A Itália demorou a engrenar na Copa do Mundo de 1994, embora constasse entre as favoritas desde o início. E um jogo para moldar a caminhada da Azzurra aconteceu em 23 de junho. A equipe enfrentou a Noruega e muitas outras dificuldades. Perdeu o expulso Pagliuca, abriu mão de Roberto Baggio, viu Baresi se lesionar. Ao final, o time manteve sua valentia para arrancar o triunfo por 1 a 0, que acabaria permitindo a passagem aos mata-matas. Um drama imenso, que evitou um desastre precoce aos italianos.

Até 17 de julho, resgataremos aqui na Trivela os jogos, as histórias e os personagens da Copa do Mundo de 1994, 25 anos depois. Confira o diário deste 23 de junho, baseado nos relatos da imprensa brasileira da época:

A Itália em xeque

Derrotada pela Irlanda na rodada inicial da Copa do Mundo, a Itália tinha problemas maiores para lidar antes do confronto com a Noruega. Alberigo Evani sofreu uma distensão e estava praticamente descartado ao Mundial. Roberto Baggio sentia dores no tornozelo. Além disso, Paolo Maldini e Giuseppe Signori também se tornavam dúvidas. “O meu time precisa ganhar sempre. E a Noruega tem uma seleção ainda mais forte do que a Irlanda. Creio, porém, que já aprendemos nossas lições. Com a Irlanda, pagamos o preço das más atuações de jogadores muito importantes”, apontou Arrigo Sacchi, à Folha. O comandante era cobrado para adotar uma postura mais ofensiva à equipe, especialmente pela falta de dinâmica do primeiro jogo.

Noruega, uma pedra no sapato

A Noruega, como se não bastasse, trazia péssimas lembranças à Itália. As duas seleções haviam se enfrentado poucos anos antes, nas eliminatórias da Euro 1992. E os pontos desperdiçados contra os escandinavos impediram os azzurri de avançar à fase final do torneio, superados pela União Soviética na chave. “Por minha causa, sete colegas perderam os seus empregos”, dizia o técnico Egil Olsen, em referência a Azeglio Vicini, demitido da seleção italiana após o fracasso. No comando da equipe a partir de 1990, Olsen havia trabalhado com 20 de seus 22 comandados ainda nas categorias de base da seleção norueguesa.

Itália 1×0 Noruega: O heroísmo do outro Baggio

Após os resultados da primeira rodada, a Noruega chegava ao Giants Stadium em uma situação bem mais amena. O empate praticamente classificaria os escandinavos à próxima fase da Copa do Mundo, depois de derrotarem o México na estreia. Enquanto isso, a Itália precisava de uma resposta contundente, considerando o potencial equilíbrio do Grupo E. Pois a Azzurra enfrentou uma de suas partidas mais dramáticas em Mundiais. A expulsão de Gianluca Pagliuca ainda no primeiro tempo dificultava as coisas e a substituição de Roberto Baggio para a entrada de Luca Marchegiani deixou o craque enraivecido. Arrigo Sacchi, ainda assim, assegurou os três pontos com a suada vitória por 1 a 0, cortesia de Dino Baggio.

A Itália seguia a cartilha do Milan de Sacchi. Com três milanistas na linha de zaga, o time fazia uma linha de impedimento para evitar as bolas longas da Noruega. Mas quando o forasteiro Antonio Benarrivo, do Parma, errou o movimento, deixou seu time sob sérios riscos. Oyvind Leonhardsen ia saindo na cara do gol e Pagliuca espalmou o chute do norueguês já fora da área. Falta e cartão vermelho ao goleiro, logo aos 21 minutos. Pior a Baggio, o escolhido por Sacchi para deixar o campo. O camisa 10 não estava nas melhores condições, mas ainda era o craque do time. Saiu visivelmente contrariado, para que Marchegiani ocupasse o gol.

Até aquele momento, a Itália insistia nos cruzamentos para superar a defesa da Noruega. Nicola Berti inclusive provocara um milagre do goleiro Erik Thorstvedt, aos 13. Contudo, o time sentiu a substituição e pouco produziu na sequência da etapa inicial. A sorte é que a Noruega tampouco ameaçava no ataque. Já no início do segundo tempo, as dificuldades aumentaram. Franco Baresi se lesionou logo nos primeiros minutos e, enquanto era atendido à beira do campo, Mini Jakobsen cabeceou uma bola perigosíssima por cima do travessão. O veterano seria substituído por Luigi Apolloni na sequência da partida.

Sem as suas duas referências técnicas, a Itália precisou demonstrar sua garra. E o gol saiu durante um momento de pressão da Azzurra, aos 24 minutos. Signori cobrou falta pela esquerda e Dino Baggio saltou sozinho para emendar a cabeçada fulminante. Foi o tento que garantiu o resultado suadíssimo. O próprio Signori ainda lideraria bons ataques, com muita movimentação, mas sem ampliar a diferença. Ao final, a Noruega sufocou com vários chuveirinhos. Chegou até a balançar as redes, mas o tento acabou corretamente anulado após um toque de mão de Lars Bohinen no meio da área. Apesar de toda a agonia, os italianos somavam os seus primeiros pontos. Entre os destaques individuais, Paolo Maldini terminou elogiadíssimo pela imprensa, sobretudo por aguentar o fim do jogo sentindo dores.

Dois azarões prometem o ataque

A expulsão de Marco Etcheverry na estreia contra a Alemanha, após chutar Lothar Matthäus, rendeu dois jogos de suspensão ao craque da Bolívia. O técnico Xabier Azkargorta, ainda assim, prometia uma equipe ofensiva para enfrentar a Coreia do Sul. “Se fizermos o jogo deles, não ganharemos. Não adianta querermos correr o futebol. Precisamos jogá-lo”. Já os sul-coreanos tinham como principal arma justamente a velocidade de seu time. Da mesma forma, buscariam o ataque, segundo o técnico Kim Ho: “Vamos prestar mais atenção ao ataque do que à defesa. Nossa estratégia será reforçar o meio-campo”.

Bolívia 0x0 Coreia do Sul: O primeiro jogo zerado da Copa

Em uma chave com dois claros favoritos, Bolívia e Coreia do Sul faziam um dos jogos menos prestigiados da Copa de 1994. E os 54 mil que ocuparam as arquibancadas em Foxborough sequer viram gols no duelo entre azarões. Entre os acréscimos dos dois tempos, foram quase 104 minutos de partida sem sequer uma bola nas redes. Diferentemente do que os treinadores haviam afirmado, as defesas ferrenhas marcaram o duelo entre duas equipes com pouco potencial ofensivo.

A melhor chance da Bolívia aconteceu no primeiro tempo. Erwin “Platini” Sánchez cobrou falta no capricho e o goleiro Choi In-young voou para espalmar a bola que ia em direção ao ângulo. A Coreia do Sul responderia apenas em meados do segundo tempo, quando a meta estava escancarada para Hwang Sun-hong, mas o atacante bateu para fora. Além disso, La Verde teve o seu segundo expulso no Mundial, depois que Luis Cristaldo recebeu o segundo amarelo. Nem a vantagem numérica permitiu o tento dos sul-coreanos, que pararam nas boas defesas de Carlos Trucco. O empate complicava a situação de ambas as equipes, mesmo se quisessem ficar entre os melhores terceiros colocados. Morreriam abraçadas ao término do Grupo C.

A Jabulani de outrora

O papo de que a bola da Copa atrapalha os goleiros é velho. No início do Mundial de 1994, as falhas eram frequentes. E a culpa era da Questra, a moderna pelota usada nos Estados Unidos. A bola pesava 15% a menos, o que realmente ajudava na hora dos chutes. Mas, ignorando seus próprios erros técnicos, os arqueiros reclamavam do produto da Adidas. Óscar Córdoba, Tony Meola e Joseph-Antoine Bell foram alguns que se queixaram publicamente.

Um torcedor especial

Apesar da ausência do Uruguai na Copa, a Fifa realizou uma homenagem a Obdulio Varela nos Estados Unidos. Aos 76 anos, o veterano recebeu uma medalha da entidade. E declarou seu apoio ao Brasil. “Já que o Uruguai não está na Copa, minha torcida fica para a seleção brasileira. Eles são verdadeiros cavalheiros do futebol”, disse, ao Jornal do Brasil. O Negro Jefe mantinha amizade com vários adversários da decisão de 1950, em especial Zizinho, e apontou ainda que “a paixão pelo futebol brasileiro é antiga”.

Com a palavra, Roger Milla

Antes do Brasil x Camarões, Roger Milla dedicou belas palavras em entrevista ao Jornal do Brasil: “Vejo o futebol brasileiro com muito respeito e admiração. É de longe o melhor futebol do mundo. E continuará sendo, mesmo que não ganhe a Copa. As outras seleções sempre aprendem com o Brasil, até nas derrotas. Quando o Brasil perde uma partida, os outros técnicos ficam loucos para estudar como isso aconteceu. O Brasil é o verdadeiro responsável pela mundialização do futebol. Ele jamais seria jogado, no nível em que é jogado hoje por continentes sem tradição, se não fossem os brasileiros. Foi com eles, por exemplo, que eu aprendi a jogar bola. Em Camarões, na década de 60 e na de 70, todos torciam pelo Brasil. O objetivo de qualquer jogador era atuar como os brasileiros”.

Enquanto isso, na seleção brasileira…

Aldair estava confirmado para o jogo contra Camarões. Mesmo após sentir uma pancada na panturrilha contra a Rússia, terminou escolhido como o substituto do lesionado Ricardo Rocha. O curioso é que o zagueiro da Roma sequer estava entre as quatro opções de Parreira para o Mundial dos Estados Unidos. Ele foi incluído na lista a menos de um mês da Copa, em 21 de maio, depois que Mozer foi cortado por uma inflamação no fígado. “Aldair é um jogador com experiência internacional e sempre correspondeu na seleção”, dizia o treinador. “O time perde um líder sem Ricardo Rocha. Em compensação, Aldair é um jogador mais técnico”.

A preocupação de Parreira se concentrava no ataque de Camarões. Analisava que o Brasil precisava evitar os riscos, diante da velocidade dos Leões Indomáveis. “Eles têm dois jogadores muito perigosos no ataque, Oman-Biyick e Embe. Eles são tão importantes a Camarões quanto Bebeto e Romário são para nós”, afirmava. “Camarões tem um balanço que nem o nosso. Mas o Brasil não muda. Nossos adversários é que mudam para enfrentar o Brasil”.

Os jogadores de Camarões, que vinham em uma queda de braço com a federação por conta de prêmios atrasados, chegaram a ameaçar um boicote ao seu segundo jogo. No entanto, o discurso abrandou na véspera do confronto e eles garantiam o duelo contra o Brasil. Capitão do time, Stephen Tataw se recusou a falar sobre o imbróglio. “Nós estaremos em campo para enfrentar o Brasil. Não vou falar sobre o aspecto financeiro. Não queremos nada que possa perturbar a nossa concentração”, limitou-se.

Antes do embate, Romário falou sobre o estilo de jogo do Brasil. “É um futebol para ganhar. Cansamos de perder Copas jogando bonito. Se compararmos a seleção atual com a de 82, veremos que aquela jogava muito mais bonito, com muito mais técnica. Infelizmente, aquele futebol dos anos 70 e 80 não existe mais. O jogo mudou”, declarou, ao jornalista João Máximo, em matéria para a Folha.

Já a conversa de Dunga com Alberto Helena Júnior se voltava aos sentimentos do meio-campista, após o fracasso na Copa de 1990 ter sido taxado como a ‘Era Dunga’: “Não quero me vingar. Honestamente não. Aquilo foi uma reação normal. Quando se perde, busca-se sempre um culpado. Na Copa de 90, escolheram a mim. Mas tenho a convicção de que cumpri meu papel. Estou em paz com minha consciência. Além disso, não costumo ter esse tipo de sentimento negativo, de vingança. Eu prefiro o lema viver e deixar viver. Claro que as críticas maldosas, aquelas que entram na sua intimidade, que falam de suas coisas particulares, essas irritam. Mas a crítica construtiva, eu aceito”.

Além disso, antes mesmo de receber a braçadeira, Dunga comentava sobre a sua liderança: “Não me considero um líder. Aliás, nesta seleção, praticamente todo mundo é líder. Apenas eu tenho o hábito de gritar, falar, reclamar, orientar os companheiros. Isso faz parte da minha personalidade. Sou assim e pronto. Mas acho que é também pela posição que ocupo em campo. Você, ali na meia-cancha, tem uma visão mais abrangente do jogo. É só isso”. Vale lembrar que o volante se tornou capitão apenas nos mata-matas, quando Raí foi para o banco.