É quase que automático associar o futebol praticado na Itália nas últimas décadas à excelência na produção e transformação de defensores. Isso, porém, não expressa a falta de nomes de jogadores que foram e são letais atuando no último terço do campo. Hoje, talvez, as opções sejam mais exíguas, com Andrea Belotti sendo o grande destaque nesta linhagem de atacantes italianos. No entanto, até ano passado, havia três enormes pesadelos para as defesas adversárias atuando na Serie A: Francesco Totti, Antonio Di Natale e Luca Toni. O primeiro começou jogando como meia-atacante, mas o ponto alto de sua carreira foi quando atuou como ‘falso 9’. O segundo já era mais versátil na linha de frente, atuando de primeiro e segundo atacante e no meio do ataque também. Já o terceiro foi um bomber nato. Embora não fosse dos centroavantes mais técnicos e fosse taxado como caneleiro, Luca Toni, que completa 40 anos nesta sexta-feira, se movimentava muito bem para estar sempre no lugar certo, onde ele, oportunista do jeito que era, só fazia esperar a bola para dar o bote.

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Nascido na região da Emília-Romanha, Luca Toni começou a levar o papo de ser jogador de futebol a sério jogando em um clube local. Foi no Modena, que atualmente compete a Lega Pro, a terceira divisão italiana, onde ele assinou seu primeiro contrato profissional. Isso aconteceu porque ele passou três anos se destacando nas categorias de base, marcando um bocado de gols. Quando ele foi integrado ao time principal do Modena, o time havia acabado de cair para a então Serie C1, que é onde a equipe emiliana disputa campeonato nos dias atuais. Em sua primeira temporada como profissional, Luca Toni alcançou três gols em nove aparições, quando entrou para substituir os atacantes titulares do time. Uma média até que boa para um garoto de 17 anos em uma equipe instável, que vivia flutuando entre as divisões inferiores do Calcio. Na campanha seguinte do Modena, com a troca de treinador, ele teve mais oportunidades e ganhou mais minutos em campo, mas, em compensação, sua média de gols por jogo despencou: foram apenas cinco tentos em 25 partidas.

Ao fim dessa temporada abaixo do esperado, o clube emiliano decidiu negociá-lo com o Empoli, onde jogou a Serie B pela primeira vez. Suas chances no time titular, no entanto, foram pouquíssimas para que Luca Toni pudesse mostrar seu faro de gol apurado. Ele sequer completou cinco jogos na temporada 1996/97 com a camisa azzurra, e acabou não tendo tempo e nem espaço para balançar as redes nos anos seguintes, já que foi vendido ao Fiorenzuola para disputar a temporada 1997/98. Novamente na Serie C1, seu aproveitamento no novo clube foi muito semelhante ao de sua última época no Modena, e, mais uma vez, Luca Toni foi lançado ao mercado, assinando com o Lodigiani. Sumamente, sua peregrinação até a elite do futebol italiano perdurou cerca de cinco anos, e ali já dava para ver seus traços nômade, com ele vestindo cinco uniformes diferentes ao longo desse período. Até que, em 2000/01, o Vicenza decidiu reforçar seu elenco para voltar a jogar a Serie A. Luca Toni foi uma das apostas, tendo feito duas boas temporadas no Lodigiani e no Treviso.

A temporada de estreia do atacante na Serie A até que teve um saldo bastante satisfatório, ainda que a sina do Vicenza tenha sido retornar à Serie B. Luca Toni foi artilheiro do time em 2000/01 e depois foi para o Brescia, onde igualou seu recorde do Modena de ter ficado em um lugar por mais de um ano. Mas sua melhor passagem durante esse tempo foi pelo Palermo. Lá, ele jogou primeiro a segunda, depois a primeira divisão. Suas estatísticas na Serie B com a maglia rosanera foram impressionantes, e as colocaram no topo da artilharia de outra equipe. Dessa vez, porém, ele também foi o maior marcador do campeonato, com 30 gols e a prenda pelo seu olfato: o título da segunda divisão. Na Serie A, ele manteve seu instinto destrutivo dentro da área anotando 20 tentos. E sua média continuou basicamente a mesma, fantástica, já que ele fez menos jogos nessa temporada do que na anterior.

A fase era excelente para Toni, que não via limites ou embaraços para não mandar a bola para o fundo da rede mais. Mas ainda faltava algo. Embora tenha atraído os holofotes como nunca no Palermo e conquistado o carinho e admiração dos torcedores, faltava ele ter uma identificação maior com algum clube. Ele já estava quase beirando os 30 anos e, por conta de sua carreira de andarilho, nunca tinha sentido o gosto de ser ídolo, aclamado e extremamente amado pela torcida, de pertencer a algum lugar. Isso ele conseguiu na Fiorentina, clube que o recorda como um dos maiores jogadores que passaram por lá. Foram, ao todo, três temporadas na Viola. Em 2005/06, com o status de estrela pelas campanhas no Palermo e por já somar convocações e gols pela seleção italiana, Toni foi comprado pela equipe de Florença por 18 milhões de euros, montante que ele fez valer cada centavo com seus incríveis 31 gols em 38 jogos. Quando a Fiorentina entrava em campo, um roteiro que envolvia ao menos um gol de Luca Toni era seguido, e quase nenhum oponente pôde evitar isso.

É curioso que na Azzurra, particularmente, parecia que Toni marcava seus adversários. Dos 16 tentos que ele marcou representando seu país, três foram em cima de Belarus, nas Eliminatórias para a Copa do Mundo de 2006, três sobre a Ucrânia, na Copa que a Itália levou o tetracampeonato e nas Eliminatórias para a Eurocopa de 2008, e três na Escócia, também na fase antecedente à Europa que a Espanha foi campeã. Os dois gols na Copa do Mundo de 2006 foram nas quartas de final da competição, e foi graças a Toni que a classificação foi selada, com o centroavante ampliando e fechando o placar para os azzurri, e, mais para frente, comemorando o título mais cobiçado do futebol de seleções.

Depois das primeiras passagens na Fiorentina, o emiliano foi jogar a Bundesliga, primeira vez que atuou fora da Itália. E lá ele sobrou. Toni foi artilheiro do Campeonato Alemão (foi, também, o terceiro italiano a atingir essa posição em uma liga estrangeira) logo na primeira de suas três temporadas pelo Bayern de Munique, onde ele gastou a bola até ser rebaixado ao time B por entraves com Van Gaal. Antes de jogar em um outro campeonato senão o italiano novamente, ele vestiu ainda a camisa da Roma (5 gols em 17 jogos), Genoa (7 gols em 18 jogos) e Juventus (2 gols em 15 jogos), exatamente nessa ordem. Em meia temporada no Al-Nasr, dos Emirados Árabes Unidos, Toni contribuiu pouco para o sucesso do time, com números inexpressivos e a idade já avançada. Ele, porém, foi esperto acima de tudo por não ter encerrado sua carreira naquele momento. Ao contrário, ele voltou ao lugar que melhor o recebeu ao longo de sua carreira: a Fiorentina. E mesmo que não tenha mexido no placar tantas vezes com na primeira passagem, Toni atingiu uma média de gols superior às conquistadas na Juventus, Roma, Genoa e Al-Nasr.

Se negando a parar de jogar bola aos 36 anos, o emiliano tinha na cabeça que ainda dava caldo por mais um tempo. E não é que ele estava certo? Como ele guiou o fim de sua trajetória foi espetacular, ativando um sentimento de volta por cima e de ressurgimento no cenário italiano. O Hellas Verona o contratou em 2013/14 e não se arrependeu nem um pouco disso, já que ele se tornou, em três temporadas, o maior artilheiro da história da equipe de Veneto na Serie A, com 50 gols. Em 2015, nove anos após ter sido principal marcador do Campeonato Italiano, ele voltou a liderar a artilharia. E aos 38 anos! Depois do fim da temporada 2015/16, Toni anunciou sua aposentadoria em função de lesões e alguns entraves com Luigi Delneri, treinador do Verona. Ao longo de sua carreira, ele não foi o centroavante mais ágil, mais técnico, mais talentoso e muito menos o mais vitorioso. Mas marcou época e é símbolo de uma geração de atacantes do país da bota.

Relembre alguns de seus mais de 300 gols marcados com 16 camisas diferentes (contando a da Azzurra):


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