Há exatas quatro décadas, a casa de número 18 da via Vetulonia, uma das simpáticas ruazinhas da capital da Itália, ganhava um novo morador. Tratava-se da mais lendária das partes do clube que carrega o nome da maior cidade italiana vindo ao mundo. No dia 27 de setembro de 1976, nascia quem se tornaria um dos maiores símbolos do futebol. Quem passaria, sem fazer esforço algum, a maior parte de sua vida defendendo um único time. Quem abriria mão de salários ainda mais altos, fecharia os olhos para propostas financeiras tentadoras e abdicaria da possibilidade de ganhar muitos títulos para dedicar toda sua carreira a fazer o que seu coração grená e amarelo escuro o orientou desde sempre: amar a Roma. E de dentro do campo. Como, hoje em dia, nenhum outro jogador, em nenhum outro clube, é capaz de fazer. Como, talvez, nenhum mais fará. Há 40 anos, nascia Francesco Totti.

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Sem nem ter completado um ano de idade, Totti já tinha a bola como sua fiel escudeira. Por ter aprendido a andar muito cedo, não demorou muito até que estivesse dando bicudas e, posteriormente, correndo atrás da que hoje é o maior instrumento de seu trabalho. Ainda muito novo, o italiano começou a frequentar o Estádio Olímpico com seu tio, um dos fanáticos entre uma família majoritariamente romanista. Foi ali que começou a alimentar o sentimento que se transformaria em uma paixão impossível de ser calculada. E foi idolatrando Giuseppe Giannini, quem estampava um enorme poster que ficava acima da cabeceira de sua cama, que seu envolvimento com a Roma foi ganhando força e mudou de esfera. Totti já era um giallorosso, mas o que era de praxe em quase todos os seus sonhos se tornou seu maior desejo: ser como il Principe. Mal ele sabia que não seria apenas o sucessor de sua camisa no clube da capital.

Antes de chegar em Trigoria, no início da década de 90, o então garoto sonhador se limitava em jogar futebol com meninos mais velhos sob a areia de Torvaianica. Seu pai, Enzo, revelou publicamente certa vez que as outras crianças ficavam boquiabertas com tamanha facilidade e desenvoltura que tinha com a bola nos pés. Não tinha jeito: era hora de perseguir seu sonho. Com sete anos, Totti teve seu primeiro contato, de fato, com o esporte pelo qual já se encontrava apaixonado ao ingressar nos times de base do pequeno Fortitudo Luditor. Menos de dois anos depois, foi jogar no Smit Trastevere. Mas foi na mudança para o Lodigiani que o que há algum tempo morava na cabeça daquele menino começou a se substancializar.

Em 1989, os movimentos mágicos de Totti encantaram Gildo Giannini, pai de seu maior ídolo e olheiro da base da Roma. No entanto, já estava tudo pronto para que o garoto de então 13 anos fosse transferido para a Lazio, uma vez que o clube em que treinava havia prometido o jogador aos biancocelesti e estava prestes a assinar um acordo. Foi aí que aconteceu a reviravolta mais importante e significante da vida de Francesco, a qual fez com que seu rumo fosse caminho contrário a Formello. Diante dos assédios da Lazio, Milan e Juventus, Totti não hesitou, escutou seu coração e chegou aonde sempre quis estar: na Roma. Era, inclusive, só a primeira vez que ele seguiria o que está do lado esquerdo de seu peito.

“Vamos lá… coloque o garoto para jogar!”, ouviu Vujadin Boskov, treinador giallorosso, na tarde do dia 28 de março de 1993. Naquele dia, a Roma visitava o Brescia na reta final da Serie A de 1992/93. O conselho foi proferido por Sinisa Mihajlovic, dentro de campo, minutos depois do meia ter anotado seu próprio gol. Àquela altura, os visitantes venciam a partida por 2 a 0. Foi aí que, já exercendo sua liderança técnica, o sérvio motivou seu compatriota a tirar do banco aquele garoto dos cabelos dourados, o qual tinha apenas 16 anos nas costas e ainda não havia pisado dentro das quatro linhas como profissional. Mais do que a estreia de uma das crias das categorias de base, aquele momento marcou o início de uma história singular que sobrevive até hoje, mesmo continuando sendo grafada em um tempo que não é parelho às intenções de seu protagonista.

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De lá para cá, Totti ganhou sua primeira mountain bike (foi uma promessa de seu tio quando ele marcou seu primeiro gol com atuando pelo time principal da Roma) e a braçadeira de capitão com apenas 22 anos. Ajudou a levar a Itália ao quarto título mundial. Pisou nos gramados com a camisa grená e amarela escura por mais 604 vezes. Viu a bola sair de seus pés e encontrar o fundo das redes exatas 250 vezes só na Serie A. E, sobretudo, vem preenchendo os capítulos de sua narrativa pessoal há 23 anos. Ou seja, mais da metade de sua existência. Foi, também, responsável pela retomada da popularidade do chamado “falso 9”, quando, em 2005, deixou de ser o 10 tradicional (apesar da numeração da camisa) para ser atacante. Coincidentemente, a mudança confluiu com a melhor fase de sua carreira, na qual o romano foi vencedor da Chuteira de Ouro depois de ter marcado 26 gols como centroavante no campeonato italiano de 2006/07. Nenhum italiano ganhou o prêmio depois dele.

Esta é a 25ª temporada de Totti com a maglia giallorossa. Na passada, a impressão era de que lhe seria proporcionado um fim de carreira melancólico devido a alguns entraves com Luciano Spalletti. O que seria tremendamente injusto e triste. Isso sem contar que apesar da idade incomum para um jogador de futebol, sua competência dentro de campo e estatisticamente falando ainda é gigantesca. A média do capitano era de um gol a cada 51 minutos, algo brilhante levando em consideração sua não-titularidade desde lá. Porém, seu contrato foi renovado. E aí está Totti. Recebendo um salário inferior ao que recebia quando era o principal jogador do time, mas com a mesma efetividade e, principalmente, com o mesmo sentimento.

Ao todo, o maior ídolo da Roma soma cinco títulos desde que pisou em Trigoria. Talvez pouca coisa quando se olha para mais de duas décadas de dedicação a um único time, sendo este um dos mais tradicionais do país do Calcio. Mas a trajetória de Totti nunca foi sobre taças. O ponto mais alto de sua carreira fala sobre uma característica que nenhum outro atleta do futebol compartilha com o italiano: a da verdadeira identificação com um ideal, uma metrópole e um escudo. Fala sobre carregar a imagem da Roma e de Roma, a Cidade Eterna. Fala sobre não ter somente o reconhecimento e admiração dos giallorossi. Afinal, não tem como amar futebol e ser alheio à raridade que é Francesco Totti. Como ele pode até haver outro, mas não enquanto vivermos tempos em que cifras se sobressaem em um universo que deveria ser, acima de tudo, sobre emoções.