A campanha da Colômbia na Copa de 1994 é cercada de decepções. O futebol envolvente visto nas Eliminatórias não apareceu nos Estados Unidos e os outrora favoritos caíram ainda na primeira fase. Acima da frustração, aquela jornada é lembrada por suas trágicas consequências. E a derrota para o US Team guarda os piores pesadelos aos Cafeteros. As ameaças a Barrabás Gómez e o gol contra de Andrés Escobar se inserem em uma época amedrontadora da sociedade colombiana. Um desfecho que até hoje marca a história da seleção.

A partir desta semana, até 17 de julho, faremos um diário na Trivela sobre os jogos, os personagens e as histórias da Copa de 1994, 25 anos depois. Abaixo, os registros de 22 de junho, baseados nos jornais da época:

“Colômbia mostra que só técnica não ganha Copa”

Antes que a bola rolasse para Colômbia x Estados Unidos, no mesmo dia do jogo, Telê Santana escreveu em sua coluna na Folha de S. Paulo: “Copa do Mundo, tenho repetido, não é lugar para exibição. Muito menos para brincadeiras. Copa do Mundo é lugar para se jogar sério, para se vencer. Tecnicamente, os colombianos são bons. Principalmente seus homens de frente – Asprilla, Rincón e também o armador Valderrama têm grande técnica individual. Driblam, têm velocidade, jogam bonito com a bola nos pés. Mas técnica, apenas, não ganha Copa. É preciso um pouco de disciplina tática, de organização coletiva, de seriedade. A impressão que tenho é de que os colombianos estão aqui para se exibirem – quem sabe, se destacando nos Estados Unidos, não conseguem um contrato milionário em outro país, talvez da Europa? Não é nada bom um jogador viver a Copa do Mundo com o pensamento em possíveis contratos. O que eles têm é de se concentrar nos treinos, nos jogos, na competição”.

Lalas, um rock star

Texto da Folha em 22 de julho, assinado por Mário César Carvalho: “Quem vê o zagueiro americano Alexi Lalas em campo imagina logo que é um grunge de chuteiras. Tem cabelos compridos e o cavanhaque de cinco centímetros, ambos ruivos. Para completar o figurino grunge, toca guitarra e já gravou um disco. Ledo engano. Lalas disse à Folha que prefere o rock dos anos 60 e 70: ‘Não sou grunge, não gosto de música muito barulhenta. Gosto de boas melodias, de guitarras acústicas’. Seus grupos de rock prediletos são Rolling Stones, Led Zepellin, Kiss e David Bowie, safra anos 70. Lalas, um descendente de ciganos, gravou um disco há três meses. Como não encontrava gravadora, bancou sozinho o CD. Só uma das faixas faz referência a futebol, apesar do título dúbio: Kicking Balls”.

Os Estados Unidos se preparam

O empate contra a Suíça na estreia representou um alívio aos Estados Unidos. Estava claro que vergonha eles não iam passar naquele Mundial. Ainda assim, o US Team ambicionava a classificação e precisava encarar a Colômbia, equipe mais ofensiva do Grupo A. Era natural adotar uma postura mais resguardada. “Eles devem ficar com a bola 80% do jogo. Vamos nos defender com oito, com nove se for preciso, e sair no contra-ataque. Não temos alternativa”, apontou Tab Ramos, à Folha. Eric Wynalda, com uma reação alérgica, era dúvida e acabou indo para o campo. Outra arma importante foi Marcelo Balboa, que iniciava a armação das jogadas a partir da linha defensiva.

Entre a cautela e a arrogância

Diante da situação já preocupante da Colômbia, Francisco Maturana desejava corrigir os erros exibidos contra a Romênia. Para ele, era necessário atuar de maneira mais coletiva. “O individualismo foi um dos nossos maiores erros contra a Romênia, porque os jogadores achavam que iam ganhar de qualquer forma”, declarou, à Folha. O treinador chegou a barrar Adolfo “Tren” Valencia, autor do gol contra os romenos, por avaliar que o atacante do Bayern era “muito anárquico” às ordens. As atitudes do comandante, contudo, se distanciavam daquilo que falava Faustino Asprilla. Perguntado sobre o ferrolho que os Estados Unidos poderiam montar, ele foi categórico: “Pode pôr oito na defesa que nós vamos fazer gol de qualquer jeito”.

A ameaça de morte contra Barrabás

Gabriel Gómez foi um dos grandes volantes do futebol colombiano durante a virada dos anos 1980 para os 1990. “Barrabás” era nome frequente nas convocações da seleção e também defendeu importantes clubes do país, ligado especialmente ao Atlético Nacional, de sua Medellín natal. O camisa 6, porém, foi um dos mais criticados após a derrota para a Romênia. Não conseguiu conter Hagi e tomou um drible desconcertante antes do primeiro gol dos oponentes. Na véspera do Colômbia x Estados Unidos, Pacho Maturana recebeu uma mensagem: ou tirava o meio-campista do time, ou a família de Barrabás e a do próprio Maturana corriam riscos.

Diante da ameaça anônima o comandante não teve escolhas. O próprio presidente da federação colombiana pediu ao treinador que mudasse o time e se preservasse. Maturana ainda tentou resistir e pensou em abandonar o cargo, mas os outros componentes da comissão técnica o levaram a admitir a substituição. Hernán Gavíria atuou ao lado de Leonel Álvarez na cabeça de área. “Minha carreira terminou. Não é possível jogar com essa pressão”, declarou Barrabás, então com 35 anos, naquele mesmo dia. Dois anos antes, o volante já havia sofrido ameaças similares.

Estados Unidos 2×1 Colômbia: A infelicidade de Andrés Escobar

Obviamente, o episódio envolvendo Barrabás Gómez afetou o psicológico da Colômbia antes do duelo contra os Estados Unidos. A preocupação dos jogadores ia além do resultado em si. Pacho Maturana tentava reerguer seu time, também com a entrada do arisco Antony de Ávila na linha de frente. Não seria suficiente. O time continuou cometendo erros parecidos aos vistos na derrota contra a Romênia e viu os Estados Unidos apresentarem um futebol bem mais eficiente, buscando os contra-ataques. A derrota por 2 a 1, aliada ao outro resultado do Grupo A, praticamente eliminava os Cafeteros.

Cabe dizer que, depois de algumas chegadas dos Estados Unidos nos primeiros minutos, a Colômbia ainda foi valente. Controlou o jogo no campo de ataque e pressionou. Chegou a acertar uma bola na trave, em lance no qual Balboa ainda salvou em cima da linha, e ia parando nas defesas de Tony Meola. Rincón e De Ávila eram os que mais apareciam. Todavia, a desgraça dos Cafeteros se desenhou por volta dos 30 minutos, quando o US Team encaixava os contragolpes. Balboa cabeceou para fora e Wynalda acertou a trave. Já aos 33, veio o lance fatal. Em ataque rápido dos anfitriões, Thomas Dooley cruzou da esquerda e Andrés Escobar desviou, de carrinho. Óscar Córdoba, que tentava se antecipar ao lance no segundo pau, foi pego no contrapé. A bola entrou mansa, sem que ninguém pudesse evitar o gol contra do zagueiro. O erro que, embora não exista comprovação judicial, teria influência no assassinato do Cavalheiro do Futebol.

O gol se tornou um duro golpe à Colômbia, que não mais se recuperou naquela partida. Logo no início do segundo tempo, Lalas teve um gol mal anulado por impedimento. Não fez falta. Ernie Stewart ampliou logo depois, aos sete minutos. O lançamento pegou a defesa colombiana aberta e, diante da saída desesperada de Córdoba, o atacante não teve problemas para marcar. Restava aos Cafeteros juntarem os cacos. O time de Maturana mal chutava a gol. Pior, viu Balboa quase anotar um gol antológico de bicicleta, em arremate que raspou a trave. Os sul-americanos só voltaram a pressionar nos instantes finais, descontando aos 45. Rincón bateu e, no rebote de Meola, o substituto Tren Valencia mandou à meta vazia. As comemorações contidas diziam muito sobre a situação da equipe, que só teria chances de avançar aos mata-matas com uma combinação de resultados na rodada final. A cabeça dos jogadores, de qualquer forma, estava distante.

A Romênia já estava avisada por seu técnico

Após a vitória sobre a Colômbia na estreia, havia uma clara empolgação ao redor da Romênia. Gheorghe Popescu e Ioan Lupescu, que tinham se contundido na estreia, estavam recuperados para enfrentar a Suíça. Todavia, o técnico Anghel Iordanescu preferia manter a calma. Na véspera do jogo, disse estar preocupado com o excesso de confiança no elenco. Enquanto isso, a imprensa europeia especulava o interesse do Barcelona em Gheorghe Hagi.

A Suíça vinha mais forte

Roy Hodgson, por sua vez, garantiu o retorno de Adrian Knup à Suíça. O atacante do Stuttgart era um dos principais destaques do país na época, mas foi desfalque na estreia contra os Estados Unidos. Comporia uma formação mais ofensiva dos helvéticos, ao lado de Stéphane Chapuisat. Destaque no primeiro jogo, Alain Sutter também entraria em campo, mesmo depois de fraturar um dos seus dedos do pé. “A Romênia é muito sólida, com uma defesa difícil de furar. Teremos que fazer gols a qualquer preço, pois precisamos de pelo menos uma vitória nos dois jogos que restam”, analisava Chapuisat.

Suíça 4×1 Romênia: Desconstruindo a sensação

Roy Hodgson mantinha os preceitos do futebol inglês em sua Suíça. Escalava o time no tradicional 4-4-2. Aproveitou-se da capacidade defensiva e da qualidade nos contragolpes para subjugar a Romênia de forma como poucos esperavam: 4 a 1 dentro do Pontiac Silverdome. A sensação do Mundial não encontrou os mesmos espaços que facilitaram seu triunfo contra a Colômbia e sentiu o desgaste durante o segundo tempo, quando os helvéticos aplicaram a goleada. Gheorghe Hagi, se não brilhou, ao menos deixou seu gol.

Apenas três minutos depois de um gol discutivelmente anulado por impedimento, a Suíça abriu a contagem aos 16, em uma jogada inteligente. Após a recuperação e o cruzamento da direita, Chapuisat ajeitou a bola com o peito e conectou com Alain Sutter, soltando a bomba da entrada da área. A Romênia buscou o prejuízo aos 35. Hagi recebeu no meio-campo e encontrou um buraco entre as linhas de marcação. Teve espaço suficiente para chutar, em tirambaço no canto da meta de Marco Pascolo. Entretanto, o camisa 10 encontrava dificuldades para armar o jogo a partir de seus lançamentos, com os companheiros travados pela defesa helvética.

Logo na volta ao segundo tempo, a Suíça retomou a dianteira. Em um lance bastante brigado após cobrança de escanteio, Chapuisat fez o segundo aos sete minutos. O terceiro veio aos 20, em jogadaça de Ciriaco Sforza. O camisa 10 puxou o contragolpe com maestria, aplicando um drible da vaca no marcador antes de rolar para Knup escorar à meta aberta. E o próprio Knup fechou a contagem aos 27, desviando uma cobrança de falta da esquerda. Vale dizer que Pascolo teve trabalho, com duas defesas difíceis diante de Raducioiu. No entanto, a pressão suíça na marcação e a voracidade de seus ataques valeu o passeio. “Jogamos de maneira simples, sem invenções”, afirmou Roy Hodgson, na coletiva de imprensa.

Cruyff escreve sobre Maradona

Um dia após o Argentina 4×0 Grécia, Johan Cruyff dedicou algumas palavras sobre Diego Maradona em sua coluna na Folha de S. Paulo: “Eu dizia, antes de começar o Mundial, que Maradona andando pode fazer muito mais coisas que outros correndo. Dá na mesma se o marcarem individualmente ou se lhe fizerem falta nas primeiras cinco vezes em que tocar na bola, porque a qualquer momento ele pode ter a oportunidade de fazer um passe genial ou uma finalização fulminante que acabe em gol. Seria um erro pensar que Maradona será decisivo em todas as partidas, como aconteceu em 1986. Particularmente, acho que ele pode ajudar sua seleção em momentos determinados e de acordo com quem forem seus rivais. A obsessão por marcá-lo pode, inclusive, servir para fazer brilhar outros companheiros da equipe, como o goleador Batistuta. Quando deixam, qualquer um pode brilhar, e se esse qualquer um é Maradona, ainda que leve 34 anos às costas e um sem-fim de tratamentos para emagrecer, tudo é possível. Mas não posso mudar minha opinião de que também haverá momentos em que Diego pode se converter numa pesada carga para a equipe”.

Camarões e o bicho

Camarões, para variar, chegou à Copa de 1994 com problemas relacionados à premiação paga aos jogadores. O elenco reclamava que os US$180 mil prometidos pela classificação ao Mundial ainda não haviam sido depositados e o bicho nos Estados Unidos sequer estava fixado. Para pressionar a cartolagem, os atletas passaram a adotar uma postura questionável: primeiro a lei do silêncio, antes de aceitarem dar entrevistas mediante o pagamento de um cachê. Uma entrevista de cinco minutos com Roger Milla custava US$500 ao jornalista interessado. Os demais pediam US$300. Tinham o apoio do técnico Henri Michel. Os Leões Indomáveis chegaram até a ameaçar um boicote ao jogo contra o Brasil, o que não aconteceu.