O nosso diário da Copa de 1970 chega ao seu quarto dia com quatro partidas válidas pela fase de grupos. Itália, Alemanha Ocidental e Bélgica ganharam sem tantos aplausos. O Brasil seria bastante diferente, com show nos 4 a 1 sobre a Tchecoslováquia – uma goleada que, entretanto, guardou também seus riscos. Abaixo, os detalhes dessas histórias:

Grupo III: Brasil 4×1 Tchecoslováquia

Antes que a partida acontecesse no Estádio Jalisco, ocorreu uma guerra nos bastidores. Treinador da Tchecoslováquia, Josef Marko concedeu entrevistas menosprezando o Brasil, dizendo que os adversários eram lentos e não vinham em bom momento. Também surgiu na imprensa um rumor de que o técnico acusou Pelé de estar dopado. Aquilo mexeu com os brios dos brasileiros e o que se viu foi uma ótima apresentação ofensiva da equipe de Zagallo – ainda que o placar de 4 a 1 não represente exatamente os perigos que os tchecoslovacos geraram.

Durante o início da partida, a Tchecoslováquia mostrou que não se intimidaria com o Brasil. Jogou para frente e ameaçou desde os primeiros minutos. A qualidade técnica superior dos brasileiros ficava clara em cada investida, com jogadas de efeito e bom toque de bola. Contudo, os tchecoslovacos aplicavam um jogo mais direto e veloz, organizado pelo meia Ladislav Kuna. Num embate franco, as chances surgiam aos dois lados e ambas as equipes desperdiçariam gols feitos. Mas foram os europeus que inauguraram o placar, aos 11 minutos: Ladislav Petras já tinha feito uma linda jogada individual pouco antes e, depois de uma roubada de bola no meio, abriu um clarão na zaga canarinho. Félix até tentou abafar, mas a bola terminou nas redes.

O Brasil buscava sua resposta. Pelé flutuava no ataque e, com simples toques, desenhava lindos lances. Rivellino era outro muito participativo, chamando a responsabilidade para si. O empate saiu aos 24 minutos, numa falta sofrida por Pelé na entrada da área. Jairzinho ficou ao lado da barreira e saiu na hora em que vinha a patada de Riva. O goleiro Ivo Viktor até tocou na bola, sem evitar o tento em seu canto. Por mais que os brasileiros crescessem no duelo, certo risco persistia. Muito por culpa da insegurança da defesa, com erros recorrentes na saída de bola e na cobertura. O que menos comprometia, curiosamente, era Everaldo – escalado de última hora no lugar do lesionado Marco Antônio. Destaques tchecoslovacos, Karol Dobias e Jozef Adamec caíam por ali, dando trabalho ao lateral esquerdo.

A virada do Brasil parecia madura pouco antes do intervalo. E ela quase veio de maneira espetacular, no famoso chute de Pelé do círculo central, que passou muito perto da trave. Viktor também fazia uma atuação segura, com boas intervenções. No início do segundo tempo, por outra desatenção, a Tchecoslováquia esteve a um triz de retomar a dianteira. Félix e Everaldo salvariam a Seleção. Só que a partida se manteve sob o controle dos brasileiros, com Gérson mandando prender e soltar no meio-campo. O Canhotinha carimbou a trave num chute de fora da área e distribuía seus cirúrgicos lançamentos. Com um deles veio a virada, aos 14. Conectou com Pelé, que matou no peito dentro da área e finalizou com toda a calma do mundo.

A Tchecoslováquia ainda teve uma chance de ouro para empatar novamente, em lance clamoroso isolado dentro da área pelo veterano Andrej Kvasnák. Susto logo superado, para Jairzinho assinalar o terceiro aos 16. Gérson lançou outra bola no capricho e o Furacão chapelou Viktor, antes de bater à meta vazia. Foi um tento essencial para tranquilizar a situação. O Canhotinha, que se recuperara de lesão muscular recente, saiu de imediato. Zagallo preferiu preservar o seu maestro e remanejou o meio-campo com a entrada de Paulo Cézar Caju.

Jairzinho, por sua vez, cresceu no segundo tempo e passou a infernizar os adversários, com muitos dribles da ponta para o meio. Seria também dele o quarto tento, aos 38 minutos, ao dar um baile em três marcadores e bater rasteiro dentro da área. Nova pintura na noite de golaços. A Tchecoslováquia ainda buscou reduzir a diferença, mas dava claros sinais de cansaço. Por uma circunstância ou outra, o jogo poderia ter sido mais difícil ao Brasil. Mesmo assim, não se negava a superioridade da Canarinho, especialmente pelos lances deslumbrantes e pela capacidade técnica.

As avaliações do Jornal dos Sports

A massa brasileira

Um dos destaques na partida em Guadalajara foi a torcida favorável ao Brasil. Muitos torcedores brasileiros viajaram o México e levaram todos os aparatos, com bandeiras do país e de seus clubes. De qualquer maneira, dava para notar como o público mexicano abraçou a Seleção no Jalisco. O ruído favorável fazia parecer que os brasileiros jogavam em casa. Segundo relatos dos jornais, também houve comemoração no anúncio dos gols da Canarinho em Toluca e no Azteca, onde se enfrentavam Itália x Suécia e Bélgica x El Salvador no mesmo horário.

Os comentários de Zagallo depois do jogo

“Houve erros na defesa, mas por nervosismo, até que viesse o empate por 1 a 1. Mas tudo melhorou rapidamente e garanto que tais senões serão corrigidos. Claro que esperava mais da Tchecoslováquia, apesar dos 4 a 1 que são mais uma prova da inspiração dos nossos craques. Os adversários de hoje darão enorme trabalho a ingleses e romenos. São candidatos ainda à classificação na chave, podem crer. Pelé e Tostão não atuaram ainda à plena força, mas cavaram todas as brechas na defesa contrária, o que afinal decidiu a sorte da partida”

A resignação do técnico Josef Marko

“Quem tem Pelé em grande forma tem tudo para chegar ao título. Aceito sem qualquer restrição a vitória do Brasil e, afinal de contas, o exagero de gols é uma contingência do esporte. Cumprimos nossa missão como havíamos anunciado sem usar da violência, e uma ou outra jogada mais ríspida que aconteceu de lado a lado foi devido ao ardor da disputa. Infelizmente, para nós, a defesa do Brasil soube fechar-se a tempo, não mais permitindo as penetrações dos nossos atacantes. Assim mesmo conseguimos levar algum perigo quando atacamos pelas pontas. Mas não era mesmo o nosso dia e acabamos perdendo”

O comentário de Rivellino, ao Jornal dos Sports

“O negócio é o seguinte: se há uma falta nas proximidades da área dos adversários, dois jogadores nossos entram na barreira. O cobrador atira em cima desses jogadores, que saem rápido para evitar o impedimento. Todo mundo ficou de olho no Pelé, pensando que o Pelé cobraria. Eu chutei em cima do Jair, que se afastou depressa”.

João Saldanha, em sua crônica n’O Globo

“Creio que foi uma vitória muito fácil. Já havia escrito que considerava a Tchecoslováquia a partida mais fácil do Grupo III. […] Éramos francos favoritos. Por que isto? Porque a Tchecoslováquia deixa jogar. Deixa chutar a gol. É o temperamento boêmio deste quadro agradável de ser visto e que proporciona, quando está no campo, sempre partidas fascinantes e imprevisíveis. Muito boa nossa atuação, mas diria também que foi muito consentida. Algumas coisas, entretanto, devem ser consideradas. Nosso esquema defensivo esteve vulnerável. Mesmo com Rivellino recuado, isto dava muita liberdade de armação de jogo por parte de Dobias, que saía jogando demasiadamente à frente”.

“Excelente nossa jogada de contra-ataque e os tchecos perderam a cabeça quando tentaram marcar em linha – infelizmente, utilizando a linha do impedimento, o que nos facilitou ainda mais para lances de profundidade que Pelé e Jair aproveitaram, para marcar dois dos quatro tentos. Se Pelé conquistasse aquele gol do chute de sessenta metros, quando Viktor estava adiantado, acho que até os reservas da Tchecoslováquia teriam obrigação de ir cumprimentá-lo. Pelo menos o árbitro deveria tê-lo feito”.

Nelson Rodrigues, em sua crônica n’O Globo

“Amigos, nenhum scratch no mundo podia oferecer o futebol que os nossos jogadores ofereceram ontem. Não se esqueçam que, aqui, vários cronistas fizeram verdadeiro terrorismo com o quadro da Tchecoslováquia. O nosso adversário, ora fabulosíssimo, ao passo que o nosso pobre jogo antigo, obsoleto, como a primeira sombrinha de Sarah Bernhardt. Promoveram os tchecos como se fossem os fantasmas da Copa”.

“E que vimos nós? Um desenho, uma pintura, um tapete bordado. Ganhamos de 4 a 1 e sem sorte nenhuma. Terminamos o primeiro tempo empatados por 1 a 1. E o justo, o certo, o correto, é que tivéssemos chegado ao fim dos 45 minutos iniciais com dois gols de vantagem e, portanto, 3 a 1. Mas no segundo veio tremenda explosão. Amigos, vocês viram a TV, ouviram o rádio: o Brasil deu um banho de bola num dos mais formidáveis concorrentes da Copa. Não há nada melhor no futebol europeu que o scratch que, ontem, dobrou os joelhos diante do gênio dos nossos craques”.

A análise de Alf Ramsey, técnico da Inglaterra, próximo adversário

“O Brasil é uma equipe soberba. Em plena forma física e perfeitamente adaptada às condições do clima. A seleção brasileira é formada por astros de primeira grandeza. Pelé continua sendo o maior jogador do mundo e, com homens como Rivellino, Tostão, Jairzinho e Gérson ao lado, pode fazer o que quiser. Mas a defesa brasileira é um pouco vulnerável”.

Grupo I: Bélgica 3×0 El Salvador

O duelo no Estádio Azteca apontava ao claro favoritismo da Bélgica, que fez sua parte com uma vitória confortável sobre El Salvador. O placar de 3 a 0 parecia uma boa vantagem para a sequência do grupo, em que os Diabos Vermelhos mediriam forças com México e União Soviética pela classificação. De qualquer maneira, o futebol apresentado pela equipe de Raymond Goethals não impressionou tanto assim – com direito a vaias dos 92 mil presentes nas arquibancadas, durante a saída para o intervalo.

A Bélgica iniciou seu triunfo aos 12 minutos. Um dos destaques da equipe, Wilfried van Moer recebeu na intermediária e arriscou o chute. A bola caiu repentinamente, em lance que também contou com a colaboração do goleiro Raúl Magaña. Na sequência do primeiro tempo, os belgas seguiram arriscando de longe, mas sem conseguir ampliar. Os outros tentos vieram na etapa complementar. Magaña ia segurando o placar mínimo diante da pressão adversária, mas voltou a falhar aos nove minutos. O goleiro não achou um cruzamento baixo e Van Moer ficou com a meta aberta para fazer mais um. Já o terceiro se deu após um pênalti, aos 31, para Raoul Lambert cobrar firme. No fim, os belgas ainda desperdiçaram boas chances por displicência.

Treinador da Bélgica, Raymond Goethals cornetou seus atacantes, em aspas publicadas por O Globo: “Os atacantes falharam e, se tal não acontecesse, o maior placar do campeonato já nos pertenceria. Pelo menos, daríamos de 6 a 0. Quanto ao calor e à altitude, nada estranhamos. O que a equipe sentiu mesmo foi a espessura da grama que atrapalha um pouco, porque reduz a velocidade da bola”.

Grupo II: Itália 1×0 Suécia

Com uma equipe forte fisicamente, a Suécia inspirava cuidados em Toluca. A Itália, entretanto, fez o seu jogo e conquistou a vitória por 1 a 0 sobre os escandinavos. O gol precoce de Angelo Domenghini auxiliou a Azzurra, fechando-se na defesa e aguardando os espaços aos contragolpes. Foi uma demonstração de como funcionava o sistema de Ferruccio Valcareggi – que barrou mesmo Gianni Rivera, por vê-lo como uma peça incompatível ao lado de Sandro Mazzola, o craque favorito na ligação. Uma vitória econômica, mas justa.

O melhor momento da Itália no jogo aconteceu durante os primeiros 15 minutos. A Azzurra pressionou e criou boas ocasiões para marcar. Gigi Riva era o mais elétrico na linha de frente, mas não anotou em suas oportunidades. O gol coube a Domenghini, seu companheiro no Cagliari, aos dez minutos. O ponta partiu em diagonal e arrematou da entrada da área. A bola passou por baixo do goleiro Ronnie Hellström, numa falha que inclusive custaria sua titularidade na sequência do Mundial. A Suécia buscou responder, mas esbarraria na trave de Enrico Albertosi. Além disso, os italianos perderam o zagueiro Comunardo Niccolai por lesão.

A Suécia precisava acelerar no segundo tempo. Contudo, a equipe pouco criava e esbarrava na linha defensiva da Itália, liderada por Giacinto Facchetti. A Azzurra manteve a sua segurança. Já na frente, as jogadas armadas por Sandro Mazzola dependiam também da individualidade de Gigi Riva e Roberto Boninsegna, que não conseguiam se criar para cima dos zagueiros. O embate era truncado, com mais pegada que técnica. Somente no final é que os escandinavos realmente criaram alguma esperança, mas não passaram por Albertosi.

Treinador italiano, Ferruccio Valcareggi manteve o senso crítico, conforme o Jornal do Brasil: “A Itália mereceu a vitória, embora tenha jogado abaixo do seu nível habitual. Sabíamos que a altitude iria nos causar problemas, mas não imaginávamos que fosse nos afetar tanto. Nossa sorte, porém, foi que os suecos também tiveram seus problemas e se viram tão cansados quanto nós ao final do jogo”.

Pedro Rocha, fora da Copa

O Uruguai recebeu uma péssima notícia após a vitória na estreia, contra Israel. Seu camisa 10 e capitão, Pedro Rocha, havia se lesionado logo nos primeiros minutos da partida e os exames posteriores apontaram um estiramento de certa gravidade na perna direita, com previsão de um mês parado. El Verdugo, de fato, não atuaria mais naquela Copa do Mundo. O técnico Juan Hohberg, que decidiu escalá-lo mesmo sabendo que o craque ainda não estava totalmente recuperado de uma contusão no joelho, admitia o seu erro.

Grupo IV: Alemanha Ocidental 2×1 Marrocos

A Alemanha Ocidental desembarcou ao México com o status de favorita. A equipe de Helmut Schön ganhara experiência desde o vice no Mundial de 1966 e adicionara bons talentos à sua escalação, como Sepp Maier e Gerd Müller. Contra o estreante Marrocos, que colocava a África na Copa do Mundo após 36 anos, aguardava-se uma goleada. Não foi o que se viu. A vitória por 2 a 1 bastou para a Mannschaft somar dois pontos, mas esteve distante de convencer os presentes em León. Os marroquinos estiveram próximos de emular a Coreia do Norte de quatro anos antes.

A partida começou com a Alemanha Ocidental acomodada em sua pretensa superioridade. Entretanto, Marrocos logo mostrou que não seria uma barbada. Os magrebinos faziam uma partida em alto ritmo, bem organizados em suas ações. O meio-campista Mohammed Mahroufi se destacava, ao aproveitar a velocidade dos companheiros com seus passes. E o primeiro gol foi de Marrocos, aos 21. Horst-Dieter Höttges recuou mal uma bola de cabeça e pegou Maier no contrapé. Houmane Jarir viu a chance pingando na área e mandou para dentro. Os marroquinos seguiram melhores depois do tento, com o despertar do Nationalelf só nos dez minutos anteriores ao intervalo. Wolfgang Overath parou na trave e o goleiro Allal Ben Kassou fez milagre contra Gerd Müller.

O início do segundo tempo quase rendeu um gol injusto aos alemães-ocidentais: o árbitro autorizou a saída quando o goleiro Kassou ainda não havia retornado dos vestiários, tratando de dores, e o avanço da Alemanha só foi parado com uma falta dos marroquinos na entrada da área. No entanto, a Mannschaft era mesmo mais forte e arrancaria a virada. O empate saiu aos 11, em troca de passes até que o capitão Uwe Seeler girasse na área e acertasse o canto. O bombardeio germânico persistiu, com o gol da virada aos 35: Hannes Löhr mandou uma cabeçada no travessão e Gerd Müller guardou na sobra, quase em cima da linha.

O técnico Helmut Schön elogiou apenas para Müller e Seeler, indicando que não havia gostado da atuação nem mesmo de Franz Beckenbauer, o craque da Alemanha: “Vou pensar muito nesta noite sobre o jogo de hoje e só depois traçarei planos definitivos. Os marcadores marroquinos eram realmente implacáveis. Estava quente, mas até que o tempo foi camarada conosco, porque hoje foi um dos dias mais amenos desde que chegamos ao México. Nem o calor e nem a altitude nos prejudicaram”.

Uma comemoração significativa dos peruanos

Dois dias antes de sua estreia na Copa do Mundo, o Peru sofreu um terremoto severo na região de Ancash. O tremor de 7.9 de magnitude durou 45 segundos e deixou cerca de 70 mil mortos. O país estava em luto e um minuto de silêncio foi respeitado antes da vitória heroica sobre a Bulgária, com a virada por 3 a 2. O resultado acabou recebido como uma maneira de lidar com a dor. Em Lima, distante do epicentro do desastre, houve uma grande comemoração nas ruas.

As charges de Henfil no Jornal dos Sports