A Copa do Mundo possui uma capacidade gigantesca de imortalizar imagens. Muitas vezes, a fotografia consagrada de um grande jogador foi registrada no Mundial. E o 21 de junho de 1994 marcou. Foram duas cenas inesquecíveis, ambas registradas durante a comemoração de gols. Diego Maradona descarregou todos os sentimentos diante das câmeras. Que Batistuta tenha anotado três tentos nos 4 a 0 sobre a Grécia, foi o rosto explosivo do veterano que estampou os jornais. Horas depois, pelo mesmo Grupo D, um pouco mais de sutileza. Rashidi Yekini anotou o primeiro gol da Nigéria na história dos Mundiais. Emaranhou-se nas redes, agradecendo aos céus, com os olhos marejados. Abriu o massivo triunfo por 3 a 0 sobre a Bulgária.

A partir desta semana, até 17 de julho, faremos aqui na Trivela um diário sobre jogos, personagens e histórias da Copa de 94, 25 anos depois. Confira as pílulas, baseadas no material da imprensa brasileira na época:

O drama da Albiceleste

Como de praxe, um enredo dramático envolvia a Argentina antes da Copa do Mundo de 1994. E talvez aquele fosse o folhetim mais complexo que se desenvolveu com a Albiceleste rumo a um Mundial. A classificação aconteceu a duras penas. Após a humilhação diante da Colômbia no Monumental, os argentinos se garantiram graças à sofrida vitória sobre a Austrália na repescagem. Graças a Maradona, que retornou para resgatar os compatriotas. Ainda assim, a imagem de Diego vinha surrada, seja pela questão do doping por cocaína, seja pelas dificuldades em manter sua forma física. O trabalho antes da viagem aos Estados Unidos precisava ser intenso. E teria outros elementos, que ainda hoje provocam debate.

“Solitário, abandonado por falsos amigos, mas com a maior vontade de vencer”, definia-se Maradona, à Folha, pouco antes da estreia na Copa de 94. Mesmo dentro do elenco o craque tinha suas inimizades, e não escondia. Todavia, exibia a sua motivação para dar a volta por cima, para calar os críticos, para mostrar que ainda era Diego. A camisa 10 resistia. “Temos time para ganhar a taça. E eu quero levantá-la pela segunda vez”, afirmava.

Maradona estava entre as dúvidas para a estreia, com dores no joelho. Seu inseparável amigo Claudio Caniggia era outro que não começava a Copa inteiro, depois de cumprir suspensão por uso de cocaína. De qualquer forma, era uma Argentina forte no papel. Alfio Basile contava com jogadores do calibre de Oscar Ruggeri, Roberto Sensini e José Chamot na defesa. O meio tinha Fernando Redondo em ascensão, ao lado de Diego Simeone. Já na frente, Gabriel Batistuta se colocava entre os melhores centroavantes do mundo, mesmo após disputar a segunda divisão com a Fiorentina. Teoria favorável, mesmo que a realidade se mostrasse bastante diferente aos argentinos.

Argentina 4×0 Grécia: Tripleta de Bati, golaço de Maradona

A sorte da Argentina é que o destino foi generoso em sua estreia. O sorteio guardou o duelo com a Grécia, classificada à Copa muito por conta do grupo fraco nas Eliminatórias, que possuía um elenco envelhecido e de pouca qualidade técnica. Contra os estreantes no torneio, a Albiceleste protagonizou uma tarde ensandecida em Foxborough. Batistuta arrebentou naquela ocasião, anotando a primeira tripleta daquela Copa – e a primeira de sua seleção desde Guillermo Stábile em 1930. Porém, os holofotes focariam mesmo em Maradona. O camisa 10 deixou a sua marca, em uma comemoração tresloucada – que, depois, foi usada como símbolo de seu doping. Independentemente disso, a goleada por 4 a 0 alimentava as esperanças dos argentinos.

Sabendo da fragilidade do adversário, Coco Basile apostou em uma equipe bastante ofensiva. Entrou com Caniggia e Batistuta no ataque, apoiados por Maradona, além de Balbo se aproximando pelo meio-campo. Os jogadores de trás tinham liberdade para avançar e a defesa da Grécia não segurou o ímpeto da Albiceleste. O gol precoce aos dois minutos facilitou a missão. Estreando naquela Copa, Batistuta arrancou do meio de campo e teve enorme liberdade para invadir a área. Mesmo acompanhado por um marcador, deu um esperto chute rasteiro para inaugurar a contagem. Os sul-americanos nem precisaram acelerar para manter o jogo sob controle. Ampliaram pouco antes do intervalo. Chamot avançou e tocou para Batigol, em linda finalização da entrada da área, no ângulo.

A Grécia mudou para o segundo tempo e tentou sair um pouco mais ao ataque. No entanto, o gol mais lembrado daquela tarde saiu logo aos 15 minutos. Outra pintura. A troca de passes envolvente colocou os gregos na roda. Então, a bola veio mansa aos pés de Maradona, que limpou o caminho e mandou na gaveta, sem que o goleiro Antonis Minou sequer se mexesse. A comemoração se tornou um descarrego a Diego, em sua desvairada corrida até a câmera. Com um ser possuído, gritava com toda a sua força para o resto do mundo ver. Ele estava de volta.

Caniggia perdeu boas chances de fazer o quarto, carimbando o travessão. Luis Islas também precisou trabalhar do outro lado, em duas tentativas da Grécia em anotar o gol de honra. Já Maradona, substituído por Ariel Ortega, foi aplaudidíssimo. A goleada estaria completa aos 45. Caberia a Batistuta firmar a sua tripleta. Depois que Simeone invadiu a área, Stratos Apostolakis colocou a mão na bola. Pênalti, que o artilheiro bateu com um petardo no meio da meta. A empolgação com a largada albiceleste era óbvia, a despeito da fragilidade dos oponentes. Basile, por sua vez, pregava “calma e humildade”, indicando que a equipe precisava melhorar.

Bulgária, candidata a sensação

A Bulgária chegou aos Estados Unidos já reconhecida como uma forte seleção da Europa. A equipe não disputava a Copa desde 1986 e seu histórico no torneio não guardava uma vitória sequer nas cinco aparições anteriores. Em compensação, o momento parecia mesmo precioso aos búlgaros. A classificação veio graças à histórica vitória sobre a França em Paris. Já no ataque, Hristo Stoichkov carregava uma fama imensa por seus feitos com a camisa do Barcelona. Era escorado por companheiros que ganhavam projeção nas principais ligas, a exemplo de Emil Kostadinov, Yordan Letchkov e Krasimir Balakov. Se não era um time para se cravar nas semifinais, ao menos despontava como candidato aos mata-matas.

As Super Águias queriam voar

“Se vocês acham que Camarões fez bonito na Itália, esperem para ver o que a Nigéria fará nesta Copa. Aviso a todos os treinadores deste Mundial: quem não tomar cuidado com a Nigéria, vai voltar para casa dentro do caixão. Não dependemos de um ou outro jogador. O time todo é forte, em conjunto”. As palavras do técnico Clemens Westerhof eram ousadas. A Nigéria fazia apenas sua estreia em Copas, mas confiava no seu taco. E tinha motivos. O elenco campeão da Copa Africana naquele mesmo ano era bastante talentoso. Rashidi Yekini, Emmanuel Amunike, Finidi George e Daniel Amokachi encabeçavam uma equipe tão jovem quanto feroz, na qual 21 dos 22 convocados já atuavam no futebol europeu. O potencial era inegável.

Nigéria 3×0 Bulgária: Uma estreia inesquecível

Se antes era tratado como um falastrão, Westerhof ganhou ares de profeta. A Nigéria não apenas estreou com vitória na Copa do Mundo, como também atropelou a Bulgária. As Super Águias maltrataram os búlgaros, aproveitando muito bem a velocidade de seu ataque. Antes do intervalo, os africanos já venciam por dois gols de diferença em Dallas. Definiram o resultado logo no início do segundo tempo: 3 a 0 inapeláveis. Hristo Stoichkov, que era dúvida por não estar bem fisicamente, deixou o campo logo após o terceiro tento. Era um aviso ao técnico Dimitar Penev, de que havia muito a melhorar.

Curiosamente, a Bulgária levou mais perigo durante os primeiros minutos. Foram duas chances desperdiçadas por Kostadinov, após erros defensivos da Nigéria. O goleiro Peter Rufai realizou uma defesaça na primeira delas, inclusive. Logo os ataques rápidos das Super Águias causariam problemas para a marcação adversária. E o primeiro gol nigeriano em Mundiais, aos 21 minutos, seria especial. Nem tanto por sua construção, em cruzamento rasteiro para Yekini completar na pequena área. Mais pela comemoração eterna: o atacante seguiu seu caminho rumo às redes e agarrou-as, gritando emocionado com a face nas linhas. Uma das celebrações mais emblemáticas da história da competição.

A Bulgária chegou a empatar no primeiro tempo, em cobrança de falta perfeita de Stoichkov. Porém, o tento foi anulado, já que a infração indireta foi batida de maneira direta. A punição pelo erro búlgaro não tardaria. Amunike carimbou a trave e, aos 43, Amokachi lutou na área para ampliar. Já aos dez minutos da etapa complementar, Amunike deixou o seu com um lindo peixinho. Os europeus tentariam descontar, limitados a Balakov. Não conseguiram vencer Rufai. E a impressão foi de que a goleada poderia ter sido mais ampla, diante da displicência dos nigerianos na conclusão dos contra-ataques. Mesmo assim, foi um placar excelente.

Com a palavra, Berti Vogts

“O futebol moderno é jogado coletivamente. O jogador deve saber hoje em dia que seu talento não deve ser usado para transformá-lo em estrela única. Sua ascensão tem que coincidir com a do time, sem ultrapassá-lo. E isso não tira a beleza do futebol, se for bem feito. Veja na Alemanha: o Matthäus é brilhante, mas não se sobressai tanto dos demais. E ainda conseguimos dar espetáculo. Entendo a estranheza. É porque os brasileiros celebram o futebol. Os alemães jogam sempre para ganhar”, afirmou o técnico da Alemanha, à Folha, antes do jogo contra a Espanha.

Alemanha 1×1 Espanha: equilíbrio em todos os sentidos

A Espanha recebeu duras críticas após a estreia na Copa do Mundo, ao ceder o empate para a Coreia do Sul. Pressionavam o técnico Javier Clemente para escalar uma equipe mais ofensiva. Ainda assim, o comandante mantinha o pragmatismo. Antes da segunda rodada, afirmou que o empate contra a Alemanha estava de bom tamanho, já que a classificação poderia ser definida contra a Bolívia. E os alemães, tratados como favoritos, também se contentaram com a igualdade contra a Fúria. O empate por 1 a 1, no Soldier Field, saiu em conta para ambos.

A Espanha vinha com mudanças significativas. Andoni Zubizarreta voltava ao gol, após cumprir suspensão na estreia, e recebia a braçadeira de capitão. Pep Guardiola dava mais cadência ao meio, com o recuo de Fernando Hierro para a zaga, no lugar do expulso Miguel Ángel Nadal. Já na armação, José Luis Caminero havia dado um gás no jogo contra a Coreia do Sul e ganhou a posição de Julen Guerrero. Na Alemanha, Karl-Heinz Riedle terminou barrado pelo baixo rendimento contra a Bolívia, o que assegurava mais liberdade a Jürgen Klinsmann na frente, mas também recuava a equipe.

A igualdade acabou soando como um resultado de comadres. Tomando a iniciativa durante os primeiros minutos, a Espanha abriu a contagem aos 14. Ion Andoni Goikoetxea fez um cruzamento fechado e pegou o goleiro Bodo Illgner desprevenido. A bola bateu na trave e entrou. A Alemanha jogava mal e só empatou no início do segundo tempo, em golpe de sorte. Após o cruzamento da direita, Klinsmann cabeceou errado, mas contou com a indecisão de Zubizarreta para marcar. No fim, a entrada de Rudi Völler ajudou o Nationalelf, mas a partida seria limitada a cruzamentos e chutes de longe. O equilíbrio se manteve até nas boas chances desperdiçadas no final. Com quatro pontos, os alemães encaminhavam a classificação no Grupo C, enquanto os espanhóis também se tranquilizavam antes de pegar a Bolívia.

Enquanto isso, na seleção brasileira…

Passada a empolgação pela vitória sobre a Rússia na estreia, o principal assunto na concentração de Los Gatos era a condição de Ricardo Rocha para a sequência do Mundial. O zagueiro sofreu uma lesão na coxa direita durante o segundo tempo da partida e dificilmente voltaria à competição. Discutia-se quem seria o seu substituto. Aldair era o favorito, mas não chegou em suas melhores condições à Copa e sofreu uma pancada na panturrilha durante os minutos finais contra os russos. Já Ronaldão, que entrara na vaga do cortado Ricardo Gomes, aparecia como uma possibilidade real ao duelo contra Camarões.

O médico Lídio Toledo mantinha a cautela sobre a situação, mas as perspectivas a Ricardo Rocha não eram boas. O zagueiro não escondia seu abatimento.”Sou um jogador de luta. Como ficar de fora numa Copa? Não quis sair nas Eliminatórias. Não quis ficar de fora nas partidas decisivas do Vasco. E agora? Será que vou continuar com esse drama? Ainda tenho esperança de melhorar de um dia para o outro. Será uma decepção muito grande se as dores não passarem. Depois de tanto sacrifício, chegar aos Estados Unidos e apenas ver o time jogar é um castigo que acho não merecer”, afirmou, ao Jornal do Brasil.

Já Parreira, pensando em seu próximo jogo, prometia mais ofensividade contra Camarões. “O time vai se soltar mais, jogará mais avançado. Vão atacar muito mais, porque Camarões não vai marcar tão forte quanto a Rússia. Vou adiantar a equipe”, pontuou, à Folha de S. Paulo. “Mas, ainda que a marcação não seja tão dura, os camaroneses têm três zagueiros ótimos. E os atacantes são muito rápidos”.

Em assuntos mais superficiais, o JB destacava o ‘novo visual de Romário’, anunciando que o Baixinho usaria um brinco com uma cruz, ‘à moda George Michael’, como novidade para o duelo contra Camarões. “Esse é Jesus Cristo, xará, meu ídolo”, respondeu o craque, ao ser questionado sobre uma possível inspiração no cantor. Outra nota do jornal apontava que, além de homenagens a Ayrton Senna, brasileiros levaram faixas de apoio a FHC e Lula durante a estreia em Stanford. As eleições aconteceriam meses depois.