Muito próximo da classificação às quartas de final, o Brasil se preparava ao último jogo da fase de grupos, contra a Romênia. Um empate bastava para confirmar a liderança do Grupo III. No entanto, Zagallo teria que se virar sem Gérson e (muito provavelmente) sem Rivellino. Confira mais um episódio de nosso diário sobre a Copa de 70:

Gérson poupado, Rivellino em dúvida

Gérson, recuperando-se de um estiramento na coxa, novamente veria a partida do Brasil do lado de fora. Enquanto isso, Rivellino também deveria ser poupado. O camisa 11 sofreu uma torção no tornozelo contra a Inglaterra e as dores melhoravam, mas a tendência era tirá-lo da equipe para evitar riscos. Ao Jornal dos Sports, o médico Lídio Toledo falou sobre a situação: “Se fôssemos disputar o jogo final da Copa, Gérson e Rivellino jogariam. Mas como ainda temos muito esforço pela frente, acho preferível não expor ninguém à hipótese de ter sua contusão agravada. Sei que precisamos vencer ou empatar amanhã, porém julgo necessário usar de cautela. Se Rivellino sentir qualquer coisa, por menor que seja, eu não o darei como apto. Se, ao contrário, estiver bem, ele entra contra a Romênia”.

Sem Gérson, Paulo Cézar Caju estava confirmado na equipe titular mais uma vez. Se Rivellino não jogasse, Zagallo deslocaria outra peça em sua formação. Não havia outro jogador na reserva cotado a desempenhar o papel de armador na faixa central. Assim, ou o treinador adiantaria Piazza à sua posição natural, colocando Fontana na zaga; ou recuaria Pelé a um posto diferente do habitual, com Roberto Miranda na linha de frente. No fim das contas, o Velho Lobo preferiu não improvisar o Rei num papel ao qual ele não estava acostumado e ficou com a primeira alternativa, posicionando o cruzeirense ao lado de Clodoaldo na cabeça de área.

Moore e Charlton visitam Pelé

Na véspera do Brasil x Romênia, a concentração da Seleção recebeu as visitas de Bobby Charlton e Bobby Moore. Os dois ídolos ingleses queriam bater um papo com Pelé. Lendário técnico do Manchester United, Matt Busby estava organizando uma exibição de troféus, medalhas e lembranças do futebol em Manchester, para arrecadar dinheiro à construção de campinhos a crianças carentes. Os dois jogadores, então, foram pedir para que o Rei cedesse alguns de seus pertences, como a bola do milésimo gol – que seriam devolvidos depois.

Carlos Alberto Parreira serviu de intérprete aos visitantes ilustres, em reunião que também contou com a participação dos demais jogadores brasileiros e de Zagallo. Pelé “prometeu mandar apanhar tudo o que colecionou até agora e em tantos anos de glória”, conforme O Globo. De presente, Charlton e Moore ainda ganharam uma caixa com 24 garrafas de guaraná. “Todos nós apreciamos bastante esta bebida típica brasileira e, quando chegarmos ao hotel, seremos assaltados pelo restante do time”, declararam os craques.

“Pelé foi muito gentil e disse que eu poderei ter não só a bola, como qualquer outro troféu que necessite. Vou fazer uma relação do que quero e um amigo de Pelé, que trabalha numa companhia de aviação, vai levar todo o material para mim em Manchester. Não poderia ter sido melhor. Disse também a Pelé que, se nossa exposição tiver êxito, poderíamos depois organizar outras, em outros lugares, indo de país em país. Creio que no Brasil, por exemplo, há muita necessidade de se fazer campos para a juventude e ele achou a ideia ótima. Fiquei com seu endereço e telefone, para depois combinarmos mais coisas a respeito”, completou Charlton.

Pelé e a chuteira sem listras

A história de Johan Cruyff usando camisas da seleção holandesa com duas listras na Copa de 1974, para não fazer propaganda à Adidas, é famosa. Pelé viveu algo parecido em 1970. A Seleção levou ao México dois tipos de chuteiras: algumas de fabricação nacional, com travas removíveis de plástico ou fibra, e outras de fabricação alemã, tanto da Puma quanto da Adidas, com travas de borracha fixas. Segundo o Jornal dos Sports, quase todos os jogadores do Brasil tinham contratos de publicidade com as duas marcas alemãs para usar os calçados. A exceção era Pelé, que exibiu chuteiras sem listras contra Tchecoslováquia e Inglaterra. Existia até mesmo um trato entre as companhias para não brigarem pelo Rei.

Pelé não terminaria a Copa do Mundo sem contrato, porém. Diante da Romênia, ele voltou a usar chuteiras sem qualquer detalhe, inteiramente pretas. Já nos três duelos dos mata-matas, as fotografias ressaltam a faixa branca transversal que servia de símbolo à Puma. A marca resolveu ignorar o pacto com a Adidas e, por intermédio do representante Hans Henningsen, jornalista que cobria o futebol brasileiro, fechou com o Rei por US$25 mil – mais US$100 mil nos quatro anos posteriores, além de 10% por cada par vendido com seu nome. Aquele modelo da chamada “Puma King” se tornaria icônico.

Roupeiro da Seleção, Nocaute Jack ainda revelava outros detalhes. Os defensores do Brasil preferiam usar as chuteiras nacionais, mais duras, porque “castigam mais os adversários”. Em contrapartida, também machucavam mais os pés. Na véspera dos jogos, Nocaute Jack costumava limar a cabeça dos pregos no solado das chuteiras nacionais, que serviam para prender as travas de fibra. Os árbitros também examinavam as chuteiras antes das partidas, para verificar se não ofereciam riscos aos oponentes.

Zagallo comenta suas táticas

“Tacham a nossa defesa de mais débil de todas e, entretanto, ela figura entre as menos vazadas. Jogamos extremamente na defensiva e também temos o ataque mais positivo. Por isso, podem criticar à vontade, porque conservarei sempre o meu ponto de vista: primeiro cuidaremos da defensiva para depois cavar os gols. No ataque, mudei meu pensamento de que necessitava de um homem de choque na frente, pelos próprios méritos de Tostão. Com seu toque de bola, inteligência, raça e entusiasmo, mostrou que o meu conceito estava errado. O tanque desejado – que tivesse pique e que se chocasse com os zagueiros adversários – surgiu personificado em Jairzinho”, disse, ao Jornal dos Sports.

Pelé detalha o lance do gol contra a Inglaterra

Ao Jornal dos Sports: “Se eu chutasse, quase certamente a bola bateria num inglês e voltaria para o meio do campo ou sairia para córner. Como vi o Jair bem colocado, percebi que ali estava o caminho da mina. Felizmente, deu tudo certo. O Jair acertou um petardo que vou te contar… Só por milagre o Banks pegaria aquela. Foi impressionante a frieza com que o Tostão, cercado por três, executou o passe para me encontrar em outro bolo de ingleses. Se acertarmos de novo, o Brasil se classificará tranquilamente”.

Tostão se reergue

Em setembro de 1969, Tostão precisou passar por uma delicada cirurgia no olho, após sofrer um descolamento de retina. O atacante ficou seis meses longe dos exercícios, enquanto se recuperava, impedido de fazer qualquer tipo de treinamento. Assim, sua corrida contra o tempo não era apenas para se integrar ao elenco, mas também para chegar à melhor forma física e técnica na Copa. A jogada no gol contra a Inglaterra, desta forma, tinha um gosto de redenção.

“Tostão continuou lutando e assim vem fazendo a cada jogo, pois, apesar da técnica que possui, agora vem usando mais a garra para chegar à sua verdadeira forma. Essa é a luta de Tostão durante a Copa do Mundo, uma luta que ele merece vencer pelo entusiasmo e pelo amor com que se empenha para voltar a ser o mesmo. Tostão, aquele artilheiro de pernas grossas, drible curto, chute certo”, escrevia Oldemário Touguinhó, no Jornal do Brasil.

Jairzinho e a comparação com Garrincha

“Não que eu fique triste com a comparação, pelo contrário. Mas igual a Garrincha nunca existiu jogador nenhum no mundo inteiro e não é justo agora fazermos comparações com ele, porque o Mané está num pedestal acima de qualquer outro”, disse, ao Jornal do Brasil, falando ainda sobre seu bom momento. “Quando começou a Copa, nosso time sentiu que seria impossível penetrar as defesas adversárias, ainda mais dos europeus, pelo meio e passou a abrir o jogo para as extremas. Todos estão com mais confiança em mim. Temos uma preocupação defensiva devido à qualidade dos adversários e eu tenho mais campo para penetrar quando sou lançado. Nos jogos-treino, nossa seleção não se preocupava tanto em jogar defensivamente e avançava muito. Quando eu ia dar um pique, fatalmente embolava com os outros companheiros”.

Chirol elogia Coutinho e Parreira

Uma figura essencial na campanha brasileira era o preparador físico Admildo Chirol. Ele foi o principal responsável pela ótima forma apresentada pela Seleção, sobretudo ao traçar um regime de preparação especial antes da estreia. A equipe passou 21 dias em Guanajuato, uma cidade com altitude superior à de Guadalajara. A taxa de glóbulos vermelhos dos jogadores quase dobrou. E o preparador físico ainda contornou Zagallo, que preferia levar o time de volta a Guadalajara, reclamando do campo ruim em que eram realizados os treinamentos em Guanajuato. Chirol pediu para que tapassem os buracos e seguissem por lá.

“De mansinho, fomos convencendo o pessoal de que deveriam ficar em Guanajuato e tivemos êxito total. Tudo o que realizamos foi estudado previamente. Um trabalho científico, nada empírico”, comentou, ao Jornal do Brasil. “Não concordo com os que afirmam que os jogadores brasileiros não gostam de fazer ginástica. É uma mentira. Tanto gostam que fizeram na Seleção. O importante é saber comandá-los, dirigi-los, mostrando a eles o que está certo e o que está errado, quais os benefícios e os inconvenientes”.

Chirol ainda destacava seus assistentes, Carlos Alberto Parreira e Cláudio Coutinho, que conhecia da Escola Nacional de Educação Física. “Escolhi Coutinho porque, no Exército, é a maior capacidade em matéria de preparação física. É um rapaz culto e que tem viajado constantemente e mantido contato com os melhores professores de educação física do mundo inteiro. Já Parreira tem uma vontade de aprender anormal, está sempre estudando novos métodos e sistemas de trabalho. Já tem um curso na Universidade de Colônia e foi estagiário no Chelsea, quando pôde acompanhar toda a evolução física do futebol europeu”.

O olhar sobre os craques

Observador da Seleção nas Copas de 1958 e 1962, Ernesto Santos estava no México e, ao Jornal do Brasil, fez uma análise interessante das feras: “Pelé, por exemplo, é hoje um jogador completo, porque não se limita a passear pelo campo. Ele combate no meio e na defesa, e ainda encontra saúde para chutar em gol. Jairzinho é um homem sacrificado e sabe disso. Com a saúde que está, pode fazer isso. Rivellino já não é o mesmo jogador que se limitava a dar espetáculo para a torcida do Corinthians. Ele hoje é, acima de tudo, um homem integrado ao espírito da equipe. E o que Gérson faz hoje, Didi fez nas duas outras Copas. Isto é fundamental para que um time tenha sucesso, a liderança dentro de campo, dando tranquilidade aos companheiros e sabendo quando se deve prender a bola ou não”.

Zagallo desconfia da Fifa

A Copa de 1970 foi a última em que a disputa por pênaltis não era regulamentada pela Fifa. Se a prorrogação terminasse empatada, o classificado nos mata-matas seria determinado por sorteio. Zagallo, ao Jornal dos Sports, mantinha sua desconfiança sobre o método: “Se o sorteio for com cartão ou bolinha, eu quero segurar nos dois e ver de perto quando o juiz tirá-los”.

Dumitrache vai para o sacrifício

Craque da Romênia, Florea Dumitrache não estava 100%. O artilheiro havia sofrido um entorse no tornozelo e ia para o sacrifício contra o Brasil. Apesar disso, o técnico Angelo Niculescu depositava suas fichas no camisa 9: “Não posso me prender atrás, como aconteceu contra a Inglaterra, porque o empate só serve ao Brasil. Assim, temos que depositar toda nossa esperança nos pés de Dumitrache e em sua capacidade para proporcionar chances aos outros atacantes”.

Cornel Dinu analisa o Brasil

Principal jogador de defesa da Romênia, Cornel Dinu também fazia sua avaliação ao Jornal dos Sports: “Não vamos perder esta partida decisiva de maneira alguma. Sei que jogar contra o Brasil é mais difícil que enfrentar a Inglaterra, mas naquela tarde demos azar, porque os ingleses conseguiram marcar exatamente na única oportunidade que tiveram. Contra os ingleses, jogamos de igual para igual, porque o jogo deles se baseia na força física. Mas contra o Brasil será diferente. Nossos adversários de agora utilizam, além da capacidade física, o talento e a imaginação. Por isso, não podemos entrar com um esquema pré-estabelecido”.

O destaque barrado

Rica Raducanu chegou à Copa de 1970 como um dos melhores goleiros da Europa. Titular do Rapid Bucareste, era um dos protagonistas da Romênia durante a preparação. Porém, perdeu sua posição por um motivo bobo, conforme o Jornal do Brasil. Certo dia no hotel, antes da estreia contra a Inglaterra, o arqueiro jogou na água um grupo de mulheres que estava à beira da piscina. A brincadeira quase gerou uma confusão generalizada, com os maridos irados. Por indisciplina, Raducanu terminou barrado dos titulares, com a entrada de Stere Adamache.

Ingressos encalhados

Segundo a Folha, existia um desinteresse da torcida mexicana sobre os ingressos do Mundial. Os jogos em León (Grupo IV) registravam realmente públicos baixos, quase sempre estagnados em 15 mil pagantes. “Os ingressos para a partida de hoje, entre as seleções da Alemanha e do Peru, estão sendo vendidos a preços abaixo da tabela, pelos cambistas que adquiriram para revenda, temerosos de um grande prejuízo pela pequena procura que eles alcançaram”, escrevia a nota. As entradas, vendidas nas bilheterias por 80 pesos, passaram a custar apenas 20 pesos. Enquanto isso, no Brasil x Romênia, os cambistas lucravam com a alta procura.

Bicho dobrado ao Peru

A Folha relatava que os dirigentes do Peru dobraram, por conta própria, o prêmio oferecido aos jogadores pela vitória sobre Marrocos. O triunfo rendeu a classificação antecipada da Blanquirroja aos mata-matas. Assim, os cartolas pagaram um bicho de US$400, quando haviam prometido US$200. Já na seleção mexicana, uma empresa de eletrodomésticos distribuiu produtos aos jogadores, após a goleada por 4 a 0 sobre El Salvador. Por cada gol, os atletas que balançaram as redes também ganharam um prêmio de 50 mil pesos.

Didi destaca o empenho de seus jogadores

“A principal arma do nosso time e o motivo pelo qual tenho tanta confiança em vencer a Alemanha e chegar às finais é devido à dedicação dos meus rapazes. Quando erram determinada jogada, insistem até acertar e acabam conseguindo. Estamos muito melhor preparados fisicamente que os alemães, mas, com o tempo frio e o campo encharcado, eles conseguirão correr muito mais e, além de se equilibrarem na condição física, terão a vantagem de jogar em terreno ao qual já estão acostumados”, salientou o técnico do Peru, ao Jornal do Brasil.

Organizadores alemães já pensavam na Copa de 1974

A Alemanha Ocidental já estava definida como sede da Copa do Mundo de 1974. Conforme a Folha, uma comitiva de dez deputados alemães-ocidentais viajou a Guadalajara, para acompanhar a organização do torneio na cidade. Veriam a partida entre Brasil x Romênia, no Estádio Jalisco.

A festa do povo

Diante do hotel onde estava hospedado o Comitê Organizador da Copa, a Fifa instalou uma enorme bola de plástico, com três metros de diâmetro. Misteriosamente, o enfeite desapareceu. Segundo o Jornal do Brasil, após avisarem a polícia, “descobriu-se que o objeto serviu para uma gigantesca partida de futebol, disputada entre o Paseo de La Reforma e a Plaza de Zócalo, e que da bola só restavam centenas de pedaços, que foram levados pela multidão à catedral”.

Valcareggi não se abala

A Itália recebeu críticas pelo futebol pobre nas duas primeiras rodadas, especialmente no empate com o Uruguai. O técnico Ferruccio Valcareggi, ao jornal O Globo, declarava não estar nem aí para as reclamações: “Não há razão para se mudar quando tudo corre bem. Nada tenho a ver com as vaias e as queixas de alguns jornalistas de que não estamos jogando bem. Cada um tem o seu direito de dar a sua opinião, mas gostaria de lembrar aos que nos criticam que há muito tempo não alcançamos um lugar para as quartas e tenho a impressão que só por castigo ficaremos de fora desta vez”. A Azzurra enfrentaria Israel na terceira rodada. Teria a volta de Angelo Domenghini, utilizado por meio tempo no duelo anterior, por causa de uma febre.

Para Alf Ramsey, Inglaterra de 70 era superior à de 66

“O time de 1966 mereceu ser campeão. Este só não será se todos os fatores conspirarem contra, pois é melhor em muitos pontos. Desde os meus tempos de jogador de futebol, garanto que é a melhor seleção que já se formou na Inglaterra. Ontem fomos rever o videotape da partida contra o Brasil e cada vez mais me convenço que os rapazes fizeram o melhor que podiam, dentro das circunstâncias. Nas quartas de final, tanto faz quem vamos enfrentar. Se quisermos chegar à final, teremos mesmo que cruzar com escolas diferentes”, afirmou o técnico Alf Ramsey, ao jornal O Globo.

Para Billy Wright, Brasil de 58 era superior ao de 70

Considerado um dos maiores defensores da história e primeiro jogador a superar 100 partidas por sua seleção, Billy Wright foi um dos símbolos da Inglaterra. O veterano capitaneou os Three Lions em três Mundiais e enfrentou o Brasil em 1958. Cobrindo o Mundial de 1970 como comentarista, ainda preferia a equipe campeã na Suécia. “Considero que a melhor seleção brasileira que vi até hoje foi a de 58, na Suécia. Poucas vezes um título terá sido tão justamente conquistado. Parece-me que esta seleção brasileira não chega a ter um grande conjunto, mas apenas jogadores que sabem desempenhar o que lhes confia o treinador. Pelé continua brilhante, apesar dos anos, e entre os outros, Gérson, Jairzinho e Rivellino são os que mais se sobressaem”, afirmou, ao jornal O Globo.

Pelé superior a Neil Armstrong

O Jornal do Brasil informava que, na Inglaterra, 30 milhões de pessoas assistiram ao jogo contra o Brasil pela televisão. A audiência superava, inclusive, os números registrados na final da Copa de 1966. Também batiam com sobras os 21 milhões que haviam assistido à chegada do homem à Lua em 1969.

O erro de Jozef Marko

Treinador da Tchecoslováquia, Jozef Marko admitia seus erros no planejamento rumo ao México. “Estou convencido de que errei ao organizar a programação para a seleção. Na verdade, sei hoje que o campeonato nacional do meu país deveria ser interrompido e que haveria necessidade de maior tempo para aclimatar meus jogadores. A estada nos Pirineus não foi a solução ideal e os jogadores se ressentiram do campeonato encerrado apressadamente. O fato está consumado e o remédio é tentar a última hipótese, vencer a Inglaterra e ganhar a vaga por saldo de gol”, avaliou o comandante, a’O Globo. Apesar da badalação antes do Mundial, os tchecoslovacos decepcionavam, goleados pelo Brasil e batidos pela Romênia.

O erro do Campeonato Chileno – e do Carioca

O Chile decidiu não interromper seu campeonato nacional durante a Copa do Mundo. Erro tremendo: segundo o Jornal dos Sports, o público chileno preferia ficar em casa vendo os jogos do Mundial e as bilheterias nos estádios do país caíram drasticamente. Por conta disso, a federação cogitava suspender a liga por 15 dias, até o término da Copa. “Do jeito que as coisas vão, qualquer hora times, juízes, bandeirinhas e gandulas deixam a bola sozinha em campo e vão sapear, no boteco mais próximo, os jogos no México”, ironizava o periódico. Detalhe é que o Campeonato Carioca também começaria originalmente no meio do Mundial. A primeira rodada teria seu pontapé inicial dia 20, véspera da decisão no Azteca. Ao menos, o bom senso prevaleceu e transferiu a data para 27 de junho.

A soneca de Sir Stanley Rous

Outra do Jornal dos Sports: enquanto Itália e Uruguai faziam uma partida horrível em Puebla, Sir Stanley Rous teria tirado um cochilo na tribuna de honra. Sim, o presidente da Fifa foi flagrado dormindo no meio de um jogo da Copa. Nem as vaias vigorosas do público teriam sido suficientes para despertar o cartola.

João Saldanha, em sua coluna n’O Globo

“Como todos sabem, a questão mais importante do futebol moderno é o meio-campo. Ataque e defesa são duas coisas bem definidas. O meio-campo é onde se define a partida. Aí, neste espaço, é que se define a questão: quem vai atacar? Quem vai ter de se defender? Por isto, precisamente, este é o problema mais importante que tem de se ter desenvolvido pelos organizadores de uma equipe. E é aí onde geralmente se encontram os grandes jogadores da equipe. Eu os chamaria de ‘carregadores de piano’ numa mudança. Sim, os extremas, mesmo os que jogam mais na frente, ou os zagueiros de área, nesta ‘mudança’, são os que carregam os móveis menos pesados, assim como cadeiras e outros”.

“É por isto que penso que a equipe brasileira se ressente neste momento em que Gérson e Rivellino – autênticos ‘carregadores de piano’ no quadro brasileiro – estão com problemas, da falta de jogadores como Dirceu Lopes e Zé Carlos, que entrariam agora. Dariam o indispensável tempo de recuperação dos outros e, com costume que têm de jogar com Tostão, Piazza e Cia, não alterariam o ritmo do nosso jogo. Que falta estão fazendo os dois craques do Cruzeiro! Nosso banco não está capacitado para resolver os problemas de uma competição jogada de três em três dias, como é o campeonato mundial. Que saudades de Dirceu e Zé Carlos!”.

Nelson Rodrigues, em sua coluna n’O Globo

“A vitória sobre a Inglaterra foi uma partida que levantou este povo. Olhando as nossas ruas, constatamos que a alegria é mais profunda que a dor. Mas os entendidos negam a nossa alegria ou a subestimam. Chamam a gigantesca festa popular de relativo carnaval. O normal seria que exaltassem a estupenda conduta brasileira. Não. Como são monstros da isenção e da objetividade, tratam de justificar a Inglaterra. Por que perderam os ingleses? Por que jogamos mais? Nunca. Por causa do calor. E assim insinuam que fez calor para os ingleses e neve para os brasileiros”.