É impossível se contar a história do Alianza Lima sem mencionar o episódio ocorrido em 8 de dezembro de 1987. Há uma ferida ainda aberta no peito de todos os aliancistas quando se lembram do acidente com o Fokker F-27, pertencente à Marinha, que deixou 43 mortos no Oceano Pacífico. O elenco retornava de um jogo contra o Deportivo Pucallpa, pelo Campeonato Peruano, quando o desastre aéreo aconteceu, já nas proximidades do aeroporto de Lima. Dizimou as vidas de 16 jogadores, seis membros da comissão técnica, quatro auxiliares, oito torcedores, três árbitros e seis tripulantes. O único sobrevivente foi justamente o piloto, Edilberto Villar Molina.

Trinta anos depois, é impossível saber certamente o que aconteceu com o Fokker F-27 que levava o Alianza Lima e se despedaçou no mar. A explicação inicialmente dada afirma que uma falha nos equipamentos da aeronave impediu o pouso e ela perdeu altitude até se chocar com o oceano. Quase vinte anos depois, em 2006, uma investigação feita por um programa jornalístico local teve acesso aos documentos da Marinha, que apontavam a culpa do piloto, inexperiente demais e que teria cometido diversas falhas no procedimento de pouso, inclusive ao não perceber a perda de altitude que culminou no desastre. Entretanto, a falta de esclarecimentos pelas autoridades (em uma época na qual os episódios de terrorismo no Peru eram constantes, e temia-se que a população se voltasse contra as forças armadas) permite diversas teorias da conspiração.

A principal delas afirma que o avião, sequestrado, vinha carregado de cocaína e teria sido abatido pela Marinha. Há mesmo quem diga que alguns corpos estavam baleados, o que seria um indício do ataque feito pelos fuzileiros navais. Outra versão aponta que o piloto teria ficado em Pucallpa e, diante da inexperiência do copiloto, o acidente acontecera. É o que explicaria ele ter sido justamente o único sobrevivente, em uma cena possivelmente forjada pela Marinha. Em seu depoimento, Villar Molina ainda afirmou que teria conversado por no mar com o jogador Alfredo Tomasini, até que ele não tivesse mais forças e se perdesse no oceano. Desde então, surgiram histórias de que o atacante teria sido encontrado vivo em outros cantos do Peru e do mundo, já que seu corpo foi um dos únicos não encontrados nas buscas.

Outros fatos ainda servem para suscitar as suspeitas. A caixa preta nunca foi encontrada. A Marinha teria demorado para iniciar o resgate, mesmo com o contato constante do piloto com a torre de comando do aeroporto. Os familiares teriam sido impedidos de ajudar nas buscas com suas próprias embarcações. E, até hoje, trinta anos depois, nenhum veículo de imprensa conseguiu conversar com o piloto Villar Molina, protegido em anonimato no exterior pelas forças armadas. Seu paradeiro atualmente é desconhecido.

Mas, independentemente das lendas, fato é que a tragédia com o Alianza Lima alijou o futebol peruano de alguns nomes históricos. O treinador daquele time era Marcos Calderón, considerado ainda hoje como o melhor técnico da história do país. E não sem motivos, por mais que seu currículo tenha sido interrompido aos 59 anos. “El Oso” havia dirigido a seleção nacional na conquista da Copa América de 1975, além de ter participado da controversa campanha na Copa do Mundo de 1978. Aprimorou um time de muita qualidade técnica e repleto de grandes jogadores. Além disso, conseguiu se sagrar campeão peruano nada menos que em dez oportunidades, dirigindo os quatro maiores clubes da região metropolitana: Alianza, Universitario, Sporting Cristal e Sport Boys. Participou da Libertadores também dez vezes, por seis agremiações diferentes.

O goleiro daquele time repleto de jovens era o jogador mais tarimbado: José González Ganosa, conhecido como “Caíco”. Aos 33 anos, somava 20 partidas pela seleção. Tinha conquistado junto de Calderón a Copa América de 1975 e também compôs o elenco peruano presente na Copa do Mundo de 1982, a última do país até o retorno em 2018. O arqueiro de 33 anos, aliás, é o elo mais claro com a Blanquirroja atual. Caíco era tio de Paolo Guerrero, irmão da mãe do artilheiro. Tinha enorme carinho pelo sobrinho e, segundo pessoas próximas, era como um segundo pai. O garoto costumava entrar em campo com o veterano nos jogos do Alianza em Lima. O atacante estava às vésperas de completar quatro anos quando o acidente aconteceu.

Aquele Alianza Lima, além de tudo, deixa saudades pelo que não aconteceu. O avião carregava uma geração promissora de jovens jogadores, sete deles com passagens pela seleção peruana e que, segundo alguns, teria capacidade para manter o bom nível da Blanquirroja em busca das próximas Copas do Mundo. Eram lapidados por Didi, que dirigiu a equipe até a eliminação na Copa Libertadores de 1987. Uma das principais pérolas era Carlos Bustamante, meio-campista de boa qualidade técnica e visão de jogo. Foi o responsável pelo último gol dos aliancistas, na vitória sobre o Deportivo Pucallpa, e tinha 22 anos quando ocorreu o acidente. José Casanova, o “Pelé”, era outro bastante considerado pela torcida. Meia atlético e elegante, faleceu aos 23 anos. Ainda assim, os dois estavam abaixo das expectativas geradas pelo possante Luis Escobar.

Luis Antonio Escobar Aburto tinha 18 anos quando sua vida foi perdida na tragédia. O ‘Potrillo’ fez sua estreia profissional aos 14. Quando tinha 16, chegou a ser convocado por três categorias diferentes da seleção peruana, inclusive a principal. E era a esperança de levar não só o Alianza, como também a Blanquirroja, de volta às maiores glórias – costumeiramente apontado como o herdeiro de Teófilo Cubillas. Combinava potência física, habilidade e presença de área. Possuía um apreço especial a balançar as redes no clássico contra o Universitario, chegando a anotar duas vezes em uma goleada por 5 a 1 que, reza a lenda, culminou na aposentadoria do veterano Ramón Quiroga. Seu apelido de “potro” marcou toda aquela geração, cheia de jovens vindos da base. São lembrados como os ‘Potrillos do Alianza Lima’.

Quando a tragédia aconteceu, o Alianza Lima liderava o Campeonato Peruano após 18 rodadas. Mesmo perdendo o elenco praticamente completo, os aliancistas seguiram em frente na disputa. A principal solução foi subir alguns juvenis ao time principal, mas não só isso. Alguns veteranos que já tinham se aposentado, como Cubillas e o meia César Cueto, voltaram a calçar chuteiras para ajudar o clube. Além disso, o Colo-Colo se compadeceu da situação e foi capaz de um grande gesto ao emprestar quatro atletas aos peruanos – em laços de amizade que se mantém até hoje. Já o potrillo remanescente era Juan Reynoso, defensor de 17 anos, que havia participado da Copa América de 1987. Lesionado, o prodígio não havia viajado a Pucallpa. Permaneceu no Alianza até 1990, antes de fazer carreira principalmente no futebol mexicano. Defenderia a seleção em 84 partidas.

Mesmo com a equipe completamente reconstruída, o Alianza teve um desempenho digno no Campeonato Peruano. Para atenuar os impactos econômicos da tragédia, os 12 jogos restantes pelo Descentralizado foram realizados em Lima. E depois de terminar na segunda colocação do torneio, os aliancistas faturaram a liguilla, que os garantiu na Copa Libertadores de 1988. Na decisão do título nacional, porém, o Universitario derrotou seus maiores rivais por 1 a 0 e ficou com a taça. O Alianza, que amargava um jejum desde 1978, só voltaria a ter o gosto de levantar a taça em 1997, no maior jejum de sua história. Já o retorno à hegemonia aconteceu no início dos anos 2000.

No último final de semana, o Alianza Lima reconquistou o Campeonato Peruano depois de 11 anos. E, em dias nos quais as lembranças voltaram à tona, o capitão Leao Butrón dedicou o título à memória dos Potrillos. Já nesta sexta, o Estádio Matute se transformou no altar para uma missa em tributo aos 43 mortos. Uma dor que permanecerá latejando aos aliancistas e sobretudo aos familiares das vítimas por muito tempo.