Até 17 de julho, resgataremos aqui na Trivela os jogos, as histórias e os personagens da Copa do Mundo de 1994. Confira o diário deste 3 de julho, baseado principalmente nos relatos da imprensa brasileira da época:

Presos os assassinos de Andrés Escobar

Logo no dia seguinte ao assassinato de Andrés Escobar, os primeiros suspeitos acabaram presos. Humberto Muñoz Castro seria o responsável pelos disparos. Já Juan Santiago Gallón, patrão de Muñoz, discutira com o zagueiro. Naquele momento, já estava esclarecido que a vítima recebera seis tiros, e não 12, como noticiado inicialmente. Além disso, sustentava-se a hipótese de que a motivação do crime seria a aposta perdida por Gallón, ao investir um grande montante na campanha da Colômbia.

Horas depois do crime, o próprio Muñoz foi até a polícia. Ele deu parte sobre o roubo do carro de Gallón, afirmando que ladrões teriam o mantido sequestrado por seis horas. Logo a polícia percebeu que o depoimento era falso, tentando se livrar das suspeitas. A promotoria de Medellín já havia descartado a hipótese de que o crime teria sido premeditado por narcotraficantes. Segundo a polícia, a consequência era a recriminação pessoal ao zagueiro.

Tempos depois, ficaria esclarecido que Muñoz era realmente o assassino, enquanto Juan Santiago Gallón estava ao lado de seu irmão Pedro durante a discussão. Ambos possuíam ligações com o narcotráfico e com grupos paramilitares, embora isso não tenha sido incluído no processo. Muñoz foi condenado a 43 anos de prisão, cumprindo pena até 2005, quando foi solto por seu comportamento. Os irmãos Gallón acabaram sentenciados por “acobertamento”, em detenção de meses, logo revertida em fiança.

Mais homenagens no enterro

O enterro de Escobar contou com a presença de 120 mil pessoas, incluindo o presidente César Gavíria. Também estavam por lá jogadores de vários clubes. Hernán Darío Gómez, então assistente de Pacho Maturana, deveria assumir o comando da seleção depois do Mundial. Mas, naquele momento, renunciou ao cargo por conta do assassinato – em posição que mudaria dias depois. O governo prometia segurança especial aos jogadores rumo à Copa América de 1995.

A Argentina e seus fantasmas

Alfio Basile não tinha encontrado o substituto ideal para Diego Maradona. Leo Rodríguez entrou contra a Bulgária, mas não convenceu. Tinha Ariel Ortega como uma carta na manga, apesar da inexperiência do Burrito. E também o rodado José Basualdo, que trazia características diferentes. Como se não bastasse a lacuna imensa, a Argentina passou a semana sem saber se contaria com Claudio Caniggia no ataque. O Pájaro sofreu uma contratura na coxa e ficou dias sem treinar, confirmado como baixa horas antes da partida contra a Romênia.

Os entraves na Romênia

Não que a Romênia estivesse isenta de problemas. Florin Raducioiu cumpria suspensão no jogo contra a Argentina. Além disso, os jogadores chegaram a manifestar sua insatisfação com o técnico Anghel Iordanescu, que adotava uma linha dura na concentração. Expulso contra a Suíça, Ion Vladoiu acabou dispensado do elenco, o que não agradou os companheiros. Apesar disso, o treinador seguia em frente. “Com Maradona ou sem Maradona, a Argentina é a Argentina”, declarou, antes do confronto decisivo.

Romênia 3×2 Argentina: A estratégia certa ao bote fatal

Alfio Basile não tinha para onde correr. Sem Maradona e também sem Caniggia, o treinador precisava adaptar seu esquema tático às intempéries. Já não apresentaria a fluidez ofensiva de outrora, preferindo formar o ataque com Abel Balbo e Gabriel Batistuta, apoiados por Ariel Ortega, enquanto José Basualdo fechava o meio ao lado de Diego Simeone e Fernando Redondo. A Romênia, na falta de Raducioiu, preferiu adiantar Gheorghe Hagi ao lado de Ilie Dumitrescu no ataque. Sábia decisão de Angel Iordanescu. A liberdade seria essencial ao camisa 10. Hagi realizou uma das melhores atuações individuais da Copa, orquestrando a eletrizante vitória dos romenos por 3 a 2 no Rose Bowl.

O começo de jogo franco logo demonstrou qual seria o ritmo da partida. A Argentina poderia ter saído em vantagem, mas Florin Prunea realizou duas boas defesas, ainda que a segunda tenha sido um desperdício de Balbo diante do goleiro. E a Romênia puniu o erro logo depois, aos 11 minutos. Dumitrescu cobrou falta pela esquerda e resolveu mandar direto ao gol. Encobriu Luis Islas para abrir o placar. O mérito da Albiceleste foi reagir logo. Batistuta deu um giro sensacional na área e só foi parado com falta de Miodrag Belodedici. Pênalti, que o próprio artilheiro converteu. O problema é que os romenos tinham Hagi. E o primeiro passe de mágica do craque ocorreu aos 18, retomando a dianteira. Cortou a marcação e, sabe-se lá como, descolou uma enfiada absurda por entre os defensores. Deixou Dumitrescu na cara do gol, fácil para definir.

A partir de então, o mote da partida ficou bem claro. A Argentina tinha mais volume de jogo e insistia no ataque. Já a Romênia se defendia com vigor e explorava os contragolpes. Até o intervalo, os romenos seguiram mais perigosos. Islas realizou duas grandes defesas, enquanto Fernando Cáceres ainda precisou afastar o risco na pequena área uma vez. A Albiceleste era imprecisa, especialmente porque Batistuta não encontrava muito espaço para arrematar com calma.

A Argentina voltou para o segundo tempo mais determinada. Confiava no empenho de Batistuta, na onipresença de Redondo e na habilidade de Ortega. Quase empatou nos primeiros segundos, em bola pela qual Batistuta brigou, chutando forte para uma boa defesa de Prunea. Todavia, os papéis dos craques na Romênia se inverteram e garantiram mais um tento em contra-ataque. Aos 13, Dumitrescu prendeu a bola e esperou a passagem de Hagi pela direita. Em velocidade, o camisa 10 recebeu e invadiu a área, batendo forte para vencer Islas.

A partir de então, a Albiceleste não mais se recuperou. O time pressionava a Romênia, mas exibia muito nervosismo. Tinha dificuldades para abrir a ferrenha marcação adversária. A entrada de Ramón Medina Bello no lugar de Roberto Sensini deixou a equipe mais ofensiva, mas não bastou para superar a muralha amarela logo à frente. Além do mais, reclamariam de um pênalti não marcado. O segundo gol só saiu aos 30, graças a um petardo de Cáceres do meio da rua. Prunea bateu roupa e Balbo aproveitou o rebote para descontar. De qualquer maneira, os romenos permaneceram representando um pesadelo nos contragolpes e o quarto gol apenas não aconteceu porque Islas espalmou o tiro cruzado de Dumitrescu. O ‘Maradona dos Cárpatos’, digno substituto do Diego original, havia dado o passe.

Com a palavra, Gheorghe Hagi

“Somos a melhor geração de jogadores da Romênia e jogamos juntos há vários anos. Isso nos permite abrir variantes para cobrir as baixas, como a de Raducioiu. A vitória sobre a Argentina ainda não significa nada, pois o título do Mundial está longe. Precisamos manter os pés no chão e a calma para seguir adiante”.

Com a palavra, Alfio Basile

“Tentamos tudo, ficamos o segundo tempo no campo da Romênia, mas não sei por que não saiu o gol. Foi um pouco de azar. A equipe enfrentou a ausência de dois jogadores excepcionais com muito fervor. Vamos para casa dignamente”

Duas sensações

A Arábia Saudita entraria em campo com um incentivo especial para encarar a Suécia no Cotton Bowl. O príncipe Faisal Bin Fahad estaria nas arquibancadas do estádio – segundo a Folha, também por ser admirador do Dallas Cowboys. As atenções na equipe saudita recaíam sobre Saeed Al-Owairan, depois do golaço anotado contra a Bélgica. Àquela altura, já tinha recebido o apelido de “Maradona das Arábias”.

Do lado da Suécia, a boa notícia estava no retorno de Martin Dahlin. Suspenso contra o Brasil, o artilheiro escandinavo no Mundial retomaria sua posição no ataque. “Se não ganharmos o jogo, todos dirão que fomos um fiasco. Temos que ganhar. É a primeira vez que eles participam de uma Copa. Todos esperam que ganhemos”, afirmou o atacante.

Suécia 3×1 Arábia Saudita: Calor e inteligência

O relógio em Dallas apontava meio-dia quando a bola rolou no Cotton Bowl. O clima fervilhante parecia favorecer a Arábia Saudita, que mais uma vez não contava com sua liderança técnica, Majed Abdullah, sofrendo com lesões. Mesmo com a companhia de Sami Al-Jaber, Saeed Al-Owairan não faria chover desta vez. Muito mais consistente era a Suécia de Tommy Svensson, com as combinações de Martin Dahlin e Kennet Andersson na frente, além das aproximações de Tomas Brolin. Assim, mesmo que o clima texano não ajudasse, os escandinavos conquistaram uma segura vitória por 3 a 1.

Foi importante para a Suécia abrir o placar logo cedo, enquanto tinha gás. Aos seis minutos, Kennet Andersson realizou um cruzamento perfeito para Martin Dahlin completar dentro da área. Os suecos seguiram melhores na primeira etapa, ainda que o desgaste físico impedisse uma pressão maior. A estratégia dos escandinavos era explorar o jogo aéreo, especialmente pelas dificuldades do goleiro Mohamed Al-Deayea em sair do gol. Já do outro lado, a Arábia Saudita concentrava suas investidas nas laterais e tinha pouco sucesso em insistir no chuveirinho.

Na retomada ao segundo tempo, a Suécia voltou disposta a resolver, e ampliou aos seis minutos. Kennet Andersson partiu para dentro e, na meia-lua, efetuou um chute no cantinho. Depois disso, os sauditas cresceram. A entrada de Fahad Al-Ghesheyan ajudou o time, que passou a pressionar. Stefan Schwarz chegou a salvar uma bola na pequena área, enquanto Thomas Ravelli desviou um chute que tinha endereço. Os árabes só conseguiram descontar a cinco minutos do fim, com Al-Ghesheyan cortando a marcação e chutando forte. Seria tarde para a reação, até porque os suecos fechariam a contagem três minutos depois. Mais um de Kennet Andersson, numa chicotada cruzada. Favoritos, os escandinavos foram amplamente superiores.

Com a palavra, Tommy Svensson

“Nós vimos o jogo entre Alemanha e Coreia, a maneira como o calor afetou, então decidimos correr o mínimo possível. Por isso jogamos com calma, para aguentar os 90 minutos. Jogamos bem na defesa. Por isso, pudemos ganhar. Além disso, conseguimos manter a bola baixa, sem jogadas longas”.

Ligação do presidente

O Brasil x Estados Unidos tinha enorme apelo, principalmente por acontecer em 4 de julho. E a política envolveu aquela partida. No dia anterior, o presidente Bill Clinton ligou para o técnico Bora Milutinovic, desejando boa sorte. “Minha família e eu temos visto todos os jogos juntos. Acho que todo o país está emocionado por causa do sucesso de vocês. Eu espero que as pessoas joguem futebol nas ruas das maiores cidades. Seria ótimo se isso acontecesse”, afirmou o democrata. Bora o convidou para o jogo das quartas de final, em Dallas, caso avançassem.

Balboa fala sobre o US Team

À Folha, Marcelo Balboa analisava o trabalho de Bora Milutinovic à frente da seleção americana: “O principal responsável pelo trabalho é Bora. O técnico anterior, Bob Gansler, era muito bom, mas queria jogar como os europeus. Agora jogamos mais como os latinos. Ficamos muito tempo com o domínio da bola, fazemos jogadas rápidas. Bora mudou a seleção dos Estados Unidos. Ele trabalha com a mente dos jogadores e planeja o time taticamente. É um técnico que quer tirar o máximo do nosso futebol, quer nos ensinar uma série de coisas. Ele quer que a gente pense futebol como ele: todas as horas, todos os dias. Isso está mudando a mentalidade de muitos jogadores”.

A visão de Bebeto

Ao Jornal do Brasil, Bebeto falou sobre a discussão de se usar três atacantes na Seleção: “O importante não é se o time joga com dois ou três atacantes. Não será a escalação de três que faz uma seleção ser mais agressiva. O que é preciso é haver coordenação entre o meio-campo e o ataque. Deve haver muita aproximação quando o time for à frente. Ainda se pode ser agressivo com o apoio dos laterais. No entanto, acho que a melhor jogada para se chegar ao gol é o contra-ataque. Se a bola sair rápido, não dá tempo do adversário reorganizar a defesa”.

O camisa 7 ainda teve um tom profético ao comentar sua parceira com Romário: “O entrosamento está crescendo. No início, ficamos um pouco distantes, mas agora já estamos nos movimentando bem entre os zagueiros para fugir da marcação. Também melhora porque passamos a voltar um pouco mais para a intermediária, para facilitar a chegada da bola. Antes ficávamos cercados de adversários, era mais difícil para se receber um passe. Pelo que fizemos no conjunto, estou certo de que será, contra os Estados Unidos, a nossa melhor atuação. Fiz cinco gols no treino e perdi outros tantos. Vai dar certo”.

Enquanto isso, na seleção brasileira…

Carlos Alberto Parreira demonstrava um considerável menosprezo pela seleção americana: “Para os americanos, tudo é uma festa. Se tomarem vários gols, sabem que foi de uma grande equipe. Se perderem de 1 a 0, acharão bonito. Se forem para os pênaltis, ok. Tudo é lucro para eles. É um franco atirador que não tem nada a perder. Bora Milutinovic vai montar uma grande retranca, a maior que o Brasil pegou pela frente na Copa, porque sabe como seu time é fraco. O 4 de julho não muda nada. Apenas vamos dar a eles um presente de grego”.

A grande notícia daquele 3 de julho, no entanto, era a confirmação da mudança que Parreira realizaria no time titular. Como vinha indicando ao longo da semana, Mazinho ganharia um lugar no 11 inicial. Tomou a posição de Raí, que não andava bem. O coletivo anterior, em que Mazinho entrou mais aberto pelo campo, se tornou decisivo para convencer o comandante. Enquanto isso, Zinho seria mantido, embora existisse o plano de colocar Branco no segundo tempo, adiantando Leonardo ao meio-campo.

“Vivo este momento com muita alegria, mas tranquilo e sem nenhuma surpresa. Pelo que eu vinha fazendo nos treinos e também nos jogos em que entrei, tinha certeza de que acabaria ficando no time. É claro que a opinião do torcedor pode ter pesado um pouco na decisão do treinador. Mas quem me escalou para este jogo fui eu mesmo”, declarou Mazinho, à Folha. “Cheguei a pensar que os meus dias na Seleção tinham terminado. Achei que nunca mais ia ser convocado. Até que minhas atuações no Palmeiras me abriram nova chance”.

O novo titular dava mais mobilidade e mais velocidade ao lado direito do campo. Era uma opção para realizar a ligação ao ataque, um dos problemas da Seleção na fase de grupos. Apesar da importância de Raí, usando a camisa 10 e portando a braçadeira de capitão, o encaixe ficava mais difícil. Dunga receberia a faixa de capitão.

“Ninguém gosta de ser retirado do time, mas Raí é um rapaz educadíssimo, um rapaz excelente. Conto com Raí. Essa substituição não significa que ele esteja fora da competição”, comentou Parreira. “Mas não é uma mudança apenas para este jogo. Estou pensando nas quatro partidas que faltam para sermos campeões”. Segundo o técnico, a atuação fantástica de Mazinho nos 6 a 1 do Palmeiras sobre o Boca Juniors na Libertadores foi decisiva à sua escolha, justamente pela maneira como o meio-campista atuou pela direita.

Curiosamente, no mesmo dia em que se anunciou a decisão do treinador, a Folha havia previamente publicado uma longa entrevista com Raí sobre a sua situação: “Eu acho que a seleção pode se soltar mais. Não acho que seja o caso de dizer que não tem nada de bom. Nós não perdemos a Copa. Mas dá para ter mais opções no ataque. Eu mesmo vou querer chegar mais à frente, tentar mais jogadas de gol contra os Estados Unidos”. Mazinho tentaria por ele.