Até 17 de julho, resgataremos aqui na Trivela os jogos, as histórias e os personagens da Copa do Mundo de 1994. Confira o diário deste 5 de julho, último dia das oitavas de final, baseado principalmente nos relatos da imprensa brasileira da época:

Uma Itália receosa

Diante da classificação agonizante da Itália no Grupo E, Arrigo Sacchi planejava mudanças no time para encarar a Nigéria nas oitavas. Paolo Maldini, que vinha atuando na lateral esquerda, passaria a comandar o miolo da zaga. Enquanto isso, Antonio Benarrivo e Roberto Mussi ocupariam os lados da defesa. A ideia era ganhar mais velocidade para conter a correria das Super Águias. Roberto Donadoni ganhava a posição de Dino Baggio, com problemas físicos. Mais à frente, Daniele Massaro era reconhecido pelo gol contra o México e substituía Pierluigi Casiraghi.

“Copa não é campeonato, não exige regularidade. Copa é vida ou morte. Cada partida pede um conceito, um projeto, uma solução. Como a Nigéria atua num 4-3-3 quase fixo, eu posso me permitir o mesmo esquema. Com uma vantagem: os meus três avantes auxiliam na pressão”, analisava Sacchi, antes da partida.

A revolta de Yekini

Clemence Westerhof conduziu a Nigéria à sua primeira Copa do Mundo e ao título da Copa Africana em 1994, mas não gozava de muito moral com o elenco. Às vésperas da Copa, Rashidi Yekini pediu a demissão do treinador publicamente. A insubordinação do craque não gerou grandes consequências e ele continuou protagonizando o time de Westerhof no Mundial. Ainda assim, o racha se ampliou nos Estados Unidos. Vários jogadores mal conversavam com o holandês, acusado de ser um “carrasco” por sua postura disciplinadora. “Sou um profissional e não um tolo. Quantos outros treinadores têm um atacante capaz de anotar um gol a cada duas partidas por sua seleção? Preciso pensar no time, não em personalismos”, dizia Westerhof. O comandante, porém, já tinha anunciado que não seguiria depois da Copa.

Itália 2×1 Nigéria, na prorrogação: Baggio, o salvador

Se fosse para apostar, diante do que se viu na fase de grupos, a Nigéria tinha o favoritismo a seu favor contra a Itália. Apresentou um futebol bem mais dinâmico e veloz, com ótimos resultados no Grupo D. A vitória sobre a Bulgária, sobretudo, foi emblemática. Contudo, mesmo aos trancos e barrancos, a Itália merecia respeito. Tinha craques. E o maior deles resolveu se apresentar à Copa do Mundo justamente naquele 5 de julho. Sem as melhores condições físicas, Roberto Baggio tinha sido uma sombra de si no início da competição. Até que, no momento de maior agonia, chamasse o jogo para si. Buscou o empate nos minutos finais, até garantir a vitória por 2 a 1 na prorrogação. A história daquela Itália começou a mudar graças ao 10.

A Itália iniciou a partida em Foxborough levando mais perigo. Apostava nos passes longos e nas bolas paradas, sem incomodar tanto Peter Rufai. Aos 25 minutos, a Nigéria se aproveitou de um erro de Paolo Maldini (acredite) para abrir a contagem logo em sua primeira finalização. Após cobrança de escanteio pela direita, o capitão não afastou o perigo e Emmanuel Amunike chegou batendo na saída desesperada de Luca Marchegiani. Os italianos até pressionaram pelo empate, mas não faziam boa apresentação. As principais oportunidades vinham dos pés de Giuseppe Signori. Seus cruzamentos, entretanto, eram mal aproveitados na área.

O segundo tempo viu uma Itália com pressa, precisando fazer o resultado. Enquanto isso, a Nigéria atacava com velocidade, mas se resguardava demais. Dino Baggio saiu do banco, dando mais consistência ao meio-campo, e só não empatou porque Rufai realizou uma defesa fundamental. Já aos 20, Sacchi trocou Signori por Gianfranco Zola, mas o maestro não durou dez minutos em campo. O árbitro deu um cartão vermelho sem muito sentido ao jogador, após uma entrada com o pé alto. Restavam 15 minutos e o drama da Itália se delineava. A sorte é que, do outro lado, os nigerianos não rompiam a defesa e se limitavam a chutes de longe.

Na base da insistência, o gol de empate sairia apenas aos 43 do segundo tempo. Mussi fez boa jogada pela direita e passou a Baggio, que finalizou com uma precisão imensa. Chute cruzado, longe do alcance de Rufai, dentro das redes. O camisa 10 mais uma vez sentia o físico e não jogava bem, mas realizou o que se esperava, forçando a prorrogação. No primeiro tempo extra, as duas equipes criavam chances e Marchegiani realizou sua primeira intervenção difícil, saindo nos pés de Yekini. Já do outro lado, aos 12 minutos, aconteceu o lance definitivo.

Lançado em profundidade, Benarrivo sofreu um pênalti desnecessário de Augustine Eguavoen. Os italianos, que tentavam cavar faltas a todo momento, se valeram da afobação dos nigerianos. Baggio partiu para a cobrança e teve um breve susto. Seu chute colocado à esquerda tocou a trave, mas terminou dentro. Nos minutos restantes, os africanos seriam mais agressivos, sem conseguir marcar. Na melhor oportunidade, Yekini dominou mal e conseguiu enganar Marchegiani, até que Dino Baggio salvasse quase em cima da linha. Nas quartas, os italianos encarariam a Espanha.

A análise de Cruyff

“Esta seleção italiana não tem nada do Milan fabricado por Arrigo Sacchi. Não tem nem a qualidade técnica nem a pressão sufocante que fez daquela equipe a melhor da Europa. O jogo entre Itália e Nigéria, de longe, foi o pior das oitavas. Muito provavelmente os nigerianos se lembrarão pelo resto da vida que perderam a vitória que já tinham nas mãos, única e exclusivamente porque acreditaram que podiam assegurar a classificação com um mínimo de esforço. A Nigéria foi conformista demais. Pensou que a Itália seria incapaz de marcar. E faltou um minuto para fazer deste sonho realidade”, escreveu Johan Cruyff, em sua coluna na Folha.

Ancelotti, o assistente

Carlo Ancelotti já havia pendurado as chuteiras àquela altura. O antigo meio-campista do Milan tornou-se assistente de Arrigo Sacchi. E estava nas tribunas do estádio em Foxborough, fazendo anotações, quando vibrou demais com a virada italiana. Segundo o grande Sílvio Lancelotti, repórter da Folha na ocasião, Ancelotti ergueu-se da cadeira e deu um soco na madeira à sua frente para comemorar o empate. “Basta com este caralho”, soltou. Quando interpelado pelo repórter, próximo do local, o futuro tricampeão europeu respondeu: “Se a Nigéria vencer esta partida, você pode me chamar de cornudo”. Não precisou.

Eliminado, mas encantador

Jay Jay Okocha não salvou a Nigéria, mas deixou o campo bastante elogiado em Foxborough. Destaque do Eintracht Frankfurt, o garoto de 21 anos permaneceu no banco durante toda a fase de grupos, se recuperando de lesão. Havia entrado no decorrer das duas últimas rodadas, até assumir a titularidade contra a Itália. E mostrou por que vestia a camisa 10. O meia fez as Super Águias orbitarem ao seu redor. Não sentiu o peso da ocasião e apresentou uma facilidade imensa para os dribles em velocidade. Os companheiros não aproveitaram tão bem seus passes, assim como por vezes ele exagerou ao prender demais a bola. Ainda assim, mereceu elogios.

Nova York tricolor

A liderança do México no Grupo E soava como um feito histórico. El Tri se deu bem apenas pelos critérios de desempate em meio à igualdade quádrupla, é verdade, mas o destaque no chamado “grupo da morte” valia a confiança. “Nós ficamos em primeiro lugar no grupo mais difícil e temos todas as chances de chegar à final”, dizia o goleiro Jorge Campos. Não à toa, a promessa era de uma invasão da comunidade mexicana no Giants Stadium.

Bulgária com problemas

A Bulgária alternou momentos na fase de grupos da Copa de 94. Sua grande vitória, contra a Argentina, aconteceu mais por eficiência do que por domínio. E encarar o México seria um desafio ao técnico Dimitar Penev. Ele teria que atuar com dois reservas na linha de zaga. Trifon Ivanov e Tsanko Tsvetanov estavam suspensos para o compromisso no Giants Stadium. Outro de fora por acúmulo de cartões era o meio-campista Zlatko Yankov. A aposta recaía, mais uma vez, na dupla ofensiva formada por Hristo Stoichkov e Emil Kostadinov.

Bulgária 1×1 México (3×1 nos pênaltis): A troca das traves

O duelo em East Rutherford certamente figurava entre os mais equilibrados das oitavas de final. Bulgária e México tinham os seus atrativos, mas estavam distantes de qualquer unanimidade. Resultado: pela primeira vez no Mundial de 1994, a definição do classificado terminou nos pênaltis. Melhor aos búlgaros, prejudicados pela arbitragem durante o tempo normal, mas que acabaram sendo mais eficientes na marca da cal. O desgaste, aliás, seria determinante naqueles 120 minutos. Além do calor que ditava a Copa, ambos os times tiveram jogadores expulsos. Os mexicanos, aliás, sequer fizeram substituições. E a partida ainda contou com um episódio curioso: a troca de uma das traves, após a quebra do suporte às redes.

Jogando nos contra-ataques, a Bulgária se deu bem logo aos seis minutos, quando Stoichkov abriu o placar. O atacante recebeu uma excelente enfiada de bola e arrancou, para encher o pé diante de Jorge Campos. Emil Kostadinov carimbou a trave logo depois, em cobrança de falta distante, perdendo a chance de ampliar. Sorte do México, que também desfrutou de uma forcinha do árbitro sírio Jamal Al Sharif para empatar aos 17. Zague caiu na área, o juiz apontou o penal indevidamente e Alberto García Aspe cobrou.

O famoso lance da trave acontece aos 20. Aos tirar uma bola de cabeça na pequena área, Marcelino Bernal caiu dentro do gol e se enroscou com as redes. O peso de seu corpo quebrou o suporte que sustentava o barbante e a equipe do Giants Stadium precisou trocar a meta inteira. Foram sete minutos de espera. Quando o jogo voltou, El Tri cadenciava e a Bulgária acelerava. Na melhor chance antes do intervalo, Krassimir Balakov recebeu com liberdade e tentou encobrir Jorge Campos, mas facilitou a defesa do goleiro.

O segundo tempo seria mais morno, marcado pelos cartões distribuídos pelo árbitro. Foram duas expulsões, uma para cada lado. Emil Kremenliev deixou o campo com o segundo amarelo aos cinco minutos, enquanto Luis García desfalcaria El Tri também pelo segundo amarelo aos 12, ambos em decisões exageradas – principalmente a do búlgaro. Com isso, o duelo caiu de ritmo e teve poucas oportunidades. O México seria mais insistente, mas Zague parou em Borislav Mikhailov. Já a Bulgária, além de uma cabeçada perigosa de Kostadinov, reclamou de um pênalti negligenciado pelo apitador.

O empate se arrastou e a definição ficou para a disputa de penalidades. Nem assim os times foram eficientes. García Aspe isolou a primeira, antes que Jorge Campos defendesse o chute de Balakov com um lindo voo. Bernal também parou em Mikhailov, assim como Jorge Rodríguez. Apenas Claudio Suárez faria o seu pelo México. Melhor à Bulgária, que converteu na sequência com Bontcho Guentchev, Daniel Borimirov e Yordan Letchkov, confirmando o triunfo por 3 a 1. Pegariam a Alemanha nas quartas de final.

Enquanto isso, na seleção brasileira…

Carlos Alberto Parreira não fazia muito mistério em indicar o novo titular da Seleção. Branco deveria entrar na lateral esquerda contra a Holanda. Após a expulsão de Leonardo, pela cotovelada em Tab Ramos, Mazinho atuou por ali e Cafu saiu do banco para jogar no setor durante o segundo tempo. Branco não estava em suas melhores condições físicas para encarar a possível prorrogação diante os americanos, segundo o treinador. Mas seria ele a enfrentar a Holanda em Dallas.

Leonardo, aliás, declarava que não teve a intenção de acertar a cotovelada em Tab Ramos. O lateral chegou a visitar o adversário no hospital em Stanford. “Fiquei triste, nervoso e chorei de impotência de não poder fazer nada. O mais importante para mim era que ele soubesse que a cotovelada foi involuntária. Ele entendeu, me recebeu superbem e por isso o encontro foi legal. Não vi que Ramos estava caído. Não quis atingi-lo. Eu não tinha por que estar nervoso. O pior é que vi depois o lance na televisão e a imagem dá a impressão de que houve uma agressão, de que foi proposital. Para mim é importante não ficar com uma imagem de jogador violento”. Com uma fratura no osso parietal, o americano permaneceria de três a seis meses sem atuar.

Além do mais, outro assunto era a discussão entre Parreira e Müller ao final do Brasil 1×0 Estados Unidos. Segundo especialistas em leitura labial, o atacante falou: “Assim não vai dar para ganhar nada, porra! Tá todo mundo em cima de nós! […] Nenhum dos dois, porra! Não dá certo. Corta direito, porra!”. Questionados sobre a conversa, Parreira e Müller desconversaram, apontando que eram “notícias inventadas”.