Até 17 de julho, resgataremos aqui na Trivela os jogos, as histórias e os personagens da Copa do Mundo de 1994. Confira o diário de 14 de julho, com a preparação à decisão, baseado principalmente nos relatos da imprensa brasileira da época:

Parreira confirma a escalação

Carlos Alberto Parreira prometia repetir na final a escalação usada contra Holanda e Suécia. Depois da vitória na semifinal, a maior dúvida se concentrou em Mazinho, que não fez bom primeiro tempo e deu lugar do Raí no intervalo. O treinador explicava a mudança como uma mera escolha circunstancial: “Com Mazinho no primeiro tempo e Raí no segundo, o time manteve a pressão. O Raí é mais atacante que o Mazinho. Está acostumado a penetrar melhor na área adversária. Ele entrou contra a Suécia porque o Brasil estava dominando totalmente a partida. O Raí continuará sendo uma opção para o ataque. Mas nós vamos jogar diferente do que jogamos contra a Suécia. Não podemos jogar tão avançados”, explicou.

As dores de Márcio Santos

Antes da decisão da Copa do Mundo, cinco jogadores do Brasil recebiam cuidados especiais da equipe médica da CBF. Mas o único que estava em xeque antes da final era o zagueiro Márcio Santos, que sentia dores na virilha desde a vitória sobre os Estados Unidos. Não estava bem na má atuação contra a Holanda e também tinha suas limitações contra a Suécia, quando se destacou. O defensor afirmava que o entrave não o tiraria da decisão.

A hora é agora

Em reportagem à revista Placar, PVC escrevia sobre a idade dos jogadores brasileiros, indicando que a última chance de título a muitos poderia ser nos Estados Unidos. “Da nossa cabeça não sai o desejo de vitória. Nós sabemos o quanto dói uma derrota como a que sofremos para a Argentina, em 1990, e não pretendemos passar por isso de novo”, comentava Bebeto. Gilmar, o mais velho do elenco, era mais enfático: “A vontade de ganhar está muito acima de prêmios ou qualquer outra coisa. Só a palavra ‘tesão’ define o que os jogadores sentem”. Branco também tratava de destacar o peso da ocasião: “Gosto da responsabilidade e são esses jogos que temos de jogar com toda a seriedade”. Já Zetti mantinha a esperança de ir além: “Não são só os mais velhos que têm gana pela vitória. Pelo que vejo nos outros jogadores, não acho difícil que mesmo os veteranos participem de mais um Mundial”.

Solidariedade contra a fome

Diferentes jogadores brasileiros usaram uma fita verde no pulso direito durante a Copa do Mundo. Era um sinal da adesão à campanha contra a fome organizada pelo sociólogo Herbert de Souza, o Betinho. O prêmio em dinheiro recebido por quem era eleito como o melhor em campo acabava doado à iniciativa. Além disso, alguns jogadores prometiam também doar parcialmente o dinheiro recebido da CBF pela classificação à final. A vitória sobre a Suécia rendeu US$60 mil a cada atleta.

Parreira e a consciência do futebol moderno

À Folha, Parreira concedeu uma longa entrevista falando, entre outras coisas, sobre a maneira como lidava com as críticas: “As críticas nunca me abalaram, nunca me tocaram. Fui atacado por decisões táticas e técnicas, me chamaram de burro, num nível baixo. Sei que sou competente e não preciso provar. Não cheguei à seleção brasileira de para-quedas. Não é agora que vou baixar o nível para polemizar”.

“Essa é minha quinta Copa do Mundo, fui a duas Olimpíadas. Não vai ser uma socialite, um comediante ou cantores de rock que vão dizer o que devo fazer. Não são eles que vão mudar minha cabeça. Sempre gostei de enfrentar desafios, cresço nessas horas. Nunca me entreguei. Uma das minhas maiores qualidades é nunca me entregar. Sei enfrentar muito bem situações como essas”, complementou. “Tenho plena consciência de que muita gente não se entusiasma. O problema é que, na cabeça dos brasileiros. ainda há o sonho com o futebol que se praticavam 30 anos atrás. As pessoas não conseguem entender que não há mais craques que desequilibram partidas como antes”.

Ganhando ou perdendo a final, Parreira esperava deixar uma contribuição ao futebol brasileiro: “Espero mostrar a necessidade de se organizar uma equipe. Quando só nós tínhamos craques que desequilibravam, podíamos jogar desorganizados que acabávamos vencendo de qualquer jeito. Agora, não. Jogadores como Jorginho são ótimos, mas não temos nenhum fora de série. É preciso encarar a realidade e parar de sonhar”.

Taffarel prepara o mental

Ao jornal O Globo, Taffarel comentava como era sua preparação mental antes de encarar a decisão da Copa e uma eventual disputa por pênaltis: “As pressões que um goleiro sofre são enormes. Mas consigo relaxar totalmente. Só que isso requer uma preparação especial que começa com uma auto-análise, baseada sempre naquilo que eu acho e não no que outros dizem. Podem achar que falhei num determinado lance, mas sei que nada poderia fazer. Então, qualquer crítica sobre tal jogada não me abala”.

“Vocês vão ter que me engolir”

A clássica frase de Zagallo foi dita às câmeras em 1997, após a conquista da Copa América. Porém, seu desabafo em 1994, antes da decisão, indicou como aquele sentimento já estava internalizado no Velho Lobo: “Eu sei que tem muita gente que não gosta de mim. Mas vai ter que me engolir agora. Quem não quiser me engolir a seco, que me engula com Coca-Cola, com refrigerante. Ninguém no mundo chegou a quatro finais como eu cheguei. Eu fui a cinco Copas do Mundo. Ninguém fez isso. O que vão fazer os que me criticaram tanto? Agora só falta um jogo para sermos tetracampeões”.

Cruyff elogia a atuação do Brasil contra a Suécia

“Sem dúvida, a partida entre Brasil e Suécia foi, futebolisticamente, a mais bem jogada pela seleção brasileira nos campos dos Estados Unidos. Não foram os suecos que se fecharam em sua área. Foram os Canarinhos que os encurralaram, que fizeram esgotar em 90 minutos a força física de uma equipe perfeitamente organizada. O Brasil teve a indiscutível qualidade de dominar sempre, de controlar a partida durante todo o tempo, de impedir que os suecos colocassem o nariz além da sua metade do campo. E, o que é mais louvável, foi um domínio que criou perigo, que propiciou chances de gol. O fato de o Brasil ter marcado somente a dez minutos do final não foi mais do que uma anedota”, escreveu Cruyff, em sua coluna na Folha.

Os números

Os americanos preparavam um grande contingente de segurança para a final da Copa. Segundo reportagem da Placar, 700 policiais seriam deslocados à final, 300 a mais que a média dos jogos anteriores – e isso sem contar o efetivo da prefeitura de Pasadena. “Será muito mais difícil trabalhar aqui do que em qualquer decisão de futebol americano ou beisebol”, dizia Shakir Ahmad, um dos responsáveis. Outra expectativa alta envolvia a televisão local. Diretor de produção da ABC, Mark Mandel previa superar na audiência os 32 milhões de americanos que viram as oitavas de final entre EUA e Brasil.

O drama de Roberto Baggio

Substituído no segundo tempo contra a Bulgária, Roberto Baggio teve sua distensão no músculo da coxa confirmada pelos exames posteriores à semifinal. Segundo o médico da Itália, o camisa 10 tinha apenas 50% de chances de jogar a decisão. “Possivelmente, só vamos conseguir avaliar suas condições de jogo horas antes da partida”, declarou Andrea Ferretti. Arrigo Sacchi lamentava: “A contusão de Baggio é um pecado, pois ele recuperou todo o seu brilhantismo. Mesmo quando joga mal ele faz uma grande diferença em campo. Baggio está muito infeliz com a possibilidade de não participar da final”. Gianfranco Zola, Giuseppe Signori e Daniele Massaro eram os cotados para substituí-lo na equipe titular.

O dente quebrado de Baggio

Roberto Baggio teve outro problema antes do jogo contra o Brasil. Em uma disputa de bola, ele também quebrou um dente contra a Bulgária. “Nós italianos só comemos pasta ‘al dente’, e isso complica a minha vida”, brincou o camisa 10.

A ausência de Costacurta

Se Baggio ainda era um ponto de interrogação, a Itália sabia que não contaria com Alessandro Costacurta no miolo da zaga. O milanista se colocava entre os melhores defensores da Copa até então. Era o melhor passador de seu time, assim como sustentava a segunda melhor marca de desarmes. Suspenso pelo acúmulo de amarelos, o jogador acelerou o retorno de Franco Baresi, que passara por uma cirurgia no menisco durante a fase de grupos. “Daria todos os meus scudetti para poder jogar a final de domingo. É decepcionante disputar a Copa inteira e ficar de fora na decisão”, comentou Costacurta.

Donadoni e a ascensão italiana

Em entrevista a’O Globo, o meia Roberto Donadoni falou sobre a recuperação da Itália no Mundial: “Houve muito medo de voltar para casa mais cedo nesta Copa. A virada sobre a Nigéria foi na base da emoção. Esse é um outro grande aspecto do jogador italiano. Somos capazes de tirar forças de onde não mais se imagina existir. A Bulgária estava melhor fisicamente que nós, mas tínhamos uma grande motivação. Sabíamos que podíamos chegar. No início da Copa, estivemos à beira do abismo várias vezes, mas tivemos a sorte de escapar. Agora estamos aqui, prontos para tentar ganhar o tetra”.

Stoichkov praticamente descartado

Hristo Stoichkov era dúvida para aumentar sua contagem na artilharia da Copa durante a decisão do terceiro lugar. O atacante afirmou que só tinha 10% de chances de jogar contra a Suécia. Ele sofreu um estiramento muscular e deixou a partida contra a Itália no segundo tempo. Naquele momento, já estava empatado com Oleg Salenko no topo da lista de goleadores, ambos com seis tentos.