Depois de um mês de árduo trabalho, enfim, o diário sobre a Copa do Mundo de 1994 chega ao momento mais esperado: 17 de julho, data de conquista do tetra. Abaixo, as impressões do que se viveu naquele dia, em relatos baseados principalmente no conteúdo da imprensa na época, além da análise da partida:

O Brasil que se consagrou

Carlos Alberto Parreira repetiu a escalação da Seleção pela terceira partida consecutiva. A confiança no conjunto aumentara principalmente depois da vitória sobre a Holanda. No gol, Taffarel pouco trabalhou durante a Copa, mas transmitia uma segurança imensa, facilitando as defesas. Aldair e Márcio Santos formaram uma dupla emergencial, por conta dos cortes e das lesões, mas pareciam jogar a vida toda juntos. Ao longo da Copa, exibiram muita solidez e técnica na função. Jorginho era uma importante válvula de escape pela direita, especialmente por seus cruzamentos, mesmo que não exibisse a melhor forma. Já na esquerda, Branco não vinha nas melhores condições físicas e era reserva de Leonardo, mas ganhou a posição depois da suspensão do titular e tomou conta após a ótima atuação contra a Holanda.

O meio-campo do Brasil tinha uma veia trabalhadora, o que não agradava a muitos. Marcava com uma pressão forte, até mesmo pelos meias abertos, e não se aproximava tanto do ataque para as definições. Em compensação, conseguia controlar a posse de bola e garantir um avanço mais seguro, por vezes apostando nas bolas longa. Mauro Silva oferecia uma proteção gigantesca na cabeça de área, mais contido. Dunga era quem se soltava mais, não apenas para dar o combate, como também para orientar o jogo com seus lançamentos. Pela esquerda, Zinho ficava mais preso que de costume, na recomposição. Do outro lado, Mazinho suplantou Raí por seu dinamismo, sobretudo pelo talento para tocar de primeira e acelerar o jogo.

Já na frente, a dupla entre Bebeto e Romário. Bebeto se movimentava mais. Exibia uma grande inteligência para buscar o jogo e explorar os lados, especialmente pela direita, onde se associava com Jorginho. Cresceu durante os mata-matas. Romário, por fim, terminou como o grande nome do Mundial. Incansável, se apresentava muito ao jogo e, descontente com a criação, tantas vezes voltava para iniciar os ataques. Dá até para dizer que desperdiçou mais chances que o costume durante o torneio. Mas porque gerava quase todas elas. E nem por isso, com cinco gols, deixou de ser genial. O único jogo em que realmente ficou devendo foi a decisão.

A Itália que vinha a campo para a final

Arrigo Sacchi realizou diversas mudanças em suas peças durante a Copa do Mundo, mas manteve o seu sistema ao longo da campanha. Confiava basicamente no 4-4-2, com marcação por zona e linhas compactas. Os principais ajustes aconteceram na maneira como alguns jogadores atuavam, algo que se aprimorou com o passar da competição. O meio-campo ganhou mais cadência prendendo um pouco mais Albertini. Enquanto isso, Roberto Baggio tinha liberdade para se movimentar, o que facilitava a ligação.

Pagliuca, muito bem após voltar de suspensão, era o goleiro titular. Nas laterais, Mussi e Benarrivo tinham boa capacidade na marcação, utilizados conforme os desfalques. Maldini foi o grande nome da defesa durante a competição, excepcional por sua leitura do jogo. Começou na lateral, mas passou ao miolo da zaga após a lesão de Baresi. Continuou por ali para a decisão, diante da ausência de Costacurta pelo acúmulo de cartões amarelos. Seu parceiro seria justamente Baresi, milagrosamente recuperado após romper o menisco e passar por cirurgia na segunda rodada do Mundial.

No meio, Albertini se responsabilizava pela saída de bola e se combinava com Dino Baggio, o motor do setor. O esforçado Berti se manteve como a principal opção na direita, enquanto Donadoni se soltava mais pela esquerda, habilidoso. Mais à frente, Roberto Baggio, confirmado para a finalíssima. A distensão muscular sofrida contra a Bulgária não impediria o craque de atuar no Rose Bowl, apesar das limitações físicas visíveis. Seu parceiro era Massaro, ausente na semifinal. Dava mais presença física e tinha feito algumas boas aparições na competição, suplantando Pierluigi Casiraghi.

As condições extremas

A Fifa recebeu críticas durante toda a Copa do Mundo por causa do horário das partidas. O sol do verão americano castigava as equipes e claramente afetava o rendimento, o que ficou expresso desde a fase de grupos. Ainda assim, para agradar as televisões europeias, a decisão teve o seu pontapé inicial às 12h30. Os termômetros chegaram à casa dos 30°C durante aquela tarde. O estádio recebeu 94,2 mil torcedores para a final.

A festa antes do jogo

Antes da final, a Fifa preparou dois grandes shows na Califórnia. O Dodger Stadium serviu de palco a uma apresentação dos Três Tenores na véspera. Mais de 56 mil pessoas se reuniram para ver José Carreras, Plácido Domingo e Luciano Pavarotti. O trio também havia cantado antes da final da Copa de 1990, o que motivou o início do conjunto. Já no Rose Bowl, o som ficou por conta de Whitney Houston, que entrou em campo de mãos dadas com Pelé. A apresentação da cantora contou com 2,5 mil figurantes e tocou cinco de seus sucessos, antes que a final acontecesse. O hino americano acabou executado pelo saxofonista Kenny G, que usava a camisa da seleção de seu país.

A taça seria entregue por Al Gore, vice-presidente dos EUA, enquanto Bill Clinton faria uma ligação a Carlos Alberto Parreira horas depois da decisão. O ex-presidente George Bush era outro presente nas tribunas de honra, assim como o ex-secretário de estado Henry Kissinger. Além do mais, alguns astros do cinema e da cultura local também compareceram, a exemplo do ator Dustin Hoffman.

Brasil 0x0 Itália: Os 120 minutos

Tensa, batalhada, aguerrida. Os predicados à final da Copa do Mundo de 1994 se concentram mais ao espírito empenhado das seleções em campo do que propriamente à qualidade técnica exibida. Brasil e Itália não mostraram, no Rose Bowl, o seu melhor futebol do Mundial. Os principais jogadores ofensivos de ambos os times não renderam tanto. Em compensação, alguns nomes da defesa tiveram atuações gigantescas para segurar o 0 a 0 durante 120 minutos.

O primeiro tempo seria repleto de faltas e outras jogadas mais firmes. O Brasil mandou na partida durante os 45 minutos iniciais. A marcação no meio-campo se antecipava e sufocava a saída de bola italiana. E quando a Azzurra buscava os lançamentos um pouco mais longos, Aldair e Márcio Santos eram gigantescos nas antecipações. A única chance clara da Itália aconteceu aos 17 minutos, em lançamento para Massaro, no qual Mauro Silva falhou na proteção e permitiu que o centroavante exigisse grande defesa de Taffarel. Roberto Baggio, com movimentação limitada, estava neutralizado nas proximidades da área. Mauro Silva o acompanhava de perto, recuado por Parreira desde os primeiros minutos. Apesar do erro pontual, o volante era excepcional nas coberturas e nos combates.

O Brasil terminou o primeiro tempo com 66% de posse de bola. Acionava bastante o lado direito do ataque, principalmente com Mazinho, muito ativo. Dunga era o ponto de partida das jogadas, acertando os passes longos e as inversões. Só que o ataque também encontrava dificuldades de penetrar na defesa da Itália. Aos 12, quando Romário teve espaço para cabecear, subindo sozinho, mandou fraco nas mãos de Pagliuca. Bebeto teve um bom contra-ataque pela esquerda, mas Maldini travou, aos 18. Depois, em uma cobrança de falta venenosa de Branco, Pagliuca deu rebote e Mazinho furou na hora de cruzar para o meio da área.

Romário tentava voltar e achar os espaços. Não exibia a melhor forma, ao sentir a virilha na véspera, e também se via engolido pela dupla de zaga italiana. Perdia demais a bola. Na sua melhor escapada, aos 31, Baresi chegou junto para uma dividida providencial, que inibiu o chute. Bebeto compensava um pouco pelo parceiro, transitando para todos os lados. Só que a linha de impedimento da Azzurra também funcionava e provocou algumas infrações dos brasileiros.

O primeiro tempo já seria condicionado pelas lesões. Com apenas 21 minutos, Jorginho sentiu uma contusão muscular e deu lugar a Cafu. O jovem continuou como uma influência constante pela direita, mas o que sobrava de vontade, faltava em precisão. Já a Itália trocou aos 35. Baresi chegou a sinalizar que sairia, embora Arrigo Sacchi tenha trocado Mussi, outro que vinha de problemas físicos. Com isso, também ajeitou sua linha de zaga. Benarrivo ficaria na direita, Apolloni passaria a compor o miolo com Baresi e Maldini se responsabilizaria por trancar a esquerda, onde os brasileiros ameaçavam.

O segundo tempo ainda viu o Brasil com mais posse de bola. Porém, a tranquilidade da Seleção diminuiu. A defesa da Itália realmente se encaixou com Maldini na esquerda e Apolloni entrando muito bem. Enquanto isso, o ataque passava a armar contra-ataques perigosos, que aproveitavam a boa movimentação de Massaro. Recuando mais ao meio-campo, Baggio auxiliava neste trabalho, entre seus giros e seus passes. Cresceu neste momento do jogo, apesar da dificuldade para correr. A Azzurra abafava mais a saída de bola brasileira. Sorte do Brasil que sua zaga também cedia pouquíssimos espaços, apesar da velocidade dos italianos na transição.

Se faltava à Itália acertar os detalhes no momento de concluir, o Brasil também finalizou menos durante a segunda etapa. Pagliuca segurou firme uma cabeçada de Bebeto, em lance no qual o atacante estava impedido. Romário quase saiu na cara do gol em tentativa de tabela com Bebeto, até que Pagliuca aparecesse para travar. Branco subiu alto após cobrança de escanteio pela direita, só que cabeceou sem direção. E o lance mais lembrado veio com Mauro Silva, aos 30, arriscando de longe. O chute do volante veio forte, mas no meio do gol. Pagliuca bateu roupa, a bola quicou e bateu no poste. O goleiro segurou o rebote, deu um beijo na luva e depois encostou na trave, para “agradecer” a ajuda de sua companheira.

Seis minutos depois, a principal resposta seria em boa jogada de Donadoni para Baggio, que soltou o pé da entrada da área e não conseguiu pegar bem na bola. O passar dos minutos permitiram que os italianos crescessem na peleja, cada vez mais presentes no campo ofensivo, o que continha os brasileiros. Quando o Brasil voltou a responder, por volta dos 40 minutos, faltou capricho. Foram alguns bons cruzamentos em direção à área, sem que Romário conseguisse completar. A tensão era mais perceptível e arrastaria o duelo à prorrogação.

Logo aos três minutos do primeiro tempo extra, o Brasil perdeu uma chance de ouro. Cafu cruzou pela direita, a indecisão de Pagliuca atrapalhou Baresi e Bebeto apareceu livre na segunda trave. O atacante pegou muito mal na bola, em tiro que cruzaria toda a pequena área até que Pagliuca segurasse. Romário tentou aproveitar o rebote, mas fez falta. A Itália também se soltava e, depois de um passe errado de Dunga, Baggio pôde acertar uma bomba de fora da área, aos seis. Taffarel espalmou para escanteio. Do outro lado, aos nove, Zinho teria uma brecha pela esquerda e Pagliuca conseguiu rebater.

A partida ficou mais equilibrada na prorrogação, especialmente pela forma como a Itália arriscava de longe. O meio-campo ganhou sangue novo com a entrada de Alberigo Evani, outro que voltava de lesão. O milanista substituiu Dino Baggio. Enquanto isso, Parreira demorava para gastar a sua segunda alteração. Por mais que os italianos exibissem um preparo físico pior, se resguardando, o Brasil reduzia o ritmo na construção do jogo. Com isso, a Azzurra avançava em campo, ganhando quase sempre a segunda bola.

A mudança do Brasil viria na volta para o segundo tempo da prorrogação. Viola entrou no lugar de Zinho, com o atacante usado justamente pelo lado esquerdo do meio-campo. O substituto entrou com muita vontade e ajudou a Seleção a dominar os 15 minutos finais. Logo nas primeiras movimentações, Bebeto ia saindo na cara do gol, em impedimento corretamente marcado. Já a melhor oportunidade da tarde veio pouco depois, aos quatro, nos pés de Romário. Cafu tabelou com Bebeto e, dentro da área, cruzou rasteiro. A bola passou às costas do Maldini e chegou limpa ao Baixinho. Ele tentou ajeitar o corpo apenas para escorar, mas mandou para fora. Viola ainda faria uma jogadaça na sequência, bagunçando a defesa adversária, até passar a Romário, que teve seu chute travado.

Extenuada, a Itália via diferentes jogadores sentirem câimbras e outros efeitos do desgaste físico. Baggio até poderia ter resolvido aos seis minutos, em tabela com Massaro na qual pôde invadir sozinho a área, mas sentiu a panturrilha justamente na hora de chutar e facilitou a defesa de Taffarel. Baresi, Berti e Albertini também precisaram ser atendidos. Do lado brasileiro, Cafu e Viola davam o gás final, mas nada suficiente para derrubar a muralha ao redor da área italiana. Pela primeira vez na história das Copas, o título seria definido nos pênaltis.

Brasil 3×2 Itália: Os pênaltis

Carlos Alberto Parreira tinha dois batedores certos antes da decisão por pênaltis. Márcio Santos treinara bem e começaria a série, enquanto Bebeto seria o encarregado de fechar. Dunga e Branco, líderes do grupo, também não se eximiriam da responsabilidade. E, de maneira inescapável, Romário iria à marca da cal. “O Romário não estava na lista, ele treinou muito pouco pênalti. A gente treinava bastante pênalti, mas o Romário não gostava de cobrar e tal. Na hora, ali, eu me lembro que ele estava sentado. A gente estava procurando mais um para bater, e o meu olhar cruzou com o dele. Aquele olhar de ‘vai, né?’. E ele levantou o dedinho e balançou a cabeça, dizendo: ‘Vou’. Isso é coragem”, declarou o treinador, ao UOL.

Baresi, heroico, iniciou a disputa. E logo mostrou como aquele desfecho seria cruel com os principais talentos da Itália. Quis encher o pé, batendo no meio do gol, mas isolou a cobrança. Cairia no chão, sem esconder a frustração, consolado por Taffarel. Seu alívio é que Pagliuca logo deixaria tudo igual, espalmando sem dificuldades o chute de Márcio Santos. Albertini bateu com categoria e converteu na sequência, assim como fez Romário. O Baixinho beijou a bola, deu uma paradinha e viu a bola triscar a trave antes de entrar. Na sequência, Evani bateu no meio e fez. Já Branco arrematou firme, cruzado, sustentando a igualdade.

A sorte do Brasil começou a mudar na quarta série de cobranças. Primeiro, graças a Taffarel. O goleiro se antecipou ao chute, mas conseguiu adivinhar o canto de Massaro, num péssimo tiro. Logo depois, Dunga colocou os brasileiros pela primeira vez em vantagem, sem titubear, para vibrar demais na comemoração. Até que Roberto Baggio, outro no sacrifício, terminasse como o personagem principal da decisão.

O camisa 10 tentou se livrar da bola, das dores e de tudo mais que o acompanhava com um chute no meio do gol. Não era uma decisão ruim, considerando a estratégia de Taffarel, de escolher um lado e saltar. Por medo de não ter força suficiente para mandar a bola até as redes, resolveu soltar a perna. Mas o herói de lindos tentos colocados rumo à final pecou na execução. Tinha mais força do que pensava e a bola seguiu seu rumo por cima do travessão. O drama de um lado era glória do outro. O grito de “tetra” ecoava no Rose Bowl. Com todos os méritos, 24 anos depois, o Brasil voltava a se sagrar campeão do mundo.

O pesadelo contínuo de Roberto Baggio

“Aquele pênalti está preso em mim. E assim vai ficar pelo resto da minha vida. Quando eu era pequeno, sonhava em conquistar uma Copa do Mundo com a Itália, contra o Brasil. Era o sonho perfeito, meu sonho favorito. Só que eu não sabia como esse sonho terminava. Acabou da pior maneira possível. Eu sempre pensei que seria melhor perder a final por 3 a 0 do que nos pênaltis. É meu maior arrependimento, minha maior amargura. Se você perder um jogo, perdeu, acabou. Mas houve um erro, um erro de que? De centímetros. Fica para toda a sua vida. E não só para mim. Toda vez que vejo uma disputa de pênaltis, me boto no lugar de quem vai perder. Está marcado em mim para o resto da vida. Eu nunca vou superar esse episódio, aprendi a conviver com isso. Tento não sofrer muito, pelo menos não além do que já sofri. Mas, toda vez que eu penso, isso volta. Minha filosofia de vida me ajudou, porque me ensinou a pensar para frente, sem olhar para trás. Mas é algo que está lá. É uma ferida dormente. Então você fala sobre isso, e ela volta a doer”, afirmou à revista SoFoot, em 2016.

A nova ‘Era Dunga’

A imagem de Dunga geralmente repetida é a do capitão enraivecido, soltando palavrões com a taça nas mãos. O volante tinha as suas razões particulares, após ser perseguido de maneira um tanto quanto injusta após o Mundial de 1990. O tetra era sua redenção e, ao mesmo tempo, sua vingança contra a imprensa. No entanto, vale lembrar também como o camisa 8 dominou o meio-campo naquele 17 de julho – o melhor em campo na concepção deste que vos escreve, coroando seu excelente desempenho ao longo do torneio.

Dunga foi um leão na marcação, duríssimo nas divididas e ganhando quase todas na intermediária. Terminou a partida com 29 bolas recuperadas, o melhor no quesito segundo os números do Datafolha. Mais do que isso, ditou o ritmo do meio-campo, entre inteligentes passes de primeira, precisos lançamentos aos atacantes e inversões aos laterais. A pressão imposta pela Seleção durante grande parte da decisão dependeu daquele antes visto como “grosso”. Foram 117 passes certos, com 85% de aproveitamento. Dunga foi garra e talento no jogo de sua vida.

Aldair e uma grande final

Outro que saiu da final da Copa muito maior foi Aldair. Seus parceiros na contenção também se destacaram. Ainda assim, o camisa 13 esteve impecável, especialmente pela maneira como controlou os contra-ataques da Itália. Uniu capacidade técnica e entendimento tático para garantir a segurança defensiva ao Brasil. Inclusive, recebeu rasgados elogios de Telê Santana após o título: “Aldair foi, para mim, o melhor jogador brasileiro na Copa. O mais regular, o mais consciente de suas funções. Claro, Romário foi o brilho, decidiu na maior parte das vezes. Mas Aldair foi o melhor”.

O triste épico de Baresi

Maldini fez por merecer o seu lugar na seleção ideal da Copa de 1994 e teve participação importante contra o Brasil, especialmente pela maneira como acertou o lado esquerdo do time. Mas o nome obrigatório da Itália nos 120 minutos será sempre o de Franco Baresi. Sem ritmo de jogo e com uma operação recente, o veterano retornou justamente para a final. Aos 34 anos, sob aquele sol sufocante, deu uma mostra inegável de sua grandeza. O camisa 6 parecia onipresente, para conter os passes do Brasil e marcar Romário, em trabalho que também contou com grandes contribuições de Apolloni. O craque italiano estava sempre um passo à frente para realizar as suas roubadas de bola, 19 no total. Ainda contribuiu ao ataque, com suas projeções e seus lançamentos. Terminou a tarde confirmando sua coragem ao cobrar o pênalti, mesmo com câimbras. Uma pena que ele saísse entre aqueles que falharam. “Acontece com quem se arrisca. Estou triste, mas não me arrependo”, afirmou, depois do jogo.

As estatísticas

O Brasil dominou os números da decisão. A Seleção finalizou 22 vezes, segundo o Datafolha, contra seis arremates da Itália. O brasileiros acumularam 652 passes, com 86% de acerto. Já os italianos efetuaram bem menos, 293, com 77% de acerto. O time de Parreira, em compensação, perdeu mais bolas: 70 a 52, 25 delas desperdiçadas por Romário, o pior no quesito. A compensação veio nas bolas recuperadas, 153 a 130 para a Canarinho.

O senhor juiz

Sándor Puhl chegou à decisão da Copa sob desconfianças, após ignorar a cotovelada de Mauro Tassotti em Luis Enrique durante o Itália x Espanha das quartas de final. Mas, justiça seja feita, teve uma ótima atuação na decisão. Apesar do início pegado, conseguiu controlar os ânimos e acertou marcações de impedimento até mesmo quando os seus assistentes erraram. Terminou bastante elogiado. Segundo O Globo, “justificou a fama de bom juiz” e “teve atuação à altura de final de Copa”.

A homenagem a Ayrton Senna

Um dos momentos mais marcantes na comemoração do tetra foi o tributo realizado a Ayrton Senna, falecido no início de maio de 1994. Os jogadores carregavam uma faixa dizendo: “Senna, aceleramos juntos. O tetra é nosso”. Romário tinha sido o primeiro a se manifestar sobre a intenção de homenagear o piloto, algo que os companheiros abraçaram. “Era uma pessoa incrível, que deu muitas alegrias ao povo brasileiro. Sabíamos que a Copa era a única oportunidade de dar tanta alegria ao Brasil quanto o Senna deu”, pontuou Taffarel, à Folha.

Com a palavra, Parreira

“Se sou uma pessoa de sorte? Como diria Frank Sinatra, ‘It was my way’. Sempre confiei nesse trabalho e por isso nunca mudei meu estilo. Não transigi em nada, não tive um desvio de rumo. A conquista provou o meu acerto. O triunfo na Copa ainda serviu para acabar com certas ideias: mostramos que podemos vencer com camisa azul, com prorrogação e com pênaltis. E a lição que meu time deixa é tática, de que defender é tão importante quanto atacar”, declarou um radiante Parreira, em breve coletiva de imprensa. Também elogiou o companheiro Zagallo: “Ele é o único homem do planeta a ganhar quatro títulos mundiais. Nunca se alvoroçou para ser técnico. É uma ótima indicação para o Brasil em 1998”.

Com a palavra, Arrigo Sacchi

“Qualquer técnico do mundo não deixaria Baggio ou Baresi fora da final da Copa. Para um jogo como este, vale muito a experiência do Baresi e a habilidade do Baggio. Não se pode dizer que, por causa dos pênaltis, nenhum dos dois deveria ser escalado. Mesmo tendo apenas 50% de suas forças, Baresi e Baggio foram decisivos. Nunca em minha vida vou me arrepender de ter escalado os dois. No futuro, vão reconhecer que agi certo. Os dois times se cansaram muito, com todos dando o máximo de sua capacidade. Decidir nos pênaltis é frustrante. Ao final, o esforço italiano foi surpreendente”, analisou o técnico da Itália.

Com a palavra, Romário

“Agora é hora de comemorar, é hora de rir, de chorar de felicidade. Eu chorei. Tinha que chorar, né? É uma coisa que está na nossa garganta há 24 anos. O mais importante é chegar no Brasil e ver aquele povo todo feliz. […] Eu fui lá e fiz o pênalti, como o Dunga fez também. E o Branco fez. Acho que mais uma vez essa geração demonstrou que é campeã. E acabou com essa história de medo na hora do pênalti”, afirmou o atacante, depois da partida. “Foi mesmo um jogo duro, eu nem marquei. Mas, nos momentos decisivos, os grandes têm que assumir responsabilidades. Não sou um bom cobrador de pênaltis, mas sou um dos grandes. Sabia que ia fazer o gol”.

A marra de sempre também se notou em conversa com O Globo: “Aconteceu do jeito que eu previ. A Copa foi mesmo do Romário. Eu fui mesmo o melhor jogador da Copa. Quem foi melhor do que eu? Vivemos agora a Era Romário. Só quero falar aos ex-jogadores que jogaram conversa fora, que minha geração sim é vitoriosa. Sou tetracampeão, o resto que se dane”. Romário saberia naquela mesma noite que foi eleito o melhor jogador da Copa. Receberia o prêmio apenas em janeiro de 1995.

A fúria de Romário

Não foi só Dunga que externou sua insatisfação durante a premiação da Copa. Ao receber a medalha, Romário disse aos fotógrafos: “Vocês todos foram contra. Se quiserem fotografar agora, vão ter que ir lá na puta que o pariu”. Reforçaria suas palavras à Folha: “A Seleção jogou contra o adversário e contra 60% da imprensa. O título vai calar a boca dos críticos. Tenho certeza que muitas rádios e que muitas televisões que foram contra vão perder totalmente a sua audiência pelas palhaçadas que fizeram com a gente. Eu não guardo rancor de ninguém. Acho que as pessoas tinham que acreditar mais nosso trabalho. E o resultado foi a resposta. Só isso que tenho a dizer”.

Com a palavra, Taffarel

“É lógico que uma decisão por pênaltis não demonstra qual foi a melhor equipe em campo. Mas acredito em Deus e o nosso destino era ganhar essa decisão. Não fui herói de nada. Toda a equipe foi herói. Pênalti é uma loteria muito grande. Por isso, ninguém gosta de chegar numa decisão por pênaltis. Pênalti é sorte. O goleiro normalmente tenta passar toda a responsabilidade para quem vai bater”, apontou o goleiro, à Folha. “A partir do momento em que adivinhei o lado certo em que o Massaro iria chutar, foi fácil agarrar. O goleiro precisa ficar parado o maior tempo possível antes da cobrança para atrapalhar quem vai bater. Só dá para fazer isso. Já com o Baresi, sei que dói muito perder um pênalti e fui confortá-lo. Disse-lhe para não se sentir culpado. O mais curioso é que, enquanto eu vibrava intimamente, percebia o desespero dele, ali agachado sem poder dar uma palavra”.

Taffarel, em busca de um novo clube

Eleito o melhor jogador da partida pela Fifa, Taffarel procurava um novo clube, ao deixar a Reggiana. E mantinha a humildade para falar sobre o seu feito pessoal, após ser muito criticado às vésperas da competição: “Não preciso responder nada a ninguém. Este título serve apenas para premiar o trabalho da Seleção. E fico feliz, porque tenho consciência de que me saí bem. Acho que o futebol voltará a ser tratado com seriedade. A Seleção mostrou que, com trabalho sério, tudo é possível atingir. Eu precisava desta atuação. Não pelo pênalti que defendi, mas porque estive bem durante os 120 minutos. E acho que deve ficar bem claro que não me considero herói. O mérito é de todos os jogadores”.

Com a palavra, Dunga

“Somente nós sabemos o quanto sofremos nestes últimos anos. Só que as pessoas precisam entender que a minha geração é vencedora. Perdemos a Copa de 90? Tudo bem, mas ganhamos a Copa América de 89, um título que a Seleção não conquistava há 40 anos, além do tetra. Trabalhamos muito, mas valeu a pena. Apesar das críticas, chegamos lá. Os italianos jogaram atrás o tempo todo, como os demais adversários. A tônica nesta Copa foi esta: o Brasil pressionando e os adversários procurando o gol através somente de contra-ataques. Portanto, só podia mesmo ter sido o Brasil campeão”, analisou Dunga, ao jornal o Globo.

O desabafo do capitão

“Agora é fácil me elogiar. Mas na hora difícil a equipe teve que se unir para suportar as críticas. Foi uma vitória de homens”, desabafou Dunga, depois da final. Seu Edelceu Verri, pai do capitão, também falou com a Folha: “A justiça tarda, mas não falha. Entendo a crítica construtiva, mas é difícil aceitar a crítica destrutiva. Até políticos criticavam Dunga, em vez de se preocuparem com os problemas do país”.

Com a palavra, Bebeto

“Foi um título merecido. Fomos a melhor seleção dessa Copa e agora temos que comemorar muito. Por mim, essa festa não terminaria nunca. Estou emocionado demais. A Itália jogou atrás, mas tivemos paciência. Valeu o sacrifício de ficar dois meses longe de casa. Um título de Copa compensa tudo”, assinalou o atacante, ao jornal O Globo.

Bebeto se aposenta da Seleção (por ora)

“Já tive tudo o que queria, foi bom demais. Agora só jogo em clube. Espero que o título sirva para os governantes cuidarem mais do nosso povo tão sofrido. Eles têm que acabar com a fome no Brasil, melhorar a economia, criar empregos e não deixar tantas crianças pobres nas ruas”, declarou Bebeto, logo após a partida. O atacante voltaria atrás em sua decisão, participando ainda da Copa de 1998.

Com a palavra, Márcio Santos

“Tínhamos a informação que o lado direito era o ponto fraco de Pagliuca e chutei forte no canto visado. Infelizmente, ele pegou. Mas como Baresi havia perdido, não fiquei preocupado. Tinha certeza de que acabaríamos vencendo. Acho que respondi à altura a convocação para esta Copa do Mundo. Nossa defesa foi a menos vazada e ganhou elogios de todo mundo. Portanto, não tenho que ficar pensando em um pênalti que não entrou. Nós merecíamos. Era a nossa vez”, declarou o zagueiro, ao jornal O Globo.

Com a palavra, Cafu

“Foi um momento mágico entrar na final. Sabia que não poderia vacilar e acho que dei conta do recado. Fiz bons cruzamentos, quase Bebeto e Romário garantiram nossa vitória no tempo regulamentar, o que seria justo. É uma glória ser tetra. Uma glória inesquecível. Bebi até champanhe, coisa que nunca faço. Deu para fazer uma boa partida, mas o italiano colou em mim e tive que me desdobrar para realizar as jogadas”, afirmou o lateral, ao jornal O Globo.

Com a palavra, Mauro Silva

“Eu vi o gol naquele meu chute, vi mesmo. Mas a bola não quis entrar, paciência. Eu corri demais nesse jogo, de tanto que cobri os laterais, zagueiros. Nosso time ataca e isso exige muito de nós. Cansei, mas não fiquei com a língua de fora não. O problema é que estava muito calor. Sabia que nós ganharíamos. Os italianos estavam nervosos. O título vai melhorar minha vida e a dos brasileiros”, apontou o volante, ao jornal O Globo.

Com a palavra, Branco

“Sabia que podia dar conta do recado, como sempre dei nas outras duas Copas do Mundo. Nessa consegui o que mais sonhava: este título de campeão do mundo. Poucos acreditavam, mas nós chegamos. O título está em boas mãos e vai valorizar ainda mais o futebol brasileiro. Nosso povo precisava ter uma alegria dessas”, disse o lateral, ao jornal O Globo.

Com a palavra, Jorginho

“Tentei continuar, mas não deu. Fiquei muito triste, mas saí para não piorar a lesão. Mostramos uma superioridade muito grande em todos os jogos. Agora, é muito ruim torcer do banco de reservas. É um sofrimento esquisito, que não quero sentir nunca mais. A gente merecia essa conquista. Trabalhamos muito e vamos comemorar como nunca este tetracampeonato”, pontuou o lateral, ao jornal O Globo.

Com a palavra, Ronaldo

“Vi o quanto é importante a união de um grupo para se conquistar alguma coisa. Em 1998, vou poder fazer no campo o que observei de fora. Romário acertou em dizer que serei seu substituto. Vou brilhar na França sim”, disse Ronaldo, reserva em toda a campanha. Parreira depositava sua confiança no prodígio: “Este é predestinado. Campeão do mundo com 17 anos não é para qualquer um”. O atacante também garantia que não seguiria no Cruzeiro depois do Mundial, insatisfeito com seu salário.

Com a palavra, Viola

“Eu estava meio desligado quando ouvi o Paulo Sérgio gritar meu nome várias vezes, meio desesperado. Quando percebi, já levantei aquecido, foi só entrar em campo. Não dava para perder tempo. O Parreira me disse para eu fazer uma fumaça. A única coisa que fiz foi jogar do meu jeito”, disse o substituto, com uma dose de galhofa, ao término da partida. Seguiria brincando no hotel: “Foi até melhor não ter anotado o gol. De repente, faço e o coração para, não comemoro. Quando parto de trás, há problema para o adversário. Ninguém me segura. Como Parreira sabe que sou perfeito nisso, me colocou. Ele também sabe que sou iluminado”. Viola também ganhou elogios do companheiro Mazinho: “Viola reacendeu a Seleção, quando já estávamos quase nos entregando”.

Com a palavra, Zagallo

O coordenador técnico Zagallo não quis falar muito com a imprensa na saída do Rose Bowl. Pediu para que o poupassem, porque “poderia passar mal”. Mesmo assim, conversou brevemente com O Globo, já subindo no ônibus: “Nunca senti uma emoção tão grande na minha vida. Agora não quero mais saber de tricampeonato. Quero só lembrar desta conquista nos Estados Unidos. Foi muito mais importante do que qualquer coisa. Foi o título mais gostoso que ganhei em toda a minha vida”. Zagallo também confirmou que tinha aceitado a proposta para suceder Parreira no comando da equipe.

A importância de Moraci

A seleção brasileira sobrou na Copa de 1994 principalmente por seu excelente preparo físico. Responsável pela preparação, Moraci Sant’Anna realizou um trabalho intenso e específico para o clima dos EUA. Às lágrimas, falou a’O Globo: “É isso que precisa ficar bem claro: jogamos procurando a vitória e o primeiro gol. O adversário só queria empatar e isso facilita muito mais no condicionamento físico. Mas nem isso eles souberam aproveitar. Com garra, corremos mais do que os italianos. Fizemos um trabalho de base em Teresópolis e sempre treinamos no calor. Os italianos jogaram alguns amistosos e jamais quiseram treinar no calor, com medo do cansaço. E foi o que se viu agora, não?”.

Nocaute Jack, o homem da cambalhota

Assim que Roberto Baggio perdeu seu pênalti, a comissão técnica e os reservas do Brasil invadiram o campo para comemorar. E uma figura que se destacou foi Nocaute Jack, histórico massagista da Seleção. Ele virou uma cambalhota bem no meio do gramado, para extravasar sua alegria. Abílio José da Silva tinha 74 anos na época. Ganhou o apelido de ‘Nocaute Jack’ pelos tempos em que lutava boxe e participava de telecatch. Depois, tornou-se massagista do São Cristóvão e trabalhou no esquadrão do Cruzeiro a partir dos anos 1960.

Convidado para se juntar à Seleção em 1968, seria auxiliar do não menos lendário Mário Américo durante o tri, em 1970. Sua primeira cambalhota, inclusive, aconteceu no México: foi assim que Nocaute comemorou o primeiro gol de Pelé na decisão contra a Itália. Viraria o massagista principal do Brasil depois do Mundial de 1974, até chegar ao ápice com o tetra. Aquela foi a última Copa de Nocaute Jack como massagista, mas isso não romperia seu vínculo com a Seleção. A partir de então, virou funcionário da Granja Comary. Faleceu em 2003, aos 80 anos, vítima de uma parada cardíaca. A CBF pagou seu funeral, que contou com a presença de diversos ex-jogadores da Seleção.

A emoção do Capita

Carlos Alberto Torres, capitão do tricampeonato, nasceu em 17 de julho de 1944. A decisão da Copa acontecia justamente em seu aniversário de 50 anos, portanto. E o comentarista do SBT se emocionou bastante no pós-jogo, apresentado ao lado do igualmente saudoso Doutor Osmar.

Baresi se despede da seleção

“Já joguei o suficiente pela seleção. Agora pretendo dedicar-me apenas ao Milan. É hora de ceder a vaga para outros jogadores. Estava me sentindo muito bem para esta final. A quem foi operado no dia 24 de junho, acho que tive boa recuperação. Só cansei mesmo no final da prorrogação, mas não foi isso que fez com que eu perdesse o pênalti. Tanto que chutei forte. Entretanto, peguei muito mal na bola. Quem acompanhou nossa campanha há de reconhecer que ela foi muito boa. Apesar da fadiga de muitos jogadores e dos problemas que passamos, o time se superou e mostrou futebol de alto nível, o que certamente será reconhecido pelo povo italiano”, afirmou o capitão, depois da partida.

A promessa de festa pelo país

A comemoração do tetra prometia um tour pelo Brasil. As cidades não estavam confirmadas naquele domingo, mas a CBF garantia que o avião com os jogadores pararia em várias capitais. Recife seria a primeira cidade, como agradecimento pelo apoio oferecido pelos torcedores no momento mais difícil das Eliminatórias. Já em Brasília, os campeões receberiam os cumprimentos do presidente Itamar Franco. Depois, seguiriam ao Rio de Janeiro.

A análise de Telê Santana

Em sua coluna na Folha de S. Paulo, Telê Santana comentou o desempenho da Seleção: “O Brasil é, merecidamente, o primeiro tetracampeão da história. Uma conquista da técnica e, acima de tudo, do coração. Pelo que sei, os jogadores estiveram muito unidos. Podemos constatar isso em todos os momentos, especialmente na hora dos pênaltis. O time era um só. Foi mesmo uma vitória da técnica, da qualidade individual dos nossos jogadores. Taticamente, a seleção brasileira encerrou sua participação na Copa devendo alguma coisa. Jogou da mesma maneira, do primeiro ao último minuto. Técnica e fisicamente, porém, a seleção foi a melhor das 24 que aqui estiveram. Já era hora de mostrarmos que temos um futebol ganhador. Aos títulos mundiais de Santos, Flamengo, Grêmio e São Paulo, se soma mais esta Copa”.

“A Itália valorizou muito a conquista brasileira. Foi sua melhor partida. Defesa segura, marcando em cima, como é seu estilo, mas desta vez com um contra-ataque muito perigoso, veloz, de passes rápidos. Ainda bem que tínhamos Aldair, Márcio Santos e Mauro Silva. […] A Itália valorizou a conquista também por sua elegância. Terminando o jogo, enquanto os brasileiros comemoravam, os italianos acompanhavam de longe. Uns chegaram a aplaudir, dignos vice-campeões”, complementava. “Imagino que o povo esteja comemorando muito no Brasil. E com razão. Ganhamos uma Copa que merecíamos ganhar. Que o povo festeje. Esta é das raras horas em que somos todos iguais, o homem da arquibancada e o presidente da república. Um milagre que devemos ao futebol. Ao futebol tetracampeão do Brasil”.

A análise de Johan Cruyff

“Uma final que acaba em cobranças de pênaltis depois que nenhuma das seleções foi capaz de marcar um só gol já é, por si só, o pior dos castigos para o espetáculo. A única coisa que me consola é que, no final, o triunfo foi para o Brasil. Porque não teria sido justo que o título de campeão do mundo ficasse com uma equipe que elegeu o caminho da especulação ao longo do campeonato. E não teria sido justo porque os brasileiros, sem jogar um bom futebol, buscaram mais a vitória e criaram situações de gol suficientes para não precisar chegar aos pênaltis nesta final. A partida foi ruim e não vale a desculpa de que dificilmente em uma final se pode ver bom futebol. O que acontece é que o Brasil jogou demasiadamente preocupado com seu rival e em nenhum momento conseguiu impor seu domínio de bola”, avaliou Johan Cruyff, em sua coluna à Folha de S. Paulo.

A crônica da revista Placar

Abaixo, na íntegra, a crônica de Juca Kfouri à revista Placar publicada logo após a final. ‘Só existe um tetracampeão no mundo’ era o título. A transcrição foi feita gentilmente pelo amigo Felipe Santos Souza:

Quase cem mil terráqueos tiveram o privilégio incomparável de assistir, no domingo, nas arquibancadas do Rose Bowl, em Los Angeles, ao maior choque da história. Pouco menos de 24 horas antes, o planeta Júpiter havia sido espetacularmente abalroado por um cometa desgovernado, causando uma explosão milhares de vezes maior que a de uma bomba atômica. Nada comparável, no entanto, ao impacto causado pelo astro Romário e seus cometas numa Itália compreensivelmente assustada.

A proporção do jogo era mesmo planetária. Estava em disputa o primeiro título de tetracampeão mundial e a hegemonia no Século XX. E a partida demoraria um século e um segundo. Já dizia o falecido técnico escocês Bill Shankly que “o futebol evidentemente não é uma das coisas mais importantes das nossas vidas – é a mais importante”. E era exatamente disso que se tratava ali: a partida mais importante da vida dos dois países que mais amam o futebol no mundo. Só tinha que dar Brasil e seu futebol que os europeus insistem em considerar de uma outra galáxia.

A Itália entrou disposta a queimar todas as suas cartas. Baresi e Roberto Baggio, sem as melhores condições físicas, foram para o sacrifício que o jogo merecia, mas é o Brasil que vive o primeiro drama: Jorginho se machuca depois de sua melhor jogada e sai aos 20 minutos, dando lugar a Cafu (o plano de Parreira – confidenciado a PLACAR antes da final – era de eventualmente usar Cafu para o lugar de Mazinho no segundo tempo). Até aí Mauro Silva fazia uma partida espetacular, Romário tivera uma chance cabeceando, Bebeto outra ainda mais clara e Massaro chutara para Taffarel defender cara a cara, nada comparável à furada de Mazinho no rebote de uma falta bem cobrada por Branco, quando Romário e Bebeto só esperavam para abrir o marcador.

Era um primeiro tempo quase solene, de muito respeito e com o Brasil melhor. O juiz húngaro Sándor Puhl só marcava faltas contra o Brasil e o paraguaio Venâncio Zárate não assinalava os impedimentos do Brasil. O Mazinho do fim da Copa era o Zinho do começo e Arrigo Sacchi tira Mussi, põe Apolloni para marcar Romário e devolve Maldini à lateral esquerda, sua posição de origem. Roberto Baggio está preocupantemente sossegado e Baresi mostra porque é um dos melhores zagueiros do mundo, orientando e até levando a Itália à frente. Fosse uma luta de boxe e o Brasil teria ganho por pontos. Mas não era. Era o Jogo do Século.

Recomeça o duelo de titãs, disputado palmo a palmo do gramado, uma verdadeira guerra de posições, embora com cavalheirismo e quase sempre só entre as duas linhas intermediárias do campo. A iniciativa é toda brasileira, mas não como numa briga de gato e rato – como fora Brasil e Suécia. É o leão contra o tigre, briga de bicho grande, nenhum pode bobear. Aos 30, Pagliuca bobeia num chute de Mauro Silva, mas a danada da trave evita uma injustiça com o belo goleiro. Ah, como queríamos essa injustiça, Itália!

O jogo é lá e cá, mais lá do que cá, na verdade, e a prorrogação se aproxima, como se o Jogo do Século precisasse de todo o tempo do mundo. Jamais, nas catorze Copas anteriores, nenhuma final acabou 0x0. Tinha de ser essa.

93 minutos do Jogo do Século, sim, 93. Bebeto desperdiça uma chance de diamante e Pagliuca e Apolloni salvam o rebote de Romário. Aos 96, Roberto Baggio obriga Taffarel a fazer uma defesa de ouro. Aos 99, é Pagliuca quem salva o tiro cruzado de Zinho. Viola, o predestinado corintiano, entra no lugar de Zinho para o segundo tempo da prorrogação. O Brasil ainda quer ganhar e põe em campo, além do mais, um jogador que também bate pênalti. Viola entra feito fera. Aos 109, Cafu deixa Romário na cara do gol e o gol não acontece. Aos 111, é Viola quem faz tudo, dá para Romário e Baresi – o melhor em campo ao lado de Mauro Silva – salva na hora H.

Aos 113, Roberto Baggio e Taffarel. Taffarel ganha. 116, Baresi corre atrás de Viola e cai numa câimbra só… sai de maca, heroico. O Jogo do Século termina com o terceiro 0x0 da Copa dos Estados Unidos. Que ironia, mas que 0x0!

Iríamos aos pênaltis novamente contra um time de camisa azul, como a França, em 1986. Baresi na primeira cobrança, que injustiça!, bota a bola em órbita. E como nós queríamos essa injustiça, Itália! Lembra da de 1982?

Agora é Márcio, por todos os santos, e Pagliuca. Dá Pagliuca. Que pena!

Albertini, 1×0.

Romário, que não bate pênalti, bate! 1×1.

Evani, 2×1.

Lá vem o Branco. Contra a França, em 1986, no México, ele fez. E fez de novo! 2×2.

Massaro e Taffarel. TAFFAREL!!!!

Dunga, o capitão que vai erguer a taça. DUUUNGA!

Roberto Baggio em órbita!!!!! Que outra injustiça maravilhosa! Só existe um tetracampeão na face da Terra!

E como foi justo! O Brasil merecia.

O que pensava Parreira

Para finalizar, mais um material publicado pela Placar após a decisão: uma entrevista antes da final, em que Carlos Alberto Parreira falava sobre seu trabalho e suas filosofias com Juca Kfouri. A transcrição também é de Felipe Santos Sousa. Confira:

PLACAR – Você teria todo o equilíbrio que demonstrou se não fosse uma pessoa independente?
Parreira – Passei catorze anos trabalhando no mundo árabe e eles me ajudaram muito. Quem tem família para criar só pode suportar tamanha pressão se não depender de mais ninguém. O tempo que passei lá não me transformou em um homem rico, absolutamente, mas me deu a consistência que permitiu que eu seguisse o meu caminho.

PLACAR – A força mental também veio desse período, porque não é fácil viver tanto tempo fora do seu país numa cultura tão diferente?
Parreira – Não me considero uma pessoa especial, mas um homem que se adapta com muita facilidade a situações novas, o que alguns definem como a verdadeira inteligência. Eu me desligo das coisas que gosto, assumo a nova realidade e me dedico integralmente aos objetivos que fui buscar. Não sei nem se é para publicar, mas o fato é que jamais fui demitido de lugar algum e sempre sou convidado a voltar aos lugares nos quais já trabalhei. É incrível! Veja só que privilégio: vivendo no mundo do futebol [N.R.: Parreira começou como preparador físico do São Cristóvão, em 1967], eu nunca fui despedido.

PLACAR – Você recorreu a um especialista para esse seu trabalho de mentalização?
Parreira – Não, nunca. Li alguns livros esotéricos, de filosofia, mas não foi nada disso que me fez como eu sou. Perdi meu pai com dois anos, tive que lutar muito para conseguir as coisas, embora seja muito grato ao meu padrasto. Estudei na escola de Educação Física, pegava ônibus para chegar às 6 da manhã, e nunca perdi uma aula. Quer dizer, me treinei. Além do mais, me considero um privilegiado porque acho que nunca trabalhei um só dia na minha vida: sempre fiz o que gostei.

PLACAR – E sonhava em ser treinador…
Parreira – Nunca me passou pela cabeça. Eu queria ser preparador físico, inspirado pela Seleção Brasileira que foi campeã mundial em 1958, na Suécia. Vi toda aquela festa e enfiei na cabeça que seria preparador físico, não técnico, muito menos da Seleção, o que acabou acontecendo naturalmente”

PLACAR – Você sente agora a falta de dividir com seu pai esse turbilhão que está vivendo?
Parreira – É claro, mas, como já disse, tive a sorte de ter um padrasto que me criou como filho e que mesmo depois de ter se separado da minha mãe está sempre na minha casa. Na verdade, eu não tenho nenhuma lembrança do meu pai e o meu amadurecimento se deu cedo, até em função da experiência no mundo árabe. Com 24 anos eu passei sozinho um Natal e o Ano Novo em Gana, sem conhecer ninguém. Chorei feito uma criança num quarto de hotel, mas cresci muito. Depois fui estudar na Europa, tudo na mais completa solidão. De onde vem essa força? Não sei, é tão inexplicável quanto a força do cabelo do Sansão.

(…)

PLACAR – A imprensa não entende de futebol, é isso?”
Parreira – É duro. Para mim é uma decepção total perceber como as pessoas não evoluíram. O futebol mudou nos últimos vinte anos como a vida mudou em todos os sentidos: na ciência, na tecnologia, na genética, em tudo. E as pessoas ainda ficam sonhando com um futebol que já não existe há tanto tempo! São verdadeiros sonhadores, uma decepção total. E me massacraram. A Folha de S. Paulo chegou a dar como manchete, depois do 1×1 contra a Suécia, o seguinte: ‘Técnico burro, tática burra’. Parece mentira. Um verdadeiro massacre. A imprensa também precisa ser rediscutida. Os jornalistas estrangeiros ficaram escandalizados com o tratamento que a nossa imprensa dedicou à Seleção.

PLACAR – O futebol europeu é a chave?
Parreira – O futebol que se joga na Europa, o que é diferente. O melhor do futebol mundial está lá e eu quero o maior número possível de jogadores que tenham essa vivência no meu time.

PLACAR – Você está lançando a ideia de que existe um, digamos, futebol mundial, como existe o carro mundial?
Parreira – Exatamente isso, sem que cada escola perca suas características essenciais. Eu fico alucinado como as pessoas confundem as coisas. Não jogamos futebol europeu, repito pela milionésima vez. Apenas nos preocupamos em ter a bola, já que não temos mais o Pelé, o Tostão, o Garrincha, o Gérson. Temos de ser mais organizados, coisa que antes não era tão fundamental porque os gênios desequilibravam os jogos. O fato é que chegamos a uma final de Copa do Mundo sem ter corrido nenhum risco, o que deve ter seu mérito, não?

PLACAR – E sem conversar com o Romário, como ele disse à PLACAR em nossa edição anterior?
Parreira – Tive pouquíssimas conversas com ele mesmo, todas ótimas, duas ou três vezes. Converso com um ou outro quando tem necessidade de conversar, mas normalmente as conversas são em grupo. O importante é a honestidade de propósitos e isso o grupo percebe. É ser justo. Veja: testamos oitenta jogadores, convocamos só 22 e não houve gritaria, aquela coisa nos jornais com jogadores se dizendo traídos etc. Fui o primeiro a levantar a bola ao dizer que teríamos de ganhar a Copa fora de campo. Não podíamos repetir 1990. Eu perguntava aos jogadores porque eu é que tinha de ser o responsável por eles, um bando de caras barbados. Eu perguntava: ‘Por quê vocês não se unem e começam a ganhar a Copa do Mundo? Eu é que vou ter de unir vocês? Vamos fazer esse trabalho juntos’. Fizemos, depois, um vídeo maravilhoso que agora todos vão poder ver, chamado Superação, mostrando o que se esperava dos jogadores, coisas como humildade, união, disciplina, sem o que não se ganha nada. O texto eu fiz junto com o engenheiro Evandro Mota, um especialista em mentalização.

PLACAR – O tetra não pode esconder por ainda mais tempo toda a desorganização do comando e da estrutura do nosso futebol?
Parreira – Pode, é claro. Mas acho que só alguém com muita força pode mudar essa estrutura cheia de interesses políticos e financeiros. Como é que se faz um calendário, no qual o Campeonato Brasileiro deveria ser a coisa mais importante, se São Paulo quer seis meses para organizar o seu estadual, se o Rio quer três? Como conciliar? Sou cético quanto a isso e suponho que só mesmo se a FIFA vier a baixar um calendário mundial a gente vai dar jeito no futebol brasileiro. Porque, veja bem, nas Eliminatórias corremos até o risco de ficar fora de uma Copa do Mundo por falta de condições para preparar o time. Agora mesmo: nunca uma Seleção Brasileira teve tão pouco tempo para se preparar com vistas a uma Copa. E se não tivéssemos uma comissão técnica experiente, que primeiro deu condições físicas para o time, com o trabalho do Moraci Sant’Anna, para só depois fazer três amistosos em apenas uma semana, buscando dar ritmo de jogo, sei lá se não teríamos o mesmo fim da seleção da Colômbia, que nesta Copa do Mundo só jogou, jogou e jogou.

PLACAR – E você agora vai embora para a Espanha, abdicando do papel de ser a voz mais autorizada para levantar a bandeira da reformulação?
Parreira – Vou porque três anos é muito, é demais… é demais. Vou seguir minha vida como técnico de clube. Porque do jeito que é no Brasil fica cada vez mais desumano para um treinador. Tínhamos de optar por campeonatos estaduais menores, dar prioridade ao Brasileiro e selecionar os torneios sul-americanos que, de fato, nos interessam. Em caso contrário, vai ficar cada vez mais difícil para a Seleção.

PLACAR – Se você tivesse de destacar um nome como seu grande aliado nesta conquista, qual destacaria?
Parreira – Além do Zagallo, por tudo, experiência, competência, amizade, eu o presidente da CBF, Ricardo Teixeira, que nem cogitou da minha saída até quando eu falei em sair, depois das Eliminatórias. Ele me convidou, me segurou, me apoiou. Pela primeira vez em muitos anos a mesma Comissão Técnica fez um trabalho do começo ao fim e, todos sabem, continuidade em futebol é fundamental. Ele foi pressionado para mudar e manteve. Finalmente, os jogadores foram irrepreensíveis. Foram maravilhosos.

PLACAR – E por que você manteve o Zinho?
Parreira – Porque ele, mesmo em má fase técnica, foi um trabalhador incansável, taticamente muito importante. Cheguei a ir ao quarto dele, dizer que ele tinha de jogar melhor, que eu estava dando a cara a tapa por causa dele, tudo isso. E antes do jogo contra a Holanda ele me disse que já estava se sentindo melhor e, de fato, jogou bem naquela partida e na seguinte, contra a Suécia.

PLACAR – Muito obrigado, Parreira.