Até 17 de julho, resgataremos aqui na Trivela os jogos, as histórias e os personagens da Copa do Mundo de 1994. Confira o diário de 16 de julho, com a preparação à decisão, baseado principalmente nos relatos da imprensa brasileira da época:

Parreira, entre a frieza e a empolgação

Carlos Alberto Parreira apresentava desde antes da final sua satisfação com o resultado do trabalho à frente da Seleção: “Para obter novas conquistas no futebol mundial, tem que se jogar com pragmatismo, seguir o caminho da atual Seleção. Quero um time frio e calculista. Não será como contra a Holanda, mas se a Itália sair para o jogo e não ficar só se defendendo, podem ter certeza de que nós faremos jogadas lindas. Chegamos à final sem ser ameaçados em nenhum jogo. Por isso é importante ter firmeza. Esse time mostrou que sempre estivemos certos, que acertamos as decisões desde o início. A excelente preparação física nos deu vantagem sempre no segundo tempo. Hoje vai pesar, também, a nossa vontade e o nosso coração. Temos gente para defender, gente para atacar, e o Romário para marcar os gols. É o craque que faz a diferença”.

Em entrevista exclusiva ao jornal O Globo, o treinador também falou sobre o clima de já ganhou diante da campanha mais consistente do Brasil: “A euforia é do torcedor. Nós estamos contidos, todos compenetrados no nosso objetivo. Nossos jogadores sabem que ainda não ganhamos nada. A gente evita inclusive o contato com o torcedor, porque a festa que eles fazem é bonita, válida, mas ainda é cedo para comemorar alguma coisa. E posso garantir que o já ganhou não existe entre nós. Sabemos que ainda temos 90 minutos pela frente. E muita luta”.

Zagallo, o confiante

Em entrevista à Folha, Zagallo se animava com a chance de ser tetra: “A maior qualidade do Brasil é a personalidade. Sinto cheiro de vitória. Quero ganhar de 1 a 0 com gol de mão. Não sonhei com o tetra, mas estou convicto. Somos predestinados, está escrito, confio”. O coordenador técnico também relembrou como viveu as emoções em 1970: “Chorei muito, os jogadores me carregaram. Agora estou calejado, não sei como será. No fim daquele jogo, o Pelé me abraçou no vestiário e disse: ‘Precisávamos estar juntos para comemorar esse tri’. Então me olhei no espelho e pensei que não era eu. Estava desfigurado, com o olho fundo. Lembrei-me do filme ‘O Retrato de Dorian Gray’, em que a personagem envelhecia no espelho. Mas o fato é que agora estou ganhando um título de novo. E eles vão ter que me engolir”.

Romário, a tranquilidade no futevôlei

Na véspera da final que poderia lhe consagrar, Romário estava tranquilo. Tão tranquilo que encarou um dos divertimentos que mais lhe agrada(va): uma partida de futevôlei, numa praia de Los Angeles. E debaixo de um sol escaldante, além de falar ao Jornal Nacional (TV Globo), o grande nome do Brasil naquela Copa protagonizou uma história engraçada, publicada na revista Placar. Um amigo que o acompanhou naquela ida fugídia à praia comentou, debaixo do sol do meio-dia californiano, que Romário teria de aguentar aquela canícula no dia seguinte, o da decisão. Tendo na cabeça o horário de Brasília, o atacante respondeu que não: a final seria às quatro e meia da tarde, e nesse horário a temperatura e o sol estariam mais amenos. O amigo treplicou gozando: “Mas como? O jogo será ao meio-dia e meia!”. Romário encerrou a discussão se sobressaindo: “Ah, é? Para mim dá no mesmo. Vamos ganhar nem que eu tenha de morrer no gramado. Aliás, terminado o jogo, quero ficar duas horas e meia deitado no meio do campo, sozinho, tetracampeão”.

Márcio Santos, direto e reto

Concordando com o discurso de Parreira, Márcio Santos demonstrava uma visão bastante pragmática à Folha: “A Itália, como a Alemanha, joga o futebol competitivo que tem levado os europeus à maioria dos títulos mundiais nos últimos anos. Pode não ser um futebol bonito, mas é um futebol ganhador. O Brasil também está jogando assim nos Estados Unidos. Estamos cansados de jogar bonito e perder a Copa. Eu me lembro bem de 1982. Era apenas um garoto. Jogamos bonito em Barcelona… E perdemos. É hora de mudarmos as coisas. Já se passaram 24 anos desde o último título”.

Taffarel atento aos chutes de longe

Taffarel declarou à Folha o tipo de armas que esperava encarar contra a Itália: “Contra a Suécia, a preocupação foram as bolas altas. Agora não podemos bobear de jeito nenhum. É bola alta e baixa. Mas eu acho que a Itália a gente já conhece bem. Não é muito bola por cima. São jogadores que chegam muito bem para bater de fora da área. A gente tem que evitar esses chutes deles. Um chute desses pode pegar bem e ir lá na gaveta”.

Branco, até o fim

Em mais uma conversa com a Folha, Branco declarava a necessidade de tomar cuidado com os botes da Itália nos minutos finais, o que já havia garantido vitórias contra Espanha e Nigéria: “Se a gente bobear, a Itália é um time que castiga. E se você analisar bem, eles vêm tendo uma sorte terrível. A Itália vem ganhando jogos no final sempre. Então, a gente precisa ter um cuidado muito grande. Principalmente no contra-ataque deles”.

Mazinho focado

Ainda à Folha, o meio-campista Mazinho falava sobre a mentalidade do Brasil naquele momento: “O dever cumprido para nós é sermos campeões. Vice não resolve o problema. Esse é o pensamento de todos. Passamos por muitos obstáculos difíceis. Com certeza, o melhor prêmio será o título. Nós temos um grupo aqui. Um grupo muito bom. Existe muito respeito de um jogador para com o outro. Não interessa aquele que entra ou aquele que sai do time”.

Tostão analisa

Comentarista da Copa na TV Bandeirantes, Tostão fez uma análise tática ao jornal O Globo sobre a final: “O Brasil é favorito, tem mais qualidades. Taticamente, as duas seleções jogam no 4-4-2 marcando por zona e sem líbero. A única vantagem dos italianos está no meio-campo, que é mais agressivo e faz mais jogadas ofensivas. Mas eles também não têm um craque excepcional no setor. Os italianos não têm jogadas laterais. Nós temos uma jogada com Jorginho, que vai muito bem ao ataque. Os laterais deles são fracos. Os nossos zagueiros são mais bem protegidos pelo meio-campo do que os deles. O meio-campo da Itália não tem um homem encostado nos zagueiros. O forte das duas equipes é a marcação no meio-campo e na defesa”.

Também negou que a Seleção fosse a ‘menos pior’ da Copa: “Não concordo. O Brasil tem virtudes e defeitos como qualquer equipe. Mas nossas virtudes são maiores do que as da Itália. O Brasil tem uma defesa e um meio-campo excepcionais na marcação. Na frente, temos dois atacantes excelentes. Romário é o maior atacante do mundo. Ele e o Bebeto pesam a nosso favor. As outras seleções não têm isso. Se o Brasil tivesse pelo menos um craque no meio-campo, ficaria ainda mais fácil. […] Não é um futebol feio, mas mudou a maneira de se jogar. Taticamente, não houve inovação, mas as equipes praticam o futebol moderno. Todas se defendem e atacam com muitos homens”.

Cruyff, sem modéstia

Em sua coluna à Folha, Johan Cruyff escreveu sobre a ascensão de Romário e colocou o Barcelona, então treinado pelo holandês, como fator primordial: “Há um ano, decidi que Romário poderia ser um excelente jogador para o Barça. No PSV, ele estava desmotivado e já não rendia o máximo. O Brasil havia se esquecido dele. Havia mais de dois anos que não o chamava para integrar o time nacional. A mim, não me serve a desculpa de que Romário era um jogador polêmico e, por isso, não era convocado. O que acontecia é que o atleta não oferecia a segurança de marcar gols. Por isso Parreira teria esquecido de seu nome. Entretanto, eu o contratei e, em menos de dois meses, conseguimos que todo o mundo voltasse a olhar para Romário. […] Romário foi a salvação para Parreira e para o Brasil. Acredito que algum dia teriam que nos agradecer, ao Barça, por ter recuperado Romário para o futebol de máximo nível”.

Baggio alimenta seu sonho

A indefinição sobre a participação de Roberto Baggio na decisão da Copa do Mundo se manteve até a véspera. Arrigo Sacchi afirmava que só usaria um como titular, entre Franco Baresi e Baggio, para não se arriscar com dois jogadores voltando de lesão. No último treino, o meia deu uma corrida e ouviu a preleção, mas bateu bola separadamente, sem participar do restante da atividade. O camisa 10 declararia depois que entrou para despistar a imprensa. Deveria realizar outro exame no dia da final, para saber suas reais condições. “Qualquer garoto sonha em jogar uma final de Copa do Mundo. Eu não sou exceção. Esperei muito por este momento. Quem vai dar a palavra final sou eu. A esperança é a última que morre. Vou tentar até o fim”, declarou.

Albertini era o motor da Itália

Apontado como o jogador mais talentoso na articulação da seleção italiana, Demetrio Albertini falava sobre sua função à Folha: “Basicamente, eu sirvo de apoio ao ataque. É uma função que, a princípio, não aparece tanto, mas é de importância vital ao time. Creio que, graças à minha função, o time conseguiu se articular melhor. […] Antes eu me preocupava em tentar o ataque. Com minha função mais limitada à defesa e à construção de jogadas, acho que acertamos um ponto que estava mostrando falhas”.

Arrigo Sacchi se orgulha do estilo de jogo

Na véspera da final, o técnico Arrigo Sacchi indicava certo orgulho ao falar sobre a maneira como mudou a mentalidade defensiva da seleção italiana: “Pela primeira vez na história da Itália entramos numa Copa do Mundo fazendo uma marcação por zona e abandonando a marcação homem a homem. Chegamos à final e acho que meus conceitos estavam certos. Para quem conhece o futebol italiano, foi uma mudança e tanto”.

As primeiras muambas

Antes mesmo da final, a Folha já noticiava que os jogadores aproveitavam a estadia nos Estados Unidos para realizar compras. Porém, tratava como um hobby dos reservas que “turistavam” no país. Ronaldo, por exemplo, comprou 62 CD’s. No desembarque ao Brasil, se soube que a maioria dos membros da delegação trouxe eletrônicos, eletrodomésticos e outros tantos itens. O avião da Varig, que levara 3,4 toneladas de carga rumo aos EUA, voltava com cerca de 14,4 toneladas. Diante da necessidade de pagar impostos, Ricardo Teixeira ameaçou que o time devolveria as medalhas e não participaria de cerimônias, caso a Receita Federal inspecionasse a bagagem. Depois de muitas carteiradas, as mercadorias passaram sem taxas.  O escândalo terminou conhecido como “voo da muamba”. Segundo os cálculos da época, os impostos relativos ao voo chegariam a R$1 milhão – valor suntuoso, considerando a implementação recente do real e a paridade com o dólar.

Com ou sem vitória, horas de folga

O presidente Itamar Franco decretou meio expediente na segunda-feira seguinte à final, mesmo sem saber o resultado. Todas as repartições públicas começariam a funcionar só depois do meio-dia. O mandatário também declarou que, em caso de título, decretaria ponto facultativo. Itamar preferiu não abrir o Palácio da Alvorada para que a imprensa acompanhasse o jogo com ele. Também não quis fazer prognósticos, embora não escondesse que gostaria de ver Ronaldo em campo.

O time de Romário

Antônio Werneck, no jornal O Globo, assinou uma belíssima reportagem sobre os primórdios de Romário no futebol. A melhor parte da história falava sobre as origens do primeiro time do Baixinho. Assim escreveu o repórter, em parte da matéria:

“Romário tinha oito anos quando seu pai, Edevair, o chamou para lhe propor um acordo: ele ganharia um grande presente se fosse o melhor da turma. O irrequieto garoto começava a segunda série da escola David Perez, na Penha, e só queria saber de bola. Mas aceitou o desafio e, no fim do ano, sua média foi a maior. Seu Edevair lembra quando o filho, feliz, chegou com o boletim: ‘Fiquei sem ação. Romário queria uma bicicleta, mas eu não tinha dinheiro. Foram alguns segundos de indecisão, olhando o boletim. De repente, deu um estalo e eu disse: Romário, vou lhe dar um time de futebol, todo seu. Pode jogar onde quiser, mas o técnico sou eu. Ele ficou me olhando espantado, mas gostou muito da ideia. Batizei o time de Estrelinha'”.

“No Estrelinha, apesar do número 7, Romário era centroavante: ‘Eu era muito severo. Quando ele fazia corpo mole e não jogava bem, eu botava no banco. Romário ficava possesso. No jogo seguinte voltava para o banco, como castigo. Assistia ao primeiro tempo e, batata! No segundo, vinha encabulado, me abraçava e, enroscado no meu pescoço, pedia para deixá-lo jogar. Ganhava na insistência’. Com 11 anos, Romário foi convidado para jogar no Vasco”, completa a reportagem.

Suécia 4×0 Bulgária: Maltratando a desatenção

Insossa. Assim pode ser definida a decisão do terceiro lugar na Copa de 1994. A Bulgária, com o senso de dever cumprido pela campanha histórica, pouco se importou com a preparação ao duelo com a Suécia. Os hábitos boêmios dos jogadores se mantiveram na véspera do encontro e os reflexos disso se notaram no placar: impiedosa goleada por 4 a 0, em que todos os gols saíram ainda no primeiro tempo. Hristo Stoichkov, dúvida por uma lesão muscular, até jogou. Mas o atacante não conseguiu aumentar sua contagem na artilharia da Copa. Terminaria com seis gols, empatado com o russo Oleg Salenko.

Na véspera, a Suécia criticou bastante a realização do jogo, tratado como supérfluo. O time também não contou com Jonas Thern, Roger Ljung e Martin Dahlin, três de seus destaques no Mundial. Mesmo assim, a equipe de Tommy Svensson maltratou a desatenta defesa búlgara. O primeiro gol saiu logo aos oito minutos, numa cabeçada de Tomas Brolin, aproveitando o posicionamento totalmente errado do goleiro Borislav Mihaylov. Krassimir Balakov chegou a carimbar a trave, num momento em que seu time buscava pressionar, mas os suecos ampliaram aos 30, em uma cobrança de falta rápida em que Hakan Mild pegou a zaga escancarada.

O terceiro, aos 37, contou com a participação patética de Trifon Ivanov. O zagueiro estava literalmente andando na marcação de Henrik Larsson, que disparou livre. Na tentativa de se recuperar, o beque tomou um capote. O jovem ainda driblou Mihaylov, antes de arrematar às redes vazias. Por fim, aos 40, outra péssima saída de Mihaylov facilitou a cabeçada de Kennet Andersson. Ivanov foi substituído na sequência e, irritado, jogou sua camisa para o técnico Dimitar Penev. Já Mihaylov saiu no intervalo. Durante o segundo tempo da pelada, Larsson perdeu duas boas chances de anotar o quinto. Já a Bulgária, tentando ao menos salvar um pouco de sua honra, viu Ravelli barrar Stoichkov no mano a mano. O final só valeu pelas palhaçadas do goleiro sueco, que começou a fazer graça em suas defesas e animou a torcida no Rose Bowl.