Até 17 de julho, resgataremos aqui na Trivela os jogos, as histórias e os personagens da Copa do Mundo de 1994. Confira o diário de 7 de julho, no aquecimento para as quartas de final, baeado principalmente nos relatos da imprensa brasileira da época:

Romário conhece os holandeses

Virou piada a avaliação, feita antes da semifinal da Copa do Mundo de 2014, de que Dante seria um bom substituto para Thiago Silva porque atuava na Alemanha e conhecia todos os jogadores do adversário. Não deu muito certo. Vinte anos antes, no aquecimento para as quartas de final contra a Holanda, houve outra versão desse comentário, na Folha de S. Paulo, lembrando que Romário havia passado cinco anos no futebol holandês. Além disso, atuava ao lado de Ronald Koeman no Barcelona, principal preocupação da seleção brasileira.

“É o perigo do time”, disse Romário. “Todas as jogadas passam por ele. Ele pega a bola e fica distribuindo o jogo”. Jorginho alertou para a capacidade do defensor holandês nas cobranças de falta. “Temos que ter cuidado para não cometer faltas muito próximas à área. Esse cara é um excelente batedor”, opinou. O técnico Carlos Alberto Parreira elogiou a “a habilidade de armar as jogadas” de Koeman, cuja pronúncia do nome foi explicada pela Folha: “Pronuncia-se ‘kú-man’, pois o ditongo ‘oe’ em holandês tem o som da vogal ‘u’ em português”.

Ao Jornal do Brasil, Romário deu sua característica cutucada nos holandeses. “Eles têm um bom time, mas não assustam. Reconheço a força da seleção holandesa, mas não vejo tantas dificuldades para se chegar ao gol. Arrebentei no campeonato deles durante alguns anos. Fui campeão e marquei gol à vontade. Espero repetir tudo isso agora na Copa”, disse. E elogiou Bergkamp: “Ele sempre cria lances de perigo e faz ainda gol. Não se deve permitir sua movimentação”.

Problemas para Parreira

A CBF entrou com recurso para reverter a suspensão de quatro jogos a Leonardo, mas, até segunda ordem, o jogador estava fora da Copa. Parreira confirmou Branco como seu substituto – a outra opção era Cafu, improvisado, que havia recomposto a defesa contra os EUA – e tinha dúvida no meio-campo: Raí, que havia perdido a posição nas oitavas de final, ou Zinho? Caso escolhesse o segundo, o treinador poderia se ver em maus lençóis com o preterido.

A Folha lembrou que o clima entre os dois já não estava perfeito desde que Zinho, uma semana antes, criticou a maneira como Parreira queria que ele jogasse, precisando sempre fechar o lado esquerdo do meio-campo. “A modificação poderia causar a maior revolta de um jogador da seleção desde que ela chegou aos Estados Unidos em 26 de maio”, avaliou o jornal.

Depois de derrotar o time da casa, aliás, Parreira teve uma discussão com Müller que se opunha à maneira como a seleção estava jogando. O treinador descartou usar três atacantes, como a Holanda. “Bergkamp ajuda a marcar. Se eu tivesse dez jogadores como Bergkamp, eu jogaria com dez atacantes”, afirmou. “Não há mais lugar para show no futebol. Os europeus provam isso. Na Europa, está o futebol evoluído taticamente”.

Curiosamente, ao Jornal do Brasil, ele deixou bem claro que não queria seus atacantes marcando: “Quero Bebeto e Romário lá na frente, no máximo recuando um pouco para trabalhar atrás. Defender, jamais. Já pensou eles vindo atrás de seus marcadores? Não se pode nem imaginar. Eles não têm jeito para isso”. Já pensou?

Parreira rebate Romário

Além de Zinho e Müller, Romário também havia criticado a maneira como o Brasil estava jogando. Depois da vitória apertada contra os EUA, disse que “tecnicamente, dá pena ver o Brasil jogar”, entre outras fortes declarações. Parreira respondeu, em tom irônico: “Romário poderia ter feito quatro gols na última partida. Nunca vi o Romário lutar tanto”. Disse, também, que há “limites para o jogador falar” e usou o exemplo do assassinato de Andrés Escobar para pedir um desconto. “A crítica exacerbada gera violência”, afirmou, segundo a Folha. “Só sei que um jovem de 24 anos está morto. Temos que ter cuidado com a paixão”.

A Holanda morre no fim 

O preparador físico da seleção brasileira, Moraci Sant’Anna, não estava preocupado com a Holanda. “Morre no segundo tempo da partida”, disse à Folha. “Teve jogo que eles ficaram só com três jogadores atrás para marcar depois da metade do segundo tempo. Ninguém aguentava voltar”. Contava com o calor de Dallas para desgastá-los ainda mais.

Alemanha e Brasil, os mais cotados

Com base no ranking da Fifa, no retrospecto em Copas e nos resultados daquela edição, o Datafolha calculou a probabilidade de os times chegarem à final. A maior chance era haver um Brasil x Alemanha, com 17%, seguido por Brasil x Espanha, com 8%, e Brasil x Itália, com 7%. Contra a Bulgária? Apenas 4%. Telê Santana, em sua coluna, concordou com os números: “Um breve balanço das oitavas de final nos leva a uma conclusão mais ou menos esperada: Brasil e Alemanha são os mais cotados para a final do dia 17, em Los Angeles (…) A Alemanha melhorou muito nas oitavas. Jogou bem contra a Bélgica, impondo seu estilo e resistindo à impressionante luta dos belgas pelo empate. (…) O futebol da Alemanha não me agrada, mas é competitivo, lógico, ganhador e, como o Brasil, tem tudo para ir à final”. 

Para Cruyff, apenas a Alemanha é favorita

Em sua coluna na Folha, Johan Cruyff analisou as quartas de final da Copa do Mundo. Teceu críticas à Espanha, que enfrentaria a Itália – “Agora é preciso saber se a Espanha continuará jogando seu futebol medíocre e será eliminada, sem apresentar nada de especial, ou se continuará jogando o seu futebol medíocre, mas se classificará” – e destacou a Alemanha como a única favorita nos duelos. “Alemanha x Bulgária é partida que tem uma equipe com mais chances de passar à semifinal. Os alemães já estão pegando o ritmo da Copa, como sempre acontece. Contra a Bélgica, marcaram três gols, mas, não fosse por Preud’Homme, teriam feito cinco ou seis. O segredo da melhoria alemã foi a inclusão de um segundo atacante ao lado de Klinsmann. A opção por Völler é sem dúvida a melhor. Entre outras coisas, esse veterano goleador sabe que esta será sua última oportunidade internacional. Sem menosprezar a Bulgária, acho que uma vitória alemã não será surpresa. Stoichkov e cia já foram longe o bastante”, escreveu.

Nasce Mattheus

Às 14h20, com 3,4 quilos e 52 centímetros de altura, nasceu Mattheus, filho de Bebeto, na zona sul do Rio de Janeiro. “Bebeto telefonou para a sala de parto e ouviu o primeiro choro do filho”, escreveu a Folha. Uma fita com o parto gravado foi enviada pelo hospital para os Estados Unidos. O JB notou que a cesariana da esposa do camisa 7 da seleção brasileira foi realizada no dia 7 do mês 7 e que a mãe Denise ficou no quarto número 7 da Clínica São Vicente, na Gávea. Para completar, Mattheus tirou nota 7 no primeiro teste de reflexos e capacidade respiratória. No segundo, cinco minutos mais experiente, tirou 10. Caso marcasse contra a Holanda, Bebeto prometeu dedicar o gol a Mattheus. “Contra Camarões, fez um gol para o Lucas, filho do Leonardo. Se Deus me ajudar, vou meter um gol na Holanda”, disse.

Tostão defende Parreira 

Durante o treino da seleção brasileira, o campeão mundial Tostão defendeu Parreira das críticas de que ele estaria armando um time pragmático demais. “Conseguimos aprender a marcar com eficiência e temos o melhor jogador do mundo em atividade, o Romário. Quem tem isso, o que mais pode querer? A Copa do Mundo tem mostrado poucos talentos individuais. Mas esse é o futebol que se pratica hoje. O Brasil está jogando com eficiência. Não se pode exigir mais. Não estamos ganhando? Pior é quando voltamos mais cedo para casa, a frustração que isso causa”, disse, ao Jornal do Brasil.

A Holanda está unida

A principal preocupação de Parreira na seleção holandesa era o ponta Marc Overmars. O jogador do Ajax disse que era uma “honra” preocupar o treinador brasileiro e garantiu que a Holanda “jogaria muito” contra os sul-americanos. Acreditava que seu time deveria atuar ofensivamente para impedir que o Brasil impusesse seu ritmo. Afirmou que, ao contrário de 1990, o elenco estava unido. “Em 90, o time tinha problemas. Muita discussão e brigas por nada. Hoje, somos uma equipe muito mais unida”, disse. O responsável por marcar Overmars seria Branco, estreando na Copa do Mundo. “Primeiro que uma característica forte minha é o apoio, e não podemos desperdiçar isso. E depois, tenho condições de marcá-lo. Quando eu subir, basta que haja cobertura adequada”, disse, ao JB.

Koeman sabe parar Romário, mas não revela como

Ronald Koeman garantiu: sabe como parar Romário. Companheiro do craque brasileiro no PSV e no Barcelona, o zagueiro teceu elogios ao adversário, em entrevista ao Jornal do Brasil. “Romário é um jogador espetacular, talvez o maior atacante do mundo. É um jogador imprevisível, capaz das jogadas mais geniais. Na verdade, acho praticamente impossível marcá-lo bem uma partida inteira. O problema é que, com ele, qualquer descuido é fatal. Ele tem um aproveitamento de quase 100% em uma partida”, disse. Questionado sobre os pontos fracos de Romário, respondeu: “Como qualquer pessoa, tem coisas positivas e negativas”. E quais são as negativas? “Isso é um segredo nosso. Se eu contar para vocês, deixará de ser segredo”, respondeu.

O que vier é lucro

A seleção búlgara estava no meio da melhor campanha da sua história, mas tinha pela frente a atual campeã Alemanha. O goleiro Borislav Mihaylov acreditava que essa era a melhor adversária possível. “Jogar com o campeão do mundo é mais fácil que com qualquer outra equipe. Não temos nada a perder”, disse. Ao JB, acrescentou: “Se perdermos, perderemos para os campeões, se ganharmos, eliminaremos os campeões”. Stoichkov acrescentou que não era impossível derrotar os alemães. Lottar Mathäus estava preocupado com o contra-ataque búlgaro. “Teremos que nos esforçar para controlar a dupla Stoichkov e Kostadinov, que é capaz de fazer estragos no contra-ataque”, afirmou.

Hagi quer o Brasil 

“Esse é o maior momento desde a revolução que derrubou a ditadura”, afirmou o técnico da Romênia, Anghel Iordanescu, à Folha. “Demoramos 54 anos para chegar a esta posição. Não seria justamente neste ponto que iríamos descansar sobre nossos louros”, acrescentou, ao JB. O país estava nas quartas de final da Copa do Mundo pela primeira vez, com a possibilidade de enfrentar o Brasil na fase seguinte. “Seria concretizar um sonho de todos os romenos”, disse o craque do time, Georghe Hagi, que, ao JB, também disse estar “sentindo o cheiro de semifinal”. No lado sueco, o técnico Tommy Svensson acreditava conhecer os segredos do time romeno. “Teoricamente somos times equiparados, mas conheço detalhes da equipe romena que vão aumentar nossas possibilidades para 60% contra 40% deles”, explicou. Disse que Hagi era a “peça-chave” do adversário, mas que não o marcaria individualmente. “Todos os times que fizeram esse tipo de marcação deixaram a Copa mais cedo”, alertou.

Espanha é favorita contra a Itália

A avaliação é dos próprios jogadores italianos. “Quem viu as partidas da Espanha e da Itália crê que os espanhóis têm mais possibilidades de ganhar, já que souberam juntar uma defesa muito forte com uma boa capacidade de marcar gols”, analisou Giuseppe Signori. A Itália havia sofrido para passar pela Nigéria, e o técnico Arrigo Sacchi estava insatisfeito com praticamente tudo. Avaliou que o time estava falhando na pressão no campo adversário, deixando muitos espaços entre as duas intermediárias e errando passes demais. O único setor que o agradava era a defesa. 

A palavra do presidente

O presidente brasileiro Itamar Franco comentou as quartas de final contra a Holanda, à Folha de S. Paulo.  “Estou muito otimista. Tenho certeza da vitória”, declarou. Como errou feio o palpite para as oitavas de final – chutou 4 a 0 e foi apenas 1 a 0 -, evitou arriscar novamente. “Fui dar aquele palpite e errei. Agora não dou mais. Errei feio. É porque o Ronaldo não jogou”, brincou. Ronaldo, claro, atacante do Cruzeiro naquela época.

Inspiração no rival

O Jornal do Brasil informou que o técnico da Espanha, Javier Clemente, requisitou as fitas das partidas da seleção italiana contra Argentina, Polônia Alemanha e Brasil na Copa do Mundo de 1982. Esperava tirar do time de Enzo Bearzot a inspiração para anular o de Arrigo Sachi. “Eventualmente, eles esquecem sua tradição e se lançam ao ataque. Nós vamos valorizar primeiro a defesa para golpeá-los nos contra-ataques”, explicou. Clemente elegeu o zagueiro Rafael Alkorta, do Real Madrid, para marcar Roberto Baggio nas quartas de final.

Irlandeses são recebidos como heróis

Em sua segunda participação na Copa do Mundo, a Irlanda não conseguiu repetir as quartas de final da edição da Itália, quatro anos antes, mas a queda nas oitavas para a Holanda foi o bastante para deixar seus conterrâneos felizes. A delegação foi recebida em Dublin por milhares de torcedores, incluindo o então primeiro-ministro Albert Reynolds. Foram levados de helicóptero para o palácio presidencial, segundo o Jornal do Brasil, e seguiram para o Parque Phoenix, onde mais de 100 mil pessoas os esperavam.