Até 17 de julho, resgataremos aqui na Trivela os jogos, as histórias e os personagens da Copa do Mundo de 1994. Confira o diário de 12 de julho, com a preparação às semifinais, baseado principalmente nos relatos da imprensa brasileira da época:

Brasil viajante

O Brasil era a equipe que mais havia viajado na Copa de 1994, até as semifinais. Da primeira fase até o reencontro com a Suécia, o time percorreu 11 mil km apenas de avião. Concentrada na Califórnia, a Seleção viajou duas vezes para Detroit e outra para Dallas. A Suécia, em contrapartida, havia viajado somente 7,6 mil km. A Bulgária não passou dos 4,7 mil km. Já a Itália era a mais beneficiada, cruzando somente 1,3 mil km pelos ares.

Parreira de olho no jogo aéreo

A qualidade da Suécia no jogo aéreo permanecia como assunto batido nas coletivas da Seleção. Parreira insistia:”São jogadas conhecidas, mas perigosas. Não seremos surpreendidos. Repito: não haverá surpresas. Não podemos sofrer gols como o segundo contra a Holanda. O mais importante é matar a jogada no nascedouro, impedir o cruzamento das bolas sobre a área”.

Já ao ataque, o comandante pedia velocidade: “Será de suma importância que nosso ataque seja feito, na maior parte do tempo, pelos lados do campo. Tenho certeza de que é a melhor maneira de furar a retranca sueca. Jorginho e Branco devem avançar alternadamente sem expor a defesa aos contra-ataques. Além de jogar pelos lados, contra a retranca sueca temos de jogar sempre com toques rápidos, de primeira, para abrir a defesa. Com lentidão e passes errados, teremos dificuldades de novo”.

As ótimas condições físicas do Brasil

À Folha de S. Paulo, o preparador físico Moraci Santana exaltava as condições do elenco na reta final do Mundial: “Se depender de fôlego e pernas, a seleção brasileira não perderá esta Copa. Nenhuma outra seleção se preparou tão cientificamente para disputar esta Copa no verão dos Estados Unidos. A única exceção seria a própria equipe americana, que, afinal, está em casa. Temos que preparar a equipe de modo que todos os jogadores só atinjam seu apogeu na última partida. No momento, chegamos aos 90%. Se tivéssemos chegado aos 100% nas oitavas, por exemplo, já estaríamos em declínio. E não disputaríamos a decisão nas condições ideais”.

Além disso, o preparador também atribuía a forma da Seleção à união entre os jogadores: “O condicionamento físico de um time pode ser seriamente afetado por problemas entre os jogadores, diferenças entre eles, crises, etc. O estado físico sempre depende do psicológico. Talvez a união se dê por aquilo que alguns deles viveram há quatro anos, na Copa da Itália. Houve lá muitos problemas extracampo. E os que enfrentaram esses problemas fizeram deles uma lição a ser passada aos mais novos”.

Romário reflete sobre o momento

Antes do jogo contra a Suécia, Romário falou sobre o estilo de jogo da Seleção e o seu encaixe: “Por muitos anos se falou que a camisa amarela era bonita, mas que não tinha um coração. Agora acho que vamos poder continuar a dizer que a camisa amarela é bonita, mas que tem 11 corações batendo dentro dela. Tenho certeza que a minha passagem pelo Barcelona me trouxe de volta para a seleção. Mas o importante agora é o jogo contra a Suécia, só penso na Suécia. […] O que faço na seleção é diferente daquilo que faço no meu clube. No Barcelona tem mais gente perto para que as jogadas saiam. Aqui, preciso voltar um pouco. O futebol que a Seleção tem jogado é o futebol moderno. Os 11 jogadores têm que estar bem e fazer o que estiver determinado. De outro jeito, não funciona”. O Baixinho também abrandara as críticas a Carlos Alberto Parreira, ásperas principalmente depois da vitória sobre os Estados Unidos.

Svensson prepara a marcação cerrada

Técnico da Suécia, Tommy Svensson planejava a melhor maneira de bloquear os espaços aos brasileiros: “Não faremos uma marcação individual, que já se provou ser errada nos jogos da Copa, principalmente contra o Brasil. O objetivo é ter sempre um jogador em todos os setores do campo para bloquear a habilidade brasileira. […] Fizemos um trabalho intensivo de concentração, iniciado há dois anos. Todos os jogadores selecionáveis passaram a trabalhar sob um sistema que procurava aprimorar a força do grupo”.

Consciência de azarão

Dimitar Penev, técnico da Bulgária, colocava sua seleção como franco-atiradora nas semifinais: “Sei que a Itália já foi campeã do mundo três vezes, mas nós também tivemos grandes experiências nos últimos dias que devem ser levadas em conta nessa partida. Além disso, nós não temos nada a perder com esse jogo, enquanto os italianos estão colocando muita coisa em risco. O meio-campo será crucial para determinar o vencedor”.

Stoichkov, entre a confiança e a arrogância

Em entrevista à Folha, Stoichkov falava sobre a campanha histórica da Bulgária: “Eu prefiro jogar contra a Suécia do que contra o Brasil na final. Já jogamos outras vezes contra os suecos e sabemos que é um time inferior ao Brasil. Por outro lado, gostaria muito de enfrentar o Romário pela primeira vez em uma partida oficial. Mas agora estou concentrado apenas nos italianos. Fizemos o melhor possível até o momento e já estamos entre os quatro melhores times do mundo. Não estamos pensando em perder, afinal somos 11 contra 11. Mas se isso acontecer, tenho certeza de que o povo búlgaro vai reconhecer o valor do time”.

Além disso, o atacante demonstrava certo desdém em relação aos italianos: “Seguramente vencer a Itália será mais fácil que a Alemanha. Mas temos que jogar mais motivados e mais tranquilos que na partida contra os alemães. Não temos medo dos italianos e, como já disse, são 11 contra 11. Acho que vai ser mais fácil pelo fato de os italianos terem um estilo que deixa a gente jogar com mais liberdade. Os alemães pressionam demais e jogam mais forte. […] Todos esperavam que Baggio estivesse melhor do que se apresenta nas últimas partidas – e isso é grave. Mas ele sempre marca uma diferença a favor do time”.

A Itália novamente com mudanças

Arrigo Sacchi analisava o Itália x Bulgária, vendo a chave para o jogo também na faixa central: “Ninguém entra de graça no grupo dos quatro melhores da Copa. Enfrentaremos mais um adversário dificílimo. A equipe precisará mais do que nunca de muita pressão no meio-campo e de velocidade no ataque. Não imagino uma maneira diferente de superarmos a Bulgária”. O treinador planejava a sexta escalação diferente em seis jogos, com o retorno de Pierluigi Casiraghi ao comando do ataque.

Dino Baggio quer o Brasil

Em entrevista ao jornal O Globo, Dino Baggio vislumbrou a chance de uma final entre Itália e Brasil: “Sinto que vamos vencer a Bulgária. E depois vou ficar torcendo pelo Brasil, pois quero realizar um velho sonho. Quando comecei a jogar profissionalmente, sonhava um dia poder jogar contra o Brasil numa final de Copa. E estou vendo que a probabilidade disso acontecer é enorme. Tomara que se concretize. O Brasil é uma equipe magnífica. Achei o máximo o jogo contra a Holanda. O Brasil agora joga de uma forma extraordinária. Sua maneira de pressionar os adversários é fora do comum. Um jogo entre Brasil e Itália será de tirar a respiração. Noto algumas falhas na defesa e gostaria de explorá-las. Mas sei que os brasileiros também são extremamente habilidosos para desmontar uma zaga. Será o jogo do século, não tenho a menor dúvida”.

Preso o mentor do roubo da Jules Rimet

Soava como realismo fantástico, mas foi justamente na semana final do tetra que o ladrão da taça Jules Rimet foi preso. Sérgio Pereira Ayres estava foragido desde 1985. Ele foi o mentor intelectual do roubo, segundo a investigação, e havia sido condenado pelo crime. Sérgio morava em Cabo Frio, onde foi encontrado pela polícia. Antigo representante do Atlético Mineiro na CBF, ele planejou o assalto à sede da entidade, em que dois homens renderam o vigia e levaram o troféu, posteriormente derretido.

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