Há exatos 50 anos, a Copa do Mundo de 1970 vivia a sua abertura oficial. A primeira partida não foi tão empolgante, com um empate sem gols entre México e União Soviética, mas começaria ali uma das mais marcantes edições da história dos Mundiais. Os grandes craques comporiam aquela narrativa, entre seleções fortes e uma série de jogaços. E o Brasil, no ato final dentro do Estádio Azteca, eternizaria-se como um dos maiores esquadrões do esporte. A última Copa em que a Jules Rimet era oferecida também seria fundamental para a popularização do torneio, em tempos nos quais as imagens da televisão atingiam cada vez mais pessoas – e, no Brasil, ao vivo.

Aproveitando a data, a partir deste domingo, faremos um diário sobre a Copa de 1970. Acompanharemos as principais notícias da época e traremos um resumo dos jogos. Neste capítulo inicial, incluímos um pequeno guia sobre o Grupo 1 e um resumo sobre a preparação do Brasil em maio, além do episódio intrigante envolvendo Bobby Moore na Colômbia. Durante os próximos dias, até 21 de junho, faremos novas postagens – de maneira similar ao especial publicado aqui na Trivela em 2019, sobre os 25 anos da Copa de 1994. Aproveite!

Grupo 1

México

Classificado automaticamente como anfitrião, o México iniciou a Copa do Mundo sob desconfianças. A equipe terminou na quarta colocação do Campeonato da Concacaf em 1969. Já em 1970, os resultados de seus amistosos também não eram muito convincentes, com mais tropeços que vitórias. Não à toa, houve uma mudança de técnico às vésperas da competição. Presente em três Mundiais como jogador e iniciando um período vitorioso à frente do Cruz Azul, Raúl Cárdenas assumiu a missão no lugar de Nacho Trelles, que virou seu auxiliar.

O Cruz Azul tinha forte presença no elenco, com cinco jogadores, incluindo o zagueiro Gustavo Peña, que usava a braçadeira de capitão e era a grande liderança daquela equipe. Já o América também cedeu cinco atletas, entre eles o atacante Enrique Borja. Aos 24 anos, o centroavante havia trocado o Pumas pelo América pouco antes e empilharia gols com as Águilas – tornando-se até mesmo o grande ídolo de Chespirito. Um lamento ficava para a ausência de Alberto Onofre, meia do Chivas que fraturou a perna dias antes da estreia. O técnico Cárdenas armava o time num 4-3-3, mas sem tantas peças definidas. Coletivamente, El Tri era descrito como uma equipe aguerrida e razoável tecnicamente, mas que ainda precisava do apoio de sua torcida para se impor na competição.

El Salvador

O outro representante da Concacaf também estava no Grupo 1: El Salvador, que avançou através das Eliminatórias. Os salvadorenhos superaram o Haiti num jogo-desempate na Jamaica para assegurar a classificação ao Mundial, embora o duelo realmente marcante naquela campanha tenha acontecido na etapa anterior, quando os embates com a vizinha Honduras se relacionaram com a chamada Guerra do Futebol. Cada equipe venceu em seu mando, em duelos marcados pela violência entre as torcidas e pelas retaliações estatais, até que El Salvador eliminasse os rivais com o triunfo por 3 a 2 na Cidade do México.

Mesmo com os entraves políticos deixados para trás, El Salvador era considerado um azarão na Copa de 1970. A seleção entraria no torneio com um futebol rústico e pautado na defesa. A preparação teve resultados ruins e os jogadores foram proibidos de falar com a imprensa. Com um elenco limitado apenas aos clubes locais, sem jogadores em atividade no exterior, o destaque ficava por conta do artilheiro Juan Ramón Martínez. O atacante do Águila anotou boa parte dos gols nas Eliminatórias, inclusive o da classificação. Já o técnico era o chileno Hernán Carrasco Vivanco, também tarimbado na liga salvadorenha.

União Soviética

Sempre apontada entre as seleções mais fortes da Europa, a União Soviética havia realizado sua melhor campanha em Copas durante a edição anterior, quando alcançou as semifinais em 1966. Já na Eurocopa de 1968, os soviéticos caíram apenas na moedinha diante da campeã Itália nas semifinais. O time teve como principal oponente nas Eliminatórias a Irlanda do Norte de George Best e conseguiu garantir a classificação muito graças ao empate no confronto direto em Belfast. Todavia, o fato de ser uma equipe envelhecida pesava contra a URSS durante sua jornada no México, com resultados modestos na preparação.

Convocado de última hora à sua quarta Copa, o veterano Lev Yashin àquela altura era reserva do bom Anzor Kavazashvili no gol. Enquanto os jogadores do sistema defensivo vinham dos clubes de Moscou, o ataque se concentrava entre os talentos de Dynamo Kiev e Dynamo Tbilisi. O atacante Anatoliy Byshoevts desembarcava em alta ao Mundial, assim como o meio-campista Vladimir Muntyan. Mais atrás, dois nomes importantes eram os de Valentin Afonin e do capitão Albert Shesternyov – considerado na época um dos melhores líberos da Europa. Já o comando técnico ficava por conta de Gavriil Kachalin, comandante da seleção em diferentes períodos, que conduziu os soviéticos ao ouro olímpico em 1956 e também ao título na Eurocopa de 1960.

Bélgica

De volta à Copa do Mundo após 16 anos de ausência, a Bélgica vinha em alta das Eliminatórias. Os Diabos Vermelhos conquistaram a classificação em uma chave duríssima, na qual despacharam a Iugoslávia (vice na Eurocopa anterior) e a Espanha – além da Finlândia, que serviu como saco de pancadas. Os resultados contra os espanhóis fizeram toda a diferença aos belgas, com o empate em Madri e a vitória em Liège. Assim, a vaga já estava garantida na única derrota da equipe, ao visitar os iugoslavos em Skopje.

Auxiliar de Constant Vanden Stock até 1968, Raymond Goethals era um treinador sem badalação quando chegou à Copa, ainda por construir sua reputação à beira do campo – futuramente considerado o maior técnico belga da história. Principais forças locais na época, Standard de Liège e Anderlecht formavam a espinha dorsal daquela Bélgica. O elenco era relativamente jovem, com um ataque veloz. Os Diabos Vermelhos confiavam principalmente em seu craque: Paul van Himst, já considerado um dos principais atacantes do futebol europeu no período, ao vencer a Chuteira de Ouro dois anos antes. O meia Wilfried van Moer era outro badalado que veio bem cotado ao México.

O noticiário da seleção brasileira às vésperas

A seleção brasileira realizou seu último amistoso em 24 de maio, nove dias antes da estreia. Zagallo aproveitou para rodar seu elenco e utilizar praticamente todos os jogadores à disposição, com 18 dos 22 convocados entrando em campo. A Canarinho derrotou o Irapuato por 3 a 0, com gols de Paulo Cézar Caju, Roberto Miranda e Rivellino. Mas, ainda que a equipe acumulasse uma invencibilidade de 12 partidas na preparação, alguns empates geravam críticas. O favoritismo se mantinha, mas não evitava desconfianças.

Discussões sobre o “jogo lento” dos brasileiros e sobre quem utilizar nas pontas eram comuns. Da mesma forma, Zagallo realizou mudanças táticas na equipe assim que chegou, substituindo João Saldanha em março, e a falta de tempo para assimilar as ideias do novo treinador parecia um entrave. Também questionava-se a real qualidade do sistema defensivo. Menos de uma semana antes da estreia, a revista Placar apontava que apenas Carlos Alberto e Brito inspiravam confiança na zaga – com Piazza desejando retornar ao meio-campo, inclusive. Marco Antônio era o lateral esquerdo titular até então, mas acabaria sacado para a entrada de Everaldo.

O ponta Rogério foi o único cortado do elenco: com um problema de distensão, pediria a dispensa já no México, mas ficaria para auxiliar a comissão técnica na observação. Zagallo preferiu convocar Leão e ter um terceiro goleiro no grupo, em vez de chamar às pressas um ponta e precisar aclimatá-lo ao seu esquema. Seria aquele o espaço ocupado por Jairzinho no time. Além disso, outros jogadores também chegaram a enfrentar problemas físicos em meio à reta final da preparação – entre eles, Pelé, Tostão, Fontana e Félix. Gérson, por sua vez, foi quem mais preocupou: teve um estiramento muscular na coxa, mas ganharia permissão para jogar às vésperas da estreia.

Além disso, apesar de todas as preocupações com a altitude e o calor no México, a Seleção indicava uma forma física excepcional desde antes do início da competição. “Acreditamos que a equipe brasileira venha a se manter em seu apogeu durante bastante tempo, mais do que a duração da Copa do Mundo. Estaremos em situação pelo menos equivalente à dos outros competidores. Com toda a certeza, vamos atingir um nível bastante acima daquele que normalmente se espera de um jogador brasileiro”, declarou Cláudio Coutinho, então um dos responsáveis pela preparação, em entrevista à Placar.

Bobby Moore, preso na Colômbia

Às vésperas da Copa do Mundo, uma das principais manchetes envolvendo o torneio estampava as páginas policiais: Bobby Moore, capitão da Inglaterra campeã em 1966, havia sido preso. Os ingleses fizeram a parte final de sua preparação na América do Sul e, quando o time já estava no aeroporto antes de embarcar ao México, o zagueiro foi detido pela polícia colombiana. A acusação? Roubar um bracelete de esmeraldas na joalheria do hotel onde ficara hospedado no país. Duas testemunhas diziam ter visto a ação do meliante.

Bobby Moore permaneceu sob custódia, mas as testemunhas não chegaram a um consenso sobre o roubo. O primeiro-ministro britânico interveio, bem como outros personagens da Copa deram depoimentos favoráveis à inocência do craque. Moore acabou liberado e pôde reintegrar o elenco da Inglaterra às vésperas da estreia contra a Romênia, desembarcando no México em 30 de maio. Naquele momento, embora o defensor não estivesse totalmente absolvido, já existia uma suspeita de que ele havia sido vítima de um golpe aplicado em outros hóspedes do hotel.

“Não creio que este incidente seja parte de uma conspiração internacional contra a seleção de meu país. Também não creio que este meu caso particular tenha abalado o moral de meus companheiros. Conheço-os muito bem. Meu único desejo, agora, é esquecer o incidente”, declarou Moore, já no México, conforme a Folha de S. Paulo. Apesar das turbulências na preparação da Inglaterra, o beque manteve sua compostura e sua calma durante todo o caso. Faria um bom Mundial e, em agosto, terminaria liberado da acusação. A teoria mais aceita é de que o craque foi vítima de uma extorsão, embora certo mistério persista sobre a história.

O clima do México na abertura

A Folha de S. Paulo elogiava a “festa colorida” realizada pelo México durante a abertura da Copa do Mundo no Estádio Azteca. Mais de 110 mil torcedores estavam presentes nas arquibancadas e, antes que a bola rolasse, viram uma apresentação da banda da Marinha. Crianças fizeram um desfile no gramado. Além disso, o presidente mexicano Gustavo Díaz Ordaz realizou um discurso na tribuna de honra e cumprimentou no gramado os jogadores de México e União Soviética – as equipes que se enfrentariam naquela primeira partida.”Como festa, muito bonita, emocionante”, diria ainda João Saldanha, em sua coluna no jornal O Globo.

Grupo A: México 0x0 União Soviética

Quando a bola rolou, porém, México e União Soviética não fizeram uma boa partida no Azteca. As críticas foram unânimes quanto ao futebol modorrento apresentado naquela abertura. Seria um duelo truncado, em que o placar zerado foi completamente compreensível. Os mexicanos se esforçaram mais e criaram melhores chances. A grande oportunidade viria no primeiro tempo, em peixinho do atacante Horacio Salgado, mas o goleiro Kavazashvili segurou com firmeza. El Tri apostou bastante nas bolas alçadas e por vezes assustou, com as saídas erradas do arqueiro soviético. Do outro lado, a URSS se defendeu em bloco e saiu um pouco mais ao ataque durante o segundo tempo, mas se cansou no final.

“Fiquei satisfeito com o rendimento do quadro, mas tinha certeza de que venceria a partida, pois seria muito bom começar com dois pontos. Vamos nos classificar sem grandes problemas e conseguiremos os pontos nos jogos seguintes”, declarava o técnico Cárdenas, segundo aspas publicadas pelo jornal O Globo. Visão complementada por Kachalin, comandante soviético: “A equipe do México é muito boa e acredito que possua maiores possibilidades que as demais para avançar, porque joga em condições favoráveis. A altitude é um problema para todos. Sentimos, apesar dos 20 dias de aclimatação, mas creio que estaremos bem melhores na segunda partida”.

Além do nosso diário, vale acompanhar também outros especiais sobre a Copa de 1970 publicados nestas semanas. No Twitter, o jornalista José Inácio Werneck (que cobriu aquele Mundial) traz recortes de jornal no “Brasil70”. Já a Folha de S. Paulo lançou neste domingo um especial com depoimentos de jogadores do Brasil no tricampeonato.