Até 17 de julho, resgataremos aqui na Trivela os jogos, as histórias e os personagens da Copa do Mundo de 1994. Confira o diário deste 6 de julho, dia de preparação às quartas de final, baseado principalmente nos relatos da imprensa brasileira da época:

Por que os campos da Copa de 1994 eram “desenhados”?

Uma das marcas características dos estádios na Copa de 1994 eram os gramados. Os desenhos dos campos nos Estados Unidos primavam por uma estética que fugia dos padrões simples de outros Mundiais. Existiam desenhos inventivos na grama, entre circunferências e linhas cruzadas em diferentes sentidos. Não sem motivo. Eles serviam para camuflar as marcações do futebol americano. “As administrações quiseram evitar que as sombras das marcações pudessem aparecer e prejudicar as novas linhas feitas para o futebol. Por isso os gramados foram desenhados. O campo fica mais bonito, especialmente nas transmissões de televisão”, explicou o arquiteto Jerry Anderson, responsável pelos estádios da Copa, à Folha de S. Paulo.

Telê Santana analisa as oitavas

“Os jogos da Copa melhoraram muito nesta fase. Cada um é uma decisão – e cada decisão tem acontecido entre equipes que se mostram superiores à fase de grupos. Nervosismo à parte, o Brasil está no mesmo caso. Começa-se a jogar nos EUA o futebol que eu esperava para a Copa, mas que não se confirmou antes. Um bom exemplo é a Alemanha. […] Muita coisa vem contribuindo para essa ascensão das equipes. Um dos fatores é a qualidade das arbitragens. Já não digo tecnicamente. O que me agrada nos árbitros é o seu comportamento diante do antijogo, da violência, dos recursos extra-futebol. Não há desculpa: agiu errado, leva cartão”, escreveu Telê Santana, em sua coluna à Folha.

Complementou analisando o Brasil: “Até agora a Seleção não viveu um instante de tranquilidade em seus jogos. Já disse que essa seleção tem raça, entusiasmo. Precisa ganhar serenidade. Perguntaram-me se a Seleção tem jogado tensa por ser a favorita ao título. Não creio. Nem no favoritismo, nem que ele possa deixar nossos jogadores nervosos. Há gente experiente neste time. Taffarel, Jorginho, Bebeto, Romário e Mazinho já estiveram numa Copa. Uma coisa é clara: daqui para frente, não há mais favoritos. Justamente pelo rigor das arbitragens, vão para a final desta Copa os dois que praticarem o melhor futebol. O Brasil pode ser um deles”.

Cruyff analisa as oitavas

“Pela primeira vez nesta Copa, se viu 16 seleções lutando pela vitória. Cada uma à sua maneira. Umas defendendo muito, mas contra-atacando com instinto assassino. Outras, impondo sua maior experiência. E uma ou duas dominando a bola e controlando o ritmo da partida. As oitavas de final tiveram a sorte de que, na maioria das partidas, o placar saiu do zero na primeira meia hora. Isso sempre ajuda. Quem está perdendo tem de atacar. No entanto, apesar dos gols e da emoção de algumas partidas, me preocupa que a maioria das equipes eliminadas foram as que deram peso aos jogos: Argentina, Suíça, Arábia Saudita. A qualidade daqueles que querem conduzir a partida não é grande o suficiente para superar os adversários. Assim, o jogo defensivo e de contra-ataque acaba se impondo. Eu diria que só o Brasil, apesar de seus detratores, e a Holanda souberam controlar o jogo e ter a bola em seu poder”, escreveu Johan Cruyff, em sua coluna à Folha.

Leonardo fora da Copa

A Fifa confirmou a suspensão de Leonardo naquele 6 de julho. O lateral brasileiro recebeu uma pena de quatro partidas e uma multa de US$6 mil pela cotovelada em Tab Ramos. Com isso, estaria fora do Mundial. O Brasil até poderia apelar da decisão, mas a punição mínima seria de duas partidas. “A falta de Leonardo é o pior exemplo de agressão. O Comitê não levou em consideração o pedido de desculpas ou a visita ao hospital. Também não nos interessa se o jogador estava hospitalizado ou não, lidamos com regulamentos”, declarou Joseph Blatter, então secretário-geral da entidade. Enquanto isso, a delegação alemã foi multada em US$9 mil por usar o logotipo da Fifa irregularmente.

O Brasil se blinda

A Seleção iniciou sua preparação às quartas de final sob clima tenso. Em 6 de julho, tapumes e bancos de madeira cercavam a saída do campo de treinamentos em Santa Clara. Serviram como desculpa para que os jogadores não falassem com a imprensa, apenas Parreira e Zagallo – ambos brevemente. Além disso, alegando pressa no embarque a Dallas, o time seguiu ignorando os jornalistas, mesmo com o atraso do voo fretado.

Segundo a apuração da Folha, Romário se reuniu somente com os jogadores no CT e falou de forma séria com eles antes do treinamento. Havia um grupo de atletas insatisfeitos, por diferentes motivos: Romário, Raí, Branco, Cafu, Müller, Viola e Ronaldo. Romário não gostava da maneira como a equipe atuava. Os demais questionavam o espaço no time. Além disso, Parreira se mostrava indeciso com as mudanças na equipe, o que irritava alguns atletas. E, para piorar o clima, o regime rígido na concentração contribuía ao desgaste. Já eram 43 dias nos EUA, fechados nas concentrações e longe da família.

Romário solta o verbo

Antes da conversa com os companheiros, Romário já tinha externado sua bronca, ao Jornal do Brasil: “Tecnicamente, dá pena de ver o Brasil jogar. Como todo respeito aos americanos, não podemos, com os jogadores que temos, vencer só de 1 a 0. Não que tenhamos de jogar bonito, mas não estamos demonstrando um futebol bem jogado como o brasileiro gosta. Estamos mal tecnicamente. A Copa está nivelada por baixo. Não existe um time bom e por isso levamos vantagem. Somos superiores na técnica e é preciso fazer valer isso. Até agora temos vencido todos os jogos na disposição. Mas até quando iremos aguentar?”.

“O que eu acho que poderia ser feito? Acho muita coisa. O problema é que, se eu falar, vou criar polêmica e atrapalhar o trabalho. Por isso, é melhor ficar calado. O calor, os adversários retrancados e os problemas específicos de cada um explicam o mau rendimento. O meu é simples: a bola não chega. Ela até chegou mais um pouco contra os Estados Unidos, mas já falei com o Parreira que não está chegando como deveria. Mas ele acha que está bom, e aí… Eu te digo que, se eu e o Bebeto não voltarmos para buscar o jogo, a gente acaba participando pouco da partida”, complementou.

Zagallo fala sobre o jogo contra a Holanda

“A postura da Holanda vai permitir que tenhamos os espaços desejados. Até agora, todos os nossos adversários preferiram ficar plantados lá atrás, esperando nosso time no seu próprio campo. Os holandeses, não. Eles atacam também. É da natureza de seu futebol. E aí vocês vão ver como nosso time sabe atacar, tendo espaços pra isso. Os três de frente da Holanda se movimentam muito e voltam também quando perdem a bola. Mas nós, pelo menos nesse jogo, teremos chance de contra-atacar. E, com Bebeto e Romário tendo espaço, eles resolvem qualquer parada”, aponto Zagallo, à Folha.

Ao Jornal do Brasil, relembrou o encontro com a Holanda na Copa de 1974, quando era o técnico e tomou um baile: “Agora somos melhores. Eles podem vir com qualquer sistema que estamos prontos para derrotá-los. Na Copa da Alemanha, em 74, o futebol holandês era quase perfeito. Apresentava uma coordenação na saída da defesa ao ataque que liquidava com o adversário. Estudei tanto aquele time que deu para fazer um primeiro tempo excelente, mas nem assim deu para vencer. Perdemos dois gols e no segundo tempo eles venceram. Não adianta tentar justificar agora. Hoje a realidade é outra. O Brasil é melhor e vamos eliminá-los”.

E o veterano fez questão de enfatizar o seu símbolo da sorte, o número 13, que inflava sua confiança: “Começa em 58, meu primeiro título. Cinco e oito são 13. Agora, em 94, mais um 13. Acabei de receber uma carta em que o torcedor lembra que Coca-Cola e Umbro, os patrocinadores da Seleção, também somam 13 letras. Melhor ainda, Estados Unidos, 13 letras novamente. Assim é demais. Vamos ser tetra, mais uma vez, 13 letras”.

Koeman avisa sobre Romário

Companheiro do Baixinho no Barcelona, Ronald Koeman alertava sobre o talento do atacante antes do Brasil x Holanda: “Romário é um jogador espetacular, que exige uma atenção redobrada. Muitas vezes ele parece estar apagado. De repente, em um drible, Romário decide o resultado da partida”.

Foi com medo de avião

A seleção da Holanda teve diversos problemas em seus voos pelos Estados Unidos. Antes do Mundial, na viagem para a estreia em Washington, um jornalista ligou seu computador durante o voo e afetou os controles do avião, o que causou problemas no pouso. Uma semana depois, indo de Washington para Orlando, um jornalista teve um ataque epilético no meio da viagem, o que forçou um pouso de emergência. E, rumo a Dallas para encarar o Brasil, o caso mais grotesco. Lex Muller, repórter do Algemeen Dagblad, declarou que tinha uma bomba em sua bagagem. Tudo não passava de uma brincadeira, mas causou uma grande confusão. O FBI acabou acionado e a inspeção da aeronave provocou um atraso de quatro horas. Muller foi preso, deportado e demitido. Vale lembrar que Dennis Bergkamp, tão avesso aos voos, estava presente – embora seu histórico de problemas com aviões fosse mais longo.

Matthäus era dúvida

A Alemanha se preparava ao jogo contra a Bulgária com preocupação. Lothar Matthäus era dúvida ao compromisso. O líbero sofreu um corte no pé durante a partida contra a Coreia do Sul e, sob o efeito de quatro injeções analgésicas, precisou deixar o campo no segundo tempo durante a vitória sobre a Bélgica, nas oitavas. No fim das contas, o camisa 10 acabaria jogando – e, mesmo marcando um gol, não evitou a eliminação. Outro entrave aos alemães envolvia Mario Basler, atacante reserva. Ele ganhou a liberação para voltar ao país. Sua esposa, grávida, teve um problema de saúde e precisou ser hospitalizada.

Hagi faz a Suécia temer

“Hagi tem tudo. Tem uma fantástica visão de jogo, é forte tecnicamente, sabe chutar ao gol e ainda por cima é veloz. Temos que ficar atentos para não cometer o erro da Argentina. Não podemos ir para frente em massa e deixar espaços para o contra-ataque romeno”, afirmou Tommy Svensson, técnico da Suécia, adversária da Romênia nas quartas.

A Espanha não desejava a Itália

“Preferia enfrentar a Nigéria. Agora ficaram todos os grandes no Mundial. Só faltou a Argentina. A Itália é dessas equipes que não decaem. Mesmo quando não joga bem, é capaz, em dez minutos, de resolver a partida. Não se pode dormir um minuto, que se paga caro. Sacchi é um treinador extraordinário”, declarou Javier Clemente, comandante espanhol.

Baresi, sobre-humano

Uma boa notícia à Itália após a classificação sobre a Nigéria era o retorno de Franco Baresi aos treinamentos. O líbero se lesionou na segunda rodada, contra a Noruega. Deixou o campo com uma ruptura de menisco e precisou ser operado nos EUA, saindo do centro médico de muletas. Restando 11 dias para a decisão, sua volta ainda parecia improvável. Mas ele retomou as atividades, trotando em campo.

Terras para a Nigéria

Após a eliminação contra a Itália, a Nigéria recebeu um prêmio diferente por sua participação na Copa. Os jogadores ganharam terrenos da federação local. A entidade devia US$40 mil a cada um. Pagou US$30 mil e o restante foi quitado através de terrenos cedidos pelo governo. O tema, pra variar, foi motivo de um breve motim das Super Águias às vésperas do Mundial.

O sindicato de Maradona

Diego Maradona planejava criar um sindicato internacional de jogadores em 1994. O argentino teria se reunido com Lothar Matthäus para discutir a ideia. A intenção era que o sindicato batesse de frente com a Fifa. “Penso na possibilidade de criar este sindicato para que possamos nos defender. Precisamos ter voto e vez”, declarou à TV local. Mais do que o caso de doping, Maradona se incomodava com o horário dos jogos, sob forte calor, apenas para agradar as redes de televisão europeias.

Sucesso de audiência

O Brasil x Estados Unidos bateu recordes de audiência no país da Copa. Cerca de 32 milhões de americanos viram a partida pela TV. Foi o recorde do esporte no país, com 10 milhões a mais de espectadores do que no EUA x Romênia.

Bons números

Um dado interessante sobre a Copa do Mundo até aquele momento: o número de partidas sem gols era o menor desde o Mundial de 1958. Apenas dois jogos tinham terminado com o 0 a 0 no placar. Porém, apesar do aumento na média de gols, apenas um duelo teve mais de cinco tentos. Os dados indicavam o equilíbrio e a forma como as goleadas não inchavam as médias. Também ocorreram quatro viradas até as oitavas, o dobro do registrado em 1990.