Até 17 de julho, resgataremos aqui na Trivela os jogos, as histórias e os personagens da Copa do Mundo de 1994. Confira o diário deste 2 de julho, baseado principalmente nos relatos da imprensa brasileira da época:

A morte de Andrés Escobar

Assim foi noticiado o assassinato pela Folha de S. Paulo:

“O zagueiro colombiano Andrés Escobar foi assassinado com 12 tiros às 3h30 de 2 de julho, na cidade de Medellín. A polícia ainda não sabe o motivo do crime, mas há fortes indícios que o assassinato tenha sido cometido por traficantes de drogas do Cartel de Medellín. No jogo contra os EUA, Escobar marcou um gol contra e a Colômbia perdeu por 2 a 1, ficando praticamente sem chances de passar às oitavas de final”.

“Segundo testemunhas, Escobar saía de um restaurante no subúrbio de Las Palmas quando levou os tiros. O jogador chegou a ser levado em um táxi para um hospital, mas não resistiu, morrendo em consequência de uma parada cardiorrespiratória. No momento do crime, Escobar acabava de deixar o restaurante em companhia de uma mulher. Ele começou a discutir com um grupo de três homens e uma mulher que se encontravam no estacionamento. De acordo com o porta-voz da polícia, a discussão parecia ser em torno do gol contra marcado por Escobar”.

“Teria dito um dos agressores: ‘Obrigado pelo gol contra’. Seguiu-se uma discussão e o jogador foi baleado. O porta-voz da polícia afirmou que os traficantes haviam apostado quantias vultuosas na vitória colombiana contra os EUA e que poderiam estar querendo se vingar. Ainda segundo a polícia, os criminosos escaparam em dois jipes. Um deles, um Toyota Land Cruiser, foi encontrado abandonado, mas nenhum suspeito foi detido. A mulher que acompanhava Escobar não foi ferida”.

Um minuto de silêncio

Diante da tragédia, a Fifa determinou que fosse respeitado um minuto de silêncio antes das partidas entre Alemanha x Bélgica e Espanha x Suíça. Em nota oficial, a entidade disse que o objetivo era “render tributo à vítima desse espantoso crime”. Já o assessor de imprensa da seleção colombiana falou um pouco sobre o caráter do zagueiro. “Ele tinha um comportamento exemplar na seleção. Era tão ligado à família que foi o único jogador da Colômbia a trazê-la para a Copa. Ele chegou a pedir desculpas ao presidente da federação pelo gol contra”, apontou Xavier Hernández, à Rádio Caracol. Em meio às investigações, policiais passaram a escoltar os jogadores cafeteros que moravam em Medellín.

Uma Alemanha disposta a responder à pressão

Criticado por suas decisões e pela falta de futebol da Alemanha, Berti Vogts assumia um discurso ácido antes do confronto com a Bélgica. “Fomos muito criticados. Agora é a nossa vez de dar todas as respostas e calar os críticos. Foram realmente momentos difíceis, especialmente o miserável segundo tempo contra os coreanos. Mas foram provações em que nos saímos bem, o que mostra o bom nível do time”, comentou o treinador. Ele atribuía o baixo rendimento ao calor, embora não admitisse questionamentos ao preparo físico da equipe: “Com exceção do jogo contra a Espanha, enfrentamos as piores temperaturas da Copa. Contra a Coreia, o calor beirava os 50 graus”.

Lothar Matthäus, questionado por seu posicionamento como líbero, era outro que se incomodava com a pressão sobre a Alemanha: “Não me conformo com o excesso de críticas feitas pelos alemães e também pelos italianos. São 24 horas de pressão sobre um time que somou sete pontos na primeira fase. Não sei como se consegue arrumar fatos para tantas críticas. Enfrentamos adversários que precisavam vencer e tentavam isso de maneira forte, me exigindo mais de forma defensiva. Não havia tanta necessidade da minha presença no ataque. Tanto que o time venceu duas partidas”.

O santo contra a máquina

Apontado como o melhor goleiro da Copa até aquele momento, Michel Preud’Homme respeitava a Alemanha. Apesar da boa campanha da Bélgica, o veterano passava todo o favoritismo aos oponentes: “A Alemanha é um adversário terrível. A seleção alemã é como uma máquina perfeita, daquelas que nunca te deixam na mão, por mais longe que você queira ir. A máquina pode não entusiasmar os amantes da velocidade, mas é mais segura do que qualquer outra. Eu me impressiono pela facilidade com que superam os obstáculos”.

Alemanha 3×2 Bélgica: Mal deu para piscar em Chicago

Berti Vogts podia ser teimoso, mas não era burro. Por isso mesmo, a Alemanha mudou para o início dos mata-matas. A grande novidade estava no ataque, onde finalmente Rudi Völler recebia uma chance para acompanhar Jürgen Klinsmann, reeditando a antiga parceria. O veterano compensou o voto de confiança com uma atuação decisiva. Anotou dois gols na vitória do Nationalelf por 3 a 2 em Chicago, que seria classificada tanto pela Folha quanto pelo Jornal do Brasil como “a melhor partida da Copa até aquele momento”. Apesar da derrota, a Bélgica deixava o torneio de cabeça erguida, fazendo frente aos germânicos e se sentindo prejudicada pela arbitragem.

Além do ataque, a Alemanha também mudou as alas em seu 3-5-2. Andreas Brehme não estava rendendo e seria barrado, para lugar a Martin Wagner. Do outro lado, Stefan Effenberg havia sido dispensado após fazer gestos obscenos à torcida e Thomas Berthold era deslocado por ali. A Bélgica também mudou. Luc Nilis retornava ao time titular, dando apoio a Josip Weber no ataque. Enquanto isso, voltavam as referências poupadas contra a Arábia Saudita, incluindo o capitão Georges Grün.

O clima auxiliou em Chicago. Os termômetros no Soldier Field apontavam para somente 15°C. Assim, os dois times pareceram dispostos a fazer um início de jogo eletrizante. O primeiro gol saiu logo aos seis minutos. Völler aproveitou o erro da linha de impedimento adversária para ficar de frente com Preud’Homme, tocando por cima do goleiro. A resposta da Bélgica veio dois minutos depois, já com o empate. A defesa alemã rebateu mal a bola alçada na área e Grün apareceu para vencer Bodo Illgner. Ainda assim, o Nationalelf retomou a dianteira aos 11, numa envolvente tabela entre Völler e Klinsmann. O artilheiro bateu cruzado, no canto, para anotar o seu quinto gol naquele Mundial.

Se a fonte de gols secou um pouco na sequência, o jogo seguiu em alta rotação, com os dois times buscando o ataque e avançando em velocidade. A Alemanha daria um pouco mais de trabalho no jogo aéreo, com Klinsmann forçando uma grande defesa de Preud’Homme em cabeçada. Já aos 40, Völler voltou a superar o goleiro, anotando o terceiro dos germânicos. Cobrança de escanteio pela direita, que o camisa 13 cabeceou para o chão, impossibilitando a intervenção do arqueiro. Preud’Homme ainda tocou na bola, mas falhou.

Para o segundo tempo, a Alemanha trocou Matthäus por Brehme. Os primeiros minutos esfriaram, mas logo a Bélgica teria que tomar a iniciativa, também se abrindo aos contragolpes. Apesar da insistência dos Diabos Vermelhos, que tiveram um pênalti sobre Weber negligenciado pelo árbitro, o Nationalelf era mais perigoso. Klinsmann acelerava do outro lado e Preud’Homme precisou realizar duas grandes defesas. Além disso, Rudi Smidts salvaria uma bola em cima da linha.

Stefan Kuntz poderia ter matado a partida aos 43, mas titubeou na hora de arrematar e permitiu uma grande defesa de Preud’Homme. Foi o que deu sobrevida à Bélgica, encostando no placar um minuto depois. Philippe Albert tabelou e passou no meio de dois adversários para invadir a área, chutando no contrapé de Illgner. Assim, os belgas partiram para o abafa nos acréscimos, em desespero marcado pelas subidas do próprio Preud’Homme ao ataque, na esperança de cabecear alguma bola vadia. Não deu. Por mais que o goleiro estivesse inspirado, a Alemanha finalmente tinha atuado como a tricampeã mundial que era.

Com a palavra, Berti Vogts

Enfim, o treinador da Alemanha demonstrava sua satisfação com o time: “A Alemanha mostrou sua verdadeira identidade. A Bélgica foi muito bem, lamento sua saída da Copa. Mas a Alemanha exibiu boa parte de seu poderio. Mudar o meio-campo foi necessário para que Klinsmann e Völler voltassem a atuar avançados”.

Com a palavra, Paul van Himst

O técnico da Bélgica externou o descontentamento com o árbitro, sobretudo: “Milhares de pessoas no estádio e milhões pela televisão não tiveram dúvida de que foi pênalti. Foi um escândalo. Mas a Alemanha também teve méritos. Sua marcação no meio-campo foi excepcional e Klinsmann já se destaca como um dos melhores do Mundial”.

Expectativa x realidade em Espanha x Suíça

Roy Hodgson parecia satisfeito com a campanha da Suíça até as oitavas de final. Declarou antes do jogo que qualquer resultado contra a Espanha já seria suficiente para o time voltar de cabeça erguida para casa. Apesar da goleada sobre a Romênia, faltava mais consistência aos helvéticos na campanha. Já do lado da Espanha, Javier Clemente mirava as finais. O time ia mais forte para o confronto, com o retorno do suspenso Miguel Ángel Nadal, bem como pela recuperação de Rafael Alkorta e Fernando Hierro. As táticas defensivas do treinador espanhol e a campanha insossa da fase de grupos, porém, não davam a ele tanto moral.

Espanha 3×0 Suíça: Zubi e os contragolpes

A Suíça mudou por necessidade para aquele jogo. Principal válvula de escape do time, Alain Sutter estava lesionado e não jogou. Faria falta. Enquanto isso, Javier Clemente realizaria suas experimentações na Espanha. Utilizou Luis Enrique como homem mais adiantado, dando liberdade José Mari Bakero e Fernando Hierro pelo meio. Seria mais feliz com a estratégia. A Fúria conquistou uma ampla vitória por 3 a 0, embora o placar em Washington não dissesse tanto sobre os apuros que o time também passou.

Andoni Zubizarreta teve uma atuação fundamental. O goleiro salvou a pele da Espanha. Aos 11 minutos, Thomas Bickel recebeu na área e chutou forte, mas o veterano realizou uma defesa à queima-roupa. Apenas quatro minutos depois, a Roja abriria o placar em um contra-ataque. Hierro arrancou pelo meio e aproveitou o deslocamento de Luis Enrique para sair de frente ao gol, tocando na saída de Marco Pascolo. A partir de então, os espanhóis puderam abraçar sua estratégia, resguardados na defesa e buscando os avanços pelos lados. Mais ofensivos, os suíços esbarravam no paredão à sua frente.

Na volta ao segundo tempo, a Espanha chegou a carimbar a trave em um contra-ataque. Ainda assim, a Suíça poderia ter arrancado o empate. Stéphane Chapuisat e Adrian Knup também forçaram defesaças de Zubizarreta. A situação dos espanhóis só se tranquilizou aos 29, quando Sergi fez ótima jogada e passou para Luis Enrique concluir às redes. Jorge Otero chegou a perder duas chances claríssimas aos ibéricos, até que o terceiro tento nascesse graças a um pênalti. Aos 41, Txiki Begiristain converteu e confirmou a classificação da Roja.

A análise de Telê sobre a postura dos times na Copa

Em sua coluna na Folha, Telê Santana não economizou na crítica: “Quantos grandes talentos tivemos oportunidade de ver nesta Copa? Na minha opinião, apenas três: o romeno Hagi, o colombiano Valderrama e o argentino Redondo. E só. Isso considerando os brasileiros. É pouco. Maradona tinha tudo para ser o quarto. Essa carência de talentos se deve, a meu ver, a um lamentável nivelamento que ocorre no futebol mundial. Ninguém mais está pensando dentro do campo. Os times só querem jogar no contra-ataque, armando seus meios-campos com a função de destruir. É destruir primeiro para atacar depois. Ninguém marca por pressão no campo adversário. Viram o Brasil? Sofreu um gol e continuou com o meio-campo lá atrás”.

O olhar de Tostão

Comentarista na TV Bandeirantes naquela Copa, Tostão deu uma entrevista ao Jornal do Brasil, falando sobre as perspectivas da Seleção: “Eu ainda acredito que o Brasil tenha chances. Não vejo ninguém melhor do que o Brasil. Temos um time competitivo e lutador. E temos Romário. Outro ponto a favor são os nossos laterais, que estão entre os melhores da Copa. É impressionante como os outros são fracos. O futebol que se joga hoje em dia depende muito dos laterais. E a seleção brasileira depende deles pra tudo. […] Mais à frente, falta que Raí e Zinho acertem, uma vez que seja. É minha única esperança. O Romário se desloca, se mexe e a bola não chega nele. É incrível, mas por mais estranho que pareça, quem tem se destacado no meio é Dunga. Na partida contra Camarões, ele jogou tudo o que pode. Superou o máximo de suas limitações”.

“Dizer que a magia e o sonho acabaram no futebol é uma frase que se encaixa perfeitamente na dialética do Parreira, segundo a qual é preciso fazer um jogo feio para ganhar a Copa do Mundo. Ou seja, quer jogar bonito, vai perder. Isto é um absurdo, não tem qualquer cabimento. Ninguém vai querer que os jogadores fiquem fazendo embaixadas no meio de campo. Mas é possível mostrar um belo futebol que seja produtivo ao mesmo tempo. […] Zagallo e Parreira mantêm a filosofia de antes, pregam um futebol compacto, programado, científico, mais ao gosto dos europeus. Os dois têm pouca capacidade de mudança. Mas espero que Zagallo intervenha nesta seleção. Em 70, quando fui escalado, Zagallo aceitou a mudança devido às pressões da torcida e da imprensa. Por isso, acho que ele deve intervir agora na equipe”, complementou.

Enquanto isso, na seleção brasileira

A discussão para saber o que Carlos Alberto Parreira faria com o time continuava. Não havia muita clareza sobre a escalação da seleção. Durante um treino, o comandante usou Branco e Mazinho nos lugares de Zinho e Raí, adiantando Leonardo ao meio-campo. Era a primeira vez que o camisa 10 realmente aparecia na berlinda.

“Há três anos que faço assim: só dou time na véspera. Não vejo por que mudar agora. Analisem vocês o que aconteceu no treino. Jamais disse que não deslocaria este ou aquele jogador, para esta ou aquela posição. Tenho um excelente grupo. Posso escalar quem quiser, no lugar que quiser”, declarou Parreira, em entrevista coletiva.

Na Folha, Romário escrevia uma coluna falando sobre o estilo de jogo do Brasil: “Vocês podem pensar que mudei minha visão do futebol desde que me concentrei com a seleção. Não é verdade. O que ocorre é que um Mundial é muito mais importante que qualquer conceito futebolístico. Gostaria de jogar aberto e ofensivamente, com um ataque formado por três atacantes, mas sei que isto é inviável em um torneio como este. E mais: tenho que reconhecer que não me importaria em ganhar todos os jogos por 1 a 0, mas ganhando”.

O Baixinho também salientou suas motivações: “Tenho certeza de que este pode ser o Mundial do Brasil – e o meu. Entro em campo com a intenção de divertir-me, mas sei que ainda tenho que demonstrar às pessoas quem é o Romário, porque só me conhecem no Brasil, na Holanda e na Espanha. A partir de agora, gostaria que, quando as pessoas falassem de futebol, se referissem a Romário. Acho difícil que apareça outro Pelé. Passará muito tempo para que surja outro gênio como ele, mas sei que passarei à história devido aos meus gols”.

Mauro Silva, por sua vez, falava sobre os atritos naturais depois de tantas semanas de concentração: “Nossa responsabilidade é muito grande e essa pressão gera tensão. Com o passar do tempo, então, o relacionamento vai se desgastando mesmo e, entre nós, até aquela brincadeira ou comentário que você ouvia com naturalidade já passa a ser encarada de outra forma. O nível de tolerância não é o mesmo”.