Em 1° de julho de 1994, a Copa do Mundo ganhou um “dia de folga”. Ao término da fase de grupos, houve a pausa de um dia até que os mata-matas começassem. No Brasil, o assunto principal era a entrada em vigor do Plano Real justamente naquela data. Ainda assim, o Mundial ocupava parte considerável das páginas dos jornais, entre os balanços da primeira fase, as expectativas sobre o Brasil x Estados Unidos, as escolhas de Parreira e o caso de doping com Maradona.

Até 17 de julho, resgataremos aqui na Trivela os jogos, as histórias e os personagens da Copa do Mundo de 1994. Confira o diário deste 1° de julho, baseado principalmente nos relatos da imprensa brasileira da época:

Sucesso de público

A fase de grupos da Copa de 1994 terminou como um enorme sucesso de público. A média nos estádios chegou a 67,2 mil, a maior da história dos Mundiais, impulsionada pelos estádios gigantescos utilizados pela organização americana. Ao todo, mais de dois milhões de pessoas se dirigiram às arquibancadas na primeira etapa do torneio. Além disso, a TV americana apresentava audiências expressivas, impulsionadas pela campanha digna do país na competição.

Opinião de Cruyff sobre a fase de grupos

Em sua coluna na Folha de S. Paulo, Johan Cruyff fez um balanço sobre a fase de grupos do Mundial, pautada nas duas principais seleções até então: “A primeira fase da Copa foi, na minha opinião, decepcionante em todos os níveis. Poucas seleções mantiveram um nível aceitável de jogo. Praticamente não houve jogadores que chamaram a atenção no aspecto positivo e, se observarmos a qualidade futebolística, esta Copa tem um nível mais baixo que a da Itália, em 90. […] Por enquanto, só duas equipes exibiram um futebol desenhado para ganhar, mas ambas têm uma série de dúvidas e interrogações que podem fazê-las perder o passo antes da final: Brasil e Argentina”.

“O Brasil é talvez a seleção com os ingredientes necessários para fabricar um futebol de qualidade. Seus jogadores são técnicos, a maioria deles atua no futebol europeu – e isso é uma vantagem para aumentar a competitividade – e a concepção da equipe está baseada no movimento da bola. É justamente aí que surge a maior dúvida, sobre a capacidade de definição do Brasil. Explico: o Brasil passou por uma fase de classificação duríssima. Percebeu que só poderia chegar ao seu nível mais alto se contasse com um jogador, Romário, capaz de traduzir em gol todo o jogo coletivo. E agora, já no Mundial, este ponto débil se mantém. Essa aposta é boa, mas arriscada. O que pode acontecer se, de repente, a magia de Romário desaparecer? É por isso que não posso acreditar de olhos fechados nessa seleção, apesar de gostar de seu futebol”.

“A Argentina é o outro ponto alto do torneio. Entrou na Copa pela porta de trás e não precisou de mais de 180 minutos para mostrar a todo o mundo que está apta a ganhar o Mundial. Isso não quer dizer que seu futebol me apaixone. Diria que estou distante da concepção de jogo argentina, ainda que seus argumentos em campo sejam firmes o suficiente para que os argentinos fiquem satisfeitos e otimistas quanto ao futuro. Mas a Argentina arrancou firme com Maradona e, naturalmente, depois do escândalo de doping, pode ver atingido seu rendimento coletivo. Não sou da opinião de que Maradona tenha sido determinante para sua campanha, mas acho que sua presença no campo foi importante para os rivais, que se preocuparam com Diego, e para seus companheiros, que se sentiram respaldados”.

Telê analisa primeira fase do Brasil

Também na Folha, Telê Santana escreveu sobre o desempenho da Seleção ao término da fase de grupos: “Não podemos continuar dependendo de Romário. O Brasil, ao que parece, joga sob ordens rígidas de seu técnico. Adota um sistema que não dá ao jogador muita liberdade para criar. Nesse ponto, Romário é o desobediente. Faz o que acha que deve fazer e marca os gols. O meio-campo também não esteve bem. Contra a Suécia, atuou pior do que nos dois primeiros jogos. Todos sabemos que Raí e Zinho jogam muito mais do que jogaram em Detroit. A impressão é que, quando encontrarmos pela frente um adversário realmente forte (se encontrarmos), vamos ter sérias dificuldades. Está faltando criatividade a esta seleção”.

Beckenbauer não poupa críticas à Alemanha

Treinador da Alemanha no tricampeonato mundial em 1990, Franz Beckenbauer fez uma análise dura sobre o desempenho do Nationalelf nos Estados Unidos: “Não tenho agora a sensação de ver em campo a equipe que formei. Quando vejo este time jogando, me pergunto: onde estão aqueles jogadores que foram campeões há quatro anos? Os jogadores só mostraram de 60% a 70% do esforço que podem produzir. Isso é inadmissível. Exijo que o time tenha mais sensibilidade e concentração, porque a Copa entra agora em sua fase mais séria”.

Maradona se sente abandonado pela AFA

Diego Maradona iria seguir nos Estados Unidos, acompanhando a seleção da Argentina, mesmo depois da suspensão por doping. Os próprios companheiros teriam pedido a permanência. O craque prometeu enviar uma carta à Fifa, contando sua versão dos fatos. Empresário de Diego, Marcos Franchi criticou a AFA pela maneira como lidou com o caso. Acusou Julio Grondona de não consultar o jogador sobre a decisão de afastá-lo do time, avisando o camisa 10 apenas minutos antes do anúncio oficial. Não houve diálogo, segundo o agente. Ao que o presidente da AFA se defendeu: “Essa era a única decisão a se tomar. Que queriam? Que eu deixasse a Fifa e o mundo castigarem Maradona? Vocês têm que ser menos passionais e entender de uma vez por todas que um fato grave aconteceu aqui e não podemos fingir que está tudo bem”. Maradona faria sua defesa por conta própria, sem o apoio da federação.

Aposentados

Capitão da Coreia do Sul, o goleiro Cho In-young se aposentou da seleção ao término do torneio. Falhou durante a campanha, perdeu a posição durante a partida contra a Alemanha e indicou um sentimento de culpa. “Eu me sinto acabado como jogador de seleção. Por dez anos defendi minha pátria, não sou mais digno de representar a sua bandeira no esporte”, declarou. Ainda atuou pelo Ulsan Hyundai por dois anos, conquistando a K-League com o clube. Já o zagueiro Rune Bratseth, capitão da Noruega, encerrou a carreira aos 33 anos. Tinha problemas no joelho e disputou apenas uma partida na temporada 1994/95 pelo Werder Bremen. Logo depois, se tornou diretor esportivo do Rosenborg.

Bora Milutinovic aguarda o Brasil

Antes do confronto com a Seleção, o técnico Bora Milutinovic falou sobre a mentalidade que a seleção americana deveria exibir em campo: “O mais importante agora é ganhar. É uma missão difícil, mas nada impossível. Não temos nada a perder, só a ganhar. Temos que aproveitar essa situação. Me dá alegria ver jogadores como Lalas e Harkes, que não têm experiência nenhuma, jogando com muita personalidade, como se fossem experientes. Mas, contra o Brasil, devemos nos preocupar com tudo. Seremos reconhecidos como uma equipe que obrigou os melhores jogadores do mundo a darem o máximo de si”.

Enquanto isso, na seleção brasileira…

Zinho teve uma conversa franca com Carlos Alberto Parreira antes do jogo contra os Estados Unidos, manifestando suas insatisfações com a forma de jogo. “Eu disse: ‘Professor, eu estou me sentindo preso ali no esquema. Eu percebo que não estou bem, mas posso jogar mais’. Eu caio para o meio ou para a direita e, na hora que eu perder a bola, vou ter que voltar imediatamente para a esquerda. Aí fica difícil criar. Na direita, tem o Jorginho, o Raí e o Bebeto. Na esquerda, fica eu e o Leonardo. O Romário não cai muito por aquele setor”, contou o meio-campista, à Folha. Segundo o jornal, o papo foi importante para que o meia se mantivesse no time.

Parreira, enquanto isso, reafirmava que os jogadores eram livres para criar em seu time, apesar das incumbências defensivas. “Talvez se algum jogador tentasse jogada individual, o time jogaria mais para frente. Todos têm liberdade para isso. Não proíbo ninguém de usar seu talento. Se o time prefere trocar passes, sem querer forçar uma entrada em lance individual, não é culpa do técnico. Eu até gostaria que muitos fizessem isso quando o Brasil estivesse com a bola. O que não admito é o jogador não voltar para compor o esquema defensivo. Isso não pode. No entanto, com a bola dominada, liberdade total para eles”, assinalou, em entrevista ao Jornal do Brasil. “Só para defender exijo que o jogador ocupe um espaço definido. Cada um tem sua função no esquema de marcação. Na hora de atacar, isso acaba. Com a bola dominada, o time deve criar o máximo de opções que achar melhor. Não corto a criatividade de ninguém. Quem tiver talento pode se exibir à vontade, o futebol brasileiro tem que ser assim”.

Naquele momento, parecia claro que Mazinho seria novidade no time contra os Estados Unidos. Porém, a imprensa apontava que Mauro Silva deveria perder a posição, mesmo depois de fazer bons jogos na fase de grupos. Também especulava-se a utilização de Leonardo no meio, com Branco entrando na lateral esquerda, ou mesmo a participação de Cafu no meio, aproveitando a polivalência vista nos tempos de São Paulo.

Parreira se recusava a falar sobre quem sairia, mas elogiava Mazinho: “Mazinho se enquadra no perfil de jogador para essa função, de tocar a bola contra um adversário defensivo. É esse toque que o deixa mais próximo do time titular. Mauro Silva só é ótimo quando joga atrás, defensivamente”. Algo que o volante discordava: “No Deportivo tenho plena liberdade, marco, mas posso ir à frente criar. Aqui é diferente. Mas, por favor, não me peça para dizer como eu gostaria de jogar. É uma questão de ética. Não tenho que querer, tenho que cumprir o que o treinador determina”.

Já Zagallo se irritava com as perguntas dos jornalistas, questionando as decisões da comissão técnica e o rendimento baixo de alguns jogadores: “O que me irrita é que nós vamos ser tetracampeões mundiais e temos que ficar ouvindo determinadas besteiras. Povo brasileiro, confie em nós! Estamos no caminho e vamos decidir esta Copa no dia 17 de julho, em Los Angeles, contra a Alemanha”.