Uma das cenas mais lembradas da Copa de 94 aconteceu em 25 de junho. E a bola já nem rolava mais em Foxborough, onde a Argentina acabara de vencer a Nigéria, assegurando sua classificação aos mata-matas com uma ótima atuação. Diego Maradona saiu de campo aplaudido, mas não estava sozinho. Dava as mãos para uma enfermeira, em imagem que se tornou bastante simbólica depois da confirmação de seu doping. Naquele momento, todavia, a Albiceleste seguia confiante e mantinha os 100% de aproveitamento. Era uma das únicas equipes a alcançar os seis pontos nas duas primeiras rodadas, ao lado do Brasil e da Bélgica. Na mesma data, os belgas triunfaram no movimentado clássico contra a Holanda. Michel Preud’Homme viveu uma tarde fantástica para garantir o resultado.

Até 17 de julho, resgataremos aqui na Trivela os jogos, as histórias e os personagens da Copa do Mundo de 1994, 25 anos depois. Confira o diário deste 25 de junho, baseado principalmente nos relatos da imprensa brasileira da época:

Um embate de possíveis líderes

O Argentina x Nigéria da segunda rodada ganhou peso depois da estreia de ambas as seleções. Enquanto a Albiceleste não tomou conhecimento da Grécia, afastando as desconfianças iniciais, as Super Águias se provaram como uma das candidatas a sensação do Mundial, atropelando a Bulgária e exibindo a vivacidade do seu ataque. Por isso mesmo, o jogo era visto já como uma definição do líder do Grupo D, no que seria um encontro inédito entre as seleções – e que se tornaria tão frequente nas Copas posteriores.

“Respeitamos muito a Argentina. Eles são bicampeões mundiais. Mas vamos partir para cima, como fizemos contra a Bulgária”, dizia o técnico Clemens Westerhof, que não economizava na confiança ao falar sobre a sua Nigéria. Enquanto isso, o questionamento sobre a Albiceleste era quanto à sua mentalidade. Jogar com um time extremamente ofensivo era compreensível contra os frágeis gregos, mas os nigerianos representavam um tipo de preocupação bastante diferente.

A imprensa ainda destacava a maneira como o ambiente na Albiceleste era favorável. As desavenças foram contidas. O maior sinal disso veio quando Maradona deu um beijo no rosto de Oscar Ruggeri, ao ser substituído e passar a braçadeira para o zagueiro durante o primeiro jogo. Os dois haviam se desentendido às vésperas do Mundial justamente por conta do posto de capitão – o defensor suplantara Diego durante sua suspensão por doping. Outro com bom clima era Fernando Redondo, que teve rusgas por sua postura individualista. “Foi reacolhido pelos companheiros e até participa das partidas de baralho em parceria com Simeone”, escrevia Sílvio Lancelotti, em sua reportagem para a Folha de S. Paulo.

Maradona responde à imprensa

Maradona, em especial, atraía os holofotes para si antes do segundo jogo. Apesar das dúvidas sobre o seu peso e a falta de ritmo, o camisa 10 liderou a equipe contra a Grécia e anotou um golaço. Ia à forra. “A imprensa do mundo todo tentou me matar moralmente. Mas eu estou feliz, porque meu pai me visita diariamente, e a minha mulher e minhas filhas não saem do meu lado”, apontou. Além do mais, Diego não se preocupava com as dores no joelho relatadas naquele início de Mundial: “Só os meninos sentem dores. Eu tenho quase 34 anos”. O técnico Alfio Basile complementava dizendo que via seu craque “treinando cada vez com mais disposição, um modelo de jogador e de homem”.

Um príncipe tribal na Copa do Mundo

A Nigéria encantou por sua força ofensiva na estreia, mas também apresentou um goleiro bastante seguro. Peter Rufai realizou grandes defesas contra a Bulgária. O capitão era apontado também como um ‘líder espiritual’, em reportagem da Folha. Ele comandava as preces e as palestras das Super Águias. “Penso no adversário como mais um obstáculo. É um jogo difícil para as duas equipes. Batistuta e Maradona? Confio na minha defesa. E confio, muito, em mim”. A postura do arqueiro tinha um pano de fundo, não mencionado pela nota do jornal naquele momento. Rufai era filho de um rei tribal na região de Idimu. O príncipe recusou a sucessão ao trono em fevereiro de 1998, após a morte de seu pai, para seguir a carreira nos gramados. Jogaria a sua segunda Copa do Mundo meses depois.

“Nunca quis ser rei. Se aceitasse, não poderia ser jogador. Eu sei que ia ter uma vida boa, porque eu sei como viviam os meus pais. Mas aquilo não era para mim. Não me fazia feliz. Eu queria era o futebol”, declarou ao Mais Futebol, em 2016. “Queria o gramado, queria a rua. Queria estar com os amigos, queria ensinar as crianças a jogar futebol. Isso era o que me dava alegria. Ser rei não me dava isso. Por isso abdiquei de tudo. Sabia que para jogar futebol tinha que abdicar de tudo. Há regras para o rei e eu tinha que obedecer, claro. Por isso, não foi difícil dizer não”. Após pendurar as luvas, Rufai criou um projeto de futebol para ajudar adolescentes nigerianos a ingressarem em equipes profissionais.

Argentina 2×1 Nigéria: Um favorito se firmava

A Argentina dava mais uma prova, esta irrefutável, de que chegou com força à Copa do Mundo de 1994. Em um jogo intenso e com muitas chances de gol, a Albiceleste derrotou a Nigéria por 2 a 1 e confirmou a classificação antecipada aos mata-matas. Alfio Basile não quis adotar uma postura mais resguardada contra as Super Águias. Repetiu a escalação da goleada contra a Grécia, com Fernando Redondo e Diego Simeone tomando conta do meio, Maradona fazendo a bola circular, Abel Balbo se aproximando do ataque, Claudio Caniggia dando apoio a Gabriel Batistuta na frente. Os nigerianos também vieram com apenas uma alteração em relação à vitória sobre a Bulgária, mas não encontraram os mesmos espaços e muitas vezes abusaram das faltas para brecar os argentinos.

A Nigéria tentou surpreender de cara. E fez os argentinos temerem pelo pior, com o gol aos oito minutos. Os sul-americanos abusaram dos botes errados e Rashidi Yekini foi abrindo caminho. Passou a Samson Siasia, que deu um corte seco no desesperado Simeone e encobriu o goleiro Luis Islas, já tentando abafar o chute na entrada da área. O mérito da Argentina foi não se desesperar, mesmo com um tento de Balbo discutivelmente anulado aos 13. Logo a Albiceleste tomou conta do meio-campo, com o talento de Redondo e a maestria de Maradona. A virada saiu antes dos 28 minutos, a partir das bolas paradas, mas também contando com a tarde inspirada de Caniggia.

O empate veio aos 21. Em uma cobrança de falta, Maradona rolou para o lado e Batistuta soltou a bomba, que Rufai não conseguiu segurar. Esperto, Caniggia aproveitou o descuido da marcação para escapar, chutando o rebote de primeira. Sete minutos depois, a Argentina desfrutou a virada. Em falta sobre Maradona na lateral, Caniggia percebeu a zaga desarrumada e pediu o passe rápido a Diego. O camisa 10 deu o presente ao amigo, que avançou na área e desferiu um lindo tapa no ângulo, longe do alcance de Rufai. Os argentinos atacavam com velocidade e expunham as fragilidades da defesa nigeriana.

Durante o segundo tempo, a Argentina pareceu mais propensa ao terceiro gol. Não concedeu muitas chances à Nigéria e se mantinha perigosa no ataque, desperdiçando suas oportunidades – boa parte delas criadas em passes de Maradona. Redondo, em especial, gastou a bola. Os avanços do meio-campista impulsionavam o time e ele poderia ter balançado as redes, forçando uma boa defesa de Rufai. Nada que tenha feito falta ao time de Alfio Basile, igualando os 100% de aproveitamento do Brasil – e com exibições até mais empolgantes que a Canarinho.

A volta de El Pájaro

Caniggia chegou à Copa do Mundo de 1994 bancado por Alfio Basile. O atacante recebeu uma suspensão por uso de cocaína e retornou ao futebol somente meses antes da competição, limitado a amistosos. Precisou recuperar sua forma física e, mesmo sem grande sequência, confirmou sua posição entre os titulares. Confiança recompensada contra a Nigéria. Segundo o colunista Matinas Suzuki Junior, à Folha, El Pájaro proporcionara a melhor atuação individual do torneio até aquele momento. “Caniggia correu, driblou, passou, deslocou-se, dividiu e ganhou todas, voltou para marcar. Sina de um homem marcado. Marcado para anotar dois gols memoráveis. Está jogando em estado de graça”.

O adeus de Maradona

Maradona não balançou as redes, como na goleada contra a Grécia, mas ainda assim foi um dos melhores em campo diante da Nigéria. Atuou de maneira mais solta, orquestrando o time um pouco mais recuado, mas avançando com a bola dominada e abrindo espaços com seus dribles. Distribuiu bolas aos companheiros e sofreu com a caçada dos marcadores nigerianos. “Maradona encontrou em algum lugar mágico uma energia surpreendente”, escreveu Matinas Suzuki. Naquele momento, Maradona chegava a 21 jogos em Mundiais e igualava o recorde de mais aparições no torneio, então dividido com Uwe Seeler e Wladyslaw Zmuda. Não poderia ampliá-lo, ultrapassado anos depois por Lothar Matthäus, Paolo Maldini e Miroslav Klose.

A partida contra os nigerianos, afinal, foi o último compromisso de Maradona na história das Copas. O camisa 10 acabou sorteado para o exame antidoping. Deixou o campo de mãos dadas com a enfermeira Sue Carpenter – em cena que geraria uma série de teorias conspiratórias. Dias depois, confirmou-se que o craque havia sido flagrado pelo uso de uma substância proibida, a efedrina. Seria impedido de participar do restante da competição – em episódio que detalharemos mais nos próximos diários.

Olhares a um clássico

Holanda e Bélgica fariam um duelo de velhos conhecidos em Orlando. E as prévias da partida apontavam para duas posturas bastante distintas entre as seleções, que decepcionaram pelas fracas atuações na estreia, apesar das vitórias. A Oranje deveria buscar mais o ataque, com o 3-4-3 utilizado por Dick Advocaat. Já o belga Paul van Himst confiava no 4-4-2, com solidez defensiva e velocidade nos contra-ataques. Luc Nilis seria sacado do time para a entrada de Philippe Albert, retornando de suspensão e encarregado de marcar Dennis Bergkamp. “Esta é uma partida muito especial para o povo holandês, porque será contra os nossos vizinhos”, dizia Bergkamp. Visão que Enzo Scifo complementava: “Será um grande encontro e daríamos nossas vidas para ganhar”. Aquela foi a primeira partida apitada por Renato Marsiglia, o único representante brasileiro na arbitragem da Copa de 1994.

Bélgica 1×0 Holanda: Um milagreiro chamado Preud’Homme

As previsões dos treinadores se cumpriram em Orlando. De fato, a Holanda jogou para frente e buscou o ataque. Autor do gol decisivo contra a Arábia Saudita, Gaston Taument entrou no lugar de Marc Overmars e deu novo ímpeto à ponta direita. Do outro lado, a Bélgica preferiu se resguardar e jogar nos erros do adversário. Mesmo sem Luc Nilis, o ataque formado por Marc Degryse e Josip Weber incomodou. O grande nome da partida, de qualquer maneira, estava sob as traves. Michel Preud’Homme já tinha pegado muito contra Marrocos e arrebentou no encontro com a Oranje. Foram sete defesas difíceis, vitais para o triunfo por 1 a 0, que manteve os 100% de aproveitamento de seu time e confirmou a classificação antecipada.

A Bélgica precisou de 40 segundos para criar sua primeira ocasião. Weber cabeceou e a bola triscou o travessão de Ed de Goey. A Holanda partia para cima, mas esbarrava em uma firme marcação dos Diabos Vermelhos. Na melhor chance do primeiro tempo, Preud’Homme salvou com a ponta dos dedos o chute cruzado de Frank Rijkaard. Além disso, o goleiro também pegou duas cobranças de falta manhosas de Ronald Koeman. Mesmo assim, os belgas levavam mais perigo, seja em chutes de longe ou contragolpes rápidos. De Goey trabalhava e salvou dois chutes com endereço de Georges Grün, além de parar Weber no mano a mano. Scifo ainda teria um gol anulado antes do intervalo, em impedimento bem marcado.

A Holanda cresceu no segundo tempo. Os espaços na defesa da Bélgica se tornaram mais frequentes, com a entrada de Rob Witschge e o recuo de Bergkamp à armação. O camisa 10 poderia ter marcado um belo gol nos primeiros minutos, mas Preud’Homme voou para mais uma defesaça. A Oranje ainda mandou para fora outros três bons lances, dois com Witschge e outro com Jan Wouters. A bola puniu. O gol da Bélgica saiu aos 20 minutos, em erro da marcação holandesa. Após cobrança de escanteio na esquerda, a casquinha no meio do caminho encontrou Albert livre na área. O defensor teve tempo de dominar e bater no canto. O chute ainda tocou a trave, sem que Wouters conseguisse afastar, mesmo colado ao segundo pau.

Diante da desvantagem, a Holanda se desencontrou e a Bélgica poderia ter matado o jogo antes. Mandou para fora dois bons contra-ataques, enquanto Renato Marsiglia errou ao não expulsar De Goey por um toque de mão fora da área, interrompendo um lance no qual Weber avançava sozinho. A beatificação de Preud’Homme aconteceu nos minutos finais, com a reação dos holandeses. Espalmou uma bomba de Ronald Koeman, antes de interceptar um cruzamento, que Bryan Roy não aproveitou. Já o grande milagre aconteceu aos 44. Overmars, que saíra do banco, soltou o canudo da entrada da área. A bola desviou na marcação, mas o goleiraço praticamente pairou no ar para desviar com a ponta dos dedos. O tiro ainda bateu no travessão, antes de ser neutralizado. O veterano de 35 anos se tornou herói em um dos melhores jogos da Copa até então.

Um jogo de vida ou morte

Diante das expectativas no Grupo F, o duelo entre Marrocos e Arábia Saudita representava bastante a ambos. Os dois times eram vistos como azarões na chave que também contava com Bélgica e Holanda, embora tenham dado um trabalho inesperado aos seus oponentes na estreia. De qualquer maneira, a vitória seria essencial à sobrevivência de qualquer um dos lados na primeira fase do Mundial. Havia a promessa de casa cheia no Giants Stadium. O confronto mobilizou a comunidade árabe de Nova York, composta na época por mais de 300 mil pessoas.

Arábia Saudita 2×1 Marrocos: Prontos para fazer história

A Arábia Saudita precisou lidar com um desfalque importante naquela tarde em Nova York. Craque e capitão do time, Majed Abdullah se lesionou no primeiro tempo contra a Holanda e não se recuperou para enfrentar os marroquinos. Seu substituto, porém, era um jovem que viraria lenda na seleção: Sami Al-Jaber. Enquanto isso, Marrocos barrou Mustapha Hadji para a entrada de Ahmed Bahja, que saiu bem do banco na estreia contra a Bélgica. O futebol da seleção saudita se mostrou mais eficiente, rendendo a valiosa vitória por 2 a 1.

Os substitutos fizeram a diferença. A Arábia Saudita abriu o placar aos sete minutos. Al-Jaber sofreu um pênalti e ele mesmo converteu. Marrocos passou a pressionar bastante, forçando as defesas do goleiro Mohamed Al-Deayea. Aos 26, os Leões do Atlas chegaram ao empate, graças a uma jogadaça de Bahja. O camisa 13 fez fila pelo lado esquerdo, driblando seus marcadores, e deu o passe na linha de fundo. Sozinho na pequena área, Mohammed Chaouch nem tinha como perder. Na sequência, os marroquinos seguiam mais perigosos.

A vitória saudita, todavia, seria determinada antes do intervalo. E por um erro terrível do goleiro Khalil Azmi. Fuad Anwar Amin roubou a bola na intermediária, avançou com o campo livre e arriscou de longe. A pelota pegou efeito, mas foi em direção ao centro da meta. O camisa 1 marroquino, contudo, calculou mal seu posicionamento e aceitou o frango. Durante o segundo tempo, a Arábia Saudita conseguiu se segurar na defesa. As principais tentativas de Marrocos se concentravam em bolas alçadas na área e chutes de longe, mas sem tantas ameaças claras. Al-Deayea não precisou fazer novas defesas difíceis. Em compensação, o empate ficou a um triz, em míssil de Rachid Daoudi que estalou o travessão.

Enquanto isso, na seleção brasileira…

Carlos Alberto Parreira, com a classificação nas mãos, pensava em poupar jogadores para o duelo contra a Suécia. Além disso, havia uma esperança de que Ricardo Rocha ainda pudesse se recuperar a tempo. “Ele é nossa maior preocupação. Vamos observar a reação dele no final de semana para saber se poderá jogar na terça-feira. Só entrará em campo se garantir que não sente mais nenhuma dor”, falava o médico Lídio Toledo.

Romário, em entrevista à Folha, projetava a importância do torneio à sua carreira: “Sempre tivemos grandes jogadores no Brasil – Zico, Falcão, Sócrates. Mas nunca vão ser incluídos na elite mundial dos grandes craques. Nunca serão considerados fenômenos do futebol. Sabe por quê? Porque não ganharam uma Copa do Mundo. Tinham categoria, sabiam tudo de bola, mas não ganharam a Copa. Quem são os que ficaram? Pelé, Maradona e Beckenbauer. São considerados fenômenos porque ganharam a Copa. Comigo pode acontecer igual. Ou vou ser um grande jogador que, perdendo a Copa, será esquecido ou sairei daqui campeão e virarei um fenômeno”. O atacante acreditava que aquela seria sua última Copa. Segundo suas palavras, planejava a aposentadoria dentro de três anos, para realizar trabalhos com crianças carentes.

Dunga, por sua vez, mantinha os pés no chão após a ótima atuação contra Camarões. Tratado como um pária após a eliminação na Copa de 90, o volante também não se empolgava com as exaltações pelo ótimo nível apresentado no início da campanha em 94. “É normal receber elogios. Não vai ser agora que vou me impressionar com o que falam de mim. Estou fazendo apenas o que sempre fiz. Nem mais, nem menos. Quem me conhece não está surpreso. Sabe do que sou capaz”, declarou o gaúcho, ao Jornal do Brasil.