de hoje fosse o Pelé. Ao Pelé, eu faria vista grossa para tudo, desde que ele me desse a palavra de honra dele de que no jogo seguinte faria três gols. O futebol é 80% de psicologia aplicada. Assim, quando o Pelé chegasse junto de mim e me dissesse que só voltaria para a concentração de madrugada, eu de pronto com ele concordaria, desde que me falasse ‘no próximo jogo, dou minha palavra que vou fazer três gols’. Porque se ele diz, faz. E se diz e faz é porque é gênio, e os gênios têm de ser tratados como tal”.

Pizzuti: “Pelé não agiria assim, Sívori. E é justamente por ser disciplinado e grande figura humana que ele se destaca mais ainda. Pelé não reivindica privilégios. É de fato raro”.

Sívori: “Fenômeno, que continue sendo assim. Mas eu estou aqui raciocinando hipóteses e, como tal, devo admitir tudo”.

A lacuna de Pedro Rocha

Com uma lesão muscular, Pedro Rocha estava fora da Copa. Em conversa com o jornal O Globo, o técnico Juan Hohberg comentava o tamanho do desfalque: “Não é preciso que eu diga a falta que Pedro Rocha fará aos uruguaios. Acredito que todos vocês já tenham sentido isso. É a mesma coisa que, de repente, vocês ficarem sem Pelé. O treinador sentirá e todo o quadro. Por mais que tentemos encontrar uma fórmula, faltará sempre um pouco mais para completar o que Rocha faria”.

Domenghini fala sobre o Brasil

Autor do gol na vitória da Itália sobre a Suécia, o ponta Aldo Domenghini citou um erro crucial da Tchecoslováquia contra o Brasil. Ao jornal O Globo: “Não gosto de dar opinião no jogo dos outros, mas de maneira alguma nós daríamos campo para um jogador da categoria de Gérson ou de Pelé. Os que assistiram a partida com a Suécia notaram bem que não descuidamos da defesa, mas não concordo com os que afirmam que desprezamos o ataque. Muita gente não gostou, mas ninguém pode negar que os resultados vieram. Ganhamos e foram poucas as oportunidades que proporcionamos aos suecos”.

A volta da Bulgária para casa

A Bulgária sabia que o confronto com o Peru, na estreia, era decisivo à classificação para as quartas de final. E, depois da virada sofrida, os búlgaros estavam tão descrentes em si que reservaram as passagens de volta. O time precisava vencer a Alemanha Ocidental na segunda rodada, além de torcer contra o Peru diante do azarão Marrocos. De fato, acabaram eliminados por antecipação e sequer venceram os marroquinos no último compromisso. “Depois da queda ante o Peru, não temos a menor oportunidade de chegar às quartas de final. Somos realistas e compreendemos que nossas possibilidades ficarão totalmente anuladas com uma derrota frente à Alemanha”, lamuriou o secretário da delegação, ao Jornal dos Sports.

As novidades da arbitragem

A Folha de S. Paulo trazia uma nota curiosa sobre as recomendações do Comitê de Arbitragens da Fifa aos juízes. “Na última reunião, até filmes foram exibidos aos juízes convocados para este certame”, salientava o artigo. A entidade enfatizava para serem marcadas faltas contra os goleiros em escanteios ou obstruções; que bicicletas estavam permitidas, desde que não representassem perigo aos oponentes; e que os tiros livres indiretos seriam orientados com o braço erguido, não mais com dois dedos, como era corrente até então.

“O jogador que retardar a cobrança de um tiro livre, direto ou indireto, será advertido e, na reincidência, expulso. Na advertência lhe é mostrada uma folha amarela e na expulsão, uma folha vermelha”, descrevia, sobre a novidade dos cartões. Também detalhavam o processo de substituição, outra novidade no Mundial.