A Copa do Mundo de 1970 teve um domingo com 420 minutos de futebol. Todos os jogos das quartas de final aconteceram no mesmo dia – e, inclusive, no mesmo horário, o que não facilitava muito a vida de quem queria acompanhar o torneio. O Brasil reforçava seu favoritismo com outra grande atuação de seu ataque contra o Peru. A Alemanha Ocidental buscou uma virada inimaginável sobre a Inglaterra – superior, mas derrubada na prorrogação. A Itália apresentava suas credenciais ao golear um valente México e o Uruguai, na conta do chá, superou a União Soviética no pior dos quatro confrontos. Confira mais um episódio de nosso diário sobre o Mundial:

Guadalajara: Brasil 4×2 Peru

Tostão fazia uma Copa do Mundo boa até aquele momento, mas costumava ser o mais questionado da linha de frente brasileira. Apesar da jogadaça que valeu a vitória contra a Inglaterra, o camisa 9 assumia uma postura de coadjuvante, ao lutar para abrir espaços aos companheiros e proporcionar as melhores chances aos outros. Executava um papel consciente e solidário, que não precisava de gols, embora os críticos tivessem sua razão por saberem do que o cruzeirense era capaz – foi o artilheiro das Eliminatórias, antes de sofrer o descolamento de retina que o levou ao centro cirúrgico às vésperas do Mundial. E a melhor versão de Tostão realmente apareceu nas quartas de final. Facilitou demais um duelo que teve seus perigos, contra um Peru que buscou seus espaços, mas que não impediu a vitória do Brasil por 4 a 2.

Como já era sabido, o Brasil contou com as voltas de Gérson e Rivellino, recuperados de lesão. A única novidade era mesmo na lateral esquerda: Everaldo não se livrou totalmente das dores no tornozelo e Marco Antônio ganhou sua primeira chance como titular, após ele mesmo se contundir antes da estreia. Entre os peruanos, três mudanças aconteciam no 11 inicial. A defesa ganhou as incursões de Eloy Campos e José Fernández. Já na linha de frente, Julio Baylón vinha para o lugar de Hugo Sotil, prometendo mais qualidade nos dribles pela ponta direita. Mesmo assim, as atenções recaíam ao técnico Didi, um tanto quanto contido no banco de reservas. A tensão do velho ídolo brasileiro no encontro com a Seleção era materializada pelo casaco que cobria suas costas no sol quente de Guadalajara.

Quando o apito inicial soou, o Brasil repetiu a estratégia vista contra a Romênia: começou com tudo, para abrir vantagem desde os primeiros minutos. Pelé estava especialmente aceso, com uma série de toques cheios de efeito e tentativas de calcanhar. Seria dele o primeiro bom lance. Gérson mostrou que voltara com um daqueles seus lançamentos açucarados, no peito do Rei, que passou a marcação e invadiu a área. Uma pena que a finalização não seria tão perfeita, batendo na trave. Na sobra, Pelé deu um toque invocado a Tostão, que mandou para fora.

A Seleção não era apenas pressão. Pelo contrário, a Blanquirroja também não se apequenou e avançava ao campo de ataque quando recuperava a bola, mas encontrava um adversário muito atento. A equipe de Zagallo se mostrava disposta a não repetir os erros atrás e fechava bem os espaços, com os homens de frente recompondo e se esforçando para bloquear os caminhos. Isso, porém, não significava cautela na hora de atacar. Tostão e Pelé se entendiam perfeitamente nas tabelinhas. Rivellino era outro que voltou com vontade. A qualidade na frente preponderava e rendeu o primeiro gol aos 11 minutos.

Campos errou um domínio dentro da área e entregou o ouro a Tostão. Com o raciocínio rápido, o camisa 9 logo tocou a Rivellino na entrada da área. O ponta pegou na veia, de canhota, e o tiro rasante cheio de efeito beijou a trave antes de entrar. O Brasil arregaçou as mangas e tentou levar o Peru a nocaute. Só as faltas paravam as tramas entre Pelé e Tostão. O segundo gol ocorreria logo na sequência, aos 15, em escanteio garantido por um contra-ataque. Tostão cobrou curto e passou nas costas da defesa para receber de volta de Rivellino. O centroavante agradeceu a retribuição com um chute quase sem ângulo, que passou entre o goleiro Luis Rubiños e a trave. Era um prêmio a Tostão, com uma movimentação incessante e sempre um segundo mais rápido que os oponentes.

O Brasil teria um gol anulado pouco depois, em falta cobrada irregularmente por Rivellino. O Peru tentava responder e passou a controlar mais a posse de bola a partir de então, com a Seleção se retraindo e se recompondo sem tanta solidez. Roberto Challe conduzia as transições, contando com a movimentação de Perico León e Teófilo Cubillas para escaparem da marcação. A Blanquirroja exibia sua dose de qualidade ofensiva e abria a zaga com envolventes linhas de passes. Assim, Félix teria que intervir, salvando no mano a mano com Cubillas. Só que a persistência permitiu aos peruanos descontarem aos 28, com Alberto Gallardo, o melhor de seu ataque até então. O ponta esquerda aplicou um drible seco em Carlos Alberto e chutou com pouquíssimo ângulo. A bola bateu nos braços de Félix e entrou, repetindo a falha de Rubiños.

Logo na saída de bola, Pelé tentou outro gol do círculo central, mas não ameaçou tanto quanto no lance famoso contra a Tchecoslováquia. O Peru ganhou confiança depois do tento, apoiado por uma barulhenta torcida no Jalisco. Mas isso não impedia que a Seleção seguisse mais consistente em seus ataques, esperando seus momentos e sempre levando perigo quando subia. Pelé quase contou com a colaboração de Rubiños, que bateu roupa e acabou salvo pela trave. O goleiro se redimiria com uma boa defesa logo depois, quando Rivellino tentou pegá-lo no contrapé. Já os peruanos tiveram um tiro livre indireto dentro da área, mas isolaram. Foi uma obstrução de Brito, de novo titubeante no miolo de zaga.

A volta ao segundo tempo guardou um Brasil resoluto a encaminhar sua classificação, apertando mais o passo no ataque. Jairzinho acelerava na direita e quase aproveitou a sobra de um cruzamento, parcialmente desviado por Rubiños. Com Pelé marcado de perto por Ramón Mifflin e sempre caçado quando se aproximava da área, a participação dos companheiros seria fundamental. E o terceiro tento nasceu assim, a partir de um passe na medida de Jair para o Rei. O camisa 10 deu um toquinho, em bola que bateu na zaga e tirou do lance o goleiro. Com a meta aberta, Tostão completou.

O Peru baqueou e quase tomou o quarto na sequência. Jair ameaçou em uma arrancada, enquanto Pelé persistia para fazer o dele, mas lamentou um chute desviado que não entrou. Para mexer com os brios de seu time, Didi promoveu duas mudanças em seu ataque, com as entradas de Eladio Reyes e Hugo Sotil. As trocas não surtiram efeito imediato, mas os Incas descontaram outra vez com sua dose de sorte, aos 25. Após outra infiltração pelo meio, a bola pipocou e bateu nas costas de Marco Antônio. Cubillas emendou na sobra e venceu Félix.

Pouco antes, Zagallo tinha colocado Paulo Cézar Caju no lugar de Gérson. O maestro havia voltado bem e controlou o meio com sua saída de bola perfeita, ao lado do termômetro Clodoaldo. Com a troca, Rivellino passava à armação. Caju de novo entrou ligado e quase fez o seu em cobrança de falta, forçando a defesa de Rubiños. A segurança do Brasil no placar acabaria garantida aos 30, com participação de Rivellino. O camisa 11 realizou um lançamento soberbo a Jairzinho, que caía pela esquerda. O ponta passou por Rubiños e, com o gol escancarado, teve muita calma na conclusão.

O Peru não desistiu da partida, mas estava claro que não conseguiria reverter a situação com apenas 15 minutos no relógio. Uma saída providencial de Félix, quando os Incas tabelaram com facilidade até invadir a área, tirou as esperanças logo após o tento de Jair. Muito bem em suas antecipações, o goleiro ainda teria trabalho com Cubillas, em bela ponte para evitar outro do camisa 10. Mas a verdade é que certa displicência pesou contra o Brasil nos minutos finais, com capacidade para também assinalar seu quinto tento, gerando ainda mais chances.

Tostão deu um toque a mais dentro da área, e viu a marcação bloquear sua tripleta. Roberto Miranda, que entrou no lugar de Jairzinho, quase anotou em chute fechado. E houve ainda um duelo particular de Rivellino com Rubiños, com o goleiro se dando melhor nas duas vezes diante do craque. A Seleção melhorava após a atuação contra a Romênia. Contou com grandes exibições individuais, a mais destacada de Tostão, logo acompanhado por Gérson. Pelé não marcou o gol, mas participou de dois deles, assim como Rivellino e Jairzinho foram decisivos. O entrave seguia na exposição da defesa. Ainda assim, não era nada para colocar em xeque a classificação merecida, com um poderio ofensivo que não deixava margens às dúvidas.

A Inglaterra sem Banks

A grande surpresa da Inglaterra em sua escalação para o duelo contra a Alemanha Ocidental era a ausência de Gordon Banks, visto como o melhor goleiro da Copa do Mundo até aquele momento. O craque de luvas foi afetado pelo chamado ‘Mal de Montezuma’, um comum problema gastrointestinal entre os visitantes no Mundial do México. Banks passou mal durante toda a véspera do jogo, com diarreia e vômitos. O arqueiro até melhorou no domingo da partida e deveria ser escalado, mas teve uma recaída durante a preleção no hotel, com calafrios e fraqueza. Peter Bonetti, ídolo do Chelsea, começaria na meta. O camisa 1 sequer foi ao estádio e viu o duelo pela televisão.

León: Alemanha Ocidental 3×2 Inglaterra

Quatro anos depois, a memória de todos ainda estava fresca. Se a decisão da Copa de 1966 permanecia como o grande assunto na imprensa às vésperas do Alemanha Ocidental x Inglaterra em León, certos ânimos acirrados também se percebiam dentro de campo. Entre os titulares, cinco jogadores de cada lado tinham participado daquele embate em Wembley e levaram sentimentos também ao México. No fim das contas, a Mannschaft alcançou sua revanche. Não foi a atuação mais brilhante dos alemães-ocidentais, mas a eficiência de sempre esteve lá. O time de Helmut Schön não perdeu a cabeça após tomar os dois primeiros gols da tarde, aproveitou bem os raros deslizes da marcação inglesa e, na prorrogação, comemorou a marcante virada por 3 a 2. Os Three Lions sucumbiam com uma grande atuação, mas sem a capacidade de segurarem o resultado.

Exceção feita à troca de Banks por Bonetti, a Inglaterra mantinha sua base, reinserindo os jogadores poupados contra a Tchecoslováquia. A linha defensiva permanecia liderada por Bobby Moore, com Keith Newton e Terry Cooper dando projeção pelos lados. No meio, a organização ficava por conta de Bobby Charlton, com participação ativa de Alan Ball e Martin Peters. E, na frente, boa mobilidade com Francis Lee e Geoff Hurst. Já a Alemanha Ocidental manteve em sua zaga Karl-Heinz Schnellinger, que ganhou a posição mesmo com a recuperação de Willi Schulz. Franz Beckenbauer atuava à frente da defesa, conduzindo a saída de bola ao lado de Wolfgang Overath. E na frente, o artilheiro Gerd Müller servia de referência, enquanto o capitão Uwe Seeler voltava para armar.

O primeiro tempo seria mais pegado que jogado. O clima pouco amistoso ficaria claro desde o início, com entradas duras de ambos os lados, mas principalmente dos germânicos. A Inglaterra começou um pouco melhor e quase abriu o placar em cruzamento que Sepp Maier soltou na pequena área, até se recuperar. O goleiro, aliás, seria pivô de um lance cabal para que o ambiente ficasse ainda mais quente. Após uma defesa, Maier se queixou que Lee deixou o braço e ficou caído por alguns minutos no gramado. Apesar do histórico desfavorável do atacante na própria Copa, descendo o pé contra o Brasil, o arqueiro pareceu valorizar.

A partir de então, o clássico ficou com passe livre para uma série de carrinhos mais duros, que matavam as jogadas na intermediária. A Inglaterra se mostrava superior, se valendo bastante das subidas constantes de seus laterais e da movimentação de seus atacantes, mas se limitava a cruzamentos afastados pela zaga adversária. Na faixa central, Bobby Charlton mandava nas ações e vencia a batalha contra Beckenbauer. A Alemanha Ocidental melhoraria com o passar dos minutos, forçando as jogadas com os pontas, mas de novo a defesa inglesa apresentava um senso de colocação impecável aos cortes.

O gol da Inglaterra aconteceu aos 31 minutos, contando com as boas incursões de Newton pela direita. O lateral descolou um passe entre as linhas alemãs e encontrou dentro da área Alan Mullery, o volante que se infiltrava. O camisa 4 de antecipou à marcação e finalizou no canto, tirando do alcance de Maier. Antes do intervalo, a Alemanha Ocidental tentou apertar, mas não fez muito contra a muralha que se erigia diante da área da Inglaterra. Bobby Moore outra vez se agigantava nas antecipações e a única alternativa aos germânicos era queimar os chutes de longe. Não deram muito trabalho a Bonetti, que fazia uma atuação sem sobressaltos, não demonstrando insegurança.

A Alemanha Ocidental voltou com Willi Schulz no lugar de Horst-Dieter Höttges para o segundo tempo, mas um buraco pelo lado esquerdo da defesa permitiu o segundo gol da Inglaterra logo aos quatro minutos. De novo, Newton seria decisivo. O lateral recebeu a abertura de Hurst e, na borda da área, cruzou de primeira. Martin Peters apareceu no segundo pau e, mesmo prensado, conseguiu mandar de bate-pronto, acertando o canto de Maier. Neste momento, nada indicava uma reviravolta no placar. Era uma atuação bastante confiante da Inglaterra, especialmente pela solidez da marcação – e outra vez, pela tarde inspirada de Moore.

A Alemanha Ocidental dependia bastante de Franz Beckenbauer e Wolfgang Overath na construção, mas os passes não eram muito agudos. O Kaiser até fazia uma jogada ou outra de efeito, o que se alternava com bolas bobas perdidas no meio. Schön apostaria em Jürgen Grabowski no lado direito do ataque, no lugar de Libuda, e veria o substituto incendiar aquela ponta. Mas faltava uma real pressão do Nationalelf, enquanto os Three Lions cadenciavam a bola quando a retomavam, exibindo extrema calma.

Mesmo sem estar tão bem, Beckenbauer teve total mérito por recolocar a Alemanha Ocidental no jogo aos 23 minutos. A jogada do primeiro gol possui assinatura solitária do meio-campista. Em lance pela direita, o Kaiser deixou Mullery falando sozinho com seu drible e bateu da entrada da área, num chute cruzado sem tanta força. Também deu um bocado de sorte, em bola que quicou bem na frente de Bonetti e passou por baixo da mão do goleiro, que caiu atrasado. Um detalhe do lance é que Francis Lee estava caído, após tomar uma bolada, e ninguém fez questão de tirar a parar a ação.

Alf Ramsey colocou de imediato Colin Bell, dando gás no lugar de Bobby Charlton. O meio-campista forçou uma boa defesa de Maier logo em seus primeiros minutos e era agressivo, por mais que não tivesse o controle da faixa central como o veterano. A Inglaterra despertou depois do tento sofrido e seguiu em busca do terceiro. Hurst quase virou carrasco de novo, ao desviar um cruzamento de Bell no meio da área, em cabeçada que lambeu a trave do batido Maier. Mas não que fosse um monólogo. Do outro lado, a Alemanha Ocidental ganhava cancha e encontrava novas brechas na marcação. Muito bem perseguido até ali, Gerd Müller teve uma rara oportunidade de finalizar sem empecilhos. Mandou em cima de Bonetti, que também se saiu muito bem para realizar a defesa sem conceder o rebote. Para se fechar, Alf Ramsey tirou Martin Peters e colocou o zagueiro Norman Hunter.

O empate da Alemanha Ocidental, mesmo assim, não tardaria. Ele veio depois de uma breve pressão do Nationalelf, em lance no qual a zaga afastou mal. Schnellinger, muitas vezes se soltando em seu papel de líbero, fez o cruzamento no capricho. Seeler, comprometido em um trabalho de mais suor e entrega até então, foi muito inteligente ao se desvencilhar da marcação de Mullery e ainda mais espetacular em sua cabeçada. O veterano se contorceu para direcionar a bola e mandar por cobertura, deixando Bonetti totalmente vendido no lance. Houve uma reclamação de impedimento, mas nada acabou apitado. O relógio apontava os 37 minutos do segundo tempo e a história do confronto começava a mudar.

A Inglaterra sentiu o gol. Já não atuava mais com aquela altivez. Beckenbauer quase virou o placar na sequência, numa tabela em que desmontou a defesa inglesa, chutando ao lado da trave. Além disso, Maier transmitia uma boa dose de tranquilidade à Alemanha Ocidental. O goleiro pode ter chegado tarde no lance em que Hurst quase fez de cabeça, mas era soberano dentro de sua área. Saía muito alto em todas as bolas cruzadas e pegava firme os arremates contra sua meta. Acelerando, Cooper bateu forte de longe e parou no goleiro. Já no último lance de perigo antes da prorrogação, os alemães se safaram em cruzamento fechado na pequena área.

A Inglaterra até começou o tempo extra mais ativa. Mas, como em outras ocasiões naquela Copa, parecia sempre um pouquinho atrasada para executar as finalizações de forma limpa, errando nos detalhes. Um exemplo foi a cabeçada de Hurst, que saiu ao lado da meta e nem amedrontou tanto Maier. Já a Alemanha Ocidental demonstrava que seus craques poderiam resolver a qualquer instante, mais contundente em suas ações. Beckenbauer poderia ter garantido a virada, não fosse uma ótima defesa de Bonetti, que voou para buscar o petardo no alto e desviar para escanteio.

O gol da classificação se deu logo no início do segundo tempo da prorrogação. Grabowski chamava a responsabilidade para si e bagunçou a marcação na direita, antes de cruzar com força em direção ao segundo pau. Hannes Löhr ajeitou de cabeça e Gerd Müller provou por que era o artilheiro do torneio. O centroavante se desvencilhou de Brian Labonne, que prestou atenção apenas na bola e se descuidou do craque. Totalmente livre, Der Bomber não teve trabalho para fuzilar dentro da pequena área.

Os últimos 12 minutos do clássico seriam repletos de tensão. A Inglaterra tinha pressa, enquanto a Alemanha Ocidental se entrincheirava ao redor de sua área. Francis Lee viu um gol anulado por impedimento. As chances se sucediam, mas os ingleses pecavam na precisão. Mullery assustou de longe, antes de Alan Ball pegar mal um passe dentro da área. Houve também uma queixa de pênalti em Bell que não foi aceita pelo árbitro. Maier, mesmo mancando, se punha como herói ao comandar sua área. Quando tinha a chance de escapar, a Mannschaft gastava o tempo, sobretudo nas reposições. Até surgiam alguns espaços, mas nada para os alemães apostarem com tanto afinco. Mais seguro era se garantir atrás e aguardar o triunfo, que se confirmou depois de uma última intervenção decisiva de Maier, desviando um chute de longe de Newton. A revanche de 1966 se consumava.

Toluca: Itália 4×1 México

Capitão do México, Gustavo Peña garantiu antes da partida que sua equipe atuaria sem o peso da obrigação após conquistar a classificação às quartas de final. Isso se notou em Toluca. Apesar do placar final dilatado, El Tri não jogou para uma diferença tão grande no marcador e até mereceu mais o resultado durante o primeiro tempo. No entanto, a Itália contou com defesas providenciais do goleiro Enrico Albertosi e até mesmo certa dose de sorte. Além disso, cresceu de produção com a participação de Gianni Rivera no segundo tempo. O craque do Milan entrou ainda no intervalo e, ao lado de Gigi Riva, seria decisivo à goleada por 4 a 1 – quando finalmente o ataque da Azzurra desencantou.

O ataque do México começou a partida bem mais ativo. O lado direito era bastante explorado pelos anfitriões, por mais que seus jogadores batessem de frente com Giacinto Facchetti por ali. E o merecido primeiro gol não demorou a acontecer. O lance nasceu aos 13 minutos, a partir de um bom giro de Javier Fragoso pelo meio. O atacante aproveitou o escorregão do marcador para abrir um clarão no meio e infiltrou o passe a José Luis González. O camisa 17 chutou de primeira, sem chances a Albertosi. E o goleiro salvaria o segundo logo depois, buscando no cantinho um tiro de longe de Javier Valdívia, importante peça nas investidas mexicanas.

A Itália começou a ligar seus motores aos poucos. Os avanços sempre contavam com o carimbo de Sandro Mazzola pelo meio e também se aproveitavam bastante das subidas de Facchetti pela esquerda. Mesmo assim, o México não diminuiu o ritmo. El Tri permaneceu em cima, buscando os espaços e até forçando alguns erros da marcação italiana. Héctor Pulido era essencial ao conduzir o time. Aos 25 minutos, um lance de sorte permitiu o empate da Itália. Angelo Domenghini cruzou da direita e a bola desviou nas pernas do zagueiro Javier Guzmán, que vinha brilhando até então. O goleiro Ignacio Calderón foi pego no contrapé e não conseguiu evitar o tento.

A Itália tinha uma postura cautelosa, em que esperava o México, mais agressivo ao longo do primeiro tempo – e empurrado pela torcida no caldeirão formado em Toluca. A Azzurra começou a exibir mais velocidade apenas nos dez minutos anteriores ao intervalo. Albertosi seguia ameaçado, mas a virada já poderia ter ocorrido neste momento. Facchetti esteve a ponto de marcar, em investida salva pelo goleiro Calderón. Já na volta para o segundo tempo, a Azzurra mudaria, com a entrada de Rivera. Por mais que Mazzola fosse um dos mais participativos em campo, Ferruccio Valcareggi insistia que os dois maestros eram incompatíveis no mesmo time.

Desta vez, Rivera entrou melhor e deu mais verticalidade ao time. A Itália criou algumas chances nos primeiros minutos da etapa complementar. Calderón e a zaga conseguiram brecar os oponentes. Logo o México também respondeu, com muitos chutes de média distância, se aproveitando da altitude. Faltava pontaria. Neste momento de certo equilíbrio, a calma da Azzurra preponderou na hora de virar. Aos 18 minutos, Gigi Riva girou diante da área e achou um cantinho para arriscar o chute. A bola rasteira passou por entre as pernas da marcação e saiu do alcance do goleiro Calderón.

O empate do México quase veio de imediato, e por duas vezes. Primeiro, Roberto Rosato tirou em cima da linha uma cabeçada de Pulido, após escanteio. Depois, Albertosi voltaria a aparecer em tirambaço de Valdívia, do meio da rua, fazendo milagre para desviar à linha de fundo. Mas a Itália estava resoluta e encontraria o terceiro gol aos 25, num bombardeio dentro da área. Rivera chegou a ter um tiro cortado na pequena área e, em meio às rebatidas, pegou uma das sobras para fintar a marcação, antes de arrematar no canto. Pois o craque também teria participação decisiva no quarto tento, aos 31.

Iniciando um contra-ataque, Rivera passou por dois e arrancou. Então, descolou uma enfiada de bola sensacional para Riva, que passou aos trancos e barrancos pelo goleiro, antes de bater à meta aberta. Na reta final, a partida em Toluca ficou um pouco mais arrastada, com os dois times dando sinais de cansaço. Apesar disso, não desistiam. O México tentou criar um placar mais justo e manteve a seriedade, mas Albertosi seguiu impecável. Já o quinto da Itália pareceu até mais provável. Sergio Gori parou em Calderón tão logo saiu do banco, enquanto Rivera ainda acertou o travessão. Se a diferença entre as equipes não foi tamanha, a Azzurra exibia um futebol enfim convincente.

Cidade do México: Uruguai 1×0 União Soviética

União Soviética e Uruguai não tinham agradado muita gente na fase de grupos. Os soviéticos tiveram uma boa atuação na goleada sobre a Bélgica, mas não empolgaram nem mesmo contra El Salvador, o adversário mais fraco do Mundial. Da mesma forma, o Uruguai não se impôs como o esperado contra o azarão Israel e avançaria com derrota diante da Suécia. Por mais que as duas equipes prometessem mais seriedade nas quartas de final, não foi o que se viu no Estádio Azteca. O duelo entre duas seleções medrosas ficou a três minutos de ser definido no sorteio, na última Copa que não previa pênaltis após empate na prorrogação. Ao menos, a Celeste justificou sua passagem em campo e achou o triunfo por 1 a 0 no apagar das luzes.

Desde o primeiro tempo, o que se viu foi uma partida de doer os olhos. Nenhum dos lados atacava em grande número para não desguarnecer a retaguarda. Os soviéticos até largaram melhor e poderiam ter marcado com Vitaliy Khmelnytskyi, desarmado dentro da área. Mas faltava qualquer tipo de acerto na construção das jogadas. Retraído e abusando das pancadas, o Uruguai era tímido em suas investidas, neutralizadas de maneira simples pelos soviéticos. Era preciso encadear melhor os passes, sem opções às tabelas. O jogo se travava sobretudo no meio-campo, com muitas faltas nessa zona. Os times pareciam fazer de tudo para gastar o tempo e não jogar. O lance de maior perigo na primeira etapa veio aos 35 minutos, num chute de Vladimir Muntyan, que o goleiro Ladislao Mazurkiewicz espalmou no susto.

Na volta ao segundo tempo, não se viu uma mudança de ritmo no Azteca, mas pelo menos o Uruguai saiu mais ao ataque. A Celeste teve um tiro perigoso em cobrança de falta dentro da área e insistia nos cruzamentos, até quase marcar aos 22. Juan Mujica inverteu a Ildo Maneiro, que dominou com estilo e emendou o chute com o peito de pé. O goleiro Kavazashvili se esticou todo para salvar. Os soviéticos apostavam mais nos contragolpes, sem sucesso. Melhoraram um pouco no fim da etapa complementar, mas nada que assustasse tanto Mazurkiewicz. O destino inescapável do jogo era a prorrogação.

A cautela não mudou muito no primeiro tempo extra, com raros espaços. O Uruguai teve o melhor lance em cabeçada do substituto Alberto Gómez, mas Kavazashvili fez uma defesa protocolar em cima da linha. Somente nos 15 minutos finais é que as equipes decidiram se expor. Víctor Espárrago ameaçou primeiro numa batida cruzada. Depois, Anatoliy Byshovets teve um gol anulado por impedimento mínimo, ao receber um lindo passe por elevação. Já aos 12 minutos, veio o lance do tento decisivo.

Nem parecia uma bola tão perigosa assim do Uruguai e Valentin Afonin protegia o tiro de meta. Luis Cubilla chegou por trás, fazendo de tudo para evitar que a bola saísse pela linha de fundo. Então, o veterano bateu a carteira do defensor e cruzou. Adiantando-se para reclamar, o goleiro Kavazashvili estava mal posicionado e deixou a pequena área aberta. Ficou fácil para Espárrago concluir de cabeça. Apesar da reclamação de que a bola havia saído pela linha de fundo, o vídeo da jogada não permite grandes conclusões. No final, os soviéticos precisavam de um gol a todo custo para forçar o sorteio. Até tentaram, mas não havia tempo hábil e se limitaram a uma ou outra bola desesperada.

A análise de Zagallo sobre o Brasil x Peru

“A partida foi fácil quando o time jogou com seriedade e complicou-se quando ele facilitou, depois da vantagem por 2 a 0, como ocorreu contra a Romênia, desobedecendo inclusive as ordens de antes do jogo. Em Copa do Mundo e, especialmente, em quartas de final, um gol sempre complica a situação favorável que a gente conserva. Por isso, chamei a atenção do time para a cobertura dos companheiros durante o intervalo. O meio-campo e o ataque se esqueceram de voltar para auxiliar a defesa. Isso acabou complicando as coisas na zaga, que não esteve segura em consequência de se ver obrigada a dar o combate direto aos adversários. Isso não ocorreu contra a Inglaterra, quando até Pelé voltou para cobrir os zagueiros. Felizmente, o ataque marcou quatro gols e tranquilizou todo o time. A defesa não foi a mesma de outros jogos, mas creio e tenho fé absoluta que chegaremos à final”, declarou, ao Jornal dos Sports.

O comentário de Didi

“Não quero desmerecer estes jogadores, mas o próprio Zagallo sabe que eles não estão firmes, tanto que obriga o Gérson a jogar recuado, fechando a frente da área. A verdade, porém, é que o meio-campo excelente e o ataque, onde todos estão jogando uma enormidade, suprimem as falhas. Tanto que nós fizemos dois gols e eles nos meteram quatro. Gostei muito de Jairzinho, Tostão, Rivellino, Paulo Cézar e de ver o empenho com que o Pelé está disputando esta Copa. Para mim, ele não tem mais aquela explosão magnífica dos tempos em que ganhamos o bicampeonato, mas está jogando um futebol muito mais técnico e eficiente, jogando muito mais para o time. O seu recuo para o meio de campo depois que o Gérson saiu foi providencial e anulou nossas tentativas de reação”, pontuou o treinador dos peruanos, ao Jornal do Brasil.

A alegria de Tostão

“Apareci mais na partida porque mudei também meu modo de jogar, recuando mais para armar as jogadas, e mesmo assim tive boas oportunidades de marcar gols. Felizmente marquei dois e estou satisfeito por contribuir para avançarmos às semifinais. Teremos trabalho para chegar ao título, mas é preciso que todos se compenetrem na responsabilidade e não facilitem as ações dos adversários, especialmente quando nós tivermos vantagem no placar”, declarou o atacante, ao Jornal dos Sports.

Pelé tirou Gérson do jogo

A substituição de Gérson aconteceu por responsabilidade de Pelé. O Rei viu o Canhotinha de Ouro gesticulando e achou que outra vez ele sentira o músculo. Avisou o banco de reservas e Zagallo preparou a troca. O maestro, contudo, estava ótimo. “Eu estava era pedindo gelo para matar a sede danada que sentia e nem pensava no meu músculo. Queria continuar jogando até o fim e só aceitei minha saída por precaução e porque o Paulinho já estava aquecido”, explicou Gérson, ao Jornal dos Sports.

As notas do Jornal dos Sports

Nélson Rodrigues, em sua coluna n’O Globo

“Tostão foi uma enorme figura. Marcou dois gols e foi um criador de jogadas maravilhosas. Já a sua atuação no gol contra a Inglaterra foi um lance de gênio. Mas o que eu queria chamar a atenção de vocês é para o abnegado e formidável esforço de Tostão. Saído de uma crise vital, aceita todos os riscos de servir ao time. De 15 em 15 minutos, seu futebol cresce. Está entre os cinco ou seis maiores jogadores do mundo em todos os tempos. Como influiu para a nossa vitória sobre o Peru. Fez uma série de coisas perfeitas e irreparáveis. Já na semifinal, espero que ele apareça em estado de graça”.

Vavá, em sua coluna no Jornal dos Sports

“Tenho que exaltar mais uma vez o trabalho espetacular de Tostão, desta vez até mesmo como artilheiro, pois ele continua sendo o principal jogador do time. Responsável por todas as manobras perigosas do ataque brasileiro, Tostão está sempre a oferecer excelentes jogadas tanto para Pelé, como para Jairzinho, tabelando com precisão. Sem falar nas opções que oferece ao meio de campo, quando Gérson, Clodoaldo ou Rivellino se sentem apertados. Tostão se desloca com facilidade, criando espaços para os lançamentos, prende a bola com maestria para forçar a abertura do bloqueio adversário e ainda sabe se mostrar bem para receber, cobrindo também todas as sobras”.

Zizinho, em sua coluna no Jornal dos Sports

“Eu assisti ao jogo bem atrás de Didi, que fumava um cigarro atrás do outro, como a procurar controlar o desespero que não era só seu, mas de todos os seus comandados. Tostão entrou pela linha de fundo, queimando o goleiro com perfeição para aumentar e Didi mais uma vez pisou o cigarro com raiva. […] Didi estava a 20 metros na minha frente, fumando como um condenado à espera da execução e usando um casaco grosso de lã, em um dia quentíssimo, o que não deu para entender. Saí do estádio alegre com a vitória brasileira, mas preocupado com a saúde do meu amigo Didi, pois acho que ele não anda nada bem”.

Fifa descarta suborno e encerra caso

A Fifa dava por encerrado o caso envolvendo o árbitro brasileiro Aírton Vieira de Morais, acusado de suborno antes do Suécia 1×0 Uruguai. Os rumores surgiram a partir de jornalistas suecos e, por conta disso, Vieira de Morais sequer apitou o duelo. Em nota oficial assinada pelo presidente Stanley Rous, a entidade concluiu que em nenhum momento o juiz recebeu propostas de alguém da delegação uruguaia. Ainda assim, a organização defendia sua alteração repentina na arbitragem, tomando uma decisão de emergência antes de apurar as denúncias. A Fifa também acusava o Uruguai de “exagerar as proporções do caso” ao protestar contra a mudança na arbitragem.

As charges de Henfil no Jornal dos Sports