Na véspera do Brasil x Uruguai de 1970, o Maracanazo era revivido à flor da pele pela imprensa. Diversos personagens da partida decisiva de 1950 falavam sobre suas lembranças e sobre o que representaria uma vitória brasileira no México. Além disso, Itália e Alemanha Ocidental se preparavam ao ‘Jogo do Século’. Confira mais um episódio do nosso diário especial sobre a Copa do Mundo de 1970:

A expectativa de Barbosa

O Jornal dos Sports realizou uma série de entrevistas com os jogadores da Copa de 1950 sobre o Brasil x Uruguai de 1970. Barbosa indicava segurança na classificação: “O Brasil deve vencer bem o Uruguai. Nossa seleção atingiu quase a perfeição e pode mesmo arrasar nosso adversário. A defesa vem se firmando a cada jogo, o meio-campo é um dos melhores do mundo e o ataque dá show em cima de show toda vez que joga. Quero ver a seleção uruguaia parar nosso time. Eu só lamento não poder estar no campo para gozar de perto nosso sucesso. O Brasil está com toda a pinta de campeão e o que é mais importante: ninguém está com confiança exagerada. Isso é muito bom”.

Bigode esperava a revanche

Uma das maiores vítimas das críticas no Maracanazo, Bigode falava sobre a oportunidade de dar a volta por cima contra a Celeste, embora pregasse cuidado: “Os uruguaios enganam muito. Em 50 eles tinham um time aparentemente fraco. Nós vínhamos de goleadas como de 7 a 1 contra a Suécia e 6 a 1 na Espanha, todos já consideravam a vitória como certa. Mas o time do Uruguai nos venceu e nossa seleção foi considerada como sem garra. Agora é o momento da forra. Esperamos muito, mas a oportunidade chegou”.

Danilo esperava a “ressurreição na alegria do povo”

Grande talento no meio-campo do Brasil de 1950, Danilo não escondia o ressentimento pelo passado: “Esta rapaziada vai lavar a nossa alma. Em 50 perdemos um título mundial aqui no Maracanã, num jogo que até hoje está atravessado na nossa garganta. Seremos vingados por esses garotos. A seleção de Pelé, Jair, Gérson, Rivellino e Tostão vai ser a vingadora. Os uruguaios sentirão na carne a forra, que desta vez será para valer. Sentirão o mesmo que nós sentimos. Pena que o jogo não seja em Montevidéu. A derrota naquele dia foi para nós como se tivéssemos perdido um parente. Hoje, estou certo que este parente vai ressuscitar na alegria do povo. O pior foi depois da Copa. Quase parei de jogar. Entrava em campo e era acusado de ter me vendido aos uruguaios. Foi triste”.

“A grande diferença entre a seleção de 1950 e esta de agora é a preparação. Em 50, nós achávamos que venceríamos só no futebol, esquecendo o trabalho de base. Pensava-se que era só colocar o time em campo e ganhar o jogo. A coisa, porém, é diferente. Para uma seleção ser campeã do mundo, é necessária uma infraestrutura que na época não tínhamos, como o trabalho psicológico com os jogadores. Entramos naquele jogo sem acreditar no adversário e acabamos perdendo. Era a falta do preparo psicológico. Hoje isto não acontece. Todos estão cientes da responsabilidade na Seleção”, finalizava.

O racha do elenco em 1950

Reserva de Bauer, Eli ainda revelava um problema com Ademir, o artilheiro da Seleção: “O ciúme entre os jogadores por causa dos presentes criou um clima de desconfiança que nos custou caro. Alguns dias antes do jogo com o Uruguai, os jogadores se reuniram e combinaram que todos os presentes recebidos por qualquer um seriam colocados num canto e, depois da Copa, distribuídos entre todos. Acontece que um, Ademir, saiu fora do acordo e chegou a mandar que os seus prêmios fossem entregues em sua residência. Quando os outros souberam, resolveram gelá-lo. E o resultado foi que, durante a decisão com o Uruguai, não lhe deram bola no primeiro tempo. Ele não jogou nada. No intervalo, houve nova reunião e todos resolveram voltar atrás, mas já era tarde: os uruguaios estavam com o jogo nas mãos”.

Com a palavra, Ghiggia

Curiosamente, Alcides Ghiggia estava no Brasil durante a véspera da semifinal contra o Uruguai. Comemorava-se o aniversário de 20 anos da inauguração do Maracanã e o carrasco de 1950 foi homenageado no estádio – encontrando-se com Barbosa. Ao Jornal do Brasil, apostava nos brasileiros em 1970: “O ataque brasileiro é muito bom. O Uruguai não joga para vencer, mas sim para não levar gols. Dessa maneira, nenhuma equipe de futebol, principalmente uma seleção, poderá pensar em levantar um campeonato. Nosso ataque é tão fraco que chega a ser ridículo. No Uruguai, muita gente acredita que os jogadores ao vestirem a Celeste se superam e viram leões em campo. Não tenho a mesma opinião. O que realmente ocorre é que há jogadores que se apresentam melhor quando a torcida está do outro lado. Jogam como se estivessem com raiva. É por isso que os uruguaios acreditam na Celeste”.

A lembrança inescapável de Zizinho

Zizinho, o craque de 1950, era colunista do Jornal dos Sports em 1970. Antes da semifinal, escreveu um grande texto na última página do periódico para resgatar suas memórias e falar sobre o Maracanazo: “São passados 20 anos da última partida Brasil x Uruguai em uma Copa do Mundo, muito embora as duas seleções tenham se defrontado em outras competições várias vezes. Eu ainda me lembro muito bem do jogo de que participei em 1950, quando perdemos em tarde dramática a final da Copa, que na oportunidade voltava a ser disputada após a interrupção ditada pela Grande Guerra”.

“De lá para cá, o Brasil ganhou duas Copas e perdeu outras duas, mas a derrota de 50 ficou gravada na mente do povo brasileiro e muito mais marcada ficou no coração daqueles que participaram da desastrosa final. Sei que, se eu viver 100 anos, jamais conseguirei esquecer aquele desastre, mas se pudesse conseguir isso seria por alguns momentos apenas, pois sempre aparece alguém para indagar, apesar dos 20 anos passados, como perdemos o jogo. Assim, creio, será por toda a vida dos que jogaram naquela tarde. Cheguei à conclusão, para mim muito triste, que esta derrota do Brasil será contada de geração a geração, por maior que sejam as glórias do nosso futebol”, complementava.

Gérson, aconselhado por Zizinho

Antes do Brasil x Uruguai, Gérson conversou bastante com Zizinho. Contava o Jornal dos Sports: “Nas horas difíceis que antecedem o jogo com os uruguaios, quem mais procurou amparo na experiência do Mestre Ziza foi Gérson. Zizinho, grande amigo de Clóvis Nunes, o pai do jogador, conheceu Gérson ainda menino e tem acompanhado, através dos anos, a carreira do craque. Ambos moram em Niterói. Sempre que podem, batem papos sobre futebol. Explica-se, portanto, a insistência com que Gérson busca os conselhos de Zizinho, que a todo momento é chamado à concentração do Brasil. Depois do jogo contra o Peru, o secretário da comissão técnica foi duas vezes ao hotel de Zizinho, a pedido de Gérson, que desejava ouvir uma palavra de Mestre Ziza sobre o jogo de hoje”.

A vontade de Gérson

Embora recuperado da lesão muscular que sofreu na estreia, Gérson seguia acompanhado de perto pelo médico Lídio Toledo. Porém, mesmo com pequenas dores na coxa, o Canhotinha se recusava a colocar toalhas quentes no local e jogaria contra o Uruguai a todo custo: “Não saio dessa. Já não tenho escolha: ou dá para mim ou arrebento. Se arrebentar, que se dane, depois eu curo. Não há mais tempo para pensar em consequências. Se eu não entrar contra o Uruguai, estou fora do resto da Copa. E nesta situação eu não fico. Vou jogar”.

A volta de Everaldo

A novidade do Brasil para o duelo contra o Uruguai estava no retorno de Everaldo, recuperado de uma lesão no tornozelo. E era interessante notar como não havia vaidade na disputa pela posição com Marco Antônio. Em entrevista ao Jornal do Brasil, o substituto comentou sua relação com o titular: “Não poderia ficar zangado em ir para a reserva, porque sou muito amigo de Everaldo e ele tem me incentivado quando estou jogando. Sou honesto em afirmar que ele joga melhor plantado na defesa do que eu. Contra o Peru, não foi nem preciso Zagallo falar para eu me segurar. Senti a necessidade de ficar mais lá atrás, porque reparava em Everaldo quando ele estava no time, que sua preocupação defensiva era grande e sua contribuição para o time era maior. O problema é que de vez em quando eu me esquecia e ia à frente”.

O incentivo de Garrincha

Garrincha mandou um telegrama para a concentração da seleção brasileira. A mensagem, endereçada ao técnico Zagallo, era bem direta: “Confiante no tri. Pau neles. Felicitações aos colegas e abraços”. O telegrama foi colocado no quadro de avisos do hotel. Segundo o Jornal dos Sports, Mané estava em Roma com a cantora Elza Soares, sua esposa.

Brito e as provocações uruguaias

“Precisamos estar de cabeça fria. Nada de entrar no jogo deles. O Brasil tem mais time e não pode se apavorar com um pontapé desleal ou com aqueles tombos que os uruguaios costumam dar na gente sem motivo. Não temos que nos impressionar com essa agitação sobre a mudança do local. Para o Brasil, tanto fazia jogar com os uruguaios ou com os soviéticos. Se vai ser contra os uruguaios, muito menos importa onde. Quem tem time não precisa ter medo”, declarou o zagueiro, ao Jornal dos Sports.

O xadrez de Zagallo

Para pensar em sua estratégia ao jogo contra o Uruguai, Zagallo recebeu informações valiosas de Aymoré e Zezé Moreira, seus antecessores no comando da Seleção. Comandante de Zagallo no título de 1962, Aymoré assistiu ao jogo da Celeste contra a União Soviética. Já Zezé havia trabalhado com parte dos atletas uruguaios, enquanto dirigia o Nacional. Ao Jornal dos Sports, Zagallo falou sobre a preparação: “Conheço os uruguaios, sei do que são capazes e, por mais que isso desagrade à torcida, temos que jogar como se estivéssemos disputando uma partida de xadrez, com muito cálculo e paciência”.

Zagallo sem contrato

Quando assumiu a seleção brasileira em março de 1970, Zagallo ainda tinha contrato com o Botafogo. O vínculo com o clube se encerrou no meio da Copa e não foi renovado. Assim, após o Mundial, o treinador não teria emprego garantido – já que também não havia acertado sua permanência na Seleção, o que ocorreria após o tri. “Ainda não sei o que farei. Tenho ofertas de vários clubes, porém tudo depende da questão econômica. Quando se é profissional, o dinheiro importa muito”, declarou o comandante, à Folha.

O foco do Brasil

“O que temos observado com muita alegria na atual seleção é exatamente a tranquilidade dos jogadores, veteranos como Félix, Pelé e Brito ou mesmo entre os mais novos, como Clodoaldo, Marco Antônio e Paulo Cézar. As vitórias não têm causado a vibração que se poderia esperar deles e, excetuando a do jogo contra a Inglaterra, as demais foram recebidas com certa frieza, como se até houvessem perdido. Eles preferem pensar sempre no compromisso seguinte, compenetrados de que para ganhar a Copa é preciso passar bem por seis adversários. Nem mesmo quando se diz que o presidente da república telefonou para cumprimentar os jogadores chegam a demonstrar emoção maior. Isso prova a tranquilidade da equipe e, ao mesmo tempo, nos faz antever que esses mesmos jogadores serão capazes de uma explosão se ganharem a finalíssima”, disse Claudio Coutinho, supervisor da Seleção, a’O Globo.

A volta de Pedro Rocha?

Pedro Rocha machucou o joelho durante a preparação do Uruguai à Copa do Mundo e não estava 100% quando entrou como titular na estreia contra Israel. Resultado: sofreu outra contusão, agora na virilha, e as estimativas dos médicos eram de que não voltaria mais a tempo de disputar nem a final. Às vésperas da semifinal, contudo, o retorno do craque celeste surgiu como possibilidade. O camisa 10 começou a treinar e o técnico Juan Hohberg afirmava que “apesar da deficiência, ele pode ser útil, vou pensar bastante durante esta noite”.

Ao Jornal do Brasil, Pedro Rocha falou sobre o assunto: “Pode ser que eu não aguente o jogo todo, porque em Guadalajara faz muito calor e isso pode influenciar meu rendimento. Se eu jogar plantado na frente dos zagueiros, pode ser que dê para aguentar toda a partida e possa de vez em quando ir à frente tentando infiltrações entre os zagueiros do Brasil – que considero vulneráveis, mas não fracos. Mas isso tudo são hipóteses, porque sei perfeitamente que jogo se ganha no campo e é lá que vamos decidir”.

Hohberg daria o máximo pela final

“Nosso objetivo ao sair de Montevidéu era chegar à final da Copa. E nós vamos alcançar nossa meta, custe o que custar. Não gostamos de ficar no meio do caminho. Não importa o que falem do Brasil: a mim, aos jogadores e ao povo uruguaio, interessa que o Uruguai esteja na decisão da Copa do Mundo no domingo. Também não importa o adversário. Não podemos comparar esse jogo com a decisão de 1950 e nem pensamos em agredir nossos adversários. Copa do Mundo vale a arte, o preparo e a valentia”, disse, ao Jornal dos Sports.

Matosas não tinha medo

Xerife da zaga uruguaia, Roberto Matosas falava sobre o espírito uruguaio à semifinal. Ao Jornal dos Sports: “Não será fácil para os brasileiros chegarem até a nossa área. Cada pedaço do nosso campo será defendido com suor e sangue, se for necessário. Viemos aqui para ganhar e vamos ganhar, custe o que custar. Somos mais valentes do que os brasileiros. Os gritos dos mexicanos pelos brasileiros não nos abalarão. Nosso povo está acostumado. Foi assim em 50, no Maracanã. Todo o estádio torcia contra nós e acabamos honrando a tradição de nossa camisa, de nossa raça, de nossa valentia. Derrubamos o gigante brasileiro dentro de sua própria casa. Agora é diferente. Estamos em campo neutro e, apesar da simpatia dos mexicanos pelo Brasil, aposto o quanto quiserem que o Brasil voltará para casa mais cedo do que espera”.

A resposta da Fifa ao Uruguai

Diante das queixas da federação uruguaia sobre a mudança do local de jogo contra o Brasil, originalmente previsto ao Estádio Azteca e depois realocado ao Estádio Jalisco, a Fifa mandou uma carta justificando sua posição. O Jornal dos Sports reproduzia o conteúdo:

O estilo do Capita

Em sua coluna no Jornal dos Sports, Fernando Horácio relembrou o mito criado ao redor de Obdulio Varela como capitão do Uruguai em 1950. E detalhava a liderança de Carlos Alberto: “Para Zagallo, a função de capitão do time não é dada a um jogador apenas para ele trocar flâmulas. O capitão também não é, nem deve ser, o melhor homem da equipe. Ele deve exercer uma liderança dentro do grupo, sabendo que essa liderança e a função que dela advém não lhe dão direito a abusos. ‘Carlos Alberto é um excelente observador, durante os jogos ele repara muito na equipe adversária, na forma de jogar de determinados elementos. Com isso, adverte os companheiros dentro de campo, o que é muito bom’, diz Zagallo. Admildo Chirol revela que Carlos Alberto sente os adversários como nenhum outro. Sabe os jogadores que se cansam mais rapidamente, repara nas qualidades e nas deficiências, orienta seus colegas com segurança”.

Vavá, em sua coluna no Jornal dos Sports

“Sob o ponto de vista técnico, físico e moral, acho que o Brasil tem 80% de possibilidades de vencer. Não devemos nos deixar envolver por coisas do passado, nem criar um clima de vingança ou de forra. Isso não nos interessa. Temos, hoje, um time superior ao deles, melhor preparado e que vem de uma vitória relativamente cômoda sobre o Peru, enquanto os uruguaios tiveram de disputar uma prorrogação de mais meia hora contra os soviéticos. Se entrarmos em campo com atenção e cuidado, sem nos deixar envolver por fatos passados ou nos perturbar por um espírito de vingança, temos tudo para vencer. Vamos jogar sério, como fizemos contra os tchecos e contra os ingleses, que tudo vai dar certo. Time por time, mesmo com os problemas que temos na defesa, sou muito mais o Brasil”.

Nelson Rodrigues, em sua coluna n’O Globo

“Eu não faço prognósticos em dia ou véspera de jogos. Claro que tenho o meu palpite para Brasil e Uruguai. Mas está guardado. Seja como for, uma coisa quero repetir: no meu entender, nunca o futebol brasileiro jogou tão bem, com tanto virtuosismo e tanta beleza. O ataque brasileiro não tem igual. E convém não esquecer um fato importantíssimo: Pelé, o maior jogador do mundo, está empenhado de corpo e alma na conquista da Copa. Jamais seu dinamismo foi tão impressionante: jamais deu tanto de sua alma e de seu gênio. Por outro lado, Tostão, outro gênio do futebol brasileiro, desafia todos os riscos e todos os sacrifícios. E assim Rivellino e assim Jairzinho. Todos se preparam para a guerra”.

Armando Nogueira, em sua coluna no Jornal do Brasil

“O jogo Brasil e Uruguai acabou caindo na clave da catimba que tanto convém aos nossos vizinhos: a decisão da Fifa, fixando em Guadalajara a semifinal dos dois, parece ter dado aos comandantes uruguaios o pretexto de ouro para incendiar seus jogadores, despertando-lhes um ânimo épico para enfrentar as adversidades. Os uruguaios adoram sentir-se vítimas e, por isso, estão há três dias aplicando na consciência de seu time um sentimento parecido com o do Mundial de 50, cuja decisão final ficou para eles como símbolo de seu heroísmo”.

Boataria sobre Schnellinger

Um boato no mínimo curioso surgiu na véspera do Itália x Alemanha Ocidental. Diziam que Karl-Heinz Schnellinger, líbero da Mannschaft, tinha o compromisso de não atuar contra os italianos por ser contratado do Milan. Obviamente, não existia qualquer fundamento no rumor, mas os dirigentes da federação alemã-ocidental precisaram desmentir a situação. “Uma vez convocado, Schnellinger é integrante da delegação como todos os outros jogadores e atuará contra a Itália. Nem o técnico Helmut Schön e nem o próprio jogador chegaram, em momento algum, sequer a cogitar esse assunto absurdo”, declarou o diretor de relações públicas da delegação alemã, ao jornal O Globo.

Helmut Schön e o desgaste da Alemanha

“Eu sabia que o jogo havia sido duro e que nós tínhamos dado muito na prorrogação. Agora estou muito preocupado em saber até que ponto o jogo contra a Inglaterra afeta a equipe fisicamente. Vejo que aqueles minutos a mais foram terríveis e poderão prejudicar-nos diante da Itália. O espírito de luta do time, demonstrado até agora, poderá superar qualquer inconveniente físico. Viemos aqui para ganhar a Copa e se necessário morreremos em campo em busca da vitória”, declarava o técnico alemão-ocidental, ao Jornal dos Sports.

Gerd Müller e o recorde

Com oito gols, Gerd Müller era o artilheiro da Copa. Superar os 13 tentos de Just Fontaine no Mundial de 1958, àquela altura, parecia um sonho distante. “Não conseguirei superar o recorde de Fontaine. O mais importante, no entanto, é que o time vença. Agora, se for com gols meus, melhor ainda. Só mesmo na fase de grupos há jogos fáceis em uma Copa. Depois, tudo é dureza. Por isso, não creio muito que me tornarei o maior goleador de todas as Copas”, disse o centroavante, ao Jornal do Brasil.

Otimismo de Ferruccio Valcareggi

“É certo que cada adversário apresenta diferentes estilos de jogo e, para enfrentar a Alemanha, devemos preparar um plano de acordo com a maneira de jogar dos adversários. A estratégia empregada contra os mexicanos de revezamento entre Rivera e Mazzola deu resultado. Estou otimista. Os alemães são fregueses de caderno em nosso retrospecto, a torcida mexicana começa a nos apoiar e nosso desgaste físico é menor, depois da vitória nas quartas de final. Mas a grande equipe alemã pode superar os efeitos do cansaço e a força do choque não é tudo no futebol”, dizia o treinador italiano, ao Jornal dos Sports.

Enrico Albertosi exigia atenção

“Todo mundo fala em Müller, que precisamos tomar cuidado com ele. Entretanto, na minha opinião, não é só sobre Müller que temos que ficar atentos. Num quadro que possui Seeler, Libuda, Overath e o sensacional Beckenbauer, a atenção tem que ser em todo mundo. Tudo é questão de dia e pode ser nosso. Ninguém pode negar que o quadro alemão é superior ao nosso, mas nós possuímos um sistema defensivo que tem feito parar muita equipe boa. Podemos tanto nos segurar lá atrás, como irmos para frente. Acredito que individualmente poucas seleções podem superar o nosso grupo. Entretanto, uma equipe não pode ser apenas valor individual, tem que haver conjunto e, felizmente, isso nós temos também”, declarou o goleiro italiano, ao jornal O Globo.

Pierluigi Cera não indicava tanta empolgação

“O quadro alemão é melhor que o nosso e nossas possibilidades são de apenas 30%. Se há uma coisa em que acredito é no nosso sistema defensivo. Não será fácil nos marcar um gol. Entretanto, será uma luta de morte e não sei se poderemos resistir. Não quero que você vá com impressão de que estou sem esperança alguma. O problema é apenas uma questão de momento, nada mais que isso. Mas se a Alemanha nos der a oportunidade que deu à Inglaterra, não perderemos a chance. Do contrário, será muito difícil mesmo”, dizia Pierluigi Cera, referência na zaga da Itália, ao jornal O Globo.

Exemplo belga

A Bélgica deixou a Copa do Mundo cedo, ainda na fase de grupos. Mas os Diabos Vermelhos foram capazes de um grande gesto de solidariedade. Todos os jogadores autografaram as 20 bolas que usavam nos treinamentos e encaminharam à Cruz Vermelha de Puebla, onde estavam concentrados. As pelotas seriam leiloadas para conseguir recursos à organização.

Tecnologia na arbitragem

Quem pensa que as discussões sobre o recurso de vídeo na arbitragem são recentes está bastante enganado. O debate já existia na Copa de 1970, especialmente após o gol do Uruguai que eliminou a União Soviética. Havia a dúvida se a bola disputada por Luis Cubilla na linha de fundo, antes do cruzamento a Víctor Espárrago, havia saído ou não. Escrevia a Folha: “Os correspondentes da imprensa internacional opinam que o futebol está atrasado em relação a outros esportes, na definição de jogadas duvidosas, às vezes decisivas. Salientava-se a respeito que, em provas de atletismo, natação, ciclismo e nas corridas de cavalos, já não se confia no olho humano para decidir sobre a vitória, mas em máquinas eletrônicas que fotografam as chegadas e pronunciam uma sentença indiscutível”. Mas, no caso do tento uruguaio, mesmo a câmera do replay (que filmava por cima da linha) não garantia total conclusão sobre o lance.

Economia nos cartões

A Folha de S. Paulo analisava como os cartões ainda não haviam se tornado hábito aos árbitros. Nas 28 partidas até as quartas de final, apenas 32 amarelos foram distribuídos e ninguém tinha recebido o vermelho. Não queria dizer, porém, que o Mundial estivesse alheio às entradas mais duras. O próprio estilo de jogo era diferente, assim como os cartões eram uma novidade justamente daquela edição da Copa.

As invasões no Paraná

Escrevia o jornal O Globo: “A região fronteiriça do estado do Paraná tem sido invadida constantemente por paraguaios e argentinos nas últimas semanas. São torcedores dos dois países que acorrem às cidades paranaenses localizadas numa zona de alcance das emissoras de TV que transmitem os jogos da Copa do Mundo diretamente do México. A cidade de Cascavel, principalmente, tem sido invadida por milhares de torcedores paraguaios, argentinos e outros moradores da região de Foz do Iguaçu. Para facilitar os visitantes, a prefeitura desse município e as diretorias dos seus vários clubes recreativos fizeram instalar dezenas de aparelhos de TV em praças públicas ou nos salões de festas, através dos quais se organizam verdadeiros batalhões de torcedores, como se estivessem em estádio de futebol”.