Até 17 de julho, resgataremos aqui na Trivela os jogos, as histórias e os personagens da Copa do Mundo de 1994. Confira o diário de 11 de julho, com a preparação às semifinais, baseado principalmente nos relatos da imprensa brasileira da época:

Chuva de gols no fim

Um dado interessante das quartas de final da Copa do Mundo: dos 13 gols ocorridos no tempo normal, 12 vieram no segundo tempo. Além disso, sete aconteceram a partir dos 30 do segundo tempo. Garantia de emoção, impulsionada pela alta média de gols. Os mata-matas de 1994 registravam 3,33 gols por partida, a maior marca da Copa desde que passou a ser disputada por 24 seleções.

As dúvidas da Suécia

Técnico da Suécia, Tommy Svensson precisava lidar com sérios problemas para enfrentar o Brasil. Os escandinavos corriam o risco de perder três titulares para as semifinais. Stefan Schwarz era desfalque certo, após ser expulso na prorrogação contra a Romênia. O capitão Jonas Thern seguia como dúvida, com problemas no joelho. Além disso, o zagueiro Joachim Bjorklund também sentiu dores nas quartas de final e tinha sua participação em xeque. Ao menos, Martin Dahlin estava garantido ao importante compromisso. O atacante pediu para sair contra os romenos, ao sentir câimbras, mas não corria riscos além.

Fifa e suas besteiras

A Fifa, preocupadíssima como sempre com problemas graves do futebol, resolveu multar Taffarel antes das semifinais. O goleiro teria que pagar cerca de US$6,8 mil à entidade. O motivo essencial? O tamanho do logotipo em suas luvas. Segundo a Fifa, a marca “era muito grande”, desrespeitando os limites padronizados.

Cruyff avalia a Bulgária

“Que esta Copa não tem qualidade futebolística, já é uma evidência. Se Itália e Bulgária disputam um lugar na grande final, isso quer dizer que neste Mundial há muito pouco para se escolher. Da Itália nem vale a pena falar, porque seu jogo é o antiespetáculo. Mas o fato de a Bulgária estar nas semifinais é suficiente para acreditar que esse esporte começa a precisar de uma revisão. Estou muito feliz por Stoichkov, que agora deve estar louco de alegria. Na verdade, nem ele nem nenhum de seus companheiros conseguem acreditar que estejam nas semifinais, porque eles mesmos são os primeiros a reconhecer suas limitações como seleção. A Bulgária é o futebol-caos, com dois bons organizadores e dois atacantes de primeira linha, mas fica nisso. De resto, ninguém se destaca. E como se fosse pouco, eles não jogam como uma equipe, e sim cada um por si”, escreveu Johan Cruyff, em sua coluna na Folha.

Telê Santana avalia Taffarel

“Falam muito de falhas de Taffarel contra a Holanda. Não acho que a culpa maior tenha sido dele. Errou, sim, em ficar no meio do caminho, nem lá atrás, nem na bola, em alguns lances de área, inclusive no gol do empate. Mas o erro maior foi dos zagueiros. Não se pode sofrer um gol de lateral. E, no escanteio, deixaram o holandês cabecear sozinho. Precisamos ficar atentos ao jogo aéreo dos suecos. A rigor, a defesa brasileira só foi testada em dois jogos: contra a Holanda e o terceiro da primeira fase, justamente contra a Suécia. E mostrou deficiências. É preciso corrigi-las para que não se repitam nos dois jogos de Los Angeles”, escreveu Telê Santana, em sua coluna na Folha.

Vitória contra a Suécia vale US$60 mil para cada

Os jogadores brasileiros ganhariam um polpudo prêmio se avançassem à final. Segundo a Folha, 50% do valor previsto pela CBF seria pago já com uma vitória contra a Suécia. O bônus não foi revelado oficialmente, mas a previsão era de US$120 mil brutos por jogador no total. Para alcançar as quartas de final, cada jogador só havia embolsado US$1 mil. O prêmio teria sido fixado nos dois principais objetivos: chegar à final e conquistar a Copa.

Nada de alívio a Leonardo

A CBF ainda tentou recorrer, mas a Fifa rejeitou o pedido de reduzir a sanção imposta contra Leonardo pela cotovelada em Tab Ramos. Assim, o lateral estava realmente fora do restante da competição. Ele recebeu um gancho de quatro jogos. Leonardo resolveu permanecer concentrado até o final do Mundial, participando dos treinos normalmente. Ficava no banco durante as partidas.

Craques e quase compadres

Hristo Stoichkov estava com passagens compradas para vir ao Brasil após a Copa do Mundo. O atacante do Barcelona batizaria Romarinho, filho de seu parceiro de ataque no clube. Romário, contudo, acreditava que poderia se cruzar com o amigo já na decisão do Mundial. “Acho que vamos nos encontrar antes. A Bulgária tem plenas condições de vencer a Itália. Já conversei com Stoichkov sobre isso. O time tem jogadores de nível técnico elevado, como Letchkov, Kostadinov, entre outros. É uma excelente seleção, que merece chegar à final. Precisamos tomar cuidado para não sermos surpreendidos”, comentou o Baixinho, ao jornal O Globo. O detalhe é que, no fim das contas, o sucesso búlgaro na Copa significaria o rompimento da amizade. Stoichkov precisou voltar ao seu país para receber as homenagens do governo pela campanha até as semifinais, não participou do batizado e os laços com Romário se estremeceram a partir de então.

Dunga nega ressentimentos

Em entrevista à Folha, Dunga falou sobre as perspectivas da Seleção naquele momento: “Acho que precisamos errar menos. Temos que melhorar e aperfeiçoar o time. Como em todos os Mundiais, a equipe que erra menos é a que vence. […] Acho que receber críticas já era esperado. É uma característica do brasileiro, de sempre exigir mais. E também de se ressaltar sempre os aspectos negativos, os defeitos e não as qualidades”.

Além disso, questionado sobre o tom de suas entrevistas, negou nutrir ressentimentos por aquilo que ocorreu em 1990, tratado como culpado pela eliminação na Itália: “Não tem mágoa da imprensa e das críticas que recebi. O fato é que em 82 a Seleção jogou bonito e não pelo resultado. Acabou sendo criticada. Agora, o time tenta fazer um equilíbrio, busca o resultado, está ganhando, mas continua sendo criticado. […] O estresse é e sempre será grande por causa da cobrança, mas o grupo está unido e tem muita experiência”.

Ricardo Rocha quase 100%

Após se lesionar na estreia da Copa do Mundo, Ricardo Rocha estava praticamente recuperado de seus problemas musculares. O zagueiro, porém, não pretendia retornar ao time titular. E destacava-se por seu papel à beira do campo, ajudando bastante na orientação aos companheiros durante as partidas:”Não conto com a volta. Estou pronto para entrar, mas acho que Aldair e Márcio Santos dão conta do recado. Para falar a verdade, já estou pensando em 1998. Quero me despedir do futebol como titular da Seleção na França. O pessoal que me vê dando orientação ao time durante os jogos me pergunta se pretendo ser técnico algum dia. Sim, pretendo. Tenho aprendido muito aqui. Mas o que eu mais gosto de fazer na vida é jogar futebol. As carreiras de técnico e deputado vêm depois. Sou falador, gosto de passar adiante o que estou vendo. Nesses últimos dias, tenho conversado com Aldair e Márcio Santos. Não podemos bobear como bobeamos nos gols da Holanda”.

Brasil pelos ares

A maior preocupação de Parreira em relação à Suécia se concentrava na força dos escandinavos no jogo aéreo. Por isso, a Seleção preparava esquemas especiais de marcação. Tentava antecipar a pressão para evitar os cruzamentos da intermediária, mas também buscava ocupar a área com nove homens durante as bolas paradas. “Eles têm uma jogada mortal, que é a bola aérea. Temos que matar antes de sair o cruzamento. O Brasil terá que se esforçar para impedir os lançamentos. A Suécia não faz cruzamentos da linha de fundo, e sim da intermediária. Vamos sair mais, apertar, ousar”, avaliava o treinador.

Jogatina na concentração

A Seleção se hospedou no Hotel Marriott durante a reta final da Copa do Mundo, em Los Angeles. O local era o mesmo onde se concentrou a Colômbia durante a fase de grupos. A CBF chegou a criar um quarto de jogos. Deixava à disposição quatro máquinas de fliperama, cinco pebolins, oito jogos de damas e 12 dominós. O segundo andar estava inteiramente fechado aos brasileiros.

Ravelli conta seus segredos

Herói na classificação contra a Romênia, o goleiro Thomas Ravelli comentou sua técnica para defender duas penalidades: “Apliquei com sucesso uma fórmula na cobrança dos pênaltis. Adiei o máximo possível o momento de saltar. O cobrador fica mais nervoso porque não sabe em qual canto vou pular. No momento em que Belodedici correu para a bola, ele vacilou porque não dei nenhuma dica sobre o lado que eu saltaria. Não existe treino específico. Depende da sorte”.

Sob a inspiração de Luther King

O nome de Martin Dahlin, atacante da Suécia, tinha uma grande inspiração. Segundo o atacante, era uma homenagem ao ativista Martin Luther King Jr, célebre nome na luta pelos direitos dos negros nos Estados Unidos. O sueco nasceu em 16 de abril de 1968, apenas 12 dias após o assassinato de Luther King. O artilheiro tinha mãe sueca e pai venezuelano, músico, que o abandonou quando estava com três anos de idade. Destaque de sua seleção, dizia não sofrer racismo na Suécia, embora enfrentasse injúrias na Alemanha, onde defendia o Borussia Mönchengladbach.

Oito jogos de suspensão a Tassotti

Mauro Tassotti ficou impune durante o Itália x Espanha, em que acertou uma cotovelada dentro da área em Luis Enrique. Sequer levou cartão ou teve a falta marcada contra si. Entretanto, a Fifa decidiu ser ainda mais rigorosa com o lateral, após a partida, do que havia sido com Leonardo. Analisando o videotape, deu um gancho de oito partidas ao defensor. Ele também receberia uma multa de US$15 mil. Foi a primeira vez na história que a Fifa utilizou o replay para suspender um atleta no Mundial. Enquanto isso, Luis Enrique ficou com o nariz fraturado – e, mesmo assim, permaneceu em campo após o golpe, ignorado pelo árbitro Sandor Puhl.

Baresi vive seu milagre

Franco Baresi precisou ser submetido a uma cirurgia após o segundo jogo da Copa do Mundo, ao romper o menisco. No entanto, já se via pronto para entrar em campo, mesmo que durante poucos minutos. “O joelho está ok. Falta fôlego, porém. Em uma outra competição, eu talvez pudesse entrar nos últimos minutos da próxima partida para testar a minha resistência. Agora, num Mundial, não se pode arriscar. Talvez jogue na final. Eu não tenho mais o vigor dos 20 anos”, declarou à Folha.

Sacchi cauteloso

Diante da classificação da Bulgária às semifinais, Arrigo Sacchi alertava sobre o jogo difícil que a Itália encararia. “Como parar Stoichkov? Talvez use uma pistola. Todos devemos nos preparar para sofrer muito. Sei que sofreríamos se tivéssemos que jogar contra a Alemanha. E agora estou certo de que também sofreremos bastante para passar da Bulgária. Não vejo um ponto fraco específico neles. Não têm um jogador que centralize o esquema e isso dificulta o meu trabalho. Há pelo menos três homens deles que podem ditar o ritmo de jogo. Nós é que temos que mandar em campo logo de saída”, afirmou, a’O Globo.

Baggio descontente

Decisivo nas duas partidas dos mata-matas, Roberto Baggio não se mostrava muito alegre com as táticas adotadas por Arrigo Sacchi. O camisa 10 criticou o desgaste causados pelo esquema de jogo do comandante: “Os jogadores brasileiros chegam ao final do jogo em forma. Sabe por quê? Porque quando o calor é insuportável, eles fazem a bola correr. Eu acho que devíamos fazer o mesmo. Ou vamos acabar voltando para casa antes da hora. No jogo contra a Espanha, terminamos tão cansados que nem tivemos forças para comemorar a vitória. Eu acho que a esta altura pelo menos nós, que jogamos no ataque, deveríamos fazer aquilo que sentimos por dentro”.

Cigarro, uísque e baralho

A Bulgária aproveitou bem a festa pela classificação às semifinais da Copa do Mundo. Segundo funcionários do hotel onde estavam hospedados, eles passaram a madrugada tomando uísque e fumando cigarros fortes, enquanto jogavam baralho. “Esses búlgaros são completamente diferentes. Tomam café e fumam o dia inteiro. Ficam todos loucos após os jogos. Isso parecia um cemitério com os noruegueses. Só tomavam água mineral, falavam baixo e dormiam cedo”, comparava o barman do hotel, onde também havia se concentrado a Noruega durante a fase de grupos.

A evolução da Bulgária

Em entrevista à Folha de S. Paulo, o meia Yordan Letchkov falava sobre o crescimento de sua equipe rumo à semifinal da Copa: “Nosso time mudou muito em duas direções desde o jogo contra a Nigéria. A primeira foi que acertamos o conjunto do time, os passes e as jogadas. Mas a mais importante das mudanças foi que passamos a funcionar como uma verdadeira equipe, muito unida, o que não acontecia logo no início desse Mundial. Muitos jogadores da Bulgária passaram a entender que era possível ter um time poderoso se ele juntasse a força de todos os talentos que estavam dispersos em equipes de vários países da Europa”. Jogador do Hamburgo, Letchkov sofreu ameaças após anotar o gol que desclassificou a Alemanha. Neonazistas afirmaram que explodiriam sua casa se não buscasse outro clube. Apesar disso, ele continuou na equipe até 1996.

Crise na Alemanha

A Alemanha teve infinitos problemas de relacionamento durante a Copa de 94. E, mesmo eliminada, seguia causando alvoroço. Depois da derrota para a Bulgária, o técnico Berti Vogts resolveu criticar a manutenção de Bodo Illgner no gol. De fato, o arqueiro não foi bem no Mundial, mas não teve tanta culpa assim nos gols da Bulgária. “Illgner parecia mal. Conversei com Sepp Maier [preparador de goleiros da seleção], que achou melhor mantê-lo como titular. Hoje, reconheço que foi uma decisão errada”, apontou o comandante. O favorito para substituí-lo era Andreas Köpke. E até ele se revoltou com as palavras de Vogts: “Ele está maluco. Se achava que Illgner estava mal, por que não o tirou do time? Fiquei decepcionado com ele depois do jogo contra a Coreia do Sul. Estava certo que eu entraria. Só voltarei a jogar pela seleção com a certeza de que ele confia no meu trabalho”. Ao final daquele Mundial, Illgner anunciou o fim de sua carreira no Nationalelf. Andreas Brehme e Rudi Völler foram outros tricampeões do mundo que fizeram o mesmo.