Até 17 de julho, resgataremos aqui na Trivela os jogos, as histórias e os personagens da Copa do Mundo de 1994. Confira o diário de 13 de julho, com a realização de ambas as semifinais, baseado principalmente nos relatos da imprensa brasileira da época:

O Brasil mantém a escalação

A vitória empolgante sobre a Holanda permitiu que Carlos Alberto Parreira encontrasse sua escalação ideal na Copa de 1994. Por isso, não realizou qualquer alteração contra a Suécia. Branco se tornou absoluto na lateral esquerda. E, por mais que Zinho continuasse na berlinda, não seria desta vez que daria lugar a Raí – cogitado principalmente por sua estatura. A aposta do Brasil era aumentar a pressão sobre os cruzamentos dos suecos, sua principal jogada, e aproveitar a velocidade pelos lados para explorar os espaços.

O capitão está de volta

A Suécia contava com uma importante adição para a semifinal. Capitão do time, Jonas Thern dividia a armação com Thomas Brolin. Ausente no jogo contra a Romênia por uma lesão, o meio-campista permaneceu como dúvida até a véspera do reencontro com o Brasil, mas terminou confirmado. Ajudava a formar o 4-4-2 com linhas rígidas, tentando explorar a presença de área de Kennet Andersson e a velocidade de Martin Dahlin na frente. Thern, todavia, seria personagem naquela tarde de uma maneira negativa.

Brasil 1×0 Suécia: O caminho mais inesperado ao gol

A melhor partida disputada pelo Brasil na Copa de 1994 aconteceu contra a Holanda, não há muitas discussões. Porém, a melhor atuação da Seleção veio dias depois, no reencontro com a Suécia, pelas semifinais. A vitória por 1 a 0 acaba sendo um tanto quanto mentirosa, pela maneira como os brasileiros amassaram seus adversários. Depois da fraca exibição na terceira rodada da fase de grupos, quando as duas equipes empataram por 1 a 1, a Canarinho pareceu com gana de encarar os escandinavos. Dominou totalmente a partida, ainda que os gols perdidos tenham arrastado certa tensão no Rose Bowl. O alívio, mais uma vez, seria cortesia de Romário. E se a jogada aérea dos suecos era a maior ameaça, quem se ergueu no meio de gigantes foi o Baixinho, no tento que recolocou o país em uma final de Mundial após 24 anos.

A Suécia possuía um time limitado tecnicamente, que preferia se resguardar na defesa e esperar o momento certo para atacar. Também sentia o cansaço, após disputar uma extenuante prorrogação contra a Romênia nas quartas de final. E encarava um adversário totalmente remediado quanto as suas virtudes. Assim, o Brasil jogou para pressionar a saída de bola sueca e fez isso muitíssimo bem. O meio-campo, tão criticado, funcionou como Parreira imaginava. Foi um compressor para apertar os adversários, sobretudo com Mauro Silva e Dunga. Também acelerou as jogadas através de seus passes. E, o mais surpreendente, compareceu bastante para finalizar.

O primeiro tempo se desenrolou praticamente inteiro no campo de defesa da Suécia. Romário precisou de poucos minutos para testar Thomas Ravelli, em chute de longe rebatido pelo goleiro. Diante das linhas cerradas de marcação dos escandinavos, o Brasil não tinha receio em arriscar. Foram muitos chutes de média distância, apesar da falta de precisão. Do outro lado, os zagueiros brasileiros mantiveram o controle. No máximo, houve uma bomba do meio da rua de Hakan Mild, que Taffarel defendeu em dois tempos.

Logo a Seleção passou a encontrar mais espaços dentro da área, aproveitando os passes longos e a velocidade dos homens de frente. Perdeu alguns dos gols mais incríveis daquele Mundial. Muita gente já xingou Bebeto aos 13 minutos, ao invadir a área com liberdade e mandar a bola para fora. Aconteceria pior, aos 25. Romário fez uma jogadaça. Passou no meio de dois, deixou Ravelli no chão e só teria o trabalho de completar às redes. Mas não viu que Patrik Andersson corria desesperado e conseguiu bloquear o chute em cima da linha. Mazinho ainda teve a sobra com a meta escancarada, preferindo exagerar na força e errando por muito. Além do mais, Ravelli se consagrava, bastante acionado. Sua defesa mais difícil aconteceu no mano a mano com Romário, espalmando um chute nos pés do camisa 11. Segurou o primeiro tempo zerado.

O Brasil voltou diferente para a etapa complementar. Mazinho deixou o campo para o retorno de Raí, que daria mais presença de área e qualidade nas finalizações. A insistência era contínua. E, num chute forte da intermediária, Zinho viu Ravelli operar um milagre aos nove minutos. Se o gol parecia questão de tempo, aquela sensação ficou mais explícita aos 18, quando o capitão Jonas Thern recebeu o cartão vermelho direto. Em uma disputa na faixa central, o meio-campista chegou forte em Dunga e fez o brasileiro sair do chão, mas sem acertá-lo em cheio. O árbitro, no entanto, tomou a exagerada decisão de expulsá-lo. Às vésperas da partida, o rigor do colombiano José Torres Cadena já era alertado pela imprensa.

Cinco minutos depois, o técnico Tommy Svensson decidiu recompor o seu meio-campo. Para tanto, sacou o exausto Martin Dahlin, anulado por Aldair naquela tarde. A esperança aos escandinavos era arrastar aquela definição até os pênaltis. Ravelli continha o bombardeio. Voltou a se sobressair ao rebater um tiro potente de Romário, antes que Zinho falhasse no rebote. Enquanto a bola saía pela linha de fundo, o fanfarrão arqueiro dava suas famosas passadas largas à linha de fundo. O sorriso bobo e a tática para desconcentrar os adversários, entretanto, não funcionaria por tanto tempo.

A Suécia, inócua no ataque, daria mais um chute a gol tranquilamente agarrado por Taffarel. Criticado contra a Holanda, Márcio Santos colocou Kennet Andersson em seu bolso. Quem martelava era o Brasil, com muitas finalizações de longe, diante das dificuldades para furar a barreira de handebol ao redor da área escandinava. A expectativa gerava ansiedade. E o gol da classificação, enfim, viria aos 35 minutos. Jorginho recebeu na direita e cruzou sem nem dominar. Uma bola perfeita, na especialidade do lateral. Entre dois defensores suecos, estava Romário. Foi lá que o passe encontrou o artilheiro, pronto para saltar no meio dos grandalhões e cumprimentar as redes. Imóvel, Ravelli não teve o que fazer desta vez. A presença ofensiva da Seleção tinha seu prêmio.

A Suécia, em uma desesperada tentativa de forçar a prorrogação, não ameaçou tanto. Confortável, a Seleção gerou mais alguns lances de perigo com Romário e Bebeto, para buscar um placar que talvez expressasse melhor a superioridade brasileira. Mas a estreita diferença bastava para colocar o Brasil no caminho da Itália (classificada horas antes) na decisão da Copa do Mundo. Dois tricampeões se encarariam pela nova glória, 24 anos após disputarem a posse da Jules Rimet. Só um deles poderia ser tetra.

A crônica de Juca Kfouri à Placar

Na revista especial da Placar lançada após a vitória na semifinal, assim Juca Kfouri concluía o relato principal da partida: “Aos 17, o capitão Thern mostra que é terno só ao se desculpar pela entrada feia que deu em Dunga e que lhe valeu a expulsão um tanto quanto rigorosa demais. Com dez eles vão se fechar ainda mais. Até quando eles resistirão, embora o Brasil já não crie tanto? Resistem até os 35, quando Romário inverte a máxima do futebol e mostra que quem não faz, faz. Fez de cabeça, o primeiro que a Suécia toma na Copa, com uma defesa que até então só havia permitido quatro cabeçadas adversárias em seis jogos”.

“O tempo passa ao som de um ritmado olé. Já dava para pensar concretamente na Itália, que até hoje perdeu apenas uma final – justo contra nós, em 1970, quando só um podia ser tri -, mas que a exemplo do Uruguai – única seleção que nos derrotou numa final, em 1950 -, nos submeteu a um sofrimento até hoje não cicatrizado em 1982, na Espanha. E como nós queríamos esta chance de devolver a dor, Itália! Baggio se recuperará a tempo para tentar ser o novo Paolo Rossi? Pode ser, mas os nossos candidatos ao tetra nem cogitam dessa hipótese, certos de que entre eles e o time que perdeu no Sarriá existe uma diferença chamada determinação. Tomara – e como! – que tenham razão. O Brasil de chuteiras espera que cada um cumpra com seu dever”.

Os pesares de Jorginho

Jorginho foi tão importante quanto Romário no gol que definiu a vitória sobre a Suécia. Seu cruzamento naquele jogo é um belíssimo resumo de sua qualidade gigantesca no fundamento. Não quer dizer, entretanto, que tenha atuado bem no Rose Bowl. Segundo reportagem da Folha, o lateral deixou o campo cabisbaixo, cansado, abatido. “Na véspera do jogo, admitira não ter cumprido nesta Copa nenhuma atuação que o satisfizesse plenamente”, escreveu a nota do jornal. “No primeiro tempo, Jorginho falhou em praticamente todas as tentativas de ir à linha de fundo. Tropeçou na bola, perdeu passadas, errou passes, não conseguiu completar um drible. Nesta fase, foi muito prejudicado pela má atuação de Mazinho. No segundo tempo, embora tivesse o caminho livre, não melhorou muito. O passe para o gol foi seu único acerto efetivo no jogo”. Na avaliação do jornal O Globo, levou a menor nota do Brasil: 6, ao lado de Mazinho e Raí.

Com a palavra, Romário

“Os brasileiros aprenderam bastante com os europeus. Aprendemos a ter determinação e força de vontade como eles. Sobre o gol, não marquei muitas vezes de cabeça na minha carreira. Posso contar nos dedos. Agora, sendo pequeno ou não, o que importa é estar bem posicionado. Era praticamente impossível entrar pelo meio da área da Suécia. Tínhamos que construir as jogadas de gol pela lateral. E foi isso que aconteceu”, declarou Romário.

Baixinho contra Baggio

Ao jornalista Paulo Vinícius Coelho, então repórter da Placar, Romário analisou o duelo particular com Roberto Baggio na decisão da Copa: “Eu e Baggio temos feito gols decisivos. Será um duelo interessante”. Também apontou na zona mista, à Folha: “O time que for campeão vai sair com o melhor jogador da Copa. O Dunga jogou com o Baggio na Fiorentina, disse que ele é uma grande pessoa”.

Com a palavra, Dunga

“Minha felicidade pessoal é minha maior vingança. Não penso nos outros e sim em mim. E estar na final da Copa é tudo o que eu queria. Estou feliz e isso já basta para irritar os outros. Vamos ser campeões. […] Posso enfatizar algumas coisas para Parreira, mas o fundamental é que conhecemos bem a Itália. Eu já joguei com Baggio na Fiorentina e sei, por exemplo, que não adianta marcá-lo individualmente. Isso só vai atrapalhar nosso esquema tático. A solução é marcar por zona”, apontou, em entrevista a’O Globo.

Com a palavra, Zinho

“Acho que fui muito bem no jogo. O início da Copa foi muito difícil, mas a partir do momento em que a equipe foi crescendo, consegui melhorar. Este jogo foi muito bom para mim, porque me senti à vontade, driblei e tentei muitas jogadas. O pior já passou, consegui superar os momentos de insegurança e as críticas não me abateram. Agradeço ao Parreira pela confiança que depositou em mim”, analisou o meia, a’O Globo. A imprensa finalmente elogiou a atuação do meia, sua melhor na Copa.

Com a palavra, Parreira

“Falei que eles defenderiam, que seríamos mais ofensivos e que não haveria surpresas. Conseguimos anular as jogadas de bola alta deles e, assim, vencemos. O resultado não mostrou o que foi a partida. Tivemos nove chances de gol. Nossa única dificuldade foi colocar a bola para dentro. Falaram muito, mas o fato é que pela primeira vez em 24 anos chegamos a uma final de Copa do Mundo. Esteve tudo certo no trabalho desde o início e agora mostramos isso com clareza”, afirmou o treinador.

Com a palavra, Zagallo

“Só falta um jogo! Eu falei e não quiseram me ouvir. Fomos os primeiros tricampeões mundiais da história e agora seremos os primeiros tetras. Podem escrever”, declarou o coordenador técnico, que ganhou a camisa de Kennet Andersson depois da vitória sobre a Suécia.

Com a palavra, Tommy Svensson

“Estou obviamente decepcionado com a derrota, mas sou obrigado a reconhecer que perdemos para um time muito melhor. Acho que fizemos uma ótima Copa. O Brasil teve tantas oportunidades de gol, que não me surpreendi que uma entrou. Sobre a expulsão, não entendi o motivo. E seria muito arriscado, com dez jogadores, continuar usando dois atacantes. Por isso tirei Dahlin”, declarou Tommy Svensson, técnico da Suécia.

Com a palavra, Thomas Ravelli

“Já estava difícil. Com a expulsão do Thern, ficou impossível. Não pude fazer nada no gol do Romário. O cruzamento do Jorginho foi muito forte e decidi ficar sobre a linha, não saindo. Romário pulou entre dois zagueiros e fez o gol. Paciência… Eles estavam muito mais concentrados na partida, determinados. O Brasil é realmente uma grande seleção. Não chegamos ao título, mas esta é uma posição digna para quem não era favorito”, declarou o goleiro da Suécia.

As memórias ainda vivas

As expectativas sobre o Brasil x Itália eram enormes. E, obviamente, o passado do confronto voltava à tona. Foi como declarou Raí, ao PVC, em aspas publicadas pela Placar: “O sentimento do torcedor, de vingar a derrota de 1982, não pode contaminar o time”. Já o jornalista Raffaele della Vitte, da Gazzetta dello Sport, esperava qual Brasil enfrentaria: “Esse Brasil que venceu a Suécia dá pena. Mas o Brasil que venceu a Holanda nos causa temor”.

O remanescente de 1982

Vale lembrar que um antigo craque da Seleção de 1982 ainda fazia parte do grupo nos Estados Unidos: o maestro Júnior, que trabalhava como observador para Parreira. Ao jornal O Globo, o veterano comentou a oportunidade de se reencontrar com a Itália: “Eles têm uma dívida com a gente. Chegou a hora de a gente cobrar, porque nos tiraram da Copa quando tínhamos uma seleção tão boa quanto a deles e com a melhor campanha. Aquele não foi nosso dia e o Paolo Rossi fez três gols, mas agora as coisas vão ser diferentes. Eles são ardilosos, sabem se armar muito bem na defesa e sair com velocidade para os contra-ataques. É a hora da verdade. E é nessas horas, quando o Brasil chega, que costuma ser uma chegada irresistível”.

Cruyff analisa a classificação do Brasil

“Sobre o Brasil, eu falei muito (e bem) ao longo deste campeonato, apesar de saber que o técnico Parreira vinha sendo muito criticado pela imprensa brasileira até a vitória contra a Holanda. Eu entendo as críticas, porque são formuladas por pessoas que amam o futebol mais puro e que, quando veem que o Brasil atual corre além da conta, se desesperam. Porém, também considero que essas críticas têm sido exageradas e que, no fundo, sempre é preciso manter a frieza durante um campeonato, porque muitas vezes os resultados dão razão àqueles que tomaram decisões que na hora pareciam duras e inexplicáveis”, escreveu Johan Cruyff, em sua coluna à Folha.

Telê Santana analisa o meio-campo do Brasil

“À medida que o jogo ganha importância, é no meio-campo que seu destino é desenhado. Parreira sabe disso. Tanto que resolveu congestionar o setor para a competição. Evitar riscos, segundo ele, seria a melhor maneira de sobreviver nesta Copa. Havia, no entanto, uma equação que o treinador não tinha solucionado até a noite desta quarta-feira – e que explicava o futebol estéril da seleção. Nos cinco primeiros jogos, os meias brasileiros estiveram divorciados do ataque. Espantosamente, não fizeram nem um gol sequer neste torneio”, escreveu Telê, em sua coluna à Folha de S. Paulo.

“Os meias podem não ter acertado, mas é inegável a evolução contra a Suécia. Zinho, Mazinho (depois Raí), Mauro Silva e Dunga chutaram, no total, oito bolas a gol. O que vinha atrapalhando os meio-campistas nesta Copa era o peso das funções táticas a eles atribuídas – o ‘esquema-pebolim’, em que os atletas atuam ‘amarrados’. Sem deslocamentos, tornavam-se raras as aparições dos meias no campo de ataque. Mazinho, Raí e Zinho tinham se transformado em meros assessores dos laterais”, complementava o veterano.

A homenagem a Senna

Logo após a classificação contra a Suécia, os jogadores da Seleção planejavam uma homenagem a Ayrton Senna, falecido dois meses antes, em caso de título. “Todos esperam essa conquista, nós estamos perto dela e vamos homenagear o Senna. Ele também estaria conquistando seu tetra se não tivesse morrido”, explicou Branco, a’O Globo. A ideia partiu de Romário, que comentara o assunto antes mesmo de ser cogitado pelo restante grupo: “Seria um prazer muito especial dar o título ao Brasil e dedicá-lo ao Ayrton Senna. O Brasil já tem poucos ídolos e perde um deles dessa maneira. Nós, jogadores, devemos essa homenagem ao Senna e a todos os brasileiros”.

Uma Itália sem identidade

Arrigo Sacchi passou a Copa do Mundo inteira lidando com as lesões, o baixo rendimento e o cansaço de seus jogadores. Nem mesmo na reta final conseguiu manter a escalação. Diante da suspensão de Mauro Tassotti, o recuperado Roberto Mussi voltava à lateral. No meio, novas mudanças, com a saída de Antonio Conte para o retorno de Nicola Berti. Já no ataque, Roberto Baggio seria acompanhado por Pierluigi Casiraghi, já que o impacto inicial de Daniele Massaro não se manteve à Azzurra.

Os quatro ases escalados

O técnico Dimitar Penev declarava que a velocidade seria essencial ao seu time para encarar a Itália. Não à toa, manteve a base, em especial as armas que funcionaram contra a Alemanha. Enquanto a fluidez no meio ficava a encargo de Yordan Letchkov e Krassimir Balakov, no ataque os alvos eram Hristo Stoichkov e Emil Kostadinov. Eram as válvulas de escape de uma equipe com bons talentos individuais, mas limitada coletivamente.

Itália 2×1 Bulgária: A camisa pesa, em especial a de Baggio

O peso das três estrelas no peito colocavam o favoritismo ao lado da Itália naquela semifinal em Nova York. No entanto, por aquilo que se assistiu ao longo da Copa do Mundo, não era possível confiar as fichas em nenhuma das equipes. Ambas vinham de vitórias dramáticas e oscilações, especialmente nos mata-matas. Mas aquela foi a tarde em que a camisa azzurra, enfim, pesou no Mundial. Os italianos fizeram sua partida mais convincente até então. Exibiram um futebol objetivo e muito consciente. Enquanto o ataque resolveu no primeiro tempo, a defesa preservou o resultado e evitou o desgaste na etapa complementar. E o protagonismo, como sempre, recaía sobre Roberto Baggio. Extremamente decisivo nos mata-matas, o camisa 10 fez um primeiro tempo impecável. Anotou dois gols e definiu o triunfo por 2 a 1, antes de ser substituído com dores na coxa.

Durante o primeiro tempo, a Itália bateu de frente com a Bulgária. Conteve as investidas dos adversários e se impôs no campo de ataque. Não à toa, a Azzurra dominou as chances de gol e não demoraria a construir o placar. Ia buscando suas brechas, entre bolas longas e chutes de longe, até que o caminho se abrisse aos 20 minutos. A partir de uma cobrança de lateral, Roberto Baggio girou para cima do primeiro marcador, deixou o segundo no chão e, na risca da meia-lua, arrematou cruzado para mandar a bola no cantinho do goleiro Borislav Mihaylov. Mais um golaço na conta do craque.

A Itália não se contentou com o placar magro. Seguiu atacando. Demetrio Albertini quase ampliou na sequência, com dois lances perigosíssimos. Primeiro, o meio-campista carimbou a trave, em bomba de fora da área. Depois, ainda tentou encobrir Mihaylov e o goleiro fez boa intervenção. O segundo gol amadurecia e já viria aos 25, com uma combinação de ambos os destaques. Albertini fez um lançamento cirúrgico e Baggio escapou sozinho por entre os zagueiros. Invadiu a área, deixou que o quique amortecesse a bola e desferiu um plástico chute de primeira, na bochecha da rede. Mais uma vez, Mihaylov só viu entrar.

A Itália parecia mesmo disposta a golear e deu mais alguns chutes perigosos até os 30 minutos, quando a Bulgária finalmente acordou. A equipe começou a rondar a meta de Gianluca Pagliuca, mas sem apresentar a mesma agressividade. E, do outro lado, Paolo Maldini quase anotou o terceiro antes do intervalo, em cabeçada que passou muito próxima da trave. Os búlgaros só reavivaram suas esperanças aos 44, depois que Ilian Kiriakov sofreu um pênalti. Stoichkov cobrou rasteiro e anotou seu sexto gol na Copa, igualando-se a Oleg Salenko na artilharia da competição.

O segundo tempo, sob 35°C em Nova York, não manteve a mesma pegada. A Bulgária tinha mais pressa e tentou partir ao ataque, mas viu a Itália se defender muito bem. Maldini liderava a linha de zaga com uma leitura de jogo estupenda. Mais do que os lances de perigo, prevaleceram as reclamações de pênalti. Os italianos se queixaram de uma entrada dura na linha de fundo. Já os búlgaros contestaram duas jogadas, em bloqueio a Kostadinov aos sete minutos e em toque no braço de Costacurta aos 24.  Nada que o árbitro tenha assinalado. Costacurta, aliás, tomou um amarelo e, pendurado, seria desfalque à decisão.

O final do jogo perdeu ânimo também pelas substituições. Roberto Baggio sentiu dores e deu lugar a Giuseppe Signori restando 20 minutos. O camisa 10 foi aplaudido de pé pelos torcedores no Giants Stadium – onde a colônia italiana comparecera em peso. Pouco depois, seria a vez de Stoichkov sair desgastado. Neste momento, Antonio Conte já tinha entrado para oferecer seu espírito combativo à faixa central italiana. Enquanto isso, o técnico Dimitar Penev mandou Trifon Ivanov ao ataque, buscando o jogo aéreo. Nada que tenha dado resultado. Pagliuca não precisou realizar defesas difíceis e a Itália voltava a uma final de Copa do Mundo após 12 anos.

Roberto Baggio, dúvida para a final

Roberto Baggio mais uma vez protagonizou a vitória da Itália nos mata-matas, assim como havia acontecido contra a Nigéria e contra a Espanha. No entanto, preocupava a comissão técnica depois de sua substituição. O camisa 10 já não vinha em suas melhores condições físicas. O preparador físico italiano, Vincenzo Pincolini, tratava do assunto com cautela. Em entrevista à Folha, declarou que “poderia ser um estiramento ou apenas a dor de uma joelhada na coxa”, preferindo aguardar o resultado dos exames em 24 horas.

Com a palavra, Baggio

“Estou contente por toda essa gente. Jogamos com o coração. Foi mais um sofrimento, mas vencemos. Nós fizemos um primeiro tempo com muita garra, no qual podíamos ter anotado mais um gol para não sofrer tanto depois. De qualquer forma, vencemos. Mas a parte mais difícil vai começar agora”, disse o craque, antes de comentar sobre a lesão. “Vou jogar de qualquer jeito a final, nem que seja só por 45 minutos”.

Com a palavra, Arrigo Sacchi

“Numa Copa do Mundo, a vida e o futebol se confundem. Qualquer esportista que se preze deve passar por esta experiência. Precisa sofrer para que se valorize o seu trabalho e se elogiem, no mínimo, os seus resultados. Mais de 160 nações participaram das Eliminatórias. Eu me orgulho de estar entre as duas melhores. Depois do que padecemos no torneio, é difícil analisar a partida. Até porque meu pensamento já está na final”, declarou o técnico italiano, depois da classificação à final.

A revanche francesa?

A Bulgária tinha sido algoz da França em uma partida histórica nas Eliminatórias. E os búlgaros avaliaram que a nacionalidade de Joël Quiniou influenciou suas decisões favoráveis aos italianos ao longo da partida. “Deus estava do nosso lado, mas o juiz era francês. Ele parece estar em fim de carreira e resolveu fazer alguma coisa pelo seu país”, acusou Stoichkov. O próprio técnico Dimitar Penev não se conteve: “O francês não marcou dois pênaltis. Mesmo assim, quase chegamos a empatar a partida com uma atuação muito combativa”.

Com a palavra, Dimitar Penev

“Nós já fizemos quase o impossível chegando até esse estágio da Copa. Nosso time apresenta a melhor geração do futebol da Bulgária e não tínhamos nada a perder nesse jogo contra os italianos. Não culpo minha defesa pelos dois gols maravilhosos de Baggio. A Bulgária teve participação brilhante e conquistou vitórias memoráveis. Depois da derrota para a Nigéria, o time cresceu e transformou-se em uma verdadeira equipe. A Bulgária nunca será a mesma depois desse Mundial”, afirmou o técnico búlgaro.

Com a palavra, Balakov

“Não tivemos vitórias em outras Copas do Mundo. Desde as Eliminatórias, começamos a construir um bom time e uma história para a Bulgária. E acho que vamos continuar a escrever esta história do futebol búlgaro em outras Copas. Nossa equipe atual já joga há quase cinco anos junta e vamos continuar nos saindo bem”, afirmou Krassimir Balakov, em exclusiva à Folha.

Cruyff analisa a classificação da Itália

“Entre a seleção italiana de 1982 e a atual, há duas semelhanças. Primeiro: ambas começaram mal a Copa. Segundo: ambas tiveram um jogador encarregado de fazer os gols, Paolo Rossi e agora Roberto Baggio. […] Tecnicamente, os italianos têm tão pouco a oferecer que me parece quase impossível que eles tenham se classificado para a finalíssima. A Itália disputará o título mundial sem que ninguém consiga entender como alcançou o grande objetivo. Agora terão que fazer o possível e o impossível para recuperar Roberto Baggio. Ele é o único, junto com Maldini, que interpreta o futebol tal como fazem os que amam este esporte”, escreveu Johan Cruyff, em sua coluna à Folha.

Outra Copa nos EUA?

Nota no jornal O Globo, assinada por Lédio Carmona e Paulo Julio Clement: “Os americanos gostaram mesmo do soccer, ou pelo menos dos lucros que a XV Copa do Mundo tem dado. Nos bastidores da reta final da competição, os cartolas dos Estados Unidos começavam a reivindicar junto à Fifa o direito de sediar a Copa do Mundo de 2006. E as possibilidades são concretas”.

* Fica o agradecimento especial ao amigo Felipe Santos Souza, pela colaboração com o material da revista Placar. Valeu!