A fase de grupos da Copa do Mundo chegava ao fim, com mais quatro partidas para concluir a terceira rodada. A Inglaterra confirmou a classificação ao lado do Brasil no Grupo III e enfrentaria a Alemanha Ocidental nas quartas de final, num jogaço. A Itália assumia a liderança do Grupo II, enquanto o México carimbava sua passagem no Grupo I. Entretanto, a espera por um sorteio entre mexicanos e soviéticos impediu a definição imediata dos confrontos na etapa seguinte. Confira mais um episódio do nosso diário da Copa de 1970:

Grupo III: Inglaterra 1×0 Tchecoslováquia

A principal partida da quinta-feira acontecia em Guadalajara, onde a Inglaterra enfrentava a Tchecoslováquia. Os ingleses podiam até perder por um gol de diferença para confirmar a classificação, sem mais chances de alcançar o Brasil na liderança. Já os tchecoslovacos precisavam da vitória a qualquer custo, e com goleada por quatro gols de diferença, para superar também os romenos no saldo. No fim, prevaleceu mesmo o favoritismo inglês, apesar do magro triunfo por 1 a 0 no Jalisco.

Sir Alf Ramsey poupou diversos jogadores naquela partida. Foram cinco modificações em relação à derrota para o Brasil, embora Bobby Moore e Bobby Charlton seguissem como referências dos Three Lions. Durante o primeiro tempo, entretanto, a Tchecoslováquia foi mais agressiva. As chegadas da equipe eram mais frequentes ao ataque, ainda que não tenham exigido tanto de Gordon Banks, com a falta de pontaria de seus homens de frente prevalecendo. Os ingleses não faziam grande exibição e suas oportunidades se limitavam às bolas aéreas, com duas cabeçadas perigosas para fora.

O lance decisivo aconteceu no início do segundo tempo, num pênalti bastante discutível logo aos cinco minutos. Allan Clarke, um dos que ganharam a titularidade naquela tarde, partiu para a cobrança e venceu o goleiro Ivo Viktor. As duas equipes seguiram com chances na sequência. Alan Ball mandou uma bola no travessão, enquanto Banks realizou duas defesas difíceis. O goleiro, além do mais, agradeceria à sorte. Já no fim, Karol Dobias arriscou de longe e a bola passou no meio das mãos do camisa 1, no que seria um frangaço. Para seu alívio, o tiro bateu no travessão e não impediu o triunfo dos Three Lions. Na próxima fase, os ingleses pegariam a Alemanha Ocidental, reeditando a final de 1966.

Grupo I: México 1×0 Bélgica

Com a União Soviética classificada de antemão, restava uma vaga no Grupo I da Copa do Mundo. México e Bélgica estavam igualados na tabela, mas os mexicanos tinham um saldo de gols superior e poderiam avançar com um empate. Ainda assim, queriam a vitória para superar os soviéticos na liderança e continuar jogando no Estádio Azteca durante as quartas de final. Outra vez, El Tri se valeu de uma arbitragem polêmica para derrotar os belgas por 1 a 0. E o resultado forçava um sorteio para definir a primeira posição da chave.

O lance decisivo aconteceu logo aos 14 minutos de jogo. Javier Valdívia caiu na área em disputa na qual Jean Thissen visou a bola, o árbitro argentino Ángel Coerezza apontou a marca da cal para o México e revoltou os jogadores da Bélgica, que partiram em massa para pressioná-lo. Após confusão, o capitão Gustavo Peña pegou a bola e cobrou muito bem, tirando do alcance do goleiro Christian Piot. Depois disso, os mexicanos se valeram do nervosismo dos adversários e seguiram melhores. Valdívia quase ampliou no primeiro tempo, com uma bola na trave.

Na segunda etapa, a Bélgica melhorou e pressionou. Por mais que o México tivesse a opção dos contra-ataques para ampliar, acabava salvo pelo goleiro Ignacio Calderón. Já no final, os anfitriões respiraram aliviados quando o zagueiro Javier Guzmán salvou uma bola em cima da linha. Com o resultado, México e União Soviética empataram na liderança, com os mesmos cinco pontos e saldo de gols idêntico. Conforme as regras da Fifa, seria feito um sorteio no dia seguinte para definir o primeiro colocado.

Grupo II: Itália 0x0 Israel

A Itália estava devendo bastante na Copa do Mundo e, ainda assim, se via praticamente classificada. Graças ao triunfo magro sobre a Suécia na primeira rodada, a Azzurra dependia apenas de um empate contra Israel para avançar às quartas de final na primeira colocação do Grupo II. E foi exatamente isso que aconteceu: outra vez a equipe de Ferruccio Valcareggi teve atuação tranquila na defesa, mas não compensou no ataque. O empate por 0 a 0, de qualquer maneira, era a garantia que os italianos almejavam. Os israelenses caíram na lanterna da chave, mas com dois pontos, apresentando um futebol melhor que o esperado.

Não foi, contudo, uma atuação conservadora da Itália. A equipe partiu para a pressão desde o primeiro tempo e teve boas chances de marcar, perdendo alguns bons lances. Giancarlo De Sisti acertou a trave de Israel num chute de fora da área, enquanto Mario Bertini teve um gol anulado por impedimento pouco antes do intervalo – em marcação bastante duvidosa da arbitragem. No segundo tempo, o craque Gianni Rivera finalmente estreou no Mundial, entrando no lugar de Angelo Domenghini.

A Itália seguiu superior na metade final da partida, mas Israel conseguia se segurar com bastante esforço. A zaga bloqueava as melhores jogadas. Gigi Riva também teve um gol de cabeça anulado pelo árbitro, sob protestos. E no final, quando Roberto Rosato soltou uma pancada da intermediária, o goleiro Itzhak Vissoker defendeu bem. O resultado garantia que, na primeira colocação, os italianos seguissem em Toluca para as quartas de final.

Grupo IV: Bulgária 1×1 Marrocos

Uma partida que não valia mais nada. Com a classificação antecipada de Alemanha Ocidental e Peru, o duelo entre Bulgária e Marrocos apenas cumpria tabela. Os búlgaros tentavam se refazer das atuações abaixo do esperado nos duelos anteriores. Enquanto isso, os marroquinos buscavam seu primeiro ponto na história das Copas, após quase surpreenderem os alemães e também darem certo trabalho aos peruanos. Melhor aos africanos, que levaram o empate por 1 a 1.

Como se imaginava, não foi um bom jogo no esvaziado estádio de León. A Bulgária foi superior no primeiro tempo, mas não atuou bem, e abriu o placar aos 40 minutos. Após uma cobrança de falta na esquerda, o goleiro Mohammed Hazzaz saiu em falso e Dobromir Zhechev ficou com a meta vazia para escorar. Já no segundo tempo, os times sequer faziam questão de se empenhar. Era um amistoso de luxo. Apesar disso, Marrocos conseguiu o empate aos 16 minutos. Maouhoub Ghazouani arriscou de fora da área, o chute desviou na marcação e enganou o goleiro Stoyan Yordanov.

A acusação de suborno na Copa

Repercutia bastante, no dia seguinte, a mudança repentina de árbitro no Suécia 1×0 Uruguai. O brasileiro Aírton Vieira de Morais deveria apitar o duelo, mas foi tirado do jogo pela Fifa horas antes do pontapé inicial, após uma denúncia de que ele havia sido “subornado pelos uruguaios”. Segundo o jornal O Globo, a denúncia viera de um fotógrafo sueco que passara por membro da delegação. Chefe de arbitragem da Fifa, Ken Aston teria se mantido cético e pediu provas, mas acabou modificando o árbitro mesmo assim. Já Stanley Rous, presidente da Fifa, declarava que o próprio Morais pediu para dirigir o outro jogo da rodada e assim se poupar das acusações.

À Folha de S. Paulo, todavia, Morais deu outra versão: “Não sei por que fui substituído, mas só posso atribuir o fato a uma manobra política. Também não sei quais seriam os interessados nela. A única coisa que desejo deixar bem clara é que foi uma medida tomada exclusivamente pela Fifa. Talvez se trate de uma manobra igual à que fizeram recentemente contra a Inglaterra, criando um caso policial em torno de Bobby Moore. Ninguém pode garantir, agora que o Brasil é um dos grandes favoritos, que não queiram prejudicar os brasileiros, servindo-se para isso de um juiz brasileiro. Tudo são hipóteses, não me cabe julgar o assunto. A responsabilidade é toda da Fifa. Ainda estava dormindo quando recebi um telefonema da Fifa, informando-me sobre a decisão da substituição. E confesso que fiquei surpreso com os rumores de suborno”.

O Jornal dos Sports, de linha editorial mais sensacionalista, chegou a acusar um complô contra os sul-americanos. Traziam uma teoria, pouco explícita, de que México e Inglaterra poderiam ser beneficiados. E o fato é que o árbitro substituto em Suécia x Uruguai, o americano Henry Landauer, foi péssimo. Prejudicou os próprios suecos algumas vezes, embora não tenha impedido a vitória por 1 a 0. No fim, a Celeste se classificou mesmo com a derrota. Já Aírton Vieira de Morais apitou Israel x Itália.

Uruguai emite nota de protesto

“A juízo da delegação do Uruguai, o presidente da Fifa não tem faculdades para tomar decisões sérias baseadas em rumores, menos ainda quando, num caso dessa natureza, em que os rumores resultam agravantes para o próprio Senhor Morais e para as duas seleções participantes do jogo. A decisão é atentatória e antirregulamentar. O Uruguai foi a campo como uma homenagem ao público assistente e à federação do México, insistindo em um protesto enérgico pelo atentado contra o futebol latino-americano por parte do senhor presidente da Fifa”, escreveram os uruguaios em nota oficial, se posicionando sobre o caso da mudança do árbitro na sua partida.

“Não existem provas de intento para o suborno. A delegação uruguaia nega rotundamente haver tentado uma manobra dessa ordem, afirma que não conhecemos o Senhor Morais, nem com ele nunca tivemos contato. Viemos jogar todas as partidas dentro de um jogo limpo e não nos valemos da compra de arbitragens para seguir na Copa do Mundo. Com o maior constrangimento, queremos fazer notar que as calúnias infundadas são contra o Senhor Morais, a quem se pretende desmoralizar. Tudo isso parece um complô contra o futebol sul-americano, para desclassificar o Uruguai”, complementaram.

Novidades no Brasil

Gérson e Rivellino encerravam sua recuperação, liberados para enfrentar o Peru. As preocupações se concentravam mais sobre Everaldo e Clodoaldo, substituídos no jogo contra a Romênia por contusão. Paulo Cézar Caju, que voltava à reserva com a confirmação dos titulares, era bastante elogiado por suas atuações. E se mostrava satisfeito, ao Jornal do Brasil: “Volto à reserva com o mesmo espírito de união e para torcer novamente por Rivellino e pelo Brasil. Estou certo que cumpri meu dever nos dois jogos que participei e, se estou intensificando o treinamento, é porque ainda espero ter outras chances para voltar a dar minha colaboração ao Brasil nesta Copa”.

Gérson voltava com tudo

Segundo o Jornal dos Sports, Gérson vinha com todo o gás para os mata-matas da Copa. No dia seguinte à vitória sobre a Romênia, acordou cedo e pediu uma sessão de exercícios extras ao preparador Admildo Chirol. Estava recuperado da distensão que o fez ser poupado das duas partidas anteriores. “Acho que ganharemos domingo do Peru, como insisto que só perderemos esta Copa por azar. Mas como temos de admitir o azar no futebol, acho que não posso ficar de fora contra os peruanos, sob o risco de voltar para o Brasil por um imprevisto qualquer, sem ter tentado garantir a passagem às semifinais”, declarou o meio-campista.

Brito e seu bigode

Outra novidade no Brasil era visual: Brito, que jogou a fase de grupos com uma barba espessa, deixou apenas o bigode. O zagueiro contou que era uma promessa, até que a Seleção conquistasse a classificação: “Foi mesmo um sacrifício que eu fiz. Barba grande para mim é horrível, porque além de ser muito irregular, coça muito. Agora consegui o que queria e posso ficar livre daquele grande incômodo”.

Félix põe a culpa na defesa

“Contra a Romênia, a nossa defesa facilitou. No entanto, eu acabei levando a culpa pelos dois gols dos romenos. Eu já estou acostumado a isso, principalmente porque fui um dos mais criticados. Nas Eliminatórias fomos classificados, mas ainda assim me disseram que eu não tinha condições de jogar. Daí, fui dispensado pelo Saldanha e todos concordaram que eu não merecia mesmo vir ao México. Mudou o técnico e Zagallo me pôs como titular. Mas, afinal, sirvo ou não sirvo? Sofri três gols até agora, mas acho que na última partida eu soube sair bem da meta. Se sofri os dois gols foi porque a nossa defesa facilitou, querendo enfeitar o jogo. E isso é justo que eu diga”, declarou o goleiro, à Folha de S. Paulo.

Rogério fala sobre a seleção peruana

Ponteiro cortado da Seleção por contusão e transformado em observador, o botafoguense Rogério assistiu aos jogos do Peru. Não acreditava que o próximo adversário daria tanto trabalho assim: “Eles vão totalmente ao ataque. O importante, segundo me pareceu, é fazer gols. Não se importam em tomar quatro e ter que marcar cinco para vencer o jogo. Os peruanos jogam na base da improvisação individual, ao contrário do que acontece com os europeus e a nós brasileiros, agora mais obedientes às esquematizações táticas. Os peruanos não estão acostumados a dar combate. Não conseguirão se adaptar ao estilo moderno do futebol, colaborando com os zagueiros, e isto nos permite maiores facilidades do que se fôssemos jogar, por exemplo, contra os alemães, que sabem se defender e atacar com a mesma eficiência”.

Didi se prepara ao duelo com o Brasil

“Meu dever profissional me obriga a derrotar os brasileiros, mas confesso que sentiria muito se isso acontecesse. Não sei se minha equipe está preparada para vencer o Brasil. O que eu posso garantir é que tenho certeza de que não faremos feio. Dizer que a vitória será nossa eu não posso. Mas aqui deixo um aviso: se facilitarem conosco, passaremos pelas quartas e, se possível, chegaremos ao título”, comentou o treinador do Peru, ao Jornal dos Sports.

Zizinho, em sua coluna no Jornal dos Sports

“Posso lhe garantir uma coisa, meu bom Didi: até o jogo contra os alemães, todos os brasileiros torceram por você. Domingo, porém, a coisa será diferente. Você terá que enfrentar a seleção que tantas vezes defendeu e desta vez, como não poderia deixar de ser, meu conterrâneo, eu não vou lhe desejar boa sorte – muito pelo contrário, sua sorte não há se der por falta de adeus. Estarei segunda-feira bem cedo para lhe dar tchau no aeroporto em seu regresso a Lima”.

Ladrão rouba a concentração brasileira

Apesar do forte esquema de segurança, um ladrão invadiu o hotel onde o Brasil estava hospedado em Guadalajara. Mas ele não queria dinheiro, e sim recordações dos brasileiros. Foi direto à pilha de camisas do roupeiro Nocaute Jack, que deu falta de duas peças com o 10 nas costas – uma amarela, outra azul. Segundo o Jornal dos Sports, o meliante pulou o muro do local e desmontou a proteção da janela da rouparia. O rapaz vestiu a camisa azul e, quando caminhava pelo hotel, deu de cara com Antônio do Passo (chefe da comissão técnica), que percebeu não ser normal alguém ter aquele uniforme azul e ameaçou chamar a polícia. Então, o ladrão saiu pela tangente e pulou novamente o muro, deixando para trás outras duas camisas que tinha nas mãos – uma de número 2 e outra de número 3. “Puxa, eu saí só cinco minutos. Se pegasse esse cara, ele ia ver”, disse Nocaute Jack, que era boxeador na juventude.

20 mil autógrafos de Pelé

Segundo um jornalista mexicano que acompanhava a seleção brasileira, Pelé tinha distribuído 20 mil autógrafos àquela altura da Copa do Mundo. Somava também o período de preparação do Brasil, contabilizando 500 autógrafos do Rei por dia.

Copa com 24 seleções?

Às vésperas das eleições presidenciais da Fifa, Stanley Rous fazia lobby para se manter no cargo. E a proposta dele não era nada inventiva: aumentar a Copa do Mundo para 24 participantes, contemplando especialmente os continentes periféricos. A Alemanha Ocidental, porém, não gostava da ideia. Já definido como sede, o país preferia manter as 16 equipes por questões organizacionais.