A canhotinha era abençoada. Quando Álvaro Recoba resolvia usar todo o dom que tinha na perna esquerda, poucos jogadores de sua época se equiparavam em habilidade. Ela servia para bater na bola com uma perfeição imensa. Para dar um lançamento preciso, colocar um chute no ângulo ou proporcionar uma cobrança falta mortal. Mas não parava nisso. A canhota do Chino também driblava, e muito. Tinha a capacidade de fazer a redonda dormir mansa, em um toque no domínio. E, em um jogo inspirado do meia, encantava. A falta de conquistas pesa contra. Contudo, quem se lembra das jogadas mágicas sabe a grandeza do uruguaio. Um talento nato, que completa 40 anos nesta quinta-feira.

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Olhando para trás, a carreira de Recoba possui lacunas. Afinal, apenas no Nacional é que ele conseguiu ser protagonista e ao mesmo tempo campeão, no começo e no fim da trajetória. Na Internazionale, por exemplo, as suas grandes atuações aconteceram em um longo período de seca. Quando os nerazzurri voltaram ao topo, o Chino já começava a sair de cena. E na seleção uruguaia viveu anos de entressafra, sem participar da conquista da Copa América de 1995 e se aposentando três anos antes do sucesso na África do Sul. No máximo, se contentou com a presença na Copa do Mundo de 2002.

Porém, basta ver os seus lances no começo da carreira, pelo Danubio, para perceber a qualidade do prodígio que havia ali. Os golaços que se seguiram no Nacional, com direito a obra digna de Maradona. E também aconteciam na Inter. Só que faltou algo para Recoba triunfar em seus melhores anos. Os lampejos decidiam partidas, mas não eram frequentes o suficiente para garantir campeonatos. Além disso, as lesões atrapalharam bastante. Assim, o tempo se passou, Chino rodou por diferentes clubes. Até o retorno ao Nacional. O grande fim que o meia merecia.

O nível do Campeonato Uruguaio pode ter caído bastante nas últimas décadas. Mas não diminui as atuações memoráveis que Recoba voltou a ter com a camisa do Nacional. Os golaços aos montes, incluindo cinco olímpicos. E os títulos, com quatro taças nacionais erguidas entre 2011 e 2015. Para os torcedores tricolores, Recoba se colocou como um ídolo incontestável. Principalmente depois da fantástica atuação contra o Peñarol em novembro de 2014. Sebastián Fernández empatou o jogo contra os carboneros aos 47 do segundo tempo. Já aos 50, a falta na entrada prenunciou a virada épica. Recoba mandou na gaveta, levando o Estádio Centenario à loucura. Tão marcante que o garoto Gastón Pereiro, seu companheiro e torcedor fanático do Bolso, tatuou o rosto do Chino comemorando em seu antebraço.

Em junho de 2015, Recoba deixou o Nacional erguendo taça. Sua volta aos gramados se ensaiou em alguns momentos, mas não aconteceu, e a aposentadoria acabou anunciada sem tantos alardes, em outubro. Já era suficiente por todas as alegrias que o uruguaio deu ao futebol. Se faltaram feitos maiores, sobrou magia. E, na memória de quem acompanhou a sua carreira, esses lances costumam reluzir mais do que prataria. Vale relembrar: