Quarenta anos se passaram desde a última conquista do Internacional no Campeonato Brasileiro. Quarenta anos se passaram desde o último time conquistar o Campeonato Brasileiro de maneira invicta. Se o hiato  representa um incômodo jejum à torcida colorada, a data também serve para exaltar uma das maiores equipes que já surgiram no Brasileirão – e que nem sempre recebe os devidos créditos pelo tamanho de sua façanha. O esquadrão de Ênio Andrade fez por merecer o título não apenas pelos números arrebatadores, mas também pela forma como superou seus percalços e pelas seguidas imposições sobre fortes adversários. Foi uma caminhada indiscutível.

Numa edição do Campeonato Brasileiro particularmente tumultuada pela desorganização, o Internacional se reinventou em poucos meses. Do vexame no Campeonato Gaúcho, a equipe recuperou seu brio sob as ordens de “seu Ênio” e deixou seu melhor futebol aflorar. Não foram os diversos problemas de lesão que atravancaram o rendimento dos colorados. E, à medida que o torneio chegava à sua reta final, os gaúchos apresentavam um futebol mais consistente, que permitiu alcançar o título com duas vitórias inapeláveis sobre o Vasco. Em 23 de dezembro de 1979, após 16 triunfos e sete empates, o Inter se proclamava o primeiro tricampeão do Brasileirão – antes da unificação. O primeiro (e, ainda hoje, único) invicto nos torneios que não se limitavam apenas a mata-matas – como era o caso da Taça Brasil.

Se o Internacional bicampeão em 1975 e 1976 costuma ser mais lembrado pela imprensa, o time que faturou o Brasileiro invicto em 1979 parece uma evolução em certos pontos. Os colorados mantinham o preparo físico como um de seus trunfos, como era nos tempos de Rubens Minelli, mas com um futebol fluido. E essa qualidade se dava sobretudo pelo meio-campo, que combinava a dose certa de talento e combatividade, comandado por um Paulo Roberto Falcão em sua melhor versão. O craque fez a diferença e recebeu a Bola de Ouro como melhor jogador do campeonato pela terceira vez na carreira. Mas teve ajudas valiosíssimas de um timaço também composto por Mário Sérgio, Jair, Valdomiro, Batista, Mauro Galvão e outras feras. A trajetória imaculada do time que não perdeu prevalece quatro décadas depois.

A reformulação do antigo campeão

O Internacional havia se eternizado como um dos maiores esquadrões do futebol brasileiro entre 1975 e 1976. O bicampeonato nacional conquistado sob as ordens de Rubens Minelli elevou os colorados a um nível inédito para os clubes do Rio Grande do Sul, enquanto seu futebol revolucionário também incluía a equipe como uma das maiores da década no Brasil. Porém, não há dinastia eterna e o ano de 1977 havia representado uma transição.

Minelli deixou o Beira-Rio para ser campeão com o São Paulo, assim como vários craques daquele elenco também fizeram as malas – incluindo Figueroa, Carpegiani, Manga e Lula. O Inter pararia no octacampeonato gaúcho e veria o Grêmio faturar o célebre título estadual em 1977, encerrando o seu jejum. Além do mais, a campanha colorada no Brasileirão de 1977 não empolgaria, encerrada logo na segunda fase. No entanto, parte do forte plantel se mantinha e a redenção aconteceu a partir de 1978, liderada por Paulo Roberto Falcão.

Naquele ano, Cláudio Duarte assumiu o comando técnico do Inter. Considerado um dos melhores laterais do país, também usava a braçadeira de capitão e era uma das principais referências em campo. Porém, sérias lesões no joelho abreviaram a carreira do defensor. Aos 26 anos, desenganado pelos médicos, Duarte recebeu o convite para se tornar o treinador da equipe principal. Deu tão certo que levou os colorados à reconquista do Gauchão em 1978. Já no Brasileiro, o time alcançou as semifinais, eliminado pelo Palmeiras. No auge da forma, Falcão receberia a Bola de Ouro como melhor jogador do campeonato nacional.

Sob as ordens de Cláudio Duarte, o Internacional se preparou ao Gauchão de 1979 sob boas expectativas. O clube trouxe importantes reforços para a disputa do estadual. O goleiro Benítez, que passou o ano anterior emprestado ao Palmeiras, foi reincorporado ao elenco. A lateral esquerda ganhou a presença de Cláudio Mineiro, que vinha do Corinthians, enquanto Mauro Pastor se tornava uma alternativa ao miolo da zaga, após se destacar na Ferroviária de Araraquara. Já na ponta esquerda, os colorados adicionavam um enorme talento com a compra de Mário Sérgio. Após um período vestindo as cores do Rosario Central, o craque se tornou um pedido do próprio Falcão à diretoria. Apesar dos temores sobre o gênio intempestivo do carioca, o capitão bancou o reforço e teve sua solicitação atendida.

O problema é que o forte time do Internacional não vingou de imediato. Os colorados cumpriram uma campanha frustrante no Campeonato Gaúcho. Durante os dois primeiros turnos, o Grêmio terminou em vantagem. O Inter empatou os dois primeiros clássicos disputados pelo estadual e sofreu duas derrotas para o São Paulo de Rio Grande. Como se não bastasse, por problemas pessoais, Cláudio Duarte deu um passo para trás durante a competição e pediu para deixar o comando técnico, tornando-se supervisor no Beira-Rio. Vice-campeão do Paulista de 1977 com a Ponte Preta, Zé Duarte assumiu o posto e até ajudou a organizar a equipe, mas os resultados não vieram em campo. O desempenho no octogonal final do Gauchão foi ainda pior.

Pela terceira vez, o Internacional sofreu uma derrota para o São Paulo de Rio Grande. Também sucumbiu diante de Novo Hamburgo e Caxias. No final de agosto, a derrota para o Grêmio no clássico do Beira-Rio abriu o caminho ao título dos tricolores. E, enquanto os gremistas fecharam a campanha com dez pontos de vantagem sobre os rivais, os colorados sequer ficaram na terceira colocação, superados até pelo Esportivo de Bento Gonçalves. Na penúltima rodada, quando não havia mais chances de erguer a taça, o Inter demitiu Zé Duarte após empate com o Juventude. O paulista durou menos de dois meses no cargo. Restando mais seis dias para o início do Campeonato Brasileiro, a diretoria buscava um novo treinador.

A escolha do Internacional foi por um velho homem da casa. Meia classudo nos anos 1950, Ênio Andrade conquistou títulos com a camisa colorada no início daquela década, antes de marcar seu nome também por Renner e Palmeiras. Como treinador, começou no interior gaúcho e passou sem muito sucesso pelo Grêmio em meados dos anos 1970, antes de rodar por diferentes cantos do Brasil. O nome de “seu Ênio” estava em alta sobretudo após faturar o bicampeonato paranaense com o Coritiba em 1979. Assim, aceitou a proposta para se mudar ao Beira-Rio antes do início do Brasileirão.

“O Ênio tinha muito conhecimento de futebol e uma linguagem fácil de ser assimilada. Conhecia muito profundamente a boleirada, mas não tinha muito uma relação de boleirão com os jogadores. O Ênio era extremamente carismático”, contou Falcão ao livro ‘Os 11 maiores técnicos do futebol brasileiro’, de Maurício Noriega. “Ele não berrava com os jogadores dentro de campo. Tinha uma capacidade de leitura de jogo impressionante. Resolvia tudo no intervalo. Era um cara muito afável e perspicaz. Entendia muito bem as situações em que tinha de entrar de sola e as outras em que era preciso matar no peito. Era um sujeito muito humano, se preocupava com os caras, mas sem ser o paizão. Não era de fazer muita reunião com os jogadores. Falava uma frase e se fazia entender. Não ficava em cima, não cuidava da vida particular do jogador”.

Ênio Andrade levava consigo Gilberto Tim, considerado um revolucionário na preparação física. Ex-jogador do Internacional e também antigo comandante das categorias de base coloradas, ele foi essencial na conquista do bicampeonato nacional em 1975 e 1976, ao aprimorar a forma do esquadrão de Rubens Minelli. Depois disso, Tim recebeu propostas de outros clubes e estava justamente no Coritiba durante o estadual de 1979. O Inter o recontratou em conjunto, o que se tornaria também importante, considerando os problemas físicos que afetariam o elenco naquele momento.

O próprio Falcão não estava em sua melhor forma, acometido por uma contusão no pé. O ponta Valdomiro, outra liderança desde os tempos de Minelli, operara os meniscos – a previsão inicial era de que sequer voltaria a tempo no Brasileirão. Já o zagueiro Larri, cogitado à Seleção, se machucou no Gauchão e permaneceria como desfalque até 1980. Este problema, em contrapartida, também se transformaria em solução: o novo titular ao lado de Mauro Pastor era um garoto de 17 anos, que surgira na base colorada. Sem o porte físico de zagueiro, o rapaz um tanto quanto franzino compensava por sua leitura de jogo imensa e por sua capacidade técnica assombrosa. Seu nome? Mauro Galvão.

Ênio Andrade já tinha acertado o retorno ao Internacional quando aconteceu o último clássico pelo Gauchão, em 20 de setembro de 1979, durante a rodada final. O novo treinador assistiu ao jogo nas tribunas do Olímpico, enquanto o interino Otacílio Gonçalves dirigia a equipe no empate por 1 a 1, que só serviu para concluir a comemoração dos rivais. Por mais que o compromisso não valesse nada além do orgulho aos colorados, a equipe principal esteve em campo. Três dias depois, já sob as ordens de Seu Ênio, aconteceria a estreia no Brasileirão contra o Atlético Paranaense, em Curitiba.

O caos do Brasileirão

Aquela edição do Campeonato Brasileiro, aliás, merece o seu devido destaque. Raríssimas vezes o torneio foi tão bagunçado quanto em 1979. O calendário do futebol nacional se arrastava. Por falta de organização e alguns privilégios concedidos à seleção brasileira, era comum que as competições se estendessem ao ano seguinte. Foi isso o que aconteceu, por exemplo, com o Brasileirão de 1977, concluído em 1978. O Paulistão de 1978 terminou apenas em 1979, enquanto o Campeonato Carioca atravessava sua transição após o fim do estado da Guanabara e realizaria duas edições em 1979. Era apenas parte do problema.

Ao mesmo tempo, a CBD realizava sua troca de poderes para deixar o futebol brasileiro sob o comando da recém-criada CBF. Um decreto da Fifa, então presidida por João Havelange, ordenava que todos os países filiados à entidade internacional tivessem a sua federação própria para a administração do futebol. Desta maneira, a CBD (que também cuidava das demais modalidades olímpicas) saía de cena naquele exato momento. O Brasileirão, espremido em somente três meses, atendia ao momento de mudança. Apesar dos planos iniciais de que o certame se alongasse até 1980, a prestação de contas obrigava o término em 1979. E isso não ocorreu exatamente de forma tranquila.

Em tempos nos quais o Campeonato Brasileiro era usado como instrumento político pela ditadura militar, o torneio atingia o seu máximo inchaço. O mote “onde a Arena vai mal, mais um time no nacional” chegou ao seu ápice com a participação de 94 clubes – na tentativa de agradar os mais diferentes rincões políticos. O clientelismo e a troca de favores, mais do que isso, possuía seu peso às vésperas das eleições à CBF – marcadas para dezembro. Então chefe da CBD, o Almirante Heleno Nunes entraria no pleito. Sob as suas ordens, o número de clubes no campeonato nacional havia mais que dobrado. E o torneio de 1979 serviu como uma oportunidade de agradar as federações de estados e territórios periféricos, na tentativa de angariar mais votos à sua candidatura.

Não significava, contudo, que todos estivessem felizes. O aumento no número de participantes no Brasileiro prejudicou economicamente as equipes, além de rebaixar o nível técnico da competição. Naquela edição específica, ainda houve um privilégio aos representantes do Rio de Janeiro e de São Paulo, que entrariam apenas na segunda fase, sob a promessa de uma nova versão do Torneio Rio-São Paulo que sequer saiu do papel. Assim, os clubes de Bahia, Minas Gerais, Pernambuco e Rio Grande do Sul armaram um protesto contra a CBD.

E não que todos os paulistas estivessem de acordo também. Como campeão e vice do ano anterior, Guarani e Palmeiras estavam automaticamente classificados à terceira fase do Brasileiro. Corinthians, Portuguesa, Santos e São Paulo se sentiram no privilégio de exigir o mesmo – enquanto seguiam na disputa de um Paulistão igualmente bagunçado e sobrecarregado ao extremo. Do outro lado, a federação carioca fazia pressão, descontente com o número de vagas maior oferecido aos paulistas. Botafogo, Flamengo, Fluminense e Vasco também cogitavam se retirar da disputa, caso a CBD não encontrasse uma “fórmula rentável” ao certame.

Afastado da presidência da CBD por recomendação médica, Heleno Nunes colocou fogo no parquinho a duas semanas do início do Brasileirão. O dirigente ameaçou cancelar o campeonato ou então limitá-lo apenas ao uso de juvenis. Colocava a culpa nos dirigentes das federações, que aprovaram o calendário sem consultas aos clubes. Ao mesmo tempo, os 12 clubes mais populares do país (os quatro grandes de RJ e SP, mais os dois de MG e RS) se reuniam para pressionar a cartolagem e evitar perdas financeiras na competição, cheia de duelos contra os pequenos. Através de uma carta, anunciaram que boicotariam uma fórmula deficitária e poderiam até mesmo adotar uma solução paralela.

Ao final, Heleno Nunes indicou sua simpatia aos clubes e conseguiu chegar a um acordo, com o campeonato que saltou dos 80 participantes iniciais para 94. Os times mais tradicionais na primeira fase (incluindo os dois principais de BA, GO, MG, PR, PE e RS) entrariam em grupos mais “cascudos”, mas também mais rentáveis pelos jogos de peso, nos quais oito dos dez participantes avançariam. Já as equipes mais “periféricas” também comporiam chaves de dez concorrentes cada, nas quais se classificariam apenas os quatro ou os cinco primeiros.

Seis representantes do Rio e de São Paulo realmente entrariam na segunda fase da competição. Parte dos paulistas, entretanto, preferiu pular fora do barco. Corinthians, Portuguesa, Santos e São Paulo ainda desejavam ingressar diretamente na terceira fase e, por isso, abriram mão do Brasileirão – priorizando o Paulistão de 1979, que se estendeu até fevereiro de 1980. Os clubes do interior ocuparam em peso as vagas, enquanto Guarani e Palmeiras permaneceram com o privilégio de saltar à terceira fase. A bagunça foi tamanha que a tabela definitiva do torneio acabou divulgada a quatro dias de seu pontapé inicial.

Maturando o time campeão

Contornados os entraves, o Internacional estreou no Campeonato Brasileiro de 1979 no Estádio Couto Pereira, em 23 de setembro. A chegada de Ênio Andrade não representou mudanças imediatas na equipe, que empatou por 0 a 0 com o Atlético Paranaense. De qualquer maneira, a escalação já apresentava os traços da equipe que faturaria a taça. Benítez era o titular no gol. João Carlos, zagueiro transformado em lateral por sua capacidade na marcação, jogava na direita. Mauro Galvão e Mauro Pastor se combinavam pelo miolo de zaga, enquanto Cláudio Mineiro caía pela esquerda. O meio-campo contava com a proteção do selecionável Batista, com a maestria do capitão Falcão e com os chutes potentes do ídolo Jair, o Príncipe Jajá.

Apenas a linha de frente sofreria mudanças depois da estreia. Mário Sérgio estava suspenso e Valdomiro permanecia lesionado, suplantado por Chico Spina. Já o centroavante titular acabara de ser contratado, em anúncio feito na antevéspera da primeira rodada. Bira foi o principal reforço do Internacional ao Brasileirão. O artilheiro do Remo protagonizava uma folclórica disputa com Dadá Maravilha pela artilharia do Campeonato Paraense. E foi o próprio Dario, amigo de Bira, que referendou sua transferência ao Beira-Rio. Na mesma época, os colorados também cogitavam tirar o zagueiro Oscar da Ponte Preta, em negócio que não vingou. Além disso, trouxeram o lateral Galvão (Bonsucesso-RJ) e o meio-campista Valdir Lima (São Paulo-RS) para compor o elenco.

A estreia de Bira e o retorno de Mário Sérgio aconteceram na segunda partida, contra o Santa Cruz. E o Internacional arrancou um excelente resultado na visita aos bicampeões pernambucanos. Vitória por 2 a 1, em que o próprio Bira e Adílson fizeram os gols. Os problemas estavam, outra vez, no departamento médico. Bira sofreu uma fratura no braço e Batista, uma distensão na perna. Tornaram-se desfalques para o embate contra o Figueirense quatro dias depois, na estreia dentro do Beira-Rio. Uma cobrança de falta de Jair, que desviou em Reginaldo, deu o triunfo por 1 a 0 aos colorados.

Os resultados mais importantes ao Internacional na primeira fase vieram na sequência. Afinal, os colorados emendariam uma série de cinco triunfos consecutivos, que rebatia as desconfianças sobre o potencial da equipe. Em 6 de outubro, no quinto clássico do ano, finalmente os colorados ganhavam o Gre-Nal. Dentro do Beira-Rio, a vitória por 1 a 0 aconteceu apenas aos 43 do segundo tempo, graças a um gol magistral. Em cobrança de falta na intermediária, Falcão rolou e Jair acertou um chutaço de primeira. A bola fez uma curva inexplicável para fora e saiu do alcance do velho ídolo Manga, agora na meta tricolor. O time de Ênio Andrade lavava a alma, num resultado que possuía muito mais valor ao ânimo do que propriamente à tabela.

O Internacional seguiu o seu embalo. De volta a Recife, a equipe derrotou o Sport por 3 a 0, com dois gols de Jair e outro do atacante Adílson. E o Príncipe Jajá, em fase inspirada, também anotou outros dois tentos nos 3 a 0 sobre o Coritiba, dentro do Couto Pereira. A expulsão de Falcão naquela partida nem atrapalhou os colorados, que já lideravam o Grupo G. A equipe terminaria de cumprir tabela sem tantos triunfos, mas fez o suficiente para se manter na dianteira. Empatou com America-RJ e Operário-MS, além de golear o Rio Branco-ES por 5 a 1 – na partida que marcou o retorno do centroavante Bira, autor de dois gols.

O esquadrão ganha forma

O gargalo do Brasileirão começava a apertar durante a segunda fase. O Internacional encarou um grupo com oito equipes, no qual apenas os dois primeiros continuariam à etapa seguinte. O Atlético Paranaense era sua companhia em relação à fase anterior, em chave na qual todos os outros participantes eram do interior. Ironicamente, estava presente também o São Paulo de Rio Grande, sombra dos colorados ao longo do Gauchão. A história seria bem diferente.

A estreia na segunda fase aconteceu contra o Goytacaz, no Beira-Rio esvaziado por conta de um temporal. Mauro Pastor marcou o gol solitário da partida, garantindo a vitória por 1 a 0. E o Internacional sofreria mais desfalques. Após se desentender com Gilberto Tim, acusado de fazer corpo mole nos treinamentos, Jair perdeu a posição no time – que seguia sem Valdomiro e Batista. Ao menos, a crise com o Príncipe Jajá não duraria muito. O meia estava de volta para a segunda rodada, contra o São Paulo de Rio Grande – e, desta vez, sem qualquer chance ao time do interior. Ênio Andrade resolveu escalar Falcão de centroavante para bagunçar a defesa adversária e, em 20 minutos, os colorados abriram dois gols de vantagem. Bira, Mário Sérgio e Jair balançaram as redes no triunfo por 3 a 0.

O momento mais difícil para o Internacional no Brasileirão de 1979 aconteceu logo em seguida. Na terceira rodada, os colorados apenas empataram com a Caldense. Após a viagem de ônibus até o sul de Minas, o forte calor pesou contra o time de Ênio Andrade e o empate por 1 a 1 prevaleceu. De volta a Porto Alegre, outro empate, desta vez no 0 a 0 com a Anapolina. Se os serviços prestados por Mauro Galvão mereciam destaque na zaga, Chico Spina recebia as críticas pelo péssimo rendimento no ataque. Por fim, o terceiro empate consecutivo veio no reencontro com o Atlético Paranaense em Curitiba, outro 0 a 0. Se havia uma notícia positiva, era o retorno de Valdomiro, numa surpreendente recuperação quatro meses após sua cirurgia.

Em tempos nos quais a vitória valia dois pontos, o excesso de empates do Inter não prejudicava tanto. Ainda assim, era importante que os colorados redescobrissem o caminho aos triunfos, em confrontos diretos com a Desportiva e a Inter de Limeira durante as rodadas finais da segunda fase. O time de Ênio Andrade correspondeu, com resultados maiúsculos para confirmar a liderança do grupo.

Dentro do Beira-Rio, o Internacional goleou a Desportiva por 4 a 0. Aquela partida ficaria marcada pela lesão de Zé Rios, lateral dos capixabas, que se chocou dentro da área com Bira e sofreu um traumatismo craniano, encaminhado ao hospital e operado ainda durante a partida. Mais preocupados com o estado de saúde do companheiro, os visitantes não conseguiram segurar os colorados, sobretudo no segundo tempo. Bira, que abrira o placar antes do fatídico lance, completou sua tripleta depois do intervalo, quando Batista também deixou o seu ao encobrir o goleiro. A situação de Zé Rios, de qualquer maneira, era muitos mais importante às manchetes do que a vitória.

Pela primeira vez, Ênio Andrade escalou o Internacional “completo” no Brasileirão de 1979. Batista retomou a posição, recuperado de lesão. Além disso, Valdomiro foi outro destaque do time por suas contribuições ofensivas. O 11 inicial seria o mesmo que se tornaria célebre na reta final da campanha, com: Benítez, João Carlos, Mauro Galvão, Mauro Pastor e Cláudio Mineiro; Batista, Falcão, Jair e Mário Sérgio; Valdomiro e Bira. Além do mais, a presença de todos os titulares permitiu aos colorados aprimorarem o trabalho de seu meio-campo, o grande trunfo daquele grupo.

Batista, encarregado da contenção, era o primeiro homem no meio-campo e dava qualidade na saída. Era criticado por não se exibir tão bem no clube quanto se via na seleção, mas cresceria durante aquele torneio. Ao seu lado, Falcão tinha liberdade para flutuar por todo o campo e atravessava a melhor fase técnica da carreira. Jair caía pela meia direita, participando da armação e contribuindo com sua qualidade nos arremates. Já pela esquerda, Mario Sérgio era um ponta apenas na teoria. O craque aproveitava a sua habilidade para centralizar e ditar o ritmo, o que abria o corredor aos avanços de Cláudio Mineiro na lateral.

Até por não fazer o “trabalho clássico” na posição e por não ser tão veloz, Mário Sérgio chegou a ser vaiado pela torcida – inclusive contra a Desportiva, quando quis deixar a equipe durante o intervalo, mas acabou respaldado pelos companheiros. Todavia, seu talento preponderou e o meia não demoraria a cair nas graças dos colorados. Mais à frente, Valdomiro era um ponta direita que transitava ao meio para se somar como segundo atacante ou para trocar de posição com Príncipe Jajá, enquanto Bira permanecia como um homem de referência de entrega para abrir espaços, sobretudo ao se movimentar pela esquerda. Era este o timaço.

Contra a Inter de Limeira, o Internacional confirmou a primeira colocação em seu grupo. Ênio Andrade pôde repetir a escalação e os colorados conquistaram o triunfo por 1 a 0 no interior paulista, com um gol de Valdomiro. Seriam os únicos representantes do Rio Grande do Sul na sequência do torneio, já que o Grêmio decepcionou em sua chave. Os tricolores não conseguiram competir com o Flamengo e, na briga pela segunda colocação, acabaram superados pelo XV de Piracicaba nos critérios de desempate. O favoritismo atribuído pelo título do Gauchão não significou tanto aos gremistas no nacional.

O clássico nacional e mais confusão

O regulamento maluco do Brasileirão de 1979 criava um gargalo ainda maior na terceira fase. Os 16 sobreviventes foram divididos em quatro grupos de quatro equipes. Enfrentariam-se em turno único, no qual apenas o líder carimbaria sua vaga nas semifinais. A tarefa árdua do Internacional se resumiria contra Goiás, Cruzeiro e Atlético Mineiro. A rivalidade criada com os celestes ao longo dos anos 1970 ganharia mais um capítulo.

Antes de pensar no Cruzeiro, o Internacional encarou o Goiás. Diante de 35 mil torcedores no Beira-Rio, Mário Sérgio rechaçou qualquer desconfiança sobre o seu futebol. No último lance do primeiro tempo, o meia esquerda garantiu a vitória por 1 a 0. Cláudio Mineiro recebeu de Bira e cruzou para o meia concluir o cruzamento. Com o controle do duelo, o time de Ênio Andrade perdeu boas chances para ampliar a diferença. Já nos minutos finais, os esmeraldinos botaram pressão e poderiam ter empatado. O resultado dava tranquilidade aos colorados, após o empate sem gols entre Cruzeiro e Atlético Mineiro, no clássico realizado no Mineirão.

A visita ao Cruzeiro aconteceu na segunda rodada. Ao longo dos anos anteriores, os celestes representaram o grande desafio ao Internacional. Por mais que o título no Brasileirão de 1975 tenha ficado com os gaúchos, os mineiros se deram melhor na Libertadores de 1976. E existiam resquícios daquele passado, por mais que a Raposa tivesse mudado. Nelinho e Joãozinho eram os grandes representantes dos anos dourados cruzeirenses. Um primeiro tempo impecável dentro do Mineirão, porém, determinou a classificação do time de Ênio Andrade.

A situação do Inter não era das melhores. Batista, Falcão e Valdomiro estavam levemente contundidos, mas foram para o sacrifício. Já a grande figura da noite seria o lateral João Carlos. Além de segurar Joãozinho, um dos melhores pontas do Brasil, ele também contribuiu ofensivamente para a vitória por 3 a 2, calando os 58 mil presentes no Mineirão. O primeiro gol, aos 28 minutos, nasceu de um avanço de João Carlos. O defensor recebeu de Jair e cruzou na medida para Falcão bater de primeira. Joãozinho até empatou cinco minutos depois, em chute prensado. Mas, antes do intervalo, Bira e Valdomiro (num lindo chute de trivela) encaminharam o resultado. Alexandre até descontou aos 43 do segundo tempo, o que de nada adiantou à Raposa.

E o Internacional se beneficiaria de um imbróglio que definiu a chave. Como os jogos eram em turno único, cada equipe faria uma ou duas partidas dentro de sua casa. O Atlético Mineiro recebeu o Cruzeiro como mandante, mas encararia Goiás e Inter como visitante. O Galo pediu para que sua tabela fosse alterada, alegando que o clássico acontecera em campo neutro com arquibancadas divididas, o que não teve apelo junto à CBD. Com a mudança negada, os atleticanos preferiram se retirar do Brasileirão e sequer encerrar a sua participação. O Goiás ganhou os dois pontos na segunda rodada, assim como ocorreu com o Inter em sua terceira partida. O time de Ênio Andrade teve tempo para descansar e se recuperar de suas limitações.

As outras chaves passaram ilesas desse tipo de problema. O Coritiba, sob as ordens de Tim, superou Vitória e Guarani para alcançar as semifinais. O mesmo faria o Vasco, em chave na qual o Operário foi seu principal concorrente. Já a badalação ficava ao redor do Palmeiras, que terminou na liderança do quadrangular que também reunia o Flamengo. Os rubro-negros atravessavam excelente momento no futebol carioca, emendando o tricampeonato estadual naquele período. Por isso mesmo, tornou-se tão emblemática a goleada dos alviverdes dentro do Maracanã, por 4 a 1, no embate que definiu o classificado. Foram três gols apenas no segundo tempo, em resultado que dava certos ares de favorito ao time treinado por Telê Santana, de futebol ofensivo. Os palestrinos estariam no caminho do Inter.

Falcão ou Mococa?

Às vésperas do primeiro jogo contra o Palmeiras na semifinal, Ênio Andrade elogiava a evolução do Internacional. “Tem muito pouco a ver com a equipe que encontrei em setembro, quando assumi. Eram jogadores abatidos, derrotados e viviam num clima de concorrência negativa. Finalmente o Inter se definiu como time, porque antes ninguém sabia quem era titular ou reserva”, comentou o treinador, ao Jornal do Brasil. Os especialistas também elogiavam a preparação física realizada por Gilberto Tim. Apesar da maratona de jogos naquele final de temporada e do departamento médico sempre ocupado, os colorados sobravam dentro de campo contra a maioria dos adversários.

E se havia um antídoto para brecar a ótima fase do Palmeiras de Telê Santana, ele se chamava Paulo Roberto Falcão. O meio-campista exibia um futebol magnífico e decisivo ao Internacional, também por seus gols. O astro, inclusive, encabeçaria a grande anedota ao redor daquela semifinal. Antes do primeiro jogo em São Paulo, o Jornal da Tarde (que tinha em sua equipe o célebre palmeirense Roberto Avallone) resolveu apimentar o clima e soltou a pergunta: “Falcão ou Mococa?”. Mococa, volante alviverde de 21 anos, vivia uma franca ascensão. Contudo, o duelo no Morumbi serviu para botar as coisas em seu devido lugar.

Além de Mococa, o Palmeiras de Telê Santana tinha jogadores de primeira grandeza no período, que chegaram a passar inclusive pela seleção brasileira. Polozzi, Pedrinho, Jorginho Putinatti, Rosemiro e Baroninho representavam a força dos alviverdes. Já no setor ofensivo, Jorge Mendonça era grande ídolo. Do outro lado, Ênio Andrade pôde repetir a escalação do Internacional pelo quinto compromisso seguido. Seu discurso mantinha a cautela, declarando que o empate era bom negócio.

Nos vestiários, seu Ênio usou a manchete do Jornal da Tarde para mexer com os brios de Falcão. Funcionou. O craque realizou uma de suas partidas mais fantásticas na enorme história que construiu pelo Internacional. Mas não seria uma noite simples, de qualquer maneira. Os colorados venceram por 3 a 2, em peleja na qual precisaram buscar a desvantagem no placar duas vezes. Falcão buscou.

A Folha de S. Paulo definiu aquela partida como “eletrizante”. O Palmeiras começou com a iniciativa e seus atacantes se apresentavam ao jogo, mas logo o Internacional conseguiria bloquear o meio-campo e se mostrar mais organizado. O primeiro gol saiu aos 34 minutos. Jorge Mendonça cruzou, o goleiro Benítez rebateu e Baroninho deixou os alviverdes em vantagem ao aproveitar o rebote. Já a reação colorada veio com um reinício intenso no segundo tempo, até que o empate acontecesse aos cinco minutos. Jair arriscou de longe, a bola fez a curva e quicou no gramado, antes de enganar o goleiro Gilmar. Nada que amedrontasse os palmeirenses, que retomaram a dianteira aos dez. Jorge Mendonça recebeu, fintou Mauro Galvão e bateu no canto de Benítez.

O show de Falcão se desencadearia depois disso, a partir dos 19. O novo empate nasceu graças ao oportunismo de Falcão e à liberdade concedida para o meio-campista se mandar ao ataque. Dentro da área, ele apareceu para fuzilar de cabeça e vencer Benítez. O craque deixou o Palmeiras nas cordas e terminaria de fazer o serviço aos 25. Cruzamento de Cláudio Mineiro, Valdomiro brigou na área e o rebote ficou para Falcão pegar na veia, determinando a virada. No fim, o Palmeiras de Telê bem que tentou. Pressionou e buscou a igualdade. Parou na solidez defensiva dos colorados e nas grandes defesas de Benítez, outro protagonista do triunfo. “Falcão, é claro”, diria a arrependida manchete do Jornal da Tarde no dia seguinte, sobre a comparação com Mococa.

“O que posso dizer é somente ‘parabéns ao Palmeiras’, porque fizemos o melhor jogo deste Campeonato Brasileiro. Foi sensacional e, repito, o Palmeiras está de parabéns pelo futebol que jogou. Nossa vitória foi bastante valorizada”, comentou Falcão, na saída do Morumbi, à Folha. “Acho que o Inter está nesta posição com justiça. Estamos disputando o campeonato desde o início, enquanto as equipes cariocas e paulistas tiveram um desgaste bem menor. Se Deus quiser, vamos conseguir a classificação e vamos decidir o título mais uma vez no Beira-Rio”.

Apesar da excelente vantagem do empate, o Internacional sabia que o Palmeiras tinha condições de reverter a situação no Beira-Rio. A goleada por 4 a 1 sobre o Flamengo na fase anterior servia de alerta. E o time de Telê Santana acabaria reforçado pelo atacante César, recuperado de lesão. Ênio Andrade admitia os cuidados com os visitantes e prometia a mesma postura vista no Morumbi. Apesar de uma contusão no joelho, Mauro Pastor foi para campo e a escalação colorada estava repetida.

O empate por 1 a 1 no Beira-Rio, diante de 69 mil torcedores, guardou uma atuação incansável de Jair e Falcão no meio-campo. O Príncipe Jajá, outrora acusado de não se esforçar nos treinamentos, fez uma partida total no ataque e na defesa. Armou o Internacional, participou das jogadas mais perigosas e também se entregou na marcação. Enquanto isso, Falcão deixava de lado qualquer possível estrelismo para travar batalhas no meio-campo, com muita combatividade. Jogou no limite, ao sentir uma antiga lesão na clavícula e também ao sofrer um choque no joelho durante o primeiro tempo.

No ritmo de Falcão e Jair, o Internacional desperdiçou uma série de boas chances durante o primeiro tempo. O Palmeiras não era tão constante, mas levou muito perigo em uma cobrança de falta de Jorge Mendonça, que estalou a trave. No entanto, a classificação colorada seria encaminhada aos quatro minutos do segundo tempo. Cláudio Mineiro cruzou, Adilson (que entrara no lugar do lesionado Valdomiro) brigou no alto, Bira inteligentemente ajeitou a bola e Jajá acertou uma pancada da entrada da área, sem chances a Gilmar. O Palmeiras empatou na sequência, em bola que passou por todo mundo e Mococa, justo ele, completou na área. Os paulistas tiveram três oportunidades de virar e não passaram por Benítez. Ainda assim, empurrado por sua torcida, o Inter obteve mais sucesso em sua estratégias. Explorando os contragolpes, os gaúchos foram superiores na reta final e celebraram a classificação.

“Eu gostei do Inter, é realmente uma equipe competitiva, com excelentes jogadores e que é muito difícil de ser batida. Tem um futebol de passes rápidos, saindo também com rapidez da defesa para o ataque. Então, deve-se reconhecer que são poucas as equipes do nosso futebol que apresentam essa disposição, essa vitalidade e rapidez. O futebol brasileiro ganha muito com a troca de violência, do desrespeito, pelo toque de bola rápido e objetivo, pelo futebol bonito e característico que sempre tivemos de melhor”, analisou Telê Santana, após a derrota alviverde.

Ênio Andrade, por outro lado, não escondia sua emoção: “Inicialmente, minha meta foi incentivar os jogadores para formar uma verdadeira equipe. Não de estrelas, mas de jogadores bem entrosados e que se entendessem dentro e fora de campo. A resposta veio agora, com a perspectiva de conquistarmos mais um título brasileiro, que será o terceiro do Internacional. Se o Inter tivesse jogado na retranca, jamais venceria o Palmeiras, inclusive porque não sabe se utilizar só de contra-ataques. Nossa tática exigiu muita sensibilidade, porque os jogadores também devem saber como solucionar os problemas surgidos durante a partida”.

O grito de campeão (invicto)

A decisão do Campeonato Brasileiro de 1979 guardou um duelo de invictos. Assim como o Palmeiras, o Vasco estava mais descansado e disputou menos partidas que o Internacional pela competição. Os cruzmaltinos, sob as ordens do experiente Oto Glória, mantinham uma boa sequência – com oito vitórias em 12 partidas. Mereciam respeito pelas grandes campanhas recentes, apesar das quedas recorrentes em decisões.

“O Vasco vai ser mais duro que o Palmeiras. Porque eles têm um time guerreiro, como o nosso. E é jogo de decisão, né? Em partida final, há muito nervosismo e tudo pode acontecer. O clima emocional chega a ser violento. Mesmo assim, estou confiante. Temos time para chegar lá. E, se chegarmos, vou vibrar mais do que em 75 e 76. Naqueles anos, o Inter era favorito, não houve surpresa. Agora, é um time desacreditado dando a volta por cima”, vacinava Falcão.

Roberto Dinamite era a grande figura do Vasco, no comando do setor ofensivo. Ainda assim, o elenco contava com outros jogadores de alto nível, a começar pelo goleiro Emerson Leão. O lateral Orlando Lelé destacava-se na linha de zaga, enquanto o meio-campo tinha Zé Mário e Guina à disposição. Equipe forte, que causava preocupação a um Internacional desfalcado para o primeiro duelo no Maracanã. Falcão terminou poupado pelas lesões na clavícula e no joelho, enquanto os problemas no tornozelo também tiraram Valdomiro de combate.

A aposta para lugar de Falcão no meio-campo seria Valdir Lima – mais ofensivo que o jovem Toninho, outro cotado ao posto. O meio-campista contratado durante o Brasileiro havia sido justamente o carrasco dos colorados no Gauchão, quando vestia a camisa do São Paulo de Rio Grande. Impressionou tanto que terminou levado ao Beira-Rio. Já na ponta, Chico Spina voltava ao time, apesar dos testes realizados com Mário no setor e da possibilidade de utilizar Adilson mais recuado.

Chico Spina lidava com as críticas da torcida e chegou a chorar dentro de campo no jogo contra o Sport, quando ia ser sacado por Ênio Andrade diante da atuação ruim. Durante a competição, ante sua falta de rendimento e a lesão de Valdomiro, a diretoria cogitou chamar de volta Mica, que estava emprestado ao Juventus da Mooca. Esforçado, Spina seguiu em frente. Costumava oscilar muito em suas aparições, entre jogos decisivos e péssimas jornadas. Diante do Maracanã lotado, ao menos, a sorte sorriu. Nascido em família colorada e contratado pelo clube em 1978, Spina se tornaria o inesperado herói do Inter.

Antes da partida, Falcão deu uma contribuição importante para os substitutos, mesmo sem viajar ao Rio de Janeiro. O capitão pediu à diretoria do Internacional que acertasse, ao menos verbalmente, a renovação de contrato com ambos os jogadores. Valdir e Chico estavam com seus vínculos próximos do final e a atitude do meio-campista garantiu muito mais confiança para que eles pudessem se mostrar em campo.

A grande ameaça ao Internacional se concentrava em Roberto Dinamite. O artilheiro cruzmaltino vinha apresentando um futebol diferente naquele momento, ao recuar mais para armar o jogo. Além disso, o craque confiava em seu histórico de sempre balançar as redes contra os colorados. Por isso mesmo, Ênio Andrade preferiu dedicar atenção redobrada sobre Roberto. Batista acabou destacado para cuidar do atacante. Cumpriu a missão, dando sequência ao futebol eficiente que exibia durante aquela escalada decisiva no Campeonato Brasileiro.

Diante de 58 mil no Maracanã, o Internacional apresentou um futebol seguro e conquistou a vitória por 2 a 0. Os colorados controlaram o Vasco na defesa e atacaram com velocidade. Encaixotado, Roberto Dinamite dependia basicamente dos cruzamentos para tentar algo no ataque. Apesar das chegadas constantes durante o primeiro tempo, os cariocas tinham dificuldades para finalizar e Benítez só precisou realizar uma defesa difícil, em chute à queima-roupa de Catinha. Enquanto isso, os coadjuvantes do Inter maltratavam a defesa cruzmaltina com suas arrancadas. Chico Spina se encarregou de anotar os dois gols.

O primeiro tento saiu aos 28 minutos, em uma jogadaça do Internacional. Começou com Mário Sérgio, que achou um ótimo passe entre os marcadores. Valdir Lima recebeu e deu a enfiada de bola para Chico Spina. O ponta, no mano a mano com o marcador, entortou Paulo César e mandou a bola na gaveta de Leão. Pintura. Antes do intervalo, Leão barraria Bira com os pés. Entretanto, o Inter definiu o resultado aos dez minutos do segundo tempo. Em bola rifada na entrada da área, Chico Spina armou o contra-ataque. Ganhou a disputa no meio-campo e driblou o primeiro adversário, antes de ligar a aceleração máxima. O atacante tabelou com Bira e, de frente com Leão, mandou no contrapé.

O Vasco pressionou no fim, mas Benítez realizaria milagres para evitar qualquer risco. Além disso, os cariocas também reclamaram de um pênalti não marcado sobre Roberto. “Poucos esperavam que o Internacional fosse capaz de derrotar o Vasco no Maracanã, quando o empate bastava. Acontece que nosso time, como já afirmei diversas vezes, não sabe jogar na retranca. É verdade que se defende em bloco, mas está sempre buscando o gol, como o resultado demonstra”, comentou Ênio Andrade, após a vitória.

Um clima festivo tomava Porto Alegre antes mesmo do reencontro com o Vasco, tamanha confiança sobre o momento do Internacional. Independentemente disso, o time se concentrava no trabalho de preparação ao segundo duelo da final. E a torcida ganharia outros motivos para sorrir. Melhor de suas lesões, Falcão voltou a ocupar um lugar no meio-campo. Já o ataque contava com o retorno de Valdomiro. Chico Spina, apesar do protagonismo na ida, não demonstrava vaidades. Compreendia o retorno do titular, símbolo colorado, e falava com respeito sobre o amigo. Bira, dúvida por uma torção, também foi confirmado de última hora.

Ênio Andrade, além do mais, não se contentava com a vantagem de poder perder por até dois gols de diferença. O treinador colorado prometia mais uma vitória: “Futebol, na minha maneira de ver, é criação, é jogado sempre para frente, com coragem e determinação. O fundamento do jogo é marcar gols. Não existe nada mais importante do que marcar gols. Assim eu pensava quando era jogador e é assim que procuro dirigir as equipes onde trabalho. Aqui no Inter existem jogadores de exceção dentro do futebol brasileiro, como o Batista e o Falcão. E a primeira condição fica cumprida: a criação. No mais, é demonstrar aos demais, que também são excelentes, a necessidade de jogar para frente, com determinação e coragem”. Assim se deu.

A façanha do campeão brasileiro invicto precisava mesmo ser coroada por uma vitória incontestável. Assim aconteceu no Beira-Rio, diante de 54 mil testemunhas, que viram o triunfo por 2 a 1 ficar barato à superioridade do Internacional naquela ensolarada tarde de domingo. Criando as melhores chances desde o primeiro tempo, o time de Ênio Andrade tinha problemas para superar Leão, com ótimas defesas. Todavia, o primeiro gol saiu aos 41 minutos. Mário Sérgio recuou ao campo de defesa e acertou um lançamento cirúrgico. Bira subiu no alto com dois adversários e deu uma casquinha de cabeça. Foi o suficiente para que Jair saísse de frente com Leão, sozinho. Em velocidade, o Príncipe Jajá driblou o goleiro e mandou às redes vazias.

Antes do intervalo, Falcão quase marcou de letra. E nem mesmo o intervalo esfriou o ímpeto dos colorados, que davam um banho de bola especialmente no meio-campo. Leão trabalhava bastante para evitar o desastre e Valdomiro chegou a carimbar a trave em cobrança de falta. Já o gol do título saiu aos 13. Após outro lançamento de Mário Sérgio, Cláudio Mineiro passou pela esquerda e cruzou rasteiro para Bira, que dividiu com Leão. A sobra ficou com Falcão, coroado como símbolo daquela campanha, rumo ao barbante. Chico Spina, que substituiu Valdomiro, poderia ter feito mais um. Cara a cara com Leão, bateu em cima do goleiro. Por fim, o Vasco descontou aos 39, em chute de longe de Wilsinho, que Benítez aceitou. Nada que estragasse o carnaval vermelho decretado no Beira-Rio.

O apito final rendeu uma invasão de campo, na qual a torcida ensandecida tomava o gramado. Os jogadores chegaram a correr para os vestiários, o que não adiantou muito, diante da presença de torcedores também por lá. Voltariam ao campo para receberem as faixas de tricampeões, assim como a taça. Falcão, presente em todos os três títulos nacionais, levantou o troféu e ampliou sua aura no Beira-Rio.

O Jornal do Brasil, no dia seguinte, colocava Falcão como o melhor em campo: “Mais uma vez, foi o grande nome do Inter, ao lado de Mário Sérgio. Tem um fôlego impressionante, o que lhe dá condições de disputar jogadas em todo o campo. Ele defende, arma e conclui com a mesma eficiência. Não foram poucas as vezes que recuou bolas para Benítez, saiu para receber a devolução por ambos os lados, lançou o ataque e ainda concluiu jogadas. Marcou um belo gol”.

Roberto Dinamite foi o único que ainda lutou no Vasco, mas terminou bem guardado pelo garoto Mauro Galvão, sem sentir o peso da ocasião. Aos 17 anos, o zagueiro recebeu a Bola de Prata, entre os melhores do campeonato. “Espero ganhar ainda muitos títulos, mas este será inesquecível. Sabe lá o que é entrar numa zaga com esta idade, jogar todas e ainda ser considerado o melhor da posição no Brasil? Cada jogo representava um desafio novo para mim. Era estreia no Mineirão, no Morumbi, no Maracanã. Foi mesmo muita emoção”, relatou, à Revista Placar.

Já Mário Sérgio, elogiado pela forma como cadenciou os colorados a partir do meio-campo, reiterou a força do conjunto: “Nós tivemos muita união de todo o grupo e isso foi decisivo. No próprio campeonato, tivemos uma baixa de rendimento, quando empatamos três partidas consecutivas. Sofremos vaias, fui acusado de ser ‘peladeiro’, mas ninguém baixou a cabeça. Tínhamos a consciência de nossa força, de nossa capacidade. E o resultado está aí. Somos tricampeões brasileiros”.

Suas palavras eram reforçadas por Ênio Andrade, que conquistava o primeiro de seus três títulos no Brasileirão, vencedor depois com Grêmio e Coritiba. “O momento é de muita alegria. Para mim, o título tem um significado individual e coletivo. Individual porque me dá status e me gratifica por todos os meus anos de trabalho. Mas as condições de ser o primeiro técnico gaúcho a conseguir o título brasileiro serve para provar a capacidade dos profissionais do Rio Grande do Sul”, ressaltou. “O conjunto foi aumentando e chegamos a um nível que nos deu a condição de conquistar o título. Além dos jogadores, não se pode esquecer o trabalho do Gilberto Tim, preparado físico, e de toda a diretoria, que foram decisivos”.

A história daquele Internacional não acabaria ali. Durante os primeiros meses de 1980, a equipe alcançou as semifinais do Campeonato Brasileiro e a decisão da Copa Libertadores. As campanhas não aumentaram a galeria de conquistas no Beira-Rio, é verdade, mas asseveraram a força do timaço dirigido por Ênio Andrade. O encanto se diluiria apenas depois, com o adeus de jogadores-chave naquele período – sobretudo Paulo Roberto Falcão, que aceitou a proposta para atuar no futebol italiano e virou o “Rei de Roma”. Seria o fim de uma era fantástica aos colorados, mas que permanece representando demais, mesmo quatro décadas depois.

Recomendações de leitura

O texto acima foi baseado em diversas fontes, sobretudo edições antigas de Zero Hora, Jornal do Brasil, Jornal dos Sports, Jornal da Tarde, Folha de S. Paulo e Placar. No entanto, ficam ainda outras sugestões complementares de leitura e de áudio, que auxiliaram no compilado acima.

– Meu Time de Botão: Interacional de 1979

– Revista Invicto 1979, de Felipe Prestes e Luis Eduardo Gomes

– Imortais do Futebol: Internacional 1979-1980

– Correio do Povo: A saga da terceira estrela