O futebol (e a vida) são feitos de um emaranhado de possibilidades. Uma escolha muda a direção e reescreve toda uma história. Um momento e o caminho se condiciona. A mente humana, errante, ainda permite olhar para trás. Permite indagar a quantidade de “e se…” que transformariam a realidade. Uma bola que não entrou, um erro de arbitragem, a falta de centímetros ou segundos a mais. Fato é: se dentro de campo algumas alternativas martelam para sempre, elas acabam sendo mais cruéis fora dele. Mais cruéis quando constatamos esta estranha mania do mundo de, repentinamente, tirar a vida de jovens com um futuro brilhante pela frente. Você deve se lembrar de alguém assim no seu bairro, na sua família, na sua escola. No futebol, cru e exposto à multidão, são várias cabeças perguntando ao mesmo tempo “e se…”. Não são poucos que lamentam por Dener. São infinitas sinapses que trabalham arquitetando o que poderia ter sido e, por um instante fatal, não foi.

Porque Dener não é apenas uma juventude que se esvaiu em uma noite, em um acidente de carro ocorrido há exatos 25 anos. Dener não é só o seu brilhantismo e o seu futuro, expressos naqueles poucos (e já tão resplandescentes) anos que o futebol o deixou em evidência. Dener é também o sentimento que provocava, o encantamento, a fantasia. Dener era o emaranhado de possibilidades que seu futebol gerava no pensamento de quem o assistia. E, jovem ou não, quem se fascinou invariavelmente questiona muitos “e se…” que poderiam ter acontecido com o menino revelado pela Portuguesa. Talvez sejam superestimados pelo nosso querer. Talvez sejam endurecidos por aquilo que faltou se confirmar mesmo em vida.

Durante anos, a Trivela publicou uma seção chamada “e se…”, de vários textos excelentes mergulhando nos descaminhos da imaginação. Dener não permite, e não porque ele não garantiria uma boa história. Dener poderia render livros e mais livros. Do talento descomunal, pronto ao melhor que o futebol já viu, ao astro errático que logo cedo conviveu com os altos e baixos, que poderia ter feito mais naquele parco tempo. Estaria na Copa de 1994, algo tão improvável àquela altura? Vingaria no Stuttgart, para onde acertava sua transferência? Progrediria até o Bayern de Munique ou faria seu caminho em outra liga? Emplacaria como um fenômeno na Espanha? Seria protagonista em 1998? Ou se tornaria uma referência em 2002? Qual outras camisas brasileiras vestiria? Até onde as escolhas frágeis o barrariam? Até onde a habilidade o levaria? O mundo, enfim, descobriria aquilo que se expressou tão precocemente? Perguntas, muitas. Todas no futuro do pretérito, dolorosamente.

No entanto, se a história deixa um vácuo ao que Dener seria, permite também relembrar o que Dener foi. Sobretudo no pretérito perfeito de seu futebol, nos lances em que não permitia quebras no tempo, no verbo puro de seus dribles. E, desta forma, as sinapses também trabalham incansavelmente. Não porque há muitos vídeos a ver, muitos fatos consumados, muitos títulos, muitas jogadas magníficas. São poucas amostras, na realidade. Mas é que o talento de Dener não se permite ser apreciado em apenas um instante. Paradoxalmente às suas arrancadas fulminantes, ele precisa ser degustado. Mesmo 25 anos depois de ser interrompido, há uma chance contínua de se saborear o aperitivo que não se desgasta na hora de alimentar a imaginação.

Quem viu Dener pela primeira vez décadas atrás continua se impressionando com o que ele causou em seus melhores momentos. Quem viu Dener pela primeira vez décadas atrás continua querendo revê-lo, seja para reinterpretar seus dribles ou para voltar a experimentar o impacto de outrora. Quem não o viu, que se surpreenda. A tal magia do futebol não se esgota. Se o tempo foi insuficiente para o jovem construir tudo o que podia, ele já o permitiu deixar uma lembrança inoxidável. É esta a chave da eternidade, ainda que o fio rompido deixe uma grande névoa sobre aquilo que seria o futuro. Dener marcou seu nome, e esta é uma verdade absoluta. Refletiu em uma geração de outros garotos como ele, imparáveis ou não, mas igualmente sonhadores e que também provocaram seus sonhos através da bola.

Depois de 25 anos, podemos continuar dando asas aos nossos “e se…”. Ou então ocupar a mente revendo aquilo que deslumbra: o futebol tão repleto quanto fugaz de Dener.