O sol forte se tornou um fator determinante na Copa de 1994. A organização da competição não teve muita sensibilidade, ao marcar a maioria das partidas para o meio da tarde – incluindo algumas por volta do meio-dia. O verão americano, além do mais, não deu trégua aos jogadores. Prova disso é que muitos jogos perderam intensidade drasticamente durante o segundo tempo e algumas seleções se deram bem por dosar suas energias. O calor, inclusive, influenciou bastante terceiro dia daquele torneio. O 19 de junho de 1994 teve placares apertados, com quebras de ritmo antes e depois do intervalo.

A partir desta semana, até 17 de julho, faremos aqui na Trivela um diário para relembrar as histórias, os jogos e os personagens da Copa de 1994, 25 anos depois. Confira as pílulas, baseadas no noticiário da imprensa brasileira na época:

Bélgica 1×0 Marrocos: A Bélgica vence, graças a Preud’Homme

O primeiro jogo de 19 de junho era visto como uma barbada. A Bélgica era uma seleção frequente em Copas e sempre marcava presença nos mata-matas. Tinha um elenco já tarimbado, com vários atletas nas principais ligas. Marrocos, de volta ao Mundial após oito anos, gerava bem mais desconfianças. Faltava rodagem ao grupo, inclusive ao técnico Abdellah Blinda, que assumiu a missão meses antes do torneio e declarava que não conhecia tão bem todos os seus jogadores. Apesar disso, os marroquinos fizeram um jogo bem mais duro do que o esperado em Orlando. Sob o sol quente das 12h30, os belgas confirmaram a magra vitória por 1 a 0, garantida logo nos primeiros minutos, mas passaram muitos apuros na peleja.

Dúvidas antes do jogo, Michel Preud’Homme e Enzo Scifo encabeçavam a Bélgica. E os Diabos Vermelhos determinaram os rumos do jogo logo aos 11 minutos, quando anotaram o gol da vitória. Luc Nilis fez o cruzamento, a defesa de Marrocos falhou na hora de cortar e o artilheiro Marc Degryse desviou de cabeça. Os marroquinos até começaram bem o duelo, mas sentiram o tento e permitiram a pressão dos belgas. Os magrebinos só conseguiram se recuperar no fim do primeiro tempo, quando Mohammed Chaouch carimbou o travessão com uma bomba de fora da área. Era apenas um aviso.

Já no segundo tempo, a situação realmente virou. A Bélgica sentia o desgaste e caiu de ritmo. Já os Leões do Atlas incomodaram bastante no ataque, com a movimentação do jovem Mustapha Hadji e a entrada de Ahmed Bahja. Faltou apenas um pouco mais de sorte. Na melhor oportunidade, a cabeçada Chaouch exigiu uma defesa monumental de Preud’Homme, em bola que ainda bateria no travessão. O goleiro, que acabaria eleito o melhor do Mundial, havia feito outras boas intervenções naquela tarde. A atuação de Marrocos recebeu elogios de Paul van Himst, técnico belga, se dizendo surpreso com a força dos oponentes.

Noruega 1×0 México: Um dos gols mais perdidos da história das Copas

Suspenso pela Fifa, o México não pôde disputar a Copa de 1990. Voltava ao Mundial de 1994 “se sentindo em casa”, com o apoio massivo de sua torcida nos Estados Unidos. El Tri chegou a ser ameaçado pelo Canadá, mas se confirmou nas Eliminatórias, e vinha com um time competitivo, sobre o qual se destacava o retorno de Hugo Sánchez e a possibilidade de escalar Jorge Campos também no ataque. A Noruega, embora encerrasse um hiato de 56 anos longe das Copas, merecia respeito. Fez uma campanha brilhante no qualificatório, liderando a chave de Holanda e Inglaterra, com um futebol veloz e objetivo. Além disso, contava com um elenco qualificado, de muitos jogadores na Premier League. Candidatava-se a ser uma das sensações nos EUA. O triunfo por 1 a 0, sob o calor de 35°C e a pressão de quase 50 mil mexicanos, confirmava as expectativas sobre o time.

O primeiro tempo esteve nas mãos da Noruega. O time entrou com uma postura consistente na defesa e segurou o ímpeto inicial do México. Além do mais, fazia um jogo duro, de muitas entradas ríspidas. Os noruegueses tiveram dois gols anulados na primeira etapa, em duas faltas sobre Jorge Campos, e o goleiro ainda faria milagre em bomba de Jan Ange Fjortoft. Já na volta do intervalo, outra vez o calor reduziu o ritmo de um confronto daquela Copa. El Tri cresceu, mas parou no goleiro Erik Thorstvedt, com duas grandes defesas. Hugo Sánchez também ficou muito próximo de anotar uma pintura de bicicleta, em tiro que saiu ao lado da trave.

Quando o revés parecia mais provável, o triunfo dos escandinavos foi definido aos 39. Kjetil Rekdal aproveitou uma sobra de bola, passou no meio da defesa e chutou cruzado. De qualquer maneira, os mexicanos ainda insistiram pelo empate e lamentaram demais um lance inacreditável ocorrido já aos 45. Quase em cima da linha, Zaguinho emendou um peixinho e fez o mais difícil, carimbando a trave. A sobra ainda voltou e bateu em sua cabeça, antes de triscar no travessão e ser neutralizada pela zaga. Era impossível não reclamar da sorte pela jogada. um dos gols mais perdidos da história dos Mundiais.

Uma Suécia pronta para se reerguer

A Suécia terminou a Copa de 1990 entre as principais decepções da competição. Por mais que fosse um grupo com seus perigos, os escandinavos destoaram e perderam os três jogos contra Brasil, Escócia e Costa Rica. Por isso mesmo, a equipe parecia disposta a se reerguer nos Estados Unidos. Fez uma ótima campanha nas Eliminatórias, com a primeira colocação da chave que também contava com Bulgária e França. Tommy Svensson assumiu o comando do time e deu um padrão de jogo. Que não fosse uma equipe brilhante, era bem montada e explorava bem a velocidade de seu ataque. A boa fase de jogadores como Tomas Brolin e Martin Dahlin em seus clubes referendava os suecos, mesmo sem sustentar grande cartaz.

Suécia 2×2 Camarões: Um empate animado, mas pouco revelador

Se era possível esperar algo a mais da Suécia quatro anos depois, Camarões não prometia repetir nos Estados Unidos o que havia aprontado na Itália. Apesar do potencial ofensivo, os Leões Indomáveis chegaram ao seu terceiro Mundial com vários problemas. Desde aquela época, já se alastravam os conflitos entre jogadores e dirigentes pelo atraso nas premiações. Um caso de corrupção envolvendo o presidente da federação quase provocou um gancho ao país, da mesma forma como as trocas constantes de técnicos não ofereciam qualquer estabilidade. Assim, o francês Henri Michel teve dificuldades para manter a força dos camaroneses. No fim das contas, o empate por 2 a 2 na estreia contra os suecos saiu de bom tamanho. Os africanos chegaram a virar o placar, embora tenham cedido a igualdade no final.

Melhor durante os primeiros minutos, a Suécia levava perigo principalmente nas bolas cruzadas. E foi assim que saiu o primeiro gol, aos oito minutos. O goleiro Joseph-Antoine Bell saiu mal após falta cobrada à área e o lateral Roger Ljung ficou com o gol aberto para marcar. Camarões não demorou a responder, explorando os erros da defesa sueca. A velocidade de seus atacantes incomodava, apesar de certo preciosismo nas definições. Ainda assim, entre o fim do primeiro tempo e o começo do segundo, se deu a virada.

Marc-Vivien Foé ganhou na raça pela esquerda e cruzou para David Embé empatar aos 31. O lance foi inicialmente anulado pelo árbitro, assinalando impedimento, mas o bandeira o levou a reverter (erroneamente) a decisão. Já no início da etapa complementar, o astro François Omam-Biyik anotou o segundo, ao ganhar de Patrik Andersson na velocidade e tocar na saída de Thomas Ravelli. Os suecos partiram ao ataque na meia hora final, com a entrada de Henrik Larsson. E o atacante ajudaria no resgate de sua equipe, participando do segundo tento. Aos 30, soltou um míssil do meio da rua e carimbou o travessão, antes que Dahlin aproveitasse o rebote. Depois do jogo, Parreira declarou que o placar foi bom ao Brasil, garantindo que os suecos eram “mais previsíveis” que os camaroneses.

A Soccerfest de Los Angeles

Entre as iniciativas paralelas dos Estados Unidos durante a Copa do Mundo, aconteceu a “Soccerfest”. O evento foi organizado em Los Angeles, em um centro de convenções com 500 mil metros quadrados e 30 pavilhões. Cada país classificado ao torneio teve o seu stand com comidas típicas, danças, músicas e artes tradicionais. “Nem quem odeia futebol pode perder o evento. Além de poder conhecer melhor outros países em nossa própria cidade, será a oportunidade de cruzar com muita gente famosa, do meio do futebol ou não”, propagandeava Richard Riordan, prefeito de Los Angeles. Existiam atividades especiais para crianças, com 25 mil ingressos distribuídos a famílias carentes. Além disso, eram exibidos filmes sobre a história dos Mundiais.

Enquanto isso, na seleção brasileira…

A seleção brasileira estava sob desconfianças na véspera de sua estreia na Copa do Mundo, contra a Rússia – o adversário mais difícil do grupo, segundo Carlos Alberto Parreira. “Indecisões do técnico e jogadores machucados impediram que os titulares treinassem juntos muitas vezes seguidas”, afirmava a reportagem da Folha. O corte de Ricardo Gomes era o maior entrave. De qualquer maneira, Aldair estava se recuperando de problemas físicos e Romário sentia dores musculares. Além disso, Parreira resolveu realizar um “rodízio de capitães” após tirar a braçadeira de Raí, o que indicava a falta de uma liderança clara naquele momento.

“Chegamos à Copa com a seleção montada exatamente porque o treinador foi teimoso, turrão, burro. Se tivesse sido inteligente, não estaria em lugar nenhum. As condições de trabalho sempre foram zero. Em nenhum momento pude reunir o time para treinar e competir. Em cada partida, havia jogadores diferentes, sempre com obrigação de ganhar”, refletiu Parreira, em entrevista à Folha, na antevéspera da estreia. “Muita gente diz que o Parreira é teórico. Isso dá a entender que treina o time no escritório, pô. Estou com esse time há três anos e fiz só uma palestra com slides. Meu trabalho é todo no campo. Pela experiência, sei que o jogador brasileiro não se adapta a coisas diferentes. Digam aí qual o treinador que inovou na seleção brasileira e foi bem-sucedido? Nosso jogador não resiste a esse tipo de coisa. Temos que ser convencionais com eles”.