Até 17 de julho, resgataremos aqui na Trivela os jogos, as histórias e os personagens da Copa do Mundo de 1994. Confira o diário de 8 de julho, no aquecimento para as quartas de final, baseado principalmente nos relatos da imprensa brasileira da época:

Calor do Texas

Um fator determinante no Brasil x Holanda, como de praxe na Copa de 1994, seria lidar com o calor. A previsão era de que os termômetros batessem os 35°C durante a partida em Dallas – com sensação térmica alcançando os 42°C. Dosar a energia seria parte essencial da estratégia, inclusive na escolha dos jogadores.

Zinho se mantém

Carlos Alberto Parreira chegou a discutir se utilizaria Raí no lugar de Zinho durante a partida contra a Holanda. Resolveu isso na véspera. Zinho estava mantido no time. “Contra a Holanda vou criar e ousar mais. Sei que não estou desenvolvendo o que posso. No começo da Copa do Mundo não fui bem, mas estou melhorando. Sou muito cobrado por ser importante para a equipe. Com mais jogos, vou melhorando. Quem sabe não faço gol contra os holandeses para ser menos criticado? Vai acontecer o que todo o povo brasileiro quer: ver o Zinho jogando o que pode”, declarou o camisa 9, demonstrando uma enorme dose de otimismo.

Em contrapartida, Raí externava a sua insatisfação. Se o camisa 10 manteve o silêncio ao ser sacado para o jogo contra os Estados Unidos, desta vez ele se manifestou. “Da outra vez, Parreira me procurou no hotel para me explicar por que eu seria substituído. Desta vez, ele anunciou o time dentro do campo. Ainda tenho muito que mostrar”.

Romário não se contém

Romário não se segurava. Pela terceira vez em uma semana, o atacante voltou a reclamar do esquema de jogo utilizado por Parreira. “As bolas não estão chegando até mim como deveriam. Com os jogadores que o Brasil tem, a bola deveria chegar mais ao ataque. Tenho voltado ao meio-campo para buscá-la. Contra a Holanda, quero estar mais enfiado, de acordo com minhas características. Por usarem o 4-3-3, não ficarão na retranca”.

O Baixinho também falava sobre o encontro com Stan Valckx, seu marcador no jogo, que também era seu melhor amigo nos tempos de PSV: “Sei que ele está triste por ter que me marcar. Mas em campo não existe amigo para mim”. Romário chegou a apostar US$30 mil que o Brasil chegaria à final da Copa. Hristo Stoichkov, Julio Salinas e Michael Laudrup, seus companheiros de Barcelona, apostaram US$10 mil contra. Se a Seleção não fosse finalista, cada um faturaria US$10 mil de Romário. Ao final, foi o craque que terminou com US$60 mil.

Branco aponta cautela sobre Overmars

Branco seria a única alteração do Brasil no duelo com a Holanda. O lateral substituiria Leonardo, expulso contra os Estados Unidos. O veterano não chegou em sua melhor física e, por isso, perdeu a posição no início do Mundial. O jogo das quartas de final seria um grande desafio, também para conter Marc Overmars na ponta adversária. “Conheço ele, sei que é bom, mas nunca fui de me assustar com jogador adversário. Sei exatamente o que tenho que fazer. Vou jogar mais plantado que de costume, mas, se os homens derem um espaço, vou lá na frente, tentar a linha de fundo e os chutes a gol”, apontou, à Folha.

Amigos para sempre

Romário e Dunga podem ter personalidades bastante distintas. No entanto, colegas de quarto, tornaram-se grandes amigos nos Estados Unidos. O capitão externou seu carinho pelo Baixinho durante entrevista ao Jornal do Brasil: “Esse menino é sensacional. Ele não esquece dos colegas do futevôlei, dos companheiros de infância e dos seus amigos. Pelo cartaz que ganhou nos últimos meses, até poderia ser um pouco mascarado, mas nada disso, é simples como ninguém pensa ou acredita. Eu também estava nessa turma. Só que agora, sendo companheiro de quarto, é que conheci o verdadeiro Romário. Gente boa demais”.

“Contavam que era rebelde, que protestava contra tudo e contra todos. Nada disso. Ele é verdadeiro. Se não gosta de uma coisa, fala na hora. Acho isso muito melhor do que ser falso. Romário não gosta de brigar com ninguém, tanto que antes mesmo que eu falasse alguma coisa no quarto, foi ele quem veio me pedir conselhos. Achava que sendo mais experiente, eu poderia lhe dizer o que fosse melhor. Ora, ele sabe tudo. As pessoas é que precisam ter mais carinho com ele. Romário é joia. E vai ajudar o Brasil a ser campeão”, complementou.

Rijkaard respeita os brasileiros

Ao Jornal do Brasil, Frank Rijkaard demonstrou uma admiração e um profundo respeito aos adversários: “Vi todas as partidas do Brasil e gostei muito do time. Disseram que a equipe esteve muito mal contra os EUA, mas não concordo. Mesmo com dez homens, o Brasil dominou totalmente o jogo. Romário e Bebeto são infernais. O time é forte e não depende apenas deles. Dunga, Mazinho e Jorginho também são excelentes”.

Os gêmeos holandeses

Entre os destaques da Holanda, os irmãos De Boer chamavam atenção pela sintonia que demonstravam. Segundo Frank, titular absoluto com Dick Advocaat, os dois se entendiam por pensamento: “As pessoas acham que é brincadeira, mas é sério. Posso olhar Ronald e saber o que ele pretende com a bola. A Holanda já teve os irmãos De Kerkhof, mas não foram campeões. Nós tentaremos ser de qualquer maneira. Acho que a Holanda tem uma ótima equipe e pode vencer o Brasil”.

As lembranças de Cruyff

Em sua coluna na Folha de S. Paulo, Johan Cruyff aproveitou para relembrar o histórico Brasil x Holanda de 1974: “Tenho péssima memória. Muitas vezes, quando me pedem para lembrar de uma partida, um gol ou um detalhe da minha carreira, acabo tendo de inventar e caio no ridículo. Nunca me preocupei em recordar tudo o que fiz no passado. No entanto, não sei por que, há algumas partidas, alguns gols e detalhes de que me lembro perfeitamente, sem nem sequer me esforçar. Uma dessas lembranças é a partida que nos levaria à final da Copa de 1974”.

“Foi contra o Brasil, em Dortmund. Faz 20 anos, mas ainda me lembro de uma conversa com uns companheiros de seleção. O Brasil não deixava de impressionar, apesar de sabermos que não era tão temível como o Brasil mágico de 1970. De fato, só conservava Rivelino e Jairzinho da equipe titular que ganhou no México, mas nenhum dos dois era tão eletrizante como quatro anos antes. Então, naquela conversa, assistindo a uma partida do Brasil, fiz a reflexão em voz alta: ‘Não teremos nenhum problema em ganhar, porque há três anos somos os melhores. O Ajax e o Feyenoord ganharam tudo. Então eles é que devem nos temer'”.

“Entramos no jogo conscientes de que íamos ganhar. Esta confiança, esta mentalização serviu-nos para enfrentar um rival duríssimo. Aquele Brasil tinha trocado a técnica pela força, o toque pelo pontapé. Nós éramos melhores, mas no primeiro tempo cometemos o erro de jogar no campo deles. Ali, apesar de a Holanda ter muita força, eles ganhavam. Foi no intervalo que tudo mundo. ‘Vamos jogar ou não haverá final’. Não precisava dizer mais nada”.

“A Holanda voltou a ser a Holanda, a laranja mecânica voltou a funcionar e o Brasil começou a ver que não ia ganhar nunca aquela partida. Quando Neeskens marcou o gol, a diferença se fez ainda mais clara no campo. De repente, Rensenbrink avançou pela esquerda, desde quase o meio-campo, correu, levantou a cabeça e viu que eu já estava muito perto da área. Colocou a bola num ponto onde, se chutar, é gol. Só lembro que cheguei. Não sei como, mas cheguei. Foi 2 a 0. Muitos elegeram aquele gol como o melhor do Mundial. Eu, que tenho uma memória tão ruim, não sei por que o recordo tão bem. Há coisas que não se esquece jamais”.

Mais mudanças na Itália

A Itália tinha dificuldades para manter a escalação de seu time, entre problemas físicos e insatisfações de Arrigo Sacchi. Lesionado, Roberto Mussi dava lugar a Mauro Tassotti. Já no meio, para ter mais “vibração”, Antonio Conte estrearia no lugar de Nicola Berti. O setor também ganharia Roberto Donadoni, mais adiantado, no lugar de Giuseppe Signori. No gol, Gianluca Pagliuca retornava após a suspensão de dois jogos pelo vermelho direto contra a Noruega, na segunda rodada. A preocupação com o cansaço era óbvia. Enquanto os espanhóis haviam jogado no sábado, os italianos tiveram três dias a menos de descanso e ainda encararam uma prorrogação.

Clemente contra Cruyff

Já na coletiva de imprensa da Espanha, Javier Clemente voltou sua carga contra Johan Cruyff. A base do elenco da Fúria era formada por jogadores do Barcelona, então treinado pelo holandês. Contudo, Clemente apontou que as decisões do colega atrapalharam o seu trabalho. Estava descontente com a falta de sequência de jogadores-chave na seleção, bem como pela dispensa de Andoni Zubizarreta ao final da temporada: “Cruyff fez tudo para me atrapalhar na montagem da seleção. Representamos um país, e não um time. A mim, interessa o resultado do jogo, e não fazer teatro”. Os jogadores trataram de apaziguar a rusga publicamente.

Vogts contra as fake news

Berti Vogts precisou desmentir boatos sobre o seu futuro às vésperas do jogo decisivo contra a Bulgária. Presidente da federação alemã (DFB), Egidius Braun declarou que o comandante “estava cansado das críticas e das interferências em sua vida pessoal”, por isso deixaria o cargo. O comandante negou tudo: “Talvez ele tenha pensado em me proteger, mas sou bastante grande para me defender sozinho. Não me sinto uma vítima. Financeiramente não preciso deste cargo, mas enquanto eu continuar com vontade de treinar o time e suportar os problemas, pretendo seguir”.

Sammer preocupava

A Alemanha tinha boas notícias para o jogo contra a Bulgária. Com um corte no pé, Lothar Matthäus retornara aos treinos e garantira sua presença no jogo das quartas de final. Thomas Strunz foi outro que retomou as atividades, após uma contusão muscular. O problema era a presença de Matthias Sammer, que permanecia no estaleiro. Caso não se recuperasse a tempo, Berti Vogts prometia mudar seu esquema no meio-campo.

Nem Hristo agradou a todos

A Bulgária enfrentou diferentes crises durante a Copa de 1994. O clima no elenco de Dimitar Penev não era bom. E até mesmo Hristo Stoichkov, artilheiro da equipe, se tornou alvo de reclamações dos colegas. Yordan Letchkov e outros jogadores teriam se queixado que o atacante estaria tomando a dianteira na definição das táticas contra a Alemanha. “Eu sempre ajudo o time, mas não fico dando palpites sobre como o conjunto deve agir. Não sou líder de nada, apenas mais um jogador como todos os outros”, apontou o astro. Também existia um imbróglio pelo isolamento do grupo na concentração em Princeton.

Limpar levanta a voz na Suécia

A Suécia via alguns jogadores levantarem a voz contra o técnico Tommy Svensson. Insatisfeito com a reserva, Anders Limpar reclamava da falta de chances: “Estou bem tecnicamente, vinha jogando como titular e, sem nenhuma explicação, passei para a reserva. Quando a Copa terminar, quero ter uma conversa séria com o treinador. Tenho muitas coisas para dizer. Eu já estava recuperado de uma contusão, mas quando chegamos aos EUA é que fui comunicado da reserva”. O restante do elenco, contudo, reafirmava que a união prevalecia.

Romênia afina seu jogo nos treinos

Adversária da Suécia, a Romênia tentava aprimorar seu jogo de passes para alcançar as semifinais. “Temos que manter a posse da bola durante a maior parte do tempo. O jogo vai ser resolvido em detalhes, porque os dois times são do mesmo nível. É o momento de estarmos focados”, dizia o técnico Anghel Iordanescu, que realizou um treino secreto para alinhar o entrosamento neste sentido. A intenção era jogar com apenas um toque. “Esse treino tem efeito psicológico, porque o jogador se condiciona a dar o passe mais rapidamente e com mais eficiência”, complementava o atacante Ilie Dumitrescu.

João sem braço

Ao Jornal do Brasil, João Havelange se fez de desentendido ao comentar as reclamações em relação às temperaturas na Copa de 1994, jogando a sujeira para baixo do tapete: “Já tivemos Copa do Mundo com temperaturas mais altas do que nos Estados Unidos. Quem esteve na Espanha, em 82, lembra que em Sevilha e Valência o termômetro chegava aos 45°C. Antes de começar o Mundial dos EUA, todas as equipes sabiam dos horários em que seriam as partidas e ninguém contestou. E até agora ninguém reclamou”.

Havelange também beirou o cinismo ao falar sobre o doping de Maradona: “Foi com surpresa que eu soube do resultado positivo do exame antidoping de Maradona. Havia pensado que ele havia superado os acontecimentos de dois anos e meio antes. Tomamos todos os cuidados para que Maradona deixasse de frequentar os ambientes que eram nocivos a ele, fizemos recomendações à AFA. Fiquei muito triste, porque tinha Maradona como um neto, tenho idade para ser avô dele. Agora ele ataca a Fifa. É mais ou menos como o assassino que culpa o júri pela sua condenação, quando o certo é não matar”.